Ásia | Fraudes e drogas sustentam “economia criminosa multinacional”

As Nações Unidas divulgaram ontem o relatório “Um Ecossistema Criminal Interconectado: Avaliação da Ameaça do Crime Organizado Transnacional no Sudeste Asiático 2026”, que indica que a região funciona, cada vez mais, como um centro de crime organizado com ligações ao tráfico de droga e burlas

O crime organizado no Sudeste Asiático transformouse em “economia multinacional” capaz de desafiar Estados, com perdas anuais superiores a 100 mil milhões de dólares em fraudes, alerta um novo relatório das Nações Unidas.

“Estamos a assistir a uma mudança em que grupos que antes actuavam apenas nos seus territórios e especialidades criminais operam agora em múltiplos mercados ilícitos ao mesmo tempo, recorrendo às mesmas cadeias de serviços”, disse a representante regional do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), Delphine Schantz, num comunicado.

O estudo, intitulado “Um Ecossistema Criminal Interconectado: Avaliação da Ameaça do Crime Organizado Transnacional no Sudeste Asiático 2026”, descreve como diferentes actividades ilícitas – do tráfico de pessoas à fraude cibernética – estão a ser integradas numa infra-estrutura financeira e operacional comum.

Segundo o relatório, o crime organizado está a deslocarse do tráfico de bens físicos para a venda de serviços digitais, como fraudes online e liquidações financeiras em plataformas, difíceis de rastrear.

As perdas anuais com esquemas fraudulentos em 2025 foram estimadas entre 88,3 mil milhões e 114,1 mil milhões de dólares, superando o Produto Interno Bruto (PIB) de vários países da região. A expansão levou ao aumento do tráfico de pessoas para actividades criminosas forçadas, com vítimas de, pelo menos, 80 países, identificadas em complexos de fraude na região, com redes de recrutamento que procuram alargar o alcance à Europa e América do Norte.

O relatório sublinha que o Triângulo Dourado continua a ser o principal centro de produção de metanfetaminas, ketamina e heroína, com um valor anual estimado entre 75 mil milhões e 109,7 mil milhões de dólares.

O texto destaca também o Triângulo SuluCelebes, entre Indonésia, Malásia e Filipinas, como novo corredor estratégico para contrabando marítimo, incluindo tecnologia usada em operações de fraude.

Entre os mercados emergentes, a investigação da ONU aponta para o risco crescente da convergência entre jogos online e apostas ilegais, que torna os jovens particularmente vulneráveis. “A linha entre jogo digital e jogo de azar está cada vez mais difusa”, alertou Schantz.

O relatório identifica ainda tendências tecnológicas como inteligência artificial generativa, ‘deep fakes’ e fraudes automatizadas, incluindo “malvertising”, que explora redes de publicidade legítimas para disseminar malware. “Uma estratégia centrada apenas na disrupção não funciona”, disse Schantz. “É preciso atacar os motores do crime, prevenir e seguir o dinheiro. A apreensão de lucros ilícitos enfraquece estas redes e protege potenciais vítimas”, concluiu.

 

Os antecedentes

Segundo o mesmo estudo, desde que foi divulgada, em Abril de 2019, a última avaliação sobre a ameaça do crime organizado transnacional na região do Sudeste Asiático, “o panorama regional da ameaça do crime organizado transnacional sofreu uma mudança complexa e de grande alcance, devida principalmente ao rápido crescimento da criminalidade facilitada pelas tecnologias digitais”. Desta forma, deu-se uma mudança no “panorama regional das ameaças e o ecossistema criminoso, bem como a escala, a sofisticação e a disponibilidade do ‘crime como serviço’ e de outros serviços criminosos ilícitos”, pode ler-se.

O relatório destaca como o Sudeste Asiático “está a emergir como uma das principais regiões que moldam o ecossistema global do crime organizado transnacional”. Verifica-se, deste modo, “uma mudança estrutural de um modelo associado principalmente a mercados ilícitos discretos e, em grande parte, intrarregionais, para um modelo em que múltiplas economias criminosas operam de forma integrada e que se reforçam mutuamente, ultrapassando as fronteiras regionais”.

Tal mudança deve-se, em parte, a uma “combinação de desenvolvimentos geopolíticos”, bem como a “integração cada vez mais rápida de tecnologias emergentes nas operações criminosas”. Assim, deu-se a “proliferação de centros de fraude à escala industrial”, ocorrendo um cenário em que “grupos de criminalidade organizada expandiram tanto a escala como a complexidade das suas actividades”.

O mesmo documento dá conta que o Sudeste Asiático tem vindo a tornar-se “uma base operacional cada vez mais importante a partir da qual as redes criminosas coordenam uma gama diversificada de actividades ilícitas, cujos impactos se estendem muito além” da região.

Em causa estão “fraudes cibernéticas que visam vítimas em todo o mundo, o tráfico de pessoas provenientes de vários países para operações criminosas e a movimentação e branqueamento de rendimentos ilícitos através de sistemas financeiros regionais e internacionais interligados”.

