Ai PortugalNo melhor pano cai a nódoa André Namora - 20 Jul 2026 Quando um homem português se põe a pensar pode ser assim: Dei por mim a pensar nos tempos de infância e adolescência. E até nos corredores do liceu e da faculdade onde fiz vários amigos. Nas brincadeiras de rua conheci o Zé, que mais tarde quando acabou a tropa optou por ser empreiteiro de obras públicas. Eu segui a minha vida e um dia fui para director da Polícia Judiciária. Um cargo levado dos trabalhos. Não foi nada fácil lidar com agentes, inspectores, directores de departamentos, procuradores e políticos. Os contactos e as pressões políticas são mais que muitas. A luta que se tem de travar com o segredo de justiça é constante e é quase impossível evitar fugas de informação. As mafias que reinam em Portugal são do mais diverso cariz e origem, especialmente as colombianas e brasileiras. O tráfico de seres humanos e de drogas ocupam grande parte do trabalho de todo o pessoal na polícia que investiga o crime. A pesquisa informática dos hackers criminosos e dos pedófilos é um trabalho minucioso e cansativo. Por vezes, existem casos que nos chocam profundamente porque envolvem pessoas que conhecemos. Outras vezes, o pessoal sente-se desgostoso porque andou meses ou anos a investigar um caso, conseguiu as provas, deteve os fulanos que supostamente cometeram crimes (de corrupção nem falar) e depois os juízes nas barras dos tribunais mandam-nos em liberdade ou com penas suspensas. Ser director de uma Polícia Judiciária deve ser dos cargos mais incómodos e até perigosos. Vocês dirão que temos guarda-costas e que ganhamos bem. Certo. Mas, por vezes não compensa. As reivindicações do pessoal são imensas. E na maioria dos casos tem razão. Para comprar carros novos inventa-se dinheiro sei lá aonde. Para reparar uma delegacia que precisa de obras é um problema que leva um tempo quase infinito. Agora, por falar em obras. Quando em Bragança e em Beja me disseram que as delegacias estavam a cair de podre, que chovia no seu interior e que os inspectores queriam ir para uma greve de braços caídos, dei por mim a pensar que tinha de fazer alguma coisa rapidamente. Foi então, que me lembrei do meu amigo Zé, o empreiteiro de obras públicas que até tinha fama de bom profissional, apesar de já ter tido uns problemitas e, sendo meu amigo lá da terrinha, iria certamente cumprir a preceito as obras necessárias nas delegacias. Nunca tive melhor ideia. O Zé empreiteiro foi um ás e o pessoal ficou todo contente. E ele, igualmente satisfeito porque mamou dos trabalhos mais de dois milhões de euros do Estado. Como a vida dá muitas voltas, um dia recebi um telefonema de um primeiro-ministro, que por sinal tinha um problema bicudo em investigação, mas que eu tudo fiz para o ir passando para as calendas. Esse chefe do Executivo veio convidar-me para ministro. Oh pá, isso é algo que não podes negar, pensei logo para mim próprio. E assim foi. Tomei posse como ministro, tendo a noção de que as críticas iriam surgir devido ao facto de uma pessoa passar da investigação judicial para mandar nas polícias. O trabalho ia de vento em popa e até em alguns círculos dizia-se que eu estava a ser o melhor ministro, passe a imodéstia. Qual não foi o meu espanto, quando certa manhã, quando estava a fazer a barba, o meu filho entra aos gritos pela casa de banho: “Ó pai, que ganda merda, está aqui um jornal e um cabrão de um jornalista a arrasar-te! Diz em manchete que puseste o teu amigo Zé empreiteiro a fazer as obras das nossas casas e as piscinas no nosso monte do Alentejo sem pedires licença à Câmara Municipal… e que deste ao empreiteiro o camião que foi apreendido pela tua PJ no tráfico de droga… isto é uma ganda bronca e as televisões já estão todas a falar no assunto e a dizer que há conflito de interesses e que deves pedir a demissão!”. Fiquei atónito e apenas respondi: “Mas tu não tinhas ameaçado esse cabrão do jornalista?”. O meu filho, retorquiu: “Sim, pai! Até atravessei o carro à frente do carro do gajo e disse-lhe que se escrevesse alguma linha contra ti que o atirava ao mar!”. Não tive outro remédio senão ir para as televisões tentar desculpar-me e dizer que mal conhecia o empreiteiro, que sobre as obras na PJ assinei de cruz, que iria mostrar todos os comprovativos de despesa e tudo o que fosse necessário para me limpar. Não consegui. As televisões e jornais não me largam e continuaram toda a semana a falar no assunto. Alguns até já dizem que recebi umas luvas do Zé empreiteiro para ele conseguir todas as obras nas delegacias e que lhe dei obras por ajuste directo. A coisa está preta para o meu lado, mas em Portugal o tempo é que conta. Estou convencido que a falta de água na Caparica e os incêndios acabarão por fazer esquecer este meu erro de escolher o Zé empreiteiro para as obras das minhas casas, porque à boa maneira do costume político português, pedir a demissão é que não me interessa nada. Foi só uma nódoa que caiu na minha toalha de mesa…