Grande PlanoResidentes do Iao Hon descrentes em relação à reabilitação Hoje Macau - 5 Jun 2026 As autoridades avançaram com um plano de demolição do bairro de Iao Hon, mas o projecto enfrenta muros intransponíveis e os residentes não acreditam que a reabilitação avance. A deterioração dos edifícios do bairro há muito que começou a fazer-se sentir, com fissuras visíveis no betão armado na generalidade das infra-estruturas, saneamentos entupidos, e infiltrações. Francisco Vizeu Pinheiro, arquitecto, disse à Lusa que os edifícios “deviam ser reconstruídos”, que “o sistema de água devia ser todo substituído”, e que os prédios deviam dispor de elevadores, atendendo à idade avançada de muitos residentes. As actuais condições de vida no Iao Hon levaram vários residentes a pedir a renovação do complexo, mas, apesar de planos já aprovados pelas autoridades, ainda não existe uma data oficial para as obras. Um dia destes Um plano, a cargo da Macau Renovação Urbana (MUR, na sigla inglesa), foi divulgado em Abril para apenas um edifício – Son Lei, que é, de facto, um complexo de sete edifícios -, tendo como objectivo aumentar as unidades residenciais do lote de 224 para 236. O plano prevê o aumento de 20 por cento da área útil bruta por fracção, com a altura máxima dos edifícios a atingir os 90 metros e o índice de aproveitamento do terreno a crescer de seis para dez. Pelo menos 35 por cento da área do terreno deverá ser ocupada por espaços verdes, uma raridade no bairro actual. O ‘site’ Macaobuilding.net, uma plataforma ‘online’ local sobre engenharia e construção, apontou que o início da construção estaria previsto para 2028. A Lusa questionou a comissão de Planeamento Urbano de Macau da Direcção dos Serviços de Solos, Construção Urbana e Habitação sobre a data prevista para a demolição do bloco em causa, mas não obteve resposta em tempo útil. A MUR também não confirmou a data prevista no ‘site’ de engenharia e construção. O deputado e engenheiro civil, Leong Hong Sai, admitiu em declarações à Lusa que a data prevista “provavelmente não se concretizará”, devido ao facto de “não haver pessoas suficientes a concordar” com o plano. Paredes como esponjas Ao abrigo da lei de renovação urbana de Macau, edifícios com mais de 40 anos necessitam de 80 por cento de concordância dos proprietários para qualquer projecto de renovação avançar. Um estudo da MUR de 2021, que cobriu 70 por cento das unidades do Iao Hon, concluiu que entre os proprietários 90 por cento querem a reconstrução, mas apenas 55,2 por cento estão “dispostos a pagar a sua parte”. Chen Wo In, de 81 anos, que comprou o apartamento no Iao Hon na década de 1980, luta há anos pela reabilitação do complexo. Em Abril deste ano, entregou uma carta ao Governo a pedir que este lidere o projecto de reabilitação. Confrontada com a ideia de que a lei impõe custos aos proprietários pela reabilitação, respondeu com um grito: “É impossível! Não pode ser!”. Filipe Afonso, arquitecto, estima que o plano da Macau Renovação Urbana prevê que cada apartamento T1 irá custar “pelo menos, dez milhões de dólares de Hong Kong”, de acordo com preços de mercado. “Eles [os proprietários] compraram os apartamentos por 20.000 dólares de Hong Kong na época. Não têm dinheiro para pagar o preço de mercado actual”, sublinhou. Numa visita ao bairro com a Lusa, o arquitecto apontou vários “problemas de segurança”: “os edifícios estão a desfazer-se, pedaço a pedaço”. Afonso explicou ainda que os prédios foram construídos como “casas de legos”, com escadas e colunas pré-fabricadas, e que há infiltrações “por todo o lado” nas paredes exteriores, construídas apenas com cimento, o que faz com que “absorvam água como uma esponja”. O Iao Hon não beneficiou de “qualquer manutenção desde que foi construído, nos anos 1970”, observou.