Sexanálise VozesQuanto valem os teus pés? Tânia dos Santos - 17 Jun 2026 Aconteceu algo na internet com o fetiche de pés: os pés são agora vistos como uma potencial fonte de rendimento na indústria do sexo online. Nos últimos anos o fetiche por pés ganhou mais visibilidade e por isso também cresceu uma visão mais mercantilista. Se antes se julgava que era preciso revelar zonas do corpo mais íntimas para explorar a indústria sexual, hoje algo tão inócuo como uma fotografia de uns pés bem cuidados tem valor na indústria do sexo e do fetiche. Há quem venda fotografias de pés e há quem os esconda (e.g., colocando emojis ou desfocando fotografias), porque os pés não são grátis. O resultado: a internet está agora cheia de vídeos informativos e de manuais explicativos de como te tornares numa modelo de pés, e como rentabilizar com isso. Tentei perceber se era assim simples: se vender fotos de pés é dinheiro fácil e garantido. E apesar do espaço digital insinuar que é um caminho para complementar as finanças, uma pesquisa mais aprofundada mostra outra realidade. A maioria dos sites que se dizem dedicados à venda de conteúdo de pés parecem sites fantasma com muitas criadoras e poucos clientes. Curiosamente, estes sites exigem uma mensalidade para as criadoras de conteúdo de pés poderem publicar, com promessas de muita rentabilidade – e a maioria delas vê o seu investimento por um canudo. Os sites do costume de venda de material erótico são as plataformas onde a experiência de venda poderá ser melhor. Mas isso implica a criação de uma persona, e a contínua produção de conteúdos exclusivos, e até vídeos personalizados. Da mesma forma que um influencer ganha seguidores, é preciso envolver os pés numa narrativa. O contexto em que os pés são apresentados conta tanto quanto os próprios pés. Uma das pessoas que deu que falar recentemente, foi Lily Allen, cantora pop que garante que faz mais dinheiro a vender fotografias dos seus pés do que com a sua música nas plataformas musicais. Sendo uma celebridade, existe já um investimento afectivo e fantasístico por parte do público que aumenta o valor desse conteúdo. Já existem há muitos anos sites que tentam apanhar fotografias de pés de celebridades, contando com um repositório bem recheado de actrizes e cantoras a andar de sandálias. O envolvimento proactivo de uma celebridade nesta mercantilização coloca o fenómeno noutra escala. Para se proteger da crítica feroz – porque tudo o que implica a indústria sexual tem esse senão – “não odeiem a jogadora, odeiem o jogo”, diz ela em entrevista para o People. Mas as especialistas de venda de conteúdo sobre pés dizem que o mercado pode já estar saturado – já existem pés para todos os gostos. E talvez isso reflita a facilidade com que as pessoas se meteram no negócio. E apesar de elas não sentirem como tal – porque para elas os pés podem só ser partes inocentes do corpo – a venda de conteúdo com propósito sexual encaixa na categoria de trabalho sexual. O que quero dizer com isto: precisam de se precaver legalmente nesse sentido. Confirmar que as criadoras são maiores de 18 anos e os seus consumidores também. Porque o que torna os pés rentáveis é a fantasia sexual que se constrói à sua volta. E a fantasia é co-construída, apesar de mediada pelo espaço digital. Cada vídeo personalizado implica um encontro com a fantasia sexual do cliente, num acto de intimidade. Então, quanto valem os teus pés? Provavelmente menos do que a internet te promete. Mas a pergunta continua a ser reveladora. Porque mostra como uma parte banal do corpo se torna, simultaneamente, objecto de desejo, oportunidade de negócio e tema de discussão cultural. Num mundo onde tudo parece poder ser transformado em conteúdo, talvez os pés sejam apenas mais uma prova de que a imaginação humana — e os mercados — raramente conhecem limites.