Qiu Jin – O pincel e a espada

Tradução, comentário e notas por Sara F. Costa

題《芝龕記》八章(其七、其八)

Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí qī, qí bā)

VII

結束戎妝貌出奇,

Jiéshù róngzhuāng mào chūqí,

個人如玉錦駝騎。Gèrén rú yù jǐn tuó qí. 同心兩女肩朝事,

Tóngxīn liǎng nǚ jiān cháoshì,

多少男兒首自低。

Duōshǎo nán’ér shǒu zì dī.

VIII

肉食朝臣盡素餐, Ròushí cháochén jìn sùcān, 精忠報國賴紅顏。

Jīngzhōng bàoguó lài hóngyán.

壯哉奇女談軍事, Zhuàng zāi qínǚ tán jūnshì, 鼎足當年花木蘭。

Dǐngzú dāngnián Huā Mùlán.

O Registo do Nicho de Zhi (poema VII e VIII de VIII)

VII

Pelo traje de guerra, há um porte que assombra,¹

a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha.²

Num só coração, duas mulheres levam o reino aos ombros,³ quantos homens, perante elas, baixam a cabeça.⁴

VIII

Fartos de carne, comem os ministros da corte sem servir,⁵

de rosto rubro repousam as mulheres inteiras.⁶

Magníficas, as mulheres singulares transacionam a guerra entre si,⁷ como a Hua Mulan de outrora, perfazem a grande tríade feminina.⁸

Notas

¹ 結束 (jiéshù) conserva aqui o sentido clássico de «vestir-se», «compor o traje» ou

«aprontar-se». 戎妝 (róngzhuāng) designa o trajo militar, em particular a figura revestida de armadura. O verso apresenta as duas mulheres depois de se armarem. A tradução «Em trajo de guerra» evita a leitura moderna de 結束 (jiéshù) como

«terminar», que levaria ao sentido incorreto de despir ou abandonar a indumentária militar. 貌出奇 (mào chūqí) caracteriza a sua aparência como extraordinária. «Um porte que assombra» converte essa singularidade numa impressão visual (Qiu, 2020, notas 289–291).

² 個人 (gèrén) possui aqui o valor clássico de «aquela pessoa» ou «aquela figura», frequentemente aplicado a alguém contemplado com admiração, e não o sentido moderno de «indivíduo» ou «pessoal». 玉 (yù), «jade», evoca beleza, luminosidade e valor. Em 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 錦 (jǐn) sugere o brocado e 駝 (tuó) funciona como verbo,

«carregar às costas», num uso equivalente a 馱 (tuó). 騎 (qí) designa a montada. A imagem apresenta, portanto, uma figura semelhante a jade, envolta em brocado e transportada pelo animal. Este valor verbal de 駝 (tuó) encontra-se registado

no Dicionário Revisto de Mandarim do Ministério da Educação de Taiwan. A tradução preserva a compactação visual do verso e afasta a leitura literal de «camelo», estranha ao contexto.

³ 同心 (tóngxīn), literalmente «com o mesmo coração», exprime união de propósito. 肩(jiān) funciona como verbo, «carregar aos ombros» ou «assumir», enquanto 朝事(cháoshì) designa os assuntos da corte e, por extensão, os negócios do Estado. «Levam

o reino aos ombros» conserva a metáfora corporal e torna perceptível o peso político confiado às duas mulheres.

⁴ 首自低 (shǒu zì dī) significa que as cabeças dos homens «se baixam por si mesmas».

O gesto reúne vergonha, reconhecimento e submissão perante a evidência do mérito feminino. «Perante elas» explicita a relação implícita no verso chinês.

⁵ 肉食 (ròushí), literalmente «comer carne», designa os titulares de cargos elevados e

evoca a frase 肉食者鄙,未能遠謀 (ròushí zhě bǐ, wèinéng yuǎn móu), «os que comem carne são de visão estreita e incapazes de conceber planos distantes», do Zuǒ zhuàn 左傳 (Zuǒ zhuàn). 素餐 (sùcān) significa receber sustento ou remuneração sem prestar serviço e remete para a expressão 不素餐兮 (bù sùcān xī), «não come em vão», do poema 伐檀 (Fátán) do Shījīng 詩經 (Shījīng). Qiu Jin funde as duas alusões numa sátira aos ministros que vivem dos privilégios da corte sem cumprirem o dever correspondente. «Comem sem servir» procura conservar a relação entre alimento, remuneração e inutilidade pública (Qiu, 2020, notas 292–294; Ruan, 1980).

⁶ 精忠報國 (jīngzhōng bàoguó) exprime o serviço da pátria com lealdade inteira. 賴(lài) significa «depender de» ou «contar com». 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rubro», constitui uma designação convencional da mulher, associada à juventude e à beleza. «Rostos de mulher» conserva a metonímia corporal e a tonalidade cromática do original. A frase transfere para as mulheres a virtude política que os ministros do verso anterior abandonaram.

