O cérebro na caixa de autoatendimento

“The real problem is not whether machines think but whether men do.”
B. F. Skinner, Contingencies of Reinforcement (1969).

Há qualquer coisa de profundamente cómico na forma como a humanidade se convenceu de que está prestes a ser substituída por máquinas ao mesmo tempo que continua incapaz de fazer funcionar uma impressora à primeira tentativa. O debate contemporâneo sobre a inteligência artificial transformou-se numa espécie de religião secular onde profetas tecnológicos anunciam o paraíso da eficiência absoluta, investidores financiam milagres digitais e multidões deslumbradas aguardam a segunda vinda da produtividade, enquanto o cidadão comum continua a perder meia hora para recuperar uma palavra-passe esquecida.

A imagem que emerge da discussão pública é frequentemente caricatural, pois de um lado, entusiastas que acreditam que algoritmos resolverão problemas que a humanidade não conseguiu resolver em milhares de anos; do outro, apocalípticos convencidos de que um chatbot é apenas a fase preparatória para uma rebelião de máquinas digna de uma produção cinematográfica de baixo orçamento. Nenhum dos lados parece particularmente interessado na realidade. Como observou o filósofo Michael Sandel em “The Tyranny of Merit” (2020), as sociedades modernas desenvolveram uma perigosa tendência para confundir competência técnica com sabedoria moral.

A inteligência artificial pode gerar textos, imagens e previsões estatísticas impressionantes, mas continua incapaz de substituir algo mais raro do que qualquer processador avançado que é o julgamento humano. O cérebro humano permanece, para utilizar a expressão de António Damásio em “O Erro de Descartes” (1994), uma máquina biológica inseparável das emoções, da experiência e da consciência. Os defensores do determinismo tecnológico gostam de falar do cérebro como se fosse apenas um computador orgânico antiquado, uma espécie de máquina a vapor cognitiva prestes a ser enviada para um museu.

O problema é que os computadores não criaram Shakespeare, não compuseram Mozart, não escreveram José Saramago nem formularam a teoria da relatividade. O cérebro não é apenas um mecanismo de processamento; é também um gerador de significado. E significado continua a ser uma matéria-prima escassa numa era inundada por informação. A ironia torna-se ainda mais evidente quando observamos os supermercados modernos, autênticos templos da automatização onde caixas automáticas substituem trabalhadores sob a promessa de eficiência superior.

O consumidor transforma-se simultaneamente em cliente e empregado não remunerado. Transporta os produtos, regista os códigos, resolve erros do sistema e ainda agradece pela experiência inovadora. O que antes era trabalho pago passou a constituir um privilégio gratuito oferecido ao comprador. David Graeber, em “Bullshit Jobs” (2018), teria provavelmente apreciado esta evolução extraordinária do capitalismo contemporâneo, onde a inovação consiste frequentemente em convencer as pessoas a desempenhar gratuitamente funções anteriormente remuneradas.

O discurso empresarial apresenta estas mudanças como inevitáveis, quase naturais, como se estivessem inscritas nas leis da física. No entanto, como recorda Mariana Mazzucato em “The Entrepreneurial State” (2013), a maioria das grandes inovações tecnológicas resultou de investimentos públicos de longo prazo. O mercado gosta muito de reivindicar os lucros da inovação, mas demonstra uma memória selectiva quanto à origem dos seus financiamentos. Enquanto isso, as discussões sobre imigração, trabalho e tecnologia prosseguem envoltas numa nuvem de simplificações que faria corar qualquer académico sério.

A retórica política contemporânea parece ter sido concebida para impedir a reflexão. Tudo é reduzido a slogans, hashtags e indignações instantâneas. O imigrante converte-se num símbolo, o trabalhador numa estatística e o cidadão num consumidor de narrativas pré-fabricadas. Hannah Arendt advertiu em “The Origins of Totalitarianism” (1951) para os riscos de sociedades que substituem o pensamento pela repetição mecânica de fórmulas ideológicas. Setenta e cinco anos depois, a advertência parece assustadoramente actual.

As redes sociais amplificaram a velocidade da comunicação sem melhorar a qualidade do raciocínio. Produzem opiniões em massa com a eficiência de uma linha de montagem industrial. Nunca foi tão fácil falar; raramente foi tão difícil pensar.

