Grande Plano ManchetePortuguês | Directora do IPOR defende “estratégia concertada” para a Ásia Andreia Sofia Silva - 26 Out 2026 Patrícia Quaresma, directora do Instituto Português do Oriente, defende “uma estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. A ideia foi partilhada na conferência “China Sessions”, no Centro Científico e Cultural de Macau, que analisou a “Geopolítica da Língua Portuguesa a Oriente” A directora do IPOR – Instituto Português do Oriente – considera que há pontos a mudar na forma como a língua portuguesa se posiciona na Ásia em conjugação com outros idiomas. Ao falar na conferência “China Sessions – Geopolítica da Língua Portuguesa no Oriente: Desafios e Oportunidades para Portugal e para a CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, acolhida pelo Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) na última quinta-feira, Patrícia Quaresma defendeu a criação de uma “estratégia concertada para a língua portuguesa na Ásia”. Essa estratégia deve envolver, na sua óptica, “Portugal, os Estados-membros da CPLP, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e Macau, aproveitando as estruturas já existentes, em vez de criar novas”. “Portugal, os restantes Estados-membros da CPLP, o IILP, as universidades, Macau e as próprias empresas actuam, muitas vezes, em paralelo. Uma estratégia comum para a língua portuguesa na Ásia ganharia escala e visibilidade se estas vontades fossem coordenadas”, justificou. Em relação a Macau, a responsável entende que o território deve posicionar-se de uma forma diferente. Patrícia Quaresma referiu a necessidade de “reconhecimento de Macau como centro regional de formação de professores de português como língua estrangeira”, mas não só. A RAEM deveria também ser o lugar preferencial para a “produção de recursos didácticos para a Ásia”. Macau deve ser “plataforma de língua e não apenas de comércio”, defendeu. “O papel de Macau como ponte entre a China e os países de língua portuguesa é reconhecido no plano económico. Importa reforçá-lo também no plano linguístico, educativo e cultural”, apontou. Patrícia Quaresma considerou que em Macau existe uma “comunidade de prática da língua, de instituições de ensino superior com oferta em português”, e ainda uma “experiência acumulada de mais de três décadas” no ensino da língua. Factores que fazem do território “um centro natural de formação, certificação e produção de recursos para toda a região”. Ao HM, a directora do IPOR destacou o que deve ser melhorado no ensino de português nas escolas locais. Deve-se apostar na “definição de um programa de PLE [português língua estrangeira] de referência para todas as instituições de ensino (por forma a uniformizar o ensino da língua portuguesa na RAEM)”. Além disso, a responsável sugere “contratações de professores com habilitação própria para o ensino de PLE, um programa de formação contínua para professores nesta área e a definição de um organismo do Governo da RAEM para monitorizar as práticas de ensino em sala de aula, são elementos que podem contribuir para que muitas falhas sejam supridas”. O papel de Timor Tendo em conta a recente entrada de Timor-Leste para a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa), onde se fala português e tétum, Patrícia Quaresma acha que se deve reforçar “a cooperação com Timor-Leste no quadro da sua integração na ASEAN”. “A adesão de Timor-Leste cria uma oportunidade inédita para a língua portuguesa no Sudeste Asiático. A cooperação entre Macau e Timor-Leste, na formação de professores, na produção de materiais e no intercâmbio cultural, pode contribuir para que o português ganhe visibilidade no espaço da ASEAN, onde o IPOR já trabalha com instituições no Vietname, na Malásia e na Indonésia”, adiantou. Neste ponto, Patrícia Quaresma lembrou como, nos últimos anos, o IPOR tem conseguido expandir a sua rede na Ásia além Macau, tendo “consolidado uma rede colaborativa que envolve instituições na China, Vietname, Japão, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul, em actuação com a rede de ensino do Camões, I.P e representações diplomáticas”. Desde 2019 que existe um posto de docência em Pequim, localizado na Embaixada de Portugal em Pequim, onde são organizados cursos de português como língua estrangeira e actividades culturais. Ao enumerar uma série de propostas para a dinamização do idioma, Patrícia Quaresma acrescentou a necessidade de “investimento em recursos digitais de acesso livre que coloquem o português em pé de igualdade com outras línguas”, nomeadamente no que diz respeito às “ferramentas de aprendizagem