O Sábio Que Flutuava Nas Ondas Numa Folha de Loto

Zi Zhao, o rei Wu Ding (c. 1250-c. 1192 a. C.) da dinastia Shang, cuja existência e feitos foram sendo comprovados através de provas de carbono catorze e da leitura de inscrições em ossos de grandes animais e plastrões de tartaruga, terá cumprido de forma exemplar o amoroso dever ritual de respeito pela memória do seu falecido pai.

Durante três anos permaneceu na pobreza de um silêncio humilde, eximindo-se de qualquer manifestação de alegria como casar ou sequer participar na direcção dos assuntos de Estado, deixando-os aos seus ministros.

O período de três anos não era um acaso, como mais tarde Confúcio explicou: «Os filhos não conseguem deixar os braços dos pais senão depois dos três anos de idade, por isso os filhos deveráo permanecer de luto três anos após a morte dos pais.»

Durante esse tempo, porém, o rei observava a nação. Passado o luto, o rei continuou a não falar mas fez saber que tinha tido um sonho: que o Céu lhe enviara o claro rosto de um sábio de nome Yue que o ajudaria a governar com sabedoria. Procurando o rosto entre os membros da sua corte e não o achando, fez com que fosse pintado um retrato com as exactas feições com que aparecera no seu sonho e enviou-o com emissários para encontrar a face correspondente ao retrato.

E ele surgiu inesperadamente na forma de um condenado trabalhando na construção de uma estrada, chamado Fu Yue. As três fases; o sonho, o retrato e o encontro estão por exemplo, visualisados numa única pintura de cerca de 1700 no Museu Britânico (Pinturas de imperadores modelares, rolo vertical, tinta e cor sobre papel, 114 x 50,8 cm). E o relato, que consta de arquivos históricos como o Shangshu, o «Livro dos documentos» ou Shiji, os «Registos do grande historiador», está encapsulado na expressão idiomática Wu Ding de Fu Yue, que se refere ao divino direito e dever de um soberano encontrar pessoas de talento.

Mais tarde o processo seria relatado de modo inverso, quando Jiang Ziya também no século XII a.C., antes de ajudar o soberano Wen de Zhou a derrotar o último rei tirano de Shang, esperou até aos oitenta anos pescando sem isco, até o rei perceber que ele era um sábio.

Zhao Fu (ou Zhao Fei), um pintor de Jingkou (act. Zhenjiang, Jiangsu), por ter ficado conhecido pela habilidade de figurar «ondas agitadas rebentando em espuma branca como a neve», foi indicado como autor de uma insólita pintura de um sábio flutuando ao vento num rio revoltoso sobre uma folha de loto. Nessa pintura claramente datada já das posteriores dinastias Ming ou Qing, feita numa folha de álbum (tinta sobre seda,27.9 x 21,9 cm, no Metmuseum) um sábio alardeia a sua virtude e integridade moral de modo alegórico. Sentado sobre a folha de loto que se inclina para o proteger segue de olhos abertos indiferente às circunstâncias, um sábio como um rei sonharia encontrar.

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