O paradoxo da inteligência artificial reside precisamente aqui. Quanto mais sofisticadas se tornam as máquinas, mais valioso se torna aquilo que as distingue dos seres humanos. Criatividade, empatia, discernimento ético, imaginação e capacidade de interpretar contextos complexos não diminuem de importância; aumentam. Klaus Schwab, em “The Fourth Industrial Revolution” (2016), argumentou que a fronteira decisiva do futuro não será tecnológica, mas humana.

O verdadeiro desafio não consiste em construir máquinas mais inteligentes; consiste em formar cidadãos mais inteligentes numa época dominada por sistemas automatizados. Contudo, essa tarefa revela-se menos lucrativa do que lançar aplicações com nomes futuristas e apresentações repletas de gráficos coloridos. A educação continua a ser tratada como uma despesa quando deveria ser encarada como investimento estratégico. A consequência está diante dos nossos olhos com sociedades tecnologicamente avançadas e intelectualmente frágeis. A obsessão contemporânea pela inovação criou uma curiosa inversão de valores.

Pergunta-se incessantemente o que a tecnologia pode fazer, raramente o que deveria fazer. A diferença entre capacidade e legitimidade desaparece sob camadas de marketing corporativo. Byung-Chul Han, em “A Sociedade do Cansaço” (2010), descreve uma civilização exausta pela pressão constante para optimizar tudo como o trabalho, o lazer, as relações pessoais e até o descanso. O resultado é uma população permanentemente ocupada e crescentemente vazia. A inteligência artificial surge então como a promessa de libertação definitiva, embora frequentemente se limite a acelerar processos que já eram absurdos.

Automatizam-se burocracias em vez de eliminar burocracias. Digitalizam-se formulários inúteis. Multiplicam-se plataformas para gerir problemas criados por outras plataformas. A modernidade tecnológica assemelha-se por vezes a uma pessoa que compra uma máquina caríssima para organizar uma garagem onde guarda objectos de que não necessita.

O fascínio pela eficiência tornou-se tão intenso que esquecemos uma pergunta elementar que é a de saber para quê? John Maynard Keynes imaginou, no ensaio “Economic Possibilities for our Grandchildren” (1930), uma sociedade onde o progresso tecnológico reduziria drasticamente o tempo de trabalho. Quase um século depois, a tecnologia multiplicou a produtividade, mas o lazer prometido continua misteriosamente ausente. Trabalha-se através do computador, do telemóvel e das plataformas digitais.

O escritório acompanha o trabalhador para casa. O tempo livre converte-se em extensão informal do tempo laboral. A prometida libertação transformou-se numa ligação permanente. Eis uma das maiores ironias do nosso tempo de que máquinas criadas para poupar esforço humano coexistem com níveis históricos de ansiedade, exaustão e burnout. Talvez o problema nunca tenha sido tecnológico. Talvez tenha sido político, económico e cultural. A inteligência artificial não é um destino inevitável. É uma ferramenta. E ferramentas reflectem as intenções de quem as utiliza. Como observou Yuval Noah Harari em “Homo Deus” (2015), a questão decisiva não será o que os computadores conseguem fazer, mas quem controla os dados, os algoritmos e as decisões que moldam a sociedade.

Enquanto multidões discutem se as máquinas substituirão as pessoas, um grupo consideravelmente menor decide quem programará essas máquinas e com que objectivos. Essa é a conversa que muitos preferem evitar. É menos espectacular do que imaginar robôs conscientes, mas muito mais relevante. No final, a maior ameaça ao cérebro humano talvez não seja a inteligência artificial. Talvez seja a preguiça intelectual alimentada pela ilusão de que alguém, ou algo, pensará por nós. O perigo não reside na existência de algoritmos poderosos, mas na tentação de abdicar do esforço de compreender o mundo.

Uma sociedade que delega o pensamento corre o risco de perder precisamente aquilo que a tornou capaz de criar ciência, arte, filosofia e progresso. O cérebro humano continua a ser o recurso mais valioso da economia contemporânea não porque processa informação mais rapidamente do que uma máquina, mas porque atribui significado ao que processa.

E enquanto existir essa capacidade de questionar, duvidar, imaginar e desafiar consensos convenientes, continuará a haver espaço para esperança num mundo cada vez mais fascinado por ecrãs que calculam tudo, excepto aquilo que realmente importa.

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