Poesia chinesa traduzida

題《芝龕記》八章(其一、其二)

Tí Zhīkān jì bā zhāng (qí yī, qí èr)

今古爭傳女狀頭,

Jīngǔ zhēng chuán nǚ zhuàngtóu,

紅顏誰說不封侯?

Hóngyán shuí shuō bù fēng hóu?

馬家婦共沈家女,

Mǎ jiā fù gòng Shěn jiā nǚ,

曾有威名振九州。

Céng yǒu wēimíng zhèn Jiǔzhōu.

Èr

撐持乾坤女土司,

Chēngchí qiánkūn nǚ tǔsī, 將軍才調絕塵姿。Jiāngjūn cáidiào juéchén zī. 靴刀帕首桃花馬,

Xuē dāo pà shǒu táohuā mǎ,

不愧名稱娘子師。

Bù kuì míngchēng niángzǐ shī.

O Registo do Nicho de Zhi (poema I e II de VIII)

I

Desde sempre se celebram as primeiras entre as mulheres (1):

quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado? (2) A esposa da casa Ma e a filha da casa Shen (3)

fizeram ressoar pelas Nove Províncias a sua fama guerreira. (4)

II

A chefe tusi (5) sustém o Céu e a Terra, (6) general de génio e porte sem igual.

Punhal na bota, lenço na cabeça, cavalo flor de pessegueiro: (7) bem merece o nome de Exército da Senhora. (8)


NOTAS

女狀頭 (nǚ zhuàngtóu), expressão formada a partir de 狀頭 (zhuàngtóu), antiga designação do primeiro classificado nos exames imperiais, aqui adaptada ao feminino.

封侯 (fēng hóu), literalmente ser investido como marquês, designa a atribuição de um

título nobiliárquico por mérito político ou militar.

馬家婦 (Mǎ jiā fù), a esposa da casa Ma, refere-se a Qin Liangyu; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», a Shen Yunying.

九州 (Jiǔzhōu), «Nove Províncias», designação tradicional e poética da totalidade do território chinês.

土司 (tǔsī), título atribuído a governantes hereditários locais reconhecidos pela administração imperial chinesa.

乾坤 (qiánkūn), literalmente «Céu e Terra», representa o universo e a ordem do mundo.

桃花馬 (táohuā mǎ), literalmente «cavalo flor de pessegueiro», designa uma montada cuja pelagem evocaria as tonalidades dessa flor.

娘子師 (niángzǐ shī), literalmente «exército da senhora», designa uma força militar comandada por uma mulher.

Comentário

Estes dois poemas pertencem ao ciclo de oito composições escritas por Qiu Jin a propósito de Zhīkān jì, drama histórico do género chuanqi composto por Dong Rong (1711–1760) em meados do século XVIII (題《芝龕記》八章). A obra, concluída por volta de 1751 e publicada pouco depois, organiza acontecimentos dos últimos reinados da dinastia Ming em torno das figuras de Qin Liangyu e Shen Yunying.

O seu programa moral assenta na celebração da lealdade política e da piedade filial das duas guerreiras, apresentadas como protagonistas de uma história da qual as mulheres haviam sido habitualmente afastadas (Tu, 2005, pp. 1–17; Wang, 2014, pp. 61–72). Cada uma das duas composições apresenta uma quadra de sete caracteres. Os versos rimam segundo o esquema tradicional em que a rima ocorre no primeiro, segundo e quarto versos: 頭(tóu), 侯 (hóu) e 州 (zhōu) no primeiro poema; 司 (sī), 姿 (zī) e 師 (shī) no segundo.

Estes poemas devem ser lidos com alguma cautela histórica. Pertencem à fase inicial da escrita de Qiu Jin e ainda valorizam formas imperiais de reconhecimento, como o título nobiliárquico e a consagração oficial do mérito. A sua força crítica nasce da apropriação desses valores: Qiu Jin não recusa aqui a linguagem da honra, da lealdade ou do poder militar; recusa o monopólio masculino sobre ela. A leitura de Zhīkān jì oferece-lhe uma linhagem de mulheres guerreiras na qual começa a projetar a sua própria aspiração a tornar-se uma 奇女子 (qínǚ), uma «mulher extraordinária». Xia Xiaohong mostrou como esta identificação com Qin Liangyu e Shen Yunying participa na formação do imaginário heroico que acompanharia Qiu Jin ao longo da vida, embora o seu pensamento político viesse depois a ultrapassar o horizonte imperial presente nestes primeiros poemas (1998, pp. 227–236).

O primeiro poema apresenta Qin Liangyu e Shen Yunying como figuras de exceção inscritas numa genealogia feminina do heroísmo. 女狀頭 (nǚ zhuàngtóu) adapta ao feminino uma designação associada ao primeiro classificado nos exames imperiais. A expressão atribui às duas mulheres uma primazia formulada através do vocabulário institucional do mérito. «As primeiras entre as mulheres» preserva essa ideia de excelência, embora atenue a referência concreta ao sistema de exames.

