Macau Visto de Hong Kong VozesGolpe de sorte: um teste à confiança no próximo (I) David Chan - 27 Out 2026 Quem viu o filme Lee Rock (五億探長雷洛傳) provavelmente recorda as bancas de venda de lotaria (字花檔) ao longo das ruas. Estas imagens não eram ficção cinematográfica, mas sim um verdadeiro reflexo da sociedade de Hong Kong nas décadas de 1960 e 70. A lotaria (字花) era controlada pelas tríades. Uma aposta de um cêntimo tinha odds de 30 para 1. Quem apostava tinha de escolher um nome entre 36. O corretor de apostas escrevia o nome antecipadamente em bilhetes de bambu, enrolava-os, selava-os e pendurava-os à vista de todos. Os jornais publicavam diariamente um poema de quatro versos, deixando a interpretação aos jogadores. Nas casas de chá, as pessoas embrenhavam-se na decifração dos poemas, formando a cultura única do jogo de rua de Hong Kong. Algumas casas de apostas sem escrúpulos escolhiam deliberadamente os sorteios de menor valor ou trocavam secretamente as peças vencedoras, com todos os ganhos a acabarem nos bolsos das tríades. Para combater o negócio das tríades, o Governo de Hong Kong criou um mecanismo legal e justo para substituir o jogo ilegal clandestino. Em 1965, o Conselho Legislativo criou o Fundo da Lotaria (獎券基金); em 1975, foi criada a Autoridade da Lotaria (獎券管理局), entregando ao Hong Kong Jockey Club (香港賽馬會) o lançamento das “Apostas Múltiplas”. (多重彩) A 13 de Julho de 1976, os participantes podiam escolher seis números entre trinta e seis, mais um número especial, chamado “Mark Six” (六合彩), com o primeiro sorteio ao vivo transmitido pela RTV (麗的電視). A quantidade de números foi várias vezes ajustada e, a partir de 2002, foi fixada em 49. Mais tarde, surgiu a lotaria gerada por computador (電腦票), as apostas múltiplas (流動應用程式投注) e as apostas através de aplicações móveis (金多寶), criando jackpots superiores a 100 milhões de dólares de Hong Kong (HKD), mas as regras básicas mantiveram-se inalteradas: 40 por cento do montante total apostado ia para o Fundo da Lotaria (獎券基金) e para o imposto sobre apostas. Os vencedores eram bafejados pela sorte e os que não ganhavam contribuíam indirectamente para a caridade. O design de um sistema onde o jogo e o bem-estar público coexistem sempre testou a natureza humana: as pessoas participam por dinheiro ou pelo bem dos outros? Nos locais de trabalho em Hong Kong, as apostas tornaram-se um ritual colectivo. Sempre que a lotaria do Jackpot acumula dezenas de milhões de dólares, por exemplo, este ano, quando a lotaria do 50.º aniversário do Jackpot atingiu um máximo recorde de 228 milhões, alguém costuma sugerir: “Que tal juntarmos o dinheiro e apostarmos 100 HKD desta vez?” Estes 100 HKD compram mais do que um bilhete de lotaria; representam uma aspiração partilhada. Pagamentos em grupo, entradas em folhas de cálculo e verificação de números via software —a tensão partilhada ao ponto de suster a respiração nas horas que antecedem o sorteio, mesmo com uma probabilidade de vitória de apenas de um para catorze milhões, faz com que tudo valha a pena. As amizades são construídas durante este tempo de espera; estas amizades também enfrentam provações depois da vitória. No passado mês de Setembro, a sociedade de Hong Kong assistiu a um desentendimento devido à falta de camaradagem. Este caso envolveu funcionários do Departamento de Higiene Alimentar e Ambiental (食環署) que se tinham juntado para comprar bilhetes da lotaria. Quinze funcionários do Mercado Revitalizador (活化街市組) compraram os bilhetes em conjunto com o inspector sanitário Ling (凌), um homem de 36 anos, que adquiriu os bilhetes em seu nome. Ganharam metade do jackpot, aproximadamente 31 milhões de HKD. Depois de ganhar, Ling (凌) exigiu 10 milhões de HK$ como “comissão”, alegando que a escolha dos números era o mais importante. Não houve entendimento entre eles e o inspector pediu uma licença no trabalho e desapareceu. Os colegas, receando que o prémio fosse desviado, denunciaram-no à polícia a 9 de Setembro. Dois dias depois, a polícia prendeu-o sob suspeita de roubo e congelou-lhe as contas bancárias. O que deveria ter sido uma ocasião alegre escalou para um processo criminal. A raiz do problema não está nas disposições legais, mas na falta de confiança entre as pessoas. Se o inspector tivesse percebido que estes 31 milhões de HKD eram uma oportunidade conquistada através da confiança no próximo, teria mesmo assim ultrapassado o seu egoísmo no momento da vitória? Este caso mostra claramente que o dinheiro ganho ao jogo através de um golpe de sorte, sem camaradagem, pode tornar-se uma arma. Por isso, a próxima história merece uma análise mais detalhada. Envolve quantias menores, mas demonstra que a amizade vale mais do que o dinheiro. Na próxima semana continuaremos a debater o “Mark Six” (六合彩). Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo