VozesA derrota do Labour e a onda de extrema-direita Carlos Coutinho - 20 Mai 2026 Por Carlos Coutinho A derrota de proporções históricas dos trabalhistas britânicos nas recentes eleições autárquicas e regionais – acha o historiador português Manuel Loff e eu, por acaso, também – “confirma a crise da social-democracia europeia”. Se é verdade que a doença, por vezes, se confunde “com a crise da esquerda, velha discussão feita habitualmente por quem não quer discutir o capitalismo, nem como metástases do neoliberalismo asfixiam qualquer perspetiva de democracia social e têm aberto o caminho a esta crescente fascização das relações sociais e da política internacional”. “Na aparência”, diz ele, “a crise iniciou-se, se não na viragem de século, pelo menos na gestão que os governos social-democratas fizeram da devastação social trazida pela crise financeira de 2008. O PASOK grego, os social-democratas polacos e húngaros ficaram reduzidos a cinzas, os alemães, escandinavos, holandeses abandonaram os grupos que neles habitualmente confiavam para a manutenção de um mínimo de dignidade do Estado social. “Quando os sistemas eleitorais permitiram governar sozinhos (França, 2012-17, Grã-Bretanha, desde 2024, fizeram tão mal quanto tem feito ao se coligar à direita por essa Europa fora, a começar pela Alemanha. Se o PSOE é uma exceção, e porque, como o PS português em 2015, se viu na obrigação, já em fase de perda de apoio, a fazer acordos â esquerda que o obrigaram a introduzir correções nas políticas neoliberais que tem adotado desde há 40 anos. Quem se esqueceu já da “geringonça” que o Costa começou a esvaziar logo que precisou disso para realizar outras ambições pessoais? – pergunto eu. “Sempre que interrompem esse processo”, lembra o Loff , “(como Corbyn tentou no Labour, entre 2015 e 2020), conseguem alguma reconexão com quem trabalha, paga uma renda de casa e vive do crédito para sobreviver . Quando regressam às receitas neoliberais (privatizar,, precarizar, securitizar, discriminar), o fascismo cresce. “Depois de uma campanha infame dentro do partido para se livrar de Corbyn (acusando-o de antissemitismo), Starmer obteve uma maioria absoluta nas eleições de 2024 com apenas um terço dos votos. O mesmo sistema eleitoral que sobrerrepresenta artificialmente o partido mais votado pode vir a dar o poder de mão beijada à ultradireita racista do Reform UK, porque ninguém acredita que Starmer aguente até 2029. “O Reform UK reúne nas sondagens 25%-30% das intenções, 5%-10% à frente dos trabalhistas, conservadores e verdes. É o suficiente para ganhar uma maioria num sistema fragmentado. É, por isso, elevada a probabilidade de podermos vir a ter num futuro próximo governos de ultradireita racista e neofascista entre os três maiores países europeus ocidentais: a Itália, onde a ultradireita já dirige o Governo, França e Grã-Bretanha.” Quem fala assim não é gago… * Já passou quase um século após o aparecimento de um verdadeiro tratado sobre a canalhice, mas não me parece que já não seja de ter em conta a vantagem da sua vigência, dadas a sua abrangência e, sobretudo, a sua profundidade. Aconteceu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial o aparecimento nas livrarias de um livro feroz do filósofo alemão Ernst Bloch que analisa a ascensão de Hitler ao poder e se interroga sobre como foi possível que a consciência coletiva de quase todo o país se tivesse degradado a ponto de aceitar a nazificação, como uma espécie apodrecimento que quase nunca parou de se agravar. A propaganda oficial e o trauma da humilhação, em resultado da derrota e do esbulho sofrido às mãos dos vencedores em 1918, reivindicavam a continuidade do Terceiro Reich, restaurando o Primeiro – o do Sacro Império Romano-Germânico – criado por quem reclamava a atualização do instaurado por Carlos Magno que durou entre 962, e a suas aniquilação por Napoleão, em 1806, seguindo-se o Segundo Reich, isto é, o império que foi erguido com a unificação da Alemanha e a guerra franco-prussiana em 1871, cujos efeitos só foram travados com o colapso alemão na Primeira Guerra Mundial, mas tal consequência não explica para Ernst Bloch a mórbida e sanguinária aceitação da ditadura nazi. Como se fizeram, então, os canalhas e se instituiu o seu regime? Como foi aceite a fábula segundo a qual este novo império iria durar 1000 anos? E o que se pode concluir desta histórica tragédia que custou perto de 70 milhões de mortos? Não estava escrito que o führer conquistasse o poder e que 10 anos depois de ter ocupado a presidência do partido nazi, bem como que, após uma curta prisão por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, o paranoico político aguarelista austríaco disputasse a segunda volta das eleições presidenciais alemãs em abril de 1932 e obtivesse 37% dos votos e que os comunistas e os social-democratas somados se ficassem pelos 36%. Contudo o presidente eleito, o tão celebrado marechal Hindenburg entregou-lhe o lugar em Berlim, que não era a capital da Áustria, mas viria ser anexada com geral aplauso germânico, em 30 de janeiro de 1933. Quando, poucos anos depois, Bloch se pergunta sobre como se chegou a este desfecho, a conclusão que encontra é que o centro e a direita, aceitam a receita da extrema direita, aceitam Hitler como se de uma solução de curto prazo se tratasse, ou apenas fosse um mal menor, para impor a ordem, enquanto amplos setores da burguesia e do que hoje se chama classe média, como comerciantes, militares e acadêmicos, celebravam no despotismo. Havia nisso a evocação de um fundo cultural – considera Bloch – e não foi a magia propagandística de Goebbels que respondeu à desintegração do regime de Weimar. Foi antes a recuperação de mitos incrustados na crença da epopeia germanista mobilizando um romantismo reacionário que se apropriou de Nietzsche e de Wagner, ou seja, foi a ideologia social dominante que fez de Hitler o seu porta-voz e o estandarte dos interesses económicos dominantes. Leio estas análises e percebo melhor os êxitos eleitorais do nosso Ventura e de quem lhe paga as campanhas, bem como os favores que recebe da comunicação social quase toda. Vade retro, Satanás…