Entrevista ManchetePaul French, autor de “The Last Emperor of China: Twilight of the Forbidden City” e jornalista: “Novos diários e cartas são janelas únicas” Andreia Sofia Silva - 30 Jul 2026 Já está em pré-venda o novo livro de Paul French que retrata a vida do último imperador da China. “The Last Emperor of China: Twilight of the Forbidden City” nasceu da descoberta de novas fontes documentais. O livro, que estará nas bancas em meados de Agosto, acrescenta detalhes à história de Puyi e da imperatriz Wanrong Puyi é uma figura histórica muito retratada, inclusive no cinema, mas a sinopse do livro revela que existem novos segredos sobre a vida do último imperador da China. Quais são as principais revelações desta obra e que arquivos consultou? Nunca pensei que acabaria por escrever a história de Puyi, o Último Imperador. Adorei o filme de Bernardo Bertolucci, de 1987 (que estreou quando eu estava na universidade a estudar chinês), e revi-o inúmeras vezes. No entanto, tive a felicidade de encontrar novos documentos em vários arquivos, incluindo cartas da última imperatriz, Wanrong, e de Sir Reginald Johnston, o escocês que ficou conhecido por ter sido tutor de Puyi. Mais tarde, ouvi falar de Isabel Ingram, que foi professora de inglês e amiga próxima de Wanrong. A sua família, nos Estados Unidos, deixou-me consultar as cartas e diários que escreveu durante o período em que viveu na Cidade Proibida com o imperador, a imperatriz e Johnston. Estas novas fontes — cartas, diários e algumas fotografias — contam uma história ligeiramente diferente sobre a relação entre Puyi e Wanrong nos primeiros anos de casamento (o último casamento imperial da China) e colocam também Isabel Ingram no centro da narrativa, depois de ter sido omitida tanto das memórias de Johnston, “Twilight in the Forbidden City”, de 1934, como do filme de Bertolucci. Por que decidiu escrever um livro sobre Puyi? O que considera mais fascinante na vida do último imperador da China? Existem muitos livros sobre Puyi, sobretudo em chinês, incluindo as suas próprias memórias, “From Emperor to Citizen”, editado em 1964. Contudo, as novas fontes a que tive acesso trazem uma luz inédita sobre os dois anos decisivos entre o casamento imperial, no final de 1922, e a expulsão da família imperial de Pequim, no final de 1924. Durante esse período, Puyi e Wanrong tiveram de aprender a conhecer-se (o casamento foi, naturalmente, arranjado), vivendo confinados na Cidade Proibida, no coração de Pequim, uma cidade onde não podiam circular livremente, numa China que já se tinha tornado uma república. Foi uma fase extremamente difícil, agravada por um incêndio devastador que quase destruiu toda a Cidade Proibida, pela decisão de Puyi de expulsar os eunucos por roubarem tesouros imperiais e, por fim, pela sua própria expulsão, conduzida pelo senhor da guerra Feng Yuxiang, que acabou por o empurrar para a influência japonesa. Tudo isto foi testemunhado de perto por Johnston e Ingram, pelo que os seus novos diários e cartas constituem janelas absolutamente únicas sobre esses dois anos tão extraordinários. Como descreveria Puyi enquanto imperador e político, particularmente na sua relação com os japoneses? Foi um estratega ou um derrotado pelas circunstâncias? Era apenas um rapaz e, depois, um jovem adulto. Quando foi expulso da Cidade Proibida tinha pouco mais de vinte anos. Nasceu completamente fora do seu tempo. Foi proclamado imperador antes de completar três anos, por decisão da imperatriz viúva Cixi, e nunca chegou verdadeiramente a conhecer uma China monárquica. A sua situação era única: era um imperador sem império, um soberano sem reino. Não tinha qualquer papel nem uma função real. Escapou ao destino dos Romanov, na Rússia (a execução), mas foi condenado a viver encerrado naquela cidadela murada que era a Cidade Proibida. Na verdade, nunca pôde escolher praticamente nada na sua vida: nem a educação, a casa ou o casamento. Será assim surpreendente que tenha sido politicamente ingénuo e que tenha tomado más decisões? Também não ajudou o facto de o seu principal tutor, Reginald Johnston, lhe ter incutido a ideia de que era um imperador ao nível do rei de Inglaterra ou do imperador do Japão. Além disso, não devemos esquecer que Puyi era manchu, o último imperador de uma das duas “dinastias conquistadoras” da China (a outra foi a dinastia mongol Yuan). Assim, depois da expulsão de Pequim, ficou completamente sozinho, mal aconselhado e impreparado, acabando por se transformar num fantoche dos japoneses na Manchúria. O grande sinólogo de Harvard, John K. Fairbank, considerava Puyi o fim de mil anos de história imperial, da longa sucessão dos “Filhos do Céu” que tinham proporcionado à China um sentimento de unidade e continuidade, agora destruído pela modernidade, mudança e republicanismo. Segundo Fairbank, Puyi foi “a última pedra apanhada sob este rolo compressor” que representou o colapso da dinastia