Via do MeioO Sacrifício dos Deuses Ana Cristina Alves - 3 Mar 2026 Ana Cristina Alves – Investigadora Auxiliar e Coordenadora do Serviço Educativo do Centro Científico e Cultural de Macau O mito de origem popular “Pangu Separa o Céu” (盘古开天Pángǔ kāi tiān) remonta ao Período dos Três Reinos (三国, 220-280) e ao seu Registo do Calendário Três Cinco (《三五历纪》)2, de acordo com os dados da enciclopédia online Baike.Baidu, onde surge exposta a teoria cosmológica Hun Tian (“浑天说”), que significa «teoria do Globo Celestial» ou, numa tradução menos literal, «teoria do ovo cósmico»”3 : No Registo do Calendário Três Cinco pode ler-se “O Céu e a Terra estavam ligados como um ovo, tendo originado Pangu. Na teoria Hun Tian, a esfera celeste envolve a terra, e o centro onde o Céu e a Terra se encontram é conhecido como «o centro geográfico». Foi em Luoyang que Pangu nasceu, nessa altura o Céu e a Terra ainda não se tinham separado, o universo era uma mistura caótica. Pangu dormiu neste caos por 18 mil anos. Certo dia, de repente acordou. À volta, reinava um escuro de breu. Ele ergueu um grande machado com o qual lutou contra a escuridão. Esta foi-se dissipando com um estrondo imenso. O que era leve começou aos poucos a subir, transformando-se no Céu; o que era pesado foi descendo progressivamente e tornou-se a Terra. Depois de o Céu e a Terra se terem separado, o titã temeu que eles se voltassem a unir, para que tal jamais fosse possível, firmou a cabeça contra o Céu, deixando os pés bem assentes na Terra. E foi assim que o Céu subiu para o alto, afastando-se todos os dias três metros e pouco da Terra. Também ele acompanhou durante muitos anos o crescimento do Céu, cada vez mais alto e distante. Quando o Céu e a Terra já estavam totalmente formados, Pangu tombou exausto. Após a sua queda, o corpo dele sofreu as maiores alterações: A respiração transformou-se no vento e nas nuvens das quatro estações; a voz em estrondosos trovões; os olhos no sol e na lua, os quatros os quatro pontos cardeais da Terra, leste, oeste, sul e norte; os músculos e a pele na vasta extensão da Terra; o sangue em pequenos e grandes rios sempre a fluir e o suor, na chuva e orvalho que nutrem os dez mil seres. 据《三五历纪》记载,“天地浑沌如鸡子,盘古生其中” 。浑天说中,球壳状的天包着地,天与地的中心就是“地中”,即洛阳 ,盘古生于此。当时天和地还没有分开,宇宙 一片。盘古在这个混沌的宇宙中睡了一万八千年 。有一天,盘古突然醒了。他见周围一片漆黑,他就抡起大斧头,朝眼前的黑暗猛劈过去了。只听一声巨响,一片黑暗的东西渐渐分散开了。轻清的东西缓缓上升,变成了天;重浊的东西慢慢下降,变成了地 。 天和地分开以后,盘古怕它们还会合在一起,便头顶着天,脚蹬着地。天每天升高一丈,盘古也随着天越长越高。这样不知过多少年,天和地逐渐成形了,盘古也累得倒下来了。 盘古倒下后,他的身体发生了极大的变化。他呼出的气息,变成了四季的风和云;他发出的声音,化作了隆隆的雷声;他的双眼变成了太阳和月亮;他的四肢,变成了大地上的东、西、南、北四极;他的肌肤,变成了辽阔的大地;他的血液,变成了奔流不息的江河;他的汗,变成了滋润万物的雨露。 João Marcelo Martins em A Gramática Universal do Mito (2023, 142) chama a atenção para os vários sentidos etimológicos do nome de Pangu (盘古),que, numa leitura possível se aproxima da fonética da palavra «cabaça», Páohù (匏瓠), tendo esta na cultura chinesa o sentido simbólico de reprodução de vida, há ainda outras possibilidades interpretativas em torno do nome deste grande titã, como a de uma «antiguidade espiralada» (Ibidem), por causa de um dos sinogramas ser 古 (gǔ), que significa «antigo», enquanto o outro 盘 (pán), pode ser traduzido por «espiralar». A verdade é que este mito chinês do ovo cósmico se encontra em várias mitologias, como por exemplo na órfica da Grécia antiga, nas quais se enfatiza a imagem de um grande ovo do qual brotaram, quais pintos, todos os seres do universo, incluindo as próprias bases do mesmo – o Céu e a Terra. Panorama idêntico nos apresenta a mito de génese chinês. Neste mito de criação, é-nos facultada uma imagem que apela a uma mistura caótica, na qual está imerso o universo numa escuridão total. Depois, assiste-se ao sacrifício do titã, que consegue separar e constituir as duas forças básicas, representantes do princípio masculino Yang (阳), o Céu e do princípio feminino Yin (阴), a terra. Toda a criação é um ato de sacrifício do portentoso, que começa nos milhares de anos em que a força divina separa os elementos e culmina com a exaustão do titã. É do corpo de Pangu e, por transformação, que surgem todos os seres vivos, celestiais e telúricos. Há uma energia imanente, viva e animada que mantém um universo ligado, como num só corpo. Os generosos sacrifícios não se ficam por aqui. Nem na China, nem na Grécia antiga, tornam-se muito claros quando se pensa nas descrições encontradas para a criação da humanidade pela Deusa Nϋwa (女娲), que numas versão do mito “Nϋwa cria os seres humanos” (女娲造人Nǚ wā zào rén) depois de criar a humanidade com o auxílio da terra e de encher de gente adormece profundamente, tal