⁷ 談軍事 (tán jūnshì) significa falar, deliberar ou tratar de assuntos militares. O verso reconhece às mulheres uma autoridade estratégica e discursiva, além da coragem demonstrada no combate. «Tratam da guerra» preserva essa amplitude.

⁸ 鼎足 (dǐngzú) alude aos três pés do dǐng 鼎 (dǐng), vaso ritual cuja estabilidade

depende de três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan formam assim uma tríade de heroínas colocadas em plano de igualdade. Hua Mulan 花木蘭 (Huā Mùlán) é a guerreira da tradição literária que ocupa o lugar do pai no exército. A versão mais antiga conservada da lenda encontra-se na Balada de Mulan, embora a personagem tenha adquirido formas distintas ao longo dos séculos (Idema & Kwa, 2010). «Perfazem

o tripé» reproduz a estrutura ternária da imagem e o gesto de consagração que encerra o ciclo.

Comentário

As duas composições finais encerram o ciclo através de três movimentos sucessivos. O sétimo poema dá corpo às figuras cuja representação pictórica fora desejada no sexto. O oitavo transforma esse retrato em acusação política e termina com a inscrição de Qin Liangyu e Shen Yunying numa genealogia heroica presidida por Hua Mulan. A imagem, o juízo e a memória convergem no fecho.

O primeiro verso do poema VII exige particular cautela. Embora na contemporaneidade, 結束 (jiéshù) signifique habitualmente «terminar», o uso clássico presente no poema corresponde a vestir-se, compor o traje e preparar o corpo para a ação. A cena começa, portanto, com a assunção da armadura. A tradução «Pelo traje de guerra » fixa esse momento e impede a inversão narrativa por oposição a versões que imaginam as mulheres depois de despirem o uniforme.

戎妝 (róngzhuāng) reúne dois campos semânticos. 戎 (róng) pertence à guerra e

às armas. 妝 (zhuāng) pertence ao adorno e à composição da aparência. O eu poético conserva no mesmo vocábulo a feminilidade e o equipamento militar. A guerreira surge como uma figura construída pela convergência desses códigos. A armadura integra a sua aparência e transforma-a num corpo público, preparado para comandar.

貌出奇 (mào chūqí) assinala o efeito produzido por essa aparição. 出奇 (chūqí) descreve aquilo que excede o habitual e provoca espanto. «Um porte que assombra» desloca a ênfase da fisionomia para a presença inteira. O assombro nasce da figura armada e da perturbação das expectativas sociais que nela se tornam visíveis.

O segundo verso aproxima matéria, cor e movimento. 玉 (yù), o jade, oferece uma imagem de brilho contido, pureza e valor. 錦 (jǐn), o brocado, acrescenta cor, textura e distinção. A montada introduz o movimento que faltava ao retrato imaginado no poema VI. As duas mulheres deixam a imobilidade de uma pintura ausente e atravessam agora o verso como figuras equestres. A sequência 錦駝騎 (jǐn tuó qí) apresenta uma sintaxe muito comprimida. 駝 (tuó) pode designar o ato de transportar sobre o dorso. A leitura que melhor se articula com a cena entende a montada como suporte da figura revestida de brocado. «a figura é em jade, mas é o brocado que sobe a montanha» conserva o fulgor mineral, a riqueza do tecido e a elevação do corpo.

No segundo dístico, o poema abandona a contemplação e revela a dimensão política dessas figuras. 同心 (tóngxīn) apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como uma unidade de vontade. O coração comum substitui a exceção individual por uma aliança feminina. As duas mulheres partilham a responsabilidade pelo destino coletivo. O verbo 肩 (jiān) converte o ombro em ação. Os assuntos da corte adquirem peso e repousam sobre corpos femininos. «Levam o reino aos ombros» amplia 朝事 (cháoshì) sem dissolver a sua origem política.

O último verso do poema VII responde a essa elevação com um movimento descendente. As mulheres assumem o peso do reino, enquanto as cabeças masculinas se inclinam. O contraste espacial produz a inversão hierárquica. Torna-se visível na postura dos corpos. 首自低 (shǒu zì dī) contém ainda uma forma subtil de inevitabilidade. As cabeças baixam-se «por si mesmas». Nenhuma autoridade exterior ordena o gesto. O mérito das duas mulheres força os homens ao reconhecimento. A tradução «perante elas» torna explícita essa relação e conserva a ambiguidade entre homenagem e vergonha.

O poema VIII abre com a imagem mais satírica de todo o ciclo. 肉食 (ròushí) e 素餐 (sùcān) pertencem ao mesmo campo alimentar, embora apontem para tradições textuais distintas. Os ministros comem carne porque ocupam posições privilegiadas. Ao mesmo tempo, «comem em vão», recebendo honras e remuneração sem serviço correspondente. A abundância da mesa converte-se em prova de esterilidade política.

Em português, o verso convoca o ato de pôr comida à mesa e o dever de servir o Estado. A mesa farta e a ausência de serviço tornam-se faces da mesma corrupção.