Qing, o nascimento da República e, posteriormente, a guerra contra o Japão. Puyi tinha curiosidade sobre o mundo ocidental? Que visão tinha para a China? Puyi acreditava na monarquia e naquilo a que hoje chamaríamos o “direito divino dos reis e imperadores”. Essa convicção foi reforçada pelos seus professores, sobretudo por Reginald Johnston. Acreditava que talvez pudesse tornar-se um monarca constitucional, à imagem da família real britânica: uma figura simbólica, sem poder político ou legislativo. Johnston incentivava essa ideia. Na verdade, algumas figuras do governo nacionalista de Sun Yat-sen e também alguns senhores da guerra do norte da China viam essa possibilidade com simpatia. Puyi tinha curiosidade pelo Ocidente. Queria estudar em Oxford e via filmes mudos de Hollywood. Contudo, a sua posição e o momento histórico em que viveu eram demasiado singulares para que pudesse realmente conhecer o mundo para além dos muros da Cidade Proibida. Puyi teve várias esposas, uma das quais desenvolveu dependência do ópio. Como eram essas relações? O meu livro centra-se sobretudo na relação entre Puyi e Wanrong. Ambos eram adolescentes quando o casamento foi arranjado. As narrativas chinesas e ocidentais sempre apresentaram esta união como um casamento sem amor (e, naturalmente, sem filhos), retratando Puyi como uma pessoa fria, emocionalmente distante e até assexual. No entanto, os diários de Isabel Ingram relativos aos últimos dois anos na Cidade Proibida e as cartas de Johnston escritas na época mostram um casal muito diferente. Eles eram próximos. Ingram afirma claramente que existia carinho e intimidade física entre ambos. Jogavam ténis juntos, andavam de bicicleta, viam filmes, encomendavam refeições de hotéis ocidentais de Pequim para experimentar novos sabores e partilhavam uma paixão comum pela fotografia. Quando Puyi teve de tomar decisões difíceis, Wanrong apoiou-o. Mais tarde, já na Manchúria, após a expulsão, acabaram por se afastar. Wanrong percebeu que Puyi tinha cometido erros gravíssimos, caiu na dependência do ópio e morreu ainda jovem. Foi uma verdadeira tragédia. O meu livro apresenta também novas fontes sobre a relação entre Puyi, Wanrong e Wenxiu, a sua consorte. Que detalhes desses relacionamentos pode destacar? Ao contrário da imagem tradicional de rivalidade, Wanrong e Wenxiu eram amigas e apoiavam-se mutuamente nas circunstâncias muito particulares em que viviam. Incluo cartas e passagens de diários que descrevem animadas festas nos jardins, frequentadas pelos três, bem como fotografias onde aparecem juntos a rir, a sorrir em piqueniques, a fumar e até a brincar em baloiços. Mais tarde, Wenxiu acabaria por “divorciar-se” de Puyi, e tudo indica que ele lhe desejou sinceramente felicidade para o resto da vida. Tanto a relação de Puyi com Wanrong como com Wenxiu, assim como a amizade entre as duas mulheres, são documentadas através destas novas fontes e revelam uma história muito diferente daquela que durante décadas imaginámos. Pu Yi viveu até meados da década de 1960, atravessando a guerra civil chinesa e o início da Revolução Cultural. Como viveu esse período? Que visão tinha do maoísmo? Naturalmente, é impossível ignorar que, ao aceitar tornar-se imperador do Manchukuo, o Estado fantoche criado pelos japoneses na Manchúria, e ao apelar aos chineses para que não resistissem ao Japão, Puyi foi considerado um traidor. Essa decisão marcou profundamente a forma como passou a ser visto. Foi submetido a um longo processo de “reeducação” antes de poder regressar a Pequim. Primeiro trabalhou como varredor de ruas — perdia-se constantemente porque praticamente não conhecia a cidade além da Cidade Proibida — e, mais tarde, tornou-se jardineiro. Casou novamente e esse casamento foi feliz. Recebeu alguma protecção de Zhou Enlai quando houve quem defendesse que deveria ser severamente castigado e, já no final da vida, os Guardas Vermelhos quiseram torturá-lo quando começou a Revolução Cultural. Zhou Enlai, que o convidou várias vezes para almoçar em Zhongnanhai, disse-lhe uma vez: “Não tiveste qualquer responsabilidade por te tornares imperador aos três anos… Mas és inteiramente responsável pelo que aconteceu depois.” Naturalmente, Puyi manteve-se em silêncio sobre política e sobre o maoísmo. Viveu os seus últimos anos discretamente. A sua vida tinha sido demasiado invulgar, demasiado isolada, e ele tinha sido sucessivamente manipulado pela corte Qing, pelos japoneses e, finalmente, pelos comunistas, para poder ser visto como algo mais do que uma anomalia histórica: o último imperador da China. Espero que o meu novo livro, ao revelar estas novas fontes e as perspectivas de testemunhas oculares dos últimos anos vividos na Cidade Proibida, mostre claramente um jovem que, ainda que por pouco tempo, teve a oportunidade de construir uma vida produtiva e uma relação amorosa feliz. Infelizmente, o peso da História acabou por ser demasiado grande.