Amor, heroísmo e redenção(I)

A 16 de Setembro de 2026, Chu Chun-kwok, agente da Polícia de Hong Kong, faleceu pacificamente no hospital aos 52 anos devido a falência de órgãos, após uma luta de vinte e um anos contra a doença e a paralisia. Embora a sua morte tenha marcado o capítulo final de um incidente violento que outrora chocou Hong Kong, a sua história deixou uma marca indelével.

Na manhã de 19 de Julho de 2005, Chu, então com 30 anos, patrulhava sozinho o exterior do Edifício de Serviços Municipais Po On Road, em Cheung Sha Wan, Hong Kong, tal como fazia habitualmente. Durante a ronda, avistou Liu Chi-yung, um homem de 23 anos, cujo comportamento parecia suspeito. O seu instinto policial colocou-o em estado de alerta e Chu avançou imediatamente para interceptar e interrogar o indivíduo. Inesperadamente, Liu sacou de uma faca — com cerca de quinze centímetros — e esfaqueou violentamente Chu no lado esquerdo do pescoço, cortando a artéria carótida o que lhe provocou uma grande hemorragia.

Apesar do ataque e da dor excruciante que sentia, Chu não recuou. Pressionando firmemente uma mão contra a ferida, e movido por uma força de vontade extraordinária e um compromisso inabalável com a manutenção da ordem pública, perseguiu o agressor por cinquenta metros apesar de estar gravemente ferido. No entanto, acabou por entrar em coma devido a hipóxia cerebral aguda causada por uma perda massiva de sangue; ficou permanentemente paralisado e em estado vegetativo.

No ano seguinte, o Governo da RAE de Hong Kong atribuiu a Chu a Medalha de Bravura (Ouro). As suas acções foram vivamente elogiadas, tendo sido salientado que, apesar de sofrer ferimentos graves, arriscou a vida e agiu com absoluta coragem na tentativa de capturar o agressor — um acto considerado “o exemplo supremo de bravura.” Chu foi um exemplo de máxima devoção ao dever, provando ser um verdadeiro herói.

Após o incidente, seguiu-se uma longa e árdua batalha e a equipa médica e a família lutaram para lhe salvar a vida e facilitar a reabilitação. A hipóxia cerebral prolongada causou danos graves no sistema nervoso central, resultando em espasmos musculares intensos e rigidez corporal que o deixaram incapaz de falar ou mover-se de forma independente. Numa tentativa desesperada, a comunidade de Hong Kong e a polícia uniram-se para ajudar a família na procura de opções de tratamento. Chu foi transferido para Cantão, na China continental, para oxigenoterapia hiperbárica e submetido a consultas conjuntas com neurologistas e especialistas em Medicina Tradicional Chinesa; o regime de tratamento combinava acupuntura, massagem e fitoterapia com medicamentos ocidentais anti-espasmódicos. Embora tenha apresentado ligeiras reacções reflexas e movimentos de alongamento logo no início — oferecendo uma réstia de esperança à família — os danos cerebrais foram demasiado graves e a sua condição nunca melhorou verdadeiramente. Após regressar a Hong Kong, permaneceu hospitalizado durante anos no Hospital Wong Tai Sin e no Hospital Kwong Wah, ligado a um sistema de suporte de vida artificial e recebendo os cuidados da família, até falecer pacificamente passados vinte e um anos.

Durante mais de sete mil dias em que o filho permaneceu acamado, a mãe de Chu personificou a força inabalável do amor maternal.

Após o acidente, a mãe de Chu fez questão de visitar o filho no hospital duas ou três vezes por semana. Inicialmente, estava em boa forma e podia subir rapidamente a encosta até ao hospital; no entanto, com o passar dos anos, com a saúde a piorar, passou a ir de táxi. No entanto, chovesse ou fizesse sol, ela estava sempre lá. Ao seu lado, massajava-lhe os membros rígidos e contraídos e falava em voz baixa sobre a vida em casa, esperando despertar a sua consciência. Sempre que via uma lágrima a formar-se-lhe no canto do olho ou um ligeiro espasmo dos lábios, sentia que todo o seu esforço valia a pena.

No dia em que Chu faleceu, a mãe disse-lhe antes de partir: “A mãe vai para casa agora; porta-te bem.” Pouco depois de regressar a casa, recebeu a notícia de que ele estava em estado crítico. Enredada na tradição e sentindo uma dor indescritível e pesada, a mãe de Chu não voltou ao hospital; contendo as lágrimas, disse que, depois de suportar vinte e um anos de sofrimento, o filho estava finalmente livre da dor e faleceu em paz. Aceitou a realidade da morte do filho com uma mistura complexa de tristeza, resignação e um alívio silencioso por ele já não estar em agonia. O seu amor maternal duradouro e altruísta é profundamente comovente.

Perante uma catástrofe que quase destruiu a família, a Sra. Chu (Tsai Yen-ping) demonstrou imensa resiliência e um forte sentido de responsabilidade, demonstrando — através das suas acções — um amor que transcendia tanto a doença como a passagem do tempo.

A esposa de Chu tinha cerca de trinta anos quando o incidente ocorreu, lançando instantaneamente uma sombra sobre o que fora uma família feliz de três pessoas. Durante vinte e um anos, suportou o fardo de cuidar do marido paralisado — dando-lhe banho, aplicando medicação e massajando-lhe os membros — enquanto carregava sozinha o peso de toda a casa. Sobre o agressor, Liu, declarou uma vez: “Não sei se o meu marido o poderia perdoar, mas eu nunca o farei” — pois o agressor não só arruinou a sua vida como também roubou à filha uma infância despreocupada e feliz.

Determinada a procurar justiça para o marido e a cobrir as enormes despesas médicas e custos de vida que se avizinhavam, a Sra. Chu agiu com coragem e determinação. Em 2008, apresentou uma acção civil no Tribunal Superior de Hong Kong em nome do marido contra o agressor, Liu, e a Polícia de Hong Kong. O caso terminou com um acordo e a Polícia indemnizou Chu. Estes fundos tornaram-se vitais para o seu tratamento continuado e para a educação da filha. Quanto ao agressor, Liu, o Departamento de Justiça e a Sra. Chu pediram uma indemnização por via legal; no entanto, Liu foi posteriormente declarado falido e não conseguiu cumprir a sua responsabilidade pessoal pelos danos. A determinação da Sra. Chu em defender os direitos do marido por meios legais é um testemunho do profundo amor que lhe dedicava e do seu sentido de dever.

Depois de a Sra. Chu receber a indemnização, muitos afirmaram que ela iria divorciar-se de Chu. No entanto, o tempo provou que tais especulações não só eram incorrectas, como totalmente desnecessárias. As acções da Sra. Chu demonstraram o amor de uma esposa na sua forma mais sincera e pura. Ela nunca abandonou o marido; cuidou dele nos bons e nos maus momentos, cuidou da sogra e criou a filha sozinha, e esforçou-se por manter a família unida — equilibrando perfeitamente as exigências do amor marital e da devoção familiar. Uma mulher assim é, sem dúvida, o epítome de uma esposa exemplar.

Na próxima semana, continuaremos a discutir o impacto destes eventos na família Chu e na sociedade em geral.

Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau
Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau
cbchan@mpu.edu.mo

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