Bloomsday – O dia de Joyce

«Música de Câmara XX»
“No escuro pinhal,
Na sombra fria,
Aos dois eu punha
No pleno dia.
Quão doce beijar
Pôr-se ali
Onde os pinhos altos
Se enavilham!
Teu beijo pousando
E mais tenro
Junto ao caos macio
Dos cabelos.
Ó, no bosque dos pinhos,
No dia do meio,
Vem junto agora,
Amor ao pleno”.
James Joyce (1882/1941)

 

O dia 16 de Junho, o «Bloomsday», é o dia instituído na Irlanda para homenagear o personagem Leopold Bloom, protagonista de «Ulisses», de James Joyce. Em todo o Mundo, é o único dia dedicado ao personagem de um Livro.

«Nós» portugueses somos os únicos que comemoramos o Dia Nacional – 10 de Junho – através da data que assinala a morte (1580) do «príncipe dos poetas portugueses», o Homem que «cantou» o dobrar do cabo das Tormentas, «para servir a Pátria, ditada minha amada».

Honrar Camões, poeta da «Bíblