A Intrigante Beleza da Deusa do Rio Luo

Qu Yuan (c.349 – 278 a. C.), o celebrado poeta do inquietante tempo dos Estados Combatentes, é apontado como autor de uma série de cento e setenta e duas perguntas que fazem parte da recolha Chuci, «Elegias de Chu», o Estado em que nasceu e que serviu lealmente como seu ministro, mas que se distinguem pela forma, mais próxima de textos fundamentais como o Daodejing ou o Shijing.

Nelas estão recolhidos conhecimentos populares e eruditos que se referem a eventos intrigantes da mitologia e antigas crenças religiosas, não evitando referências a contradições ou enigmas. Diz-se que o poeta começou a conceber essas «Perguntas ao Céu», Tianwen, após ter observado várias cenas pintadas em murais no templo dos ancestrais do Estado Chu. Uma dessas inquirições, que se lê como uma charada diz: «O imperador enviou Houyi para reformar o povo da primeira dinastia Xia, porque é que ele disparou uma seta contra Hebo e tomou para si a sua esposa Fufei?»

Houyi é o lendário e heróico arqueiro que destruiu nove dos dez sóis que existiam no princípio dos tempos. Hebo, o «Senhor do rio» também conhecido como Heshen, a «divindade do rio», personifica o espírito impetuoso e benfazejo do grande rio Amarelo, Huanghe, uma figura que emerge como recompensa ao mortal Fengyi que se afogara ou se sacrificara nas águas do rio.

Uma resposta ao enigma pode ser lida no Huainanzi, o Livro dos sábios de Huainan (escrito antes de 139 a. C.) que fala deste carácter dúplice do rio que tanto fertiliza, irrigando as margens, como causa inundações devastadoras. Numa dessas catástrofes foi chamado o herói arqueiro que lhe acertou uma flecha no olho esquerdo obrigando-o a fugir. O prémio que Houyi se atribuiu foi levar a esposa do deus do rio, filha de Fuxi, o primeiro mítico imperador, uma mulher fascinante conhecida por nomes diversos como Fufei, a «Consorte Fu» ou Luoshen, a «Divindade do rio Luo», um longo rio que nasce na Província de Shaanxi e desagua no rio Huanghe em Henan. Uma deusa deslumbrante e inesgotável fonte de inspiração.

Wei Jiuding, um pintor de Tiantai (Zhejiang) que viveu no século XIV, ao contrário da mais célebre pintura sobre ela, o rolo horizontal de Gu Kaizhi (c.345-406) que inclui e ilustra o poema de Cao Zhi (192-232), que mostra o encontro em sonhos da deusa com o poeta, concebeu um retrato da deusa isolada.

Usando o método da linha clara baimiao, num rolo vertical (tinta sobre papel, 90,8 x 31,8 cm, no Museu do Palácio Nacional, em Taipé) a pintura na escassez de referências espaciais sublinha o inefável da visão deslizante sobre as águas, numa brisa tão leve que apenas faz esvoaçar as longas tiras do seu vestuário. Que o poeta-princípe Cao Zhi descreveu como: «leve como um cisne em alvoroço, flexível como um dragão a nadar, radiante como um crisântemo no Outono, viçosa como um pinheiro na Primavera.»

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