e de tradução”. Deve ainda ser feita a “valorização da programação cultural como parte integrante da política de língua e não como dimensão acessória”. “Se a geopolítica da língua portuguesa no Oriente tem um sentido, é este: o de uma geopolítica da confiança”, frisou. “Uma língua partilhada por povos de quatro continentes, presente em Macau e agora também na ASEAN, é um recurso de diálogo que Portugal e a CPLP não podem deixar de valorizar”, disse. Língua tem de ser atractiva Patrícia Quaresma referiu no CCCM os mais recentes dados que espelham o volume de trabalho do IPOR. Em 2025, teve “mais de 3.900 formandos em mais de 100 cursos, em diferentes modalidades e níveis de competência, num total de mais de 12.000 horas de formação, com recurso a materiais didácticos próprios”. Desta forma, os dados revelam, na perspectiva de Patrícia Quaresma, que “a procura [pelo português] existe e é diversificada”. “Dizem-nos que, em Macau, o português continua a ser uma língua de cidadania, trabalho e de mobilidade”, acrescentou na sua apresentação. Os alunos do IPOR são “muito diversos”, sendo “estudantes do ensino secundário e superior, quadros da Administração pública, colaboradores de empresas e cidadãos que querem ampliar o repertório linguístico”. No rol de “desafios” anunciados, Patrícia Quaresma enumerou cinco cenários que devem sofrer melhorias, sendo que a “atractividade” da língua portuguesa é um deles. “No Oriente, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e empregabilidade. O português compete com o inglês, naturalmente, mas também com outras línguas que dispõem de recursos muito superiores, como o espanhol, o francês, o alemão, o japonês ou o coreano.” Desta forma, a directora do IPOR acredita que o português “precisa de associar factores de atractividade económica à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não ficar reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”. Patrícia Quaresma chamou ainda a atenção para a qualidade da formação de docentes. “O crescimento da oferta de português na região, particularmente na China, não foi sempre acompanhado pela formação de docentes em número e com qualificação suficientes. A formação contínua, a certificação e o acompanhamento pedagógico são condições para que esse crescimento seja sustentável”. Patrícia Quaresma acredita na “continuidade das redes”, defendendo uma “cooperação linguística” que tenha “recursos humanos, tecnológicos e financeiros estáveis, conhecimento das realidades institucionais de cada país e mecanismos de avaliação”. “Muitas iniciativas na Ásia dependem de esforços pontuais e do empenho individual de leitores e professores. Sem continuidade, perdem-se os investimentos realizados”, acrescentou. A apresentação da directora do IPOR chamou também a atenção para a chegada da inteligência artificial (IA) e “transformação digital”. “A forma como hoje se aprendem e se usam línguas está a mudar rapidamente. A presença do português nos recursos digitais e ferramentas de tradução e aprendizagem irá determinar, em boa parte, o seu peso futuro.” Desta forma, “uma língua com pouca presença digital tem menor relevância no espaço global”, rematou. A sessão de quinta-feira contou ainda com oradores como o embaixador português em Pequim, Manuel Cansado de Carvalho; João Laurentino Neves, antigo director do IPOR e actual director-executivo do IILP, ou ainda Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, entre outros. Alinhamento em curso Questionada pelo HM sobre o facto de, na China, terem sido encerrados mais de uma dezena de cursos de português em universidades no interior do país, Patrícia Quaresma considera que houve “o ajustamento a uma nova realidade”. “Na China, a escolha de uma língua estrangeira faz-se, em grande medida, em função das perspectivas de rendimento e de empregabilidade. Neste momento, apesar das relações comerciais com os países de língua portuguesa ainda se manterem em valores significativos, o mercado de trabalho já não tem capacidade para absorver todos os tradutores que se formaram nos últimos anos. Por outro lado, a inevitável inteligência artificial veio contribuir para a simplificação do trabalho de tradução”, destacou. A directora do IPOR considera, portanto, que se deu “um alinhamento com o novo panorama socioeconómico da China, a que devemos prestar muita atenção e procurar combater através da associação da língua portuguesa a factores de atractividade económica, à promoção de valores, de conhecimento e de diversidade cultural, para não fique reduzida a uma língua de utilidade conjuntural”, explicou.