era o estado de cansaço e fica-se sem saber se não terá acordado no paraíso para não mais regressar ao mundo. A Deusa, após ter criado os animais, continuava a sentir-se sozinha, pelo que “no sétimo dia, chegou a um lago. Pegou num pouco de barro e misturou-o com água. Ao ver a sua imagem refletida fez um pedaço de barro parecido com ela” (Wang, Alves, 2009, 16). Para que se mexesse, bastou colocar o boneco e a todos os outros que se haviam de seguir, em contacto com a terra. A energia desta, animava-os, sendo por si só indispensável na passagem dos bonecos para a criação da humanidade. Tal como sucedeu no mundo grego antigo, o cosmos surge do vazio e do Caos primordial, depois, por geração espontânea, conta-se na teogonia de Hesíodo, manifesta-se a Mãe- Terra Gaia, Eros, o Deus do Amor, e a partir desta todos os elementos deificados: o Céu ou Urano, o Mar e as Montanhas, etc. Gaia, com a ajuda de Urano, gera os restantes filhos, alguns deles criaturas colossais e deformadas como os ciclopes, com cinquenta cabeças e cem braços, além dos titãs, dos gigantes, bem como dos restantes deuses, aos quais Cronos, o deus do tempo chamava titãs, que significava na sua ideia “criaturas arrogantes e ambiciosas”. Os Deuses gregos tinham todos os defeitos e virtudes humanas eram maus, ciumentos, vingativos, mas também bondosos e dadivosos, dependendo o modo como se comportavam dos seus humores. Na Grécia antiga não era a humanidade forjada à semelhança dos deuses, mas, pelo contrário, eram os deuses concebidos à imagem e semelhança da humanidade. Pobres daquelas forças divinas que por amor à humanidade tentaram ludibriar os seus pares, como sucedeu com o titã Prometeu que foi ao Olimpo roubar o fogo dos deuses para dotar a humanidade duma arma poderosa. O episódio sucedeu na sequência de Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu, cujo nome significa “o que pensa depois”, ter dotado os animais, quando os criou com as melhores virtudes que retirou do alforge preparado pelos deuses mais novos: garras, presas, asas, tentáculos, bicos, ferrões, velocidade e tudo o resto que os animais possuem de bom. Prometeu, cujo nome significa “pensador previdente”, ao concluir nada ficar para si na terra que distinguisse a humanidade, foi ao Olimpo, ludibriar e extorquir o fogo dos deuses, dotando assim os seres humanos de inteligência para que se pudessem defender de animais com capacidades físicas muito superiores às deles. Para tal, teve de apanhar distraída Héstia, a deusa virgem do lar, mas o mesmo não sucedeu a Zeus, o líder supremo dos deuses, que não se deixou enganar. Puniu o que considerou ser a suma arrogância do titã ladrão com um suplício terrível. Agrilhoou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e mandou que Hefesto, deus da forja e de outras artes, fabricasse na sua fornalha os grilhões para o acorrentar. O criador da humanidade foi preso pelo Poder e pela Força a um penhasco, de braços e pernas esticadas, agarrado pelos pulsos e tornozelos, sendo visitado diariamente por uma águia voraz, que lhe despedaçava o diafragma e lhe comia o fígado. Ésquilo (525- 456 a.C), o grande dramaturgo grego relata o suplício, inspirado pela Teogonia de Hesíodo, na tragédia Prometeu Agrilhoado, deixando o herói desabafar no final da peça que relata a sua aventura da dádiva do fogo à Humanidade: (…) Eis a rajada que, para sobre mim trazer terror, foi mandada por Zeus. Oh Majestade! Oh minha mãe! Éter divino! ― Que, pelo mundo além, fazes rolar maravilhoso hino : a Luz ― supremo bem, a iluminar o trágico destino de toda a gente ! Vê como é grande a minha desventura, A dor que me tortura ― Injustamente!… (Ésquilo, 1946, 115) O sacrifício de Prometeu terá eco no mundo cristão, no qual o filho de Deus, Jesus Cristo, também se sacrifica por amor à Humanidade. Morre na cruz para salvar os homens, que invariavelmente se portam mal. Mas há uma grande diferença na maneira de encarar o cosmos de chineses e cristãos, com a Grécia antiga a estabelecer a ponte entre ambas as mundividências. Na perspetiva cristã, Deus criou o mundo a partir do nada (Creatio ex nihilo) . É uma criação transcendente, pessoal e com assinatura de artista. O fruto da criação talvez não tenha sido o melhor, mas ficará sempre por explicar como entrou o mal no mundo, mesmo com Santo Agostinho a defender a teoria do livre-arbítrio humano. Aqui fica o relato da criação ex nihilo no livro do Génesis do Antigo Testamento (Gn 1): No princípio Deus criou o Céu e a Terra. