VozesAs forças populistas e os recordes meteorológicos Olavo Rasquinho - 3 Set 2026 O período 2016-2026 é um dos mais ricos em recordes meteorológicos. Desde 2016, ocorreram os dez meses de julho mais quentes, sendo os últimos quatro os mais expressivos. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, os meses de julho e agosto de 2026 foram caracterizados, em muitos países do hemisfério norte, por valores recordes de calor, secas e fogos florestais. Ocorreram também chuvas intensas, inundações em vastas áreas agrícolas, florestais e urbanas em várias regiões. Estes fenómenos, cada vez mais frequentes e intensos, têm causado graves prejuízos e numerosas vítimas mortais, com maior incidência em países que menos têm contribuído para o aumento da concentração na atmosfera dos gases de efeito de estufa e, consequentemente, para as alterações climáticas. De acordo com dados estatísticos, o mês de julho é o mais quente no hemisfério norte e, fazendo jus a esta realidade, o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus1 divulgou que a temperatura média global do ar à superfície atingiu 16,90 °C, em julho de 2026, ultrapassando em 1,47 °C o valor médio relativo ao período 1850-1900. Foi ligeiramente menor do que a de julho de 2023, que constituiu o recorde absoluto (16,95 °C), e igual à do mesmo mês de 2024. Também segundo este serviço, a temperatura média diária da superfície do mar atingiu, em 26 de agosto de 2026, o recorde histórico de 21,1 °C. O recente desastre que ocorreu no Nepal, que causou milhares de vítimas mortais, é um exemplo das consequências drásticas de fenómenos naturais violentos. Tratou-se de um fenómeno hidrológico que consistiu numa enxurrada de lama, pedras, rochas e todo o tipo de detritos, que, em 26 de agosto, arrastou milhares de pessoas e animais e causou elevados prejuízos. A causa principal deste desastre natural foi provavelmente o colapso abrupto de um dos glaciares que ainda persistem nos Himalaias, o qual, devido ao degelo, foi alvo de infiltração de água líquida nas fissuras, o que reforçou a fusão de parte da estrutura na base da imensa massa de gelo e reduziu drasticamente o atrito com o leito rochoso. Terra, rochas e detritos acumulados nas zonas mais estreitas de um vale bloquearam temporariamente o fluxo. Perante a elevada pressão exercida, foi desencadeada uma violenta enxurrada que arrastou tudo o que se deparava pela frente. O fenómeno foi tão forte que sismógrafos registaram o impacto como se tratasse de um sismo de magnitude 5,2 na escala de Richter. Não se poderá afirmar com certeza absoluta que estes acontecimentos são resultado das alterações climáticas, mas há, praticamente, no meio científico, a opinião unânime de que essas alterações têm contribuído para o aumento da frequência e intensidade de fenómenos gravosos de carácter meteorológico e hidrológico. É com grande apreensão que os meios científicos constatam que a atitude de governos populistas de direita está a contribuir para esse efeito. A retirada da maior potência mundial de vários acordos internacionais é um sinal destes tempos em que o avanço das forças políticas retrógradas constitui um sinal negativo no que se refere à sustentabilidade do nosso planeta. Os EUA devem às Nações Unidas 725 milhões de dólares, relativos às contribuições para o orçamento regular, numa altura em que aquela organização atravessa uma grave crise de liquidez. Além disso, a administração Trump tem tomado medidas contra o multilateralismo, com o pretexto de tornar a “America great again”. Note-se que os EUA eram o país que mais contribuía para instituições que zelam pela sustentabilidade do nosso planeta. Numa atitude de ruptura com compromissos assumidos, os EUA retiraram-se de dezenas de organizações e acordos internacionais e revogaram as principais políticas de sustentabilidade preconizadas pelo IPCC, sob o pretexto de que tais compromissos prejudicavam a economia e a competitividade do país. Assim, retiraram-se da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), do Acordo de Paris e de dezenas de entidades internacionais, e enfraqueceram os laços com outras, entre as quais se destacam o IPCC, a Organização Mundial da Saúde (OMS), órgãos dedicados aos direitos humanos (como ONU Mulheres), entidades internacionais relacionadas com as energias renováveis, etc. Internamente, com a revogação do “Endangerment Finding” da Agência de Proteção Ambiental (EPA), a Administração Trump deixou de considerar o dióxido de carbono e outros gases comprovadamente relacionados com o efeito de estufa como gases perigosos. Reverteu, também, as medidas que haviam sido tomadas que proibiam a exploração energética, incentivando a perfuração para exploração de petróleo e gás natural em área protegida na região do Ártico. Ficou célebre a frase “drill baby drill”, frequentemente repetida por Trump nos seus discursos. Não se limitando a estas medidas, foi cortado o financiamento a projetos científicos de monitorização ambiental como o “Arctic Report Card” (da NOAA), e foi proibida a atualização da base de dados com a qual se calculavam os custos e prejuízos causados por desastres climáticos. Houve a tentativa de acabar com o prestigiado centro de investigação atmosférica “National Center for Atmospheric Research” (NCAR), mas um juiz federal bloqueou a ordem de desmantelamento. No entanto, as verbas foram reduzidas, o que implicou graves dificuldades para a prossecução das suas funções. Negacionistas das alterações climáticas substituíram cientistas com larga experiência à frente de serviços relacionados com a preservação do ambiente e do clima. Entretanto, as ideias e atitudes de Trump estão a influenciar cada vez mais eleitores de outros países. Os partidos populistas de direita têm avançado espetacularmente em alguns países da UE. Atualmente, a coligação que governa a Itália é liderada pelo partido Irmãos de Itália (“Fratelli d’Italia”- FdI). Nos Países Baixos, o Partido para a Liberdade (“Partij voor de Vrijheid” – PVV) já chefiou uma coligação governamental. Na Áustria, o Partido da Liberdade da Áustria (“Freiheitliche Partei Österreichs” – FPÖ) é atualmente o partido com a maior representação no parlamento. Em outros países da União Europeia as forças de extrema-direita têm vindo a aumentar a sua representação nos respetivos parlamentos. Em França, a União Nacional (“Rassemblement National” – RN) protagonizou um avanço histórico, ao alcançar 37% dos votos nas últimas eleições legislativas. A Alternativa para a Alemanha (“ Alternative für Deutschland” – AfD) já se posiciona como a segunda força política na Alemanha. Em Portugal, o Chega passou de um deputado, em 2019, para 60 atualmente. O avanço destas forças políticas põe em risco o cumprimento do recomendado no Acordo de Paris, o qual, refletindo a preocupação da comunidade científica, estipula que o aquecimento global até ao fim do século XXI não deverá ultrapassar 2 °C, de preferência 1,5 °C, em relação à era pré-industrial. Acontece, porém, segundo o “Climate Action Tracker”, que as políticas atuais poderão implicar um aumento de temperatura de 2,7 °C até 2100. A continuar assim, outros recordes meteorológicos continuarão a ser atingidos a um ritmo cada vez mais acelerado. * Meteorologista