O verso seguinte opõe à inércia dos ministros a lealdade das mulheres. 精忠

(jīngzhōng) designa uma fidelidade levada ao grau máximo. 報國 (bàoguó) associa essa virtude à obrigação de retribuir, proteger ou servir o país. O verbo 賴 (lài) torna a dependência explícita. A ordem política sustenta-se nos «rostos rubros» que a sua própria hierarquia afastava do poder.

«Nos rostos de mulher repousa a inteira lealdade à pátria» preserva a imagem corporal de 紅顏 (hóngyán). O rosto feminino, associado pela convenção à beleza, torna-se o lugar onde subsiste a virtude pública. A cor deixa de ornamentar o corpo e passa a iluminar uma falência masculina. Esta inversão conserva uma tensão histórica. O ciclo celebra valores de lealdade e piedade filial herdados da ordem confuciana e ligados, no

enredo do Zhīkān jì, ao serviço da dinastia Ming. O eu poético apropria-se desse vocabulário para demonstrar a capacidade política das mulheres. A tradição fornece-lhe os próprios termos com que ela contesta a distribuição masculina da autoridade. Hsieh (2021) observa que as narrativas sobre Shen Yunying legitimaram frequentemente a sua ação militar através da piedade filial e da lealdade.

O terceiro verso concede às mulheres um poder adicional. 談軍事 (tán jūnshì)

abrange a discussão, a deliberação e o tratamento dos assuntos militares. Qin Liangyu e Shen Yunying possuem força no campo de batalha e voz na esfera estratégica.

«transacionam a guerra entre si» mantém aberta essa dupla capacidade. A guerra surge como ação e como conhecimento.

O adjetivo 奇 (qí), «singular» ou «extraordinário», acompanha as figuras femininas desde o início do poema VII até ao penúltimo verso do ciclo. Primeiro, o porte causa assombro. Depois, as próprias mulheres recebem o nome de «singulares». A repetição transforma a diferença socialmente imposta numa marca de grandeza. Aquilo que escapava à norma torna-se critério de excelência.

O último verso condensa a genealogia numa imagem arquitetónica. O dǐng 鼎 (dǐng) permanece de pé graças a três apoios. Qin Liangyu, Shen Yunying e Hua Mulan ocupam essas posições equivalentes. A comparação abandona o modelo em que uma mulher excecional recebe licença para entrar numa história masculina. As três mulheres formam uma estrutura autónoma de memória heroica.

Hua Mulan desempenha uma função decisiva nesse fecho. A sua história circulou durante séculos como paradigma da filha que assume o lugar do pai no exército. Qin Liangyu e Shen Yunying pertencem ao domínio da história dinástica, enquanto Mulan chega através da balada e das suas sucessivas reelaborações literárias. O passado feminino adquire, assim, uma forma ampla, feita de arquivo, teatro, poesia e imaginação.

Xia Xiaohong (1998) relaciona a leitura do Zhīkān jì com a formação do imaginário heroico de Qiu Jin. Esta relação torna-se especialmente evidente nas duas composições finais. O retrato das comandantes contém uma dimensão de autorreconhecimento e de desejo. Ao contemplar mulheres armadas, capazes de carregar o reino e de fazer baixar as cabeças masculinas, a autora ensaia a figura pública que procuraria construir para si própria.

A sequência completa progride do reconhecimento histórico para a criação de uma comunidade. Nos primeiros poemas, Qin Liangyu e Shen Yunying aparecem como exemplos de fama e capacidade militar. Nos poemas centrais, a sua lealdade e piedade filial expõem a falência dos generais masculinos. Os poemas VII e VIII dão-lhes corpo, voz política e posição numa genealogia. O ciclo termina quando a exceção se converte em linhagem e a linhagem em medida do heroísmo.

Referências

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Hsieh, H.-C. [謝曉菁 Xiè Xiǎojīng]. (2021). Nánxìng wénrén bǐxià de cóngjūn nǚxìng: Yǐ Míngmò nǚjiàng Shěn Yúnyīng wéi héxīn 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming]. Nǚxué Xuézhì: Fùnǚ yǔ Xìngbié Yánjiū 女學學

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Xia, X. [夏曉虹 Xià Xiǎohóng]. (1998). Shǐ xìn yīngxióng yì yǒu cí: Qiū Jǐn yǔ Zhīkān jì 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se crê que o heroísmo também é mulher: Qiu Jin e o Zhīkān jì]. Wénxué Pínglùn Cóngkān 文學評論叢刊, 1(2), 227– 236.

Nota textual. A transcrição segue a p. 55 de Qiū Jǐn jí 秋瑾集 (Qiū Jǐn jí), de 1979, que apresenta as formas 戎妝 (róngzhuāng), 錦駝騎 (jǐn tuó qí), 肩朝事 (jiān cháoshì) e 精忠 (jīngzhōng). Algumas transcrições modernizadas substituem 戎妝 (róngzhuāng) por 戎裝 (róngzhuāng), variante semanticamente próxima. Outras apresentam 盡忠(jìnzhōng) em lugar de 精忠 (jīngzhōng). A edição consultada sustenta a leitura 精忠(jīngzhōng), que preservo na tradução.

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