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus disse: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou «dia» e às trevas chamou «noite». Houve uma tarde e uma manhã, foi o primeiro dia. Depois seguiu-se a criação do firmamento, ao qual Deus chamou céu no segundo dia. No terceiro dia, criou a terra, o mar e as plantas. No quarto dia foram criados o sol, a lua e as estrelas. No quinto dia, os peixes, os pássaros e todos os seres vivos. No sexto dia, os animais foram divididos em espécies e foi ainda criado o homem. No sétimo dia descansou. Relativamente à criação da humanidade, Deus numa das versões cria-as diretamente e à sua imagem e semelhança (Gn 1, 27-31), na outra cria primeiro o homem e depois a mulher partir da costela deste (Gn 2,18-23). Após o que, é percorrido um longo caminho até se chegar ao Novo Testamento e ao sacrifício de Jesus Cristo, morto na cruz por amor à humanidade. Há uma grande diferença, do ponto de vista filosófico, entre as cosmologias imanentistas chinesa e grega e a transcendente cristã. As primeiras obedecem ao princípio da transformação de elementos que estiveram desde sempre imersos no caos primordial e, portanto, apresentam uma imagem cosmológica interrelacionada, em que os elementos ou os dez mil seres possuem afinidades de raiz que lhes permitem comunicar e transmutar-se sempre que necessário. Os deuses gregos, por exemplo, assumem as formas que desejarem, tal como as divindades e imortais chineses. Já no Ocidente cristão a ausência de um ovo cósmico ou de um caos primordial dificulta e impede a transmutação. Os seres estão todos separados e numa posição exterior em relação à divindade, já que se é feito à imagem de deus, não se é o próprio divino e para se alcançar esse estatuto supõe-se uma união mística com o mesmo. O profano exterior, cindido, distante terá de percorrer um longo caminho, que talvez implique o martírio e o sacrifício já anteriormente vivido pelo filho de Deus. De qualquer modo, mesmo no âmbito de filosofias imanentistas, guiadas pelo princípio da transformação, o sacrifício também está sempre presente, quando aliado ao amor à humanidade, como no caso de Prometeu ou, em parte de Nϋwa; ou sem amor, mas por essência natural, quando a aliança é feita com o tempo, se for considerado o exemplo de Pangu. Os deuses são sacrificados, porém não estão sozinhos. O sacrifício é universal, porque as criaturas naturais são também martirizadas por amor ou pelo tempo nas três cosmogonias apresentadas, imolam-se às divindades, umas mais distantes, outras tão próximas que só de dentro conseguem ser intuídas. Referências Bíblia Sagrada. 1997. São Paulo: Paulus. Ésquilo. 1946. Prometeu Agrilhoado. Tradução de Eduardo Scarlatti. Lisboa: Livraria Luso-Espanhola, Lda “浑天说” (teoria Hun Tian) In Baidu. Baike. https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink, acedido a 25 de fevereiro de 2026. “盘古开天” (Pangu separa o Céu). In Baidu. Baike. https://baike.baidu.com/item/%E7%9B%98%E5%8F%A4%E5%BC%80%E5%A4%A9/74007,2008年6月7日, acedido a 24 de fevereiro de 2026. Johnston, Sarah Iles. 2025. Deuses e Mortais. Odivelas: Alma dos Livros Martins, João Cancelo. 2023. A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem. Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau, Universidade de Macau. Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. Mitos e Lendas da terra do Dragão. Lisboa: Caminho. Notas: I Este espaço conta com a colaboração do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, sendo as opiniões expressas no artigo da inteira responsabilidade dos autores. De acordo com o estudioso João Martins em A grmática Universal do Mito. Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem (2023, 143, nota 100) O Calendário Três Cinco diz respeito aos registos históricos já perdidos das Três Divindades Soberanas e dos Cinco Deuses. iii A teoria Hun Tian, fundada por Zhang Heng (张衡), um astrónomo da Dinastia Han, é uma teoria astronómica entre as teses geocêntrica e heliocêntrica, na qual se defende que o universo é infinito, o movimento dos corpos celestes é regular, a luz da lua é o reflexo da luz solar e os eclipses lunares são causados pela Terra bloqueando a luz solar. Para comprovar a sua Teoria Hun Tian, Zhang Heng construiu a primeira “esfera armilar movida a água”, inaugurando uma era de observação astronómica mais precisa. Utilizou então dados de observação astronómica mais rigorosos para corroborar a sua teoria na explicação de diversos fenómenos celestes, influenciando a astronomia por mais de 1500 anos. (cf https://baike.baidu.com/item/%E6%B5%91%E5%A4%A9%E8%AF%B4/717090?fromModule=lemma_inlink)