A pergunta 紅顏誰說不封侯? concentra o núcleo provocatório da quadra. 紅顏 (hóngyán), literalmente «rosto rosado», é uma designação convencional da mulher jovem e bela. 封侯 (fēng hóu) significa ser investido no título de 侯 (hóu), habitualmente traduzido por «marquês». O verso aproxima deliberadamente dois campos que a ordem social mantinha separados: a feminilidade codificada através da aparência e o reconhecimento político ou militar reservado aos homens. A opção «quem diz que uma mulher não pode receber um marquesado?» sacrifica a imagem do «rosto rosado», mas torna explícito o desafio lançado à exclusão feminina da honra pública. 馬家婦 (Mǎ jiā fù), «a esposa da casa Ma», designa Qin Liangyu através da família do marido, Ma Qiancheng; 沈家女 (Shěn jiā nǚ), «a filha da casa Shen», identifica Shen

Yunying pela linhagem paterna. Qiu Jin conserva as formas tradicionais de nomeação feminina e faz com que sejam elas a ocupar o centro do poema. A tensão é significativa: as protagonistas continuam linguisticamente relacionadas com estruturas familiares masculinas, mas são os seus feitos que fazem ressoar o nome pelas 九州 (Jiǔzhōu), as «Nove Províncias», designação simbólica da totalidade do território chinês. A abertura 今古 (jīngǔ), «o presente e a Antiguidade», e o fecho 九州 ampliam a fama das duas mulheres em duas direções complementares, através do tempo e do espaço.

O segundo poema concentra-se sobretudo em Qin Liangyu. 女土司 (nǚ tǔsī) identifica-a como mulher investida na estrutura hereditária de autoridade local conhecida como tusi. A tradução mantém o termo porque «governante» apagaria a especificidade histórica e territorial do cargo. 撐持乾坤 (chēngchí qiánkūn), literalmente «sustentar o Céu e a Terra», eleva essa autoridade a uma escala cósmica. A mulher deixa de ocupar uma posição marginal: é apresentada como força capaz de sustentar a ordem do mundo.

將軍才調絕塵姿 reúne aptidão e presença. 才調 (cáidiào) pode abranger talento, capacidade e qualidade pessoal; 絕塵 (juéchén) sugere alguém que deixa os restantes para trás ou se eleva acima do «pó» do mundo comum. «General de génio e porte sem igual» torna o elogio inteligível em português, embora abandone a imagem concreta do pó. A perda parece-me preferível à opacidade de «figura acima do pó», que dificilmente permite ao leitor português reconstruir a expressão chinesa.

O terceiro verso é construído como uma sequência nominal, quase um retrato em movimento: 靴刀, o punhal levado na bota; 帕首, a cabeça envolta num lenço; 桃花馬, o «cavalo flor de pessegueiro». A ausência de verbos acelera a visão e reúne arma, indumentária e montada numa única imagem. «Cavalo flor de pessegueiro» conserva a dimensão cromática e pictórica de 桃花馬, possivelmente associada à pelagem da montada. A delicadeza floral permanece dentro da representação militar, sem neutralizar a força da guerreira.

娘子師 (niángzǐ shī) designa um exército comandado por uma mulher. «Exército da Senhora» mantém a estranheza e a dignidade do nome, evitando sugerir que se trataria necessariamente de uma tropa composta por mulheres. O verbo 稱 (chēng), «chamar», «designar», confere ainda ao verso final uma dimensão de legitimação: a autoridade feminina torna-se reconhecível porque pode ser nomeada.

Referências bibliográficas:

Xia, X. [夏晓虹](#). (1998). 始信英雄亦有雌——秋瑾与《芝龛记》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文学评论丛刊, 1(2), 227–236.

Hsieh, H.-C. [謝曉菁](#). (2021). 男性文人筆下的從軍女性:以明末女將沈雲英為核心 [As mulheres guerreiras na escrita dos letrados: O caso da general Shen Yunying no final da dinastia Ming](#). 女學學誌:婦女與性別研究, 48, 1–27. https://doi.org/10.6255/JWGS.202106_(48).01

Tu, S.-M. [涂淑敏](#). (2005). 《芝龕記》傳奇敘錄 [Introdução ao drama

chuanqi Zhīkān jì](#). 通識教育學報, 8, 1–17. https://doi.org/10.7107/JGED.200512.0001

Wang, A.-L. [王璦玲](#). (2014). 「雖名傳奇,卻實是一段有聲有色明史」:

論董榕《芝龕記》傳奇中之演史、評史與詮史 [A representação e interpretação dramáticas da queda da dinastia Ming no Zhīkān jì de Dong Rong](#). 戲劇研究, 13, 61–98. https://doi.org/10.6257/JOTS.2014.13061

Xia, X. [夏曉虹](#). (1997). 始信英雄亦有雌:秋瑾與《芝龕記》 [Só então se acredita que entre os heróis também há mulheres: Qiu Jin e o Zhīkān jì](#). 文學評論叢刊, 1(2), 227–236.

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