 

Drogas para o mundo

A dificuldade para rastrear este tipo de criminalidade está intimamente ligada ao uso da tecnologia. “Uma parte crescente das receitas criminosas provém agora de operações baseadas em serviços, fraudes cibernéticas, fornecimento de infra-estruturas criminosas e liquidações financeiras através de plataformas”, destaca a ONU.

São, no fundo, “operações que não exigem que mercadorias físicas atravessem fronteiras e geram receitas que são substancialmente mais difíceis de rastrear, apreender e atribuir a actores criminosos específicos, principalmente devido à sua natureza virtual”.

Relativamente ao Triângulo Dourado, o relatório fala de uma “notável resiliência das actividades criminosas” que operam nesta área. Em causa estão “restrições persistentes de acesso, pela presença de uma miríade de grupos armados não estatais e por redes criminosas descentralizadas e fluidas”.

No que diz respeito aos estupefacientes, lê-se que “a metanfetamina constitui o núcleo da economia das drogas ilícitas para o crime organizado no Sudeste Asiático, com vendas a retalho estimadas em gerar entre 48,1 mil milhões e 74,8 mil milhões de dólares americanos anualmente — cerca de 70 por cento do total combinado do mercado de metanfetamina, heroína e ketamina”.

Estes números representam “um aumento de aproximadamente 20 por cento em comparação com a última estimativa apresentada” na anterior avaliação, em 2019.

“Apesar das apreensões recorde de metanfetamina registadas praticamente todos os anos ao longo da última década, os preços diminuíram em muitos países da região, enquanto os níveis de pureza se mantiveram elevados — tendências que indicam que o mercado é, em grande medida, impulsionado pela oferta e que as redes de crime organizado são fundamentais para esta evolução”, é referido.

Ainda relativamente à ketamina, é descrito como se tornou num “dos mercados de drogas que mais cresce no Sudeste Asiático”, sendo que o crime organizado visa “cada vez mais a região como uma base de produção fundamental”.

A droga fabrica-se mais na região do baixo Mekong, “tendo sido observado pela primeira vez no Myanmar, depois no Camboja e na República Democrática Popular do Laos e, mais recentemente, no Vietname”. No ano passado, a quantidade de ketamina apreendida na Ásia Oriental e também no Sudeste Asiático “atingiu um recorde de 52,5 toneladas, com aproximadamente 46,2 toneladas apreendidas no Sudeste Asiático, o que representa um aumento de mais de três vezes em relação à quantidade apreendida em 2024”.

“Os cinco países do baixo Mekong e a vizinha Malásia, por si só, representaram 97 por cento do total do Sudeste Asiático”, com um valor de vendas de ketamina no Sudeste Asiático e Leste Asiático a atingir “entre 2,7 mil milhões e 7,2 mil milhões de dólares americanos”.

Já a heroína “ganhou uma importância renovada”, ainda que “as drogas sintéticas dominem o mercado regional de drogas”.

A ONU refere que “as 1.010 toneladas de ópio em bruto que se estima terem sido produzidas no Myanmar em 2025 representam o segundo nível mais elevado desde 2005”, sendo “quase 2,5 vezes superior à estimativa feita há cinco anos, com o valor total da economia nacional de opiáceos do Myanmar a situar-se entre 641 milhões e 1,05 mil milhões de dólares”. Valores equivalentes a “0,9 e 1,4 por cento do PIB do país”.

“O aumento da produção de ópio no Myanmar e os sinais de um maior consumo de heroína nos mercados a jusante, incluindo corredores emergentes para a África Ocidental e a Europa — anteriormente abastecidos pelo produto afegão —, sugerem que a heroína está a expandir-se a par das drogas sintéticas, e não a substituí-las”.

O Myanmar parece ter-se tornado, assim, a fonte de três rotas para este tráfico transfronteiriço, com o documento da ONU a referir “uma rota virada para a China através do norte do Estado de Shan, particularmente em torno do corredor Lashio-Muse; uma rota oriental de Shan que liga Myanmar à Tailândia e à República Democrática Popular do Laos; e uma rota para oeste, em direção ao nordeste da Índia.”

Outras drogas destacadas são ainda a canábis e cocaína, tendo a canábis traficada a partir da Tailândia sido “apreendida em vários países europeus”. O tráfico destes dois tipos de estupefacientes “demonstram a crescente exposição do Sudeste Asiático a fluxos de tráfico internacional mais amplos”.

Novamente o triângulo marítimo de Sulu-Celebes surge nesta equação, sendo identificado como um “corredor cada vez mais importante para o trânsito de cocaína proveniente da América Latina”. Assim, é indicado que “o Sudeste Asiático está a funcionar não só como uma região de origem para as exportações de drogas, mas também como um ponto de trânsito e destino emergente para fluxos originários de fora da região”. A.S.S. /Lusa

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