VozesDe Jiangxi para Macau: o que a história nos ensina sobre o futuro dos jovens Hoje Macau - 22 Set 2026 Por Mak Soi Kun, ex-deputado Macau já foi uma cidade de nível mundial. Vale a pena recuperar essa ideia quando se discute o futuro dos jovens. A Colina da Ilha Verde era originalmente uma ilha isolada no meio do mar. Os nossos antepassados aterraram o mar e ali construíram uma das primeiras fábricas de cimento da China — a Fábrica de Cimento da Ilha Verde, fundada pelo empresário chinês Yu Ruiyun. Li Hongzhang, alto funcionário da Dinastia Qing, enviou Tang Tingshu a Macau para uma visita de inspecção; este levou a tecnologia de volta para o Interior da China, contribuindo para a fundação de uma das primeiras fábricas de cimento nacionais. Macau desempenhou, assim, um papel pioneiro na indústria cimenteira chinesa. A produção de incenso, panchões e fósforos floresceu nas décadas de 50 e 60 do século passado. Em 1930, a exportação de panchões e fósforos chegou a representar 31% do total das exportações de Macau, sustentando toda a cidade. As Ruínas de São Paulo, antigo Colégio de São Paulo fundado em 1594 pela Companhia de Jesus, albergaram a primeira universidade de estilo ocidental no Extremo Oriente, formando missionários que se espalharam pela China, Japão e Sudeste Asiático. Em 16 de Julho de 1948, ocorreu em Macau o primeiro sequestro de um avião comercial registado no mundo — o hidroavião «Miss Macau», que fazia a rota Macau-Hong Kong, foi desviado e caiu no mar. Um episódio que marcou a história da aviação internacional e que mostra que Macau já era um nó da aviação internacional há mais de setenta anos. As pessoas de Macau nunca foram provincianas. Ao longo da história, os macaenses sempre foram de nível mundial. De onde veio esta capacidade de abrir caminhos? Uma visita de estudo a Jiangxi, feita recentemente com um grupo de jovens com uma média de idades de cerca de trinta anos, oferece uma pista. Do Museu Comemorativo do Levantamento de Nanchang, a 1 de Agosto, a Jinggangshan, encontrámos outro tipo de «primeiro». Em 1927, em Nanchang, um levantamento armado marcou o início da luta do Partido Comunista Chinês contra o regime então dominante. As forças envolvidas não alcançaram os objectivos imediatos e retiraram-se para as montanhas de Jinggangshan, onde viria a ser estabelecida a primeira base revolucionária rural. As condições eram extremamente difíceis: faltavam alimentos, medicamentos e armas. Ainda assim, os que lá estavam conseguiram abrir um caminho que ninguém antes tinha percorrido. Jinggangshan ocupa um lugar muito especial na memória chinesa. Foi ali que se formou aquilo a que se chama o seu «espírito»: manter firme o ideal, buscar a verdade nos factos e abrir novos caminhos, enfrentar as dificuldades com perseverança. Para gerações de chineses, esta não é uma celebração do passado, mas uma referência moral — a ideia de que as dificuldades não são um destino, mas um ponto de partida. Na altura, a teoria dominante defendia «atacar as grandes cidades». Mas os que estavam em Jinggangshan reconheceram a realidade: a população rural da China era muito maior do que a urbana. Para vencer, era preciso o apoio da maioria. Começaram por estabelecer bases no campo, unindo a maioria dos camponeses, e só depois se expandiram gradualmente para as cidades. Mais do que os nomes ou os acontecimentos, o que importa reter é o espírito: partir da realidade, ousar abrir novos caminhos, não recuar perante as dificuldades e, depois de reconhecer a direcção certa, avançar com determinação. Os «primeiros» da história de Macau foram, provavelmente, criados com este mesmo espírito. Hoje, porém, muitos jovens de Macau sentem-se presos. Ao organizar as conversas com os membros do grupo depois da viagem, tornou-se claro que, sem dar por isso, tinham sido feitas muitas entrevistas. As histórias reflectem a situação real de muitos jovens: não encontram emprego depois de formados, não têm perspectivas de progressão na carreira, não sabem por onde começar para mudar de área, não têm coragem para constituir família. Estas histórias não são apenas «tristes» — são a realidade. Não é por falta de esforço, mas porque se sentem presos numa encruzilhada, sem saber como virar. Não se trata apenas de uma questão de emprego ou de rendimento. É também uma questão de direcção e de sentido. Macau hoje não carece de condições materiais; o que falta é, sobretudo, motivação espiritual. Quanto mais abundante é a vida material, mais se precisa de ideais, curiosidade e sentido de missão como sustento. Neste aspecto, Macau não parte do zero. A estratégia «1+4» do Governo da RAEM aponta para a diversificação — turismo como pilar principal, mais quatro indústrias. A Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin já concede apoio financeiro aos jovens de Macau que queiram criar negócios, e várias cidades da Grande Baía disponibilizam postos de estágio em áreas como tecnologia, finanças e saúde. Não são slogans, são oportunidades reais. A questão que se coloca é como cada um as aproveita. O Governo apresenta opções; cada pessoa decide se e como as utiliza. Como numa equipa de futebol, a estratégia pode estar definida, mas são os jogadores que têm de entrar em campo e decidir como jogar. O Governo não decide por ninguém; abre mais uma porta e mais um caminho, para que cada um possa desenvolver os seus talentos. Mas as oportunidades só se transformam em resultados quando alguém decide agir. O legado de Jinggangshan ensina a «buscar a verdade e ser pragmático»: reconhecer a realidade — do que precisam os jovens? Que espaço há na sociedade? Que políticas existem? Só depois de esclarecer isto se encontra a direcção certa. A lição de Nanchang é a perseverança: depois de escolher um rumo, aguentar a pressão e avançar passo a passo. Há três atitudes que a história de Jiangxi torna especialmente claras. A primeira é não deixar que o medo defina as escolhas — as dificuldades enfrentadas naquela época eram bem mais severas do que as que muitos jovens de Macau temem hoje. A segunda é reconhecer que a direcção já está indicada, mas o caminho só se faz caminhando. A terceira é transformar o descontentamento em movimento: queixar-se é compreensível, mas agir rende mais do que ficar apenas nas palavras. Quase um século depois, a direcção «1+4» está traçada, a Zona de Cooperação Aprofundada abriu portas e a Grande Baía está interligada. As oportunidades existem. O que a história de Jinggangshan e de Nanchang continua a lembrar é simples: reconhecer a realidade, escolher uma direcção e avançar com persistência. Os que nos precederam construíram o presente com determinação. Cabe agora aos jovens de Macau decidir que capítulo escrever a seguir. O amanhã será melhor se houver preparação, confiança e determinação.