Música | Escritos de Camilo Pessanha conjugados com ritmos em patuá

Ian Watts celebrou a poesia de Camilo Pessanha de uma forma singular, recorrendo à música e ao patuá, o crioulo macaense que está praticamente extinto. “Sunk Ships Sing Clepsydra” é o nome do álbum, disponível em formato digital, com 30 faixas produzidas pelo escritor e tradutor. Watts recorreu “ao conceito de uma banda macaense de Xangai nos anos 30”

No mês em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha, vulto maior do chamado Simbolismo na poesia portuguesa e autor de “Clepsydra”, o autor e tradutor Ian Watts, com raízes portuguesas no Havai e na Califórnia, resolveu dedicar-lhe um projecto único: fez um álbum com 30 faixas, baseado na poesia de Pessanha, com ligações ao patuá e a sonoridades de jazz e música chinesa.

O resultado é “Sunk Ships Sing Clepsydra”, álbum que pode ser ouvido gratuitamente, em formato digital, e que tem “letras novas em português” com ligação ao patuá. Em termos musicais, o que Ian Watts fez foi recorrer ao “conceito de produção de uma banda macaense de Xangai dos anos 30, com a gravação ao estilo Shidaiqu: harmonia de jazz ocidental, a sensibilidade melódica chinesa”, sem esquecer a presença de uma “cantora macaense cujo português desliza, naturalmente, para a sua língua materna”.

Este foi o princípio de um projecto que musicou Clepsydra de uma forma que, segundo Ian Watts, nunca tinha sido tentada antes. Numa nota enviada às redacções, o autor explica que o álbum “foi realizado com ferramentas de inteligência artificial, o que permitiu que uma única pessoa tenha concretizado algo que, de outro modo, teria exigido um ‘ensemble’ de época, um estúdio e meios consideráveis”, adiantou.

Ian Watts tem uma relação longa com Macau e conheceu o universo de Camilo Pessanha “quando fazia investigação sobre o comércio
do ópio em Macau na Biblioteca Nacional de Lisboa, no final dos anos
noventa”. Aí surgiu o acesso ao espólio de Camilo Pessanha, doado pela família de Ana Castro Osório, que mais contribuiu para a divulgação da escrita do poeta português.

“O meu objectivo principal era procurar qualquer escrito seu sobre o uso de ópio, o que não encontrei de forma óbvia. Mas encontrei outra coisa: a qualidade sonora e profunda da sua poesia. Era estranha e bela. O que também me cativou foi a sua tradução das ‘Elegias Chinesas’ – era um homem verdadeiramente mergulhado em Macau, não um poeta europeu de passagem”, adiantou Ian Watts ao HM.

A ideia de produção de “Sunk Ships Sing Clepsydra” surgiu depois da publicação da tradução de “Lin Tchi Fá: Flor de Lótus”, da autoria do próprio Ian Watts, sobretudo no momento em que ouviu a canção “Viola Chinesa”, do duo macaense “A Outra Banda”, onde é adaptado um poema de Pessanha com o mesmo nome.

“Naquele momento decidi que pôr a sua poesia em música seria um projecto bonito em sua honra. Comecei de forma simples, e procurei inspiração em Satie e Debussy, que pareciam capturar o mesmo lirismo. Aquele som não me parecia quente, e voltei a pensar no mesmo lugar em que Pessanha viveu, nas pessoas à volta”, tendo ocorrido a Ian Watts as ideias de Macau, da mulher macaense e até do cante. Nesse momento, “todas as peças se encaixaram.”

Para produzir o disco, Ian Watts recorreu “ao máximo de fontes em patuá” que conseguiu, nomeadamente os discos da Tuna Macaense e do poeta Adé. “Comecei aí o longo processo de decidir onde entrar o patuá numa canção, e onde a cantora poderia, conscientemente, manter o português. Numa canção queria usar o Nhum, em ‘O Tambor’, mas a melodia e a canção exigiam outra coisa. Tudo foi feito com intenção”, assegura. A escolha dos poemas para o disco não foi difícil, já que “em certo sentido já estavam escolhidos, por Ana de Castro Osório há mais de cem anos”. “Digo isto com algum humor”, salienta Ian Watts.

A escolha da IA

Usar inteligência artificial (IA) neste projecto tem tanto de inovador como de arriscado, e Ian Watts assume que “esteve reticente em contar ao mundo não-IA sobre este projecto”, já que, no seu entender, “a maioria das pessoas olha de forma negativa para a música e imagens produzidas por IA”.

“Contactei os meios de comunicação em Macau não por [desejar] fama ou fortuna, mas para dar às pessoas a possibilidade de ouvir
Pessanha no centenário da sua morte”, destaca. “Ao contar às pessoas de Macau sobre este projecto, espero que possa também inspirar alguns a compor canções e a cantar as suas histórias — em patuá, em cantonês, em português. A IA oferece a possibilidade de pessoas que, de outra forma, não teriam recursos para o fazer, na colaboração e a cantar.”

Macau entrou na vida de Ian Watts “como uma ideia”, através do seu professor de português na universidade. “Estávamos em pleno debate pós-modernista e pós-colonial e Macau fascinava-me intelectualmente”, na qualidade de “entreposto português na costa sul da China, com uma identidade construída em cima de múltiplas pertenças e múltiplas ausências”.

Ian Watts foi depois a Macau, onde “teve a oportunidade de falar com muitas pessoas sobre o que significava ser macaense”, e aí o território “deixou de ser um conceito” para se transformar “num lar para muitos, levando um pedaço no meu coração”. O autor traduziu escritos de Camilo Pessanha e de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, “por prazer”, tendo inclusivamente saído, no ano passado, a tradução de “Lin Tchi Fá – Flor de Lótus”, publicada originalmente em 1925, em português, chinês e inglês.

Sobre este projecto, Ian Watts afirma que “Maria Anna Acciaioli Tamagnini escreveu na tradição orientalista e simbolista”, sendo que, em “Lin Tchi Fá”, “nunca escreve explicitamente sobre os macaenses”. Faz, isso sim, “referências veladas e, por vezes, explícitas à condição feminina e subtilmente insurge-se contra as estruturas patriarcais”, o que resulta”dos seus contactos locais”.

“Convém recordar que ‘Lin Tchi Fá’ foi publicado quando ela estava em Lisboa, depois de o marido ter sido chamado de volta a Portugal após a sua primeira governação; os seus ensaios posteriores a 1926, durante a segunda governação, debruçam-se quase inteiramente sobre a comunidade chinesa em Macau e no sul da China.”

Esta autora, destaca Ian Watts, escreveu um poema mais focado em Macau, intitulado “Santa Infância”, onde descreve a realidade das crianças órfãs, “na sua maioria raparigas que eram deixadas na roda dos expostos”, criadas dentro da comunidade cristã, por freiras. “Não incluí este nem outro poema existente na minha tradução, por não constarem do seu volume original de poemas”, explica.

O lugar da língua

Ian Watts sabe o que é viver entre idiomas. No que diz respeito ao patuá, já não encontrou Adé vivo para, com ele, aprender mais sobre o crioulo macaense, mas ainda trocou palavras com o Padre Manuel Teixeira, que lhe falou dos escritos de Adé e Maria Anna Acciaioli Tamagnini.

“Mas a língua ganhou vida de outra forma. Uma tarde estava na Leitaria
I Son, no Largo do Senado, com um grupo de macaenses jovens, na casa
dos vinte anos. E eles iam deslizando entre o inglês, o cantonês, o
português e o patuá — tudo dentro da mesma conversa, sem marcação, sem cerimónia. Nunca tinha ouvido a língua falada antes. O que me ficou foi a sua musicalidade. Nunca me esqueci”, recorda.

Ian Watts diz não ser “linguista nem especialista em revitalização linguística”, e que as suas áreas de estudo são Etnografia, Literatura e Estudos Portugueses.

Porém, diz ter a “perspectiva pessoal sobre o que acontece às línguas sob pressão”. “A minha família, de origem açoriana e madeirense, perdeu activamente o português no Havai sob a pressão da assimilação. Escolheram o inglês como língua de prestígio, e o português foi murchando até restar apenas em palavrões”, recorda, falando do progressivo desaparecimento do patuá.

“Em Macau, entendo que o patuá não foi tão suprimido e considerado uma língua que não valia a pena conhecer”, com um sentimento de “vergonha de si próprio”. “A minha própria família olhava com desconforto para o seu inglês ‘partido’ e empurrava a língua correcta, o inglês da Metrópole. E assim o patuá foi-se esvanecendo. Felizmente, foi documentado, no [jornal] ‘Ta-ssi-yang-kuo’ na viragem do século,
por Graciete Batalha a meio do século passado, e, mais recentemente, no
léxico de Miguel de Senna Fernandes — que, em conjunto com o Dóci
Papiaçam di Macau, tem feito um esforço genuíno para manter a língua
viva.”

Ian Watts refere também o trabalho de edição de textos antigos por parte do Instituto Cultural e Instituto Internacional de Macau. “Falo como alguém de fora, e reconheço que não conheço a realidade linguística actual de Macau. Mas a minha intuição é que as línguas mudam — e que o mesmo contacto intercultural que criou o patuá pode continuar a levá-lo para a frente. A língua, como os ‘Filhos da Terra’ que a falam, não é uma peça de museu. Aquele grupo de jovens macaenses que eu via deslizar entre o português padrão e o cantonês de rua — é assim que os crioulos se formam. Foi maravilhoso ouvir isso com os meus próprios ouvidos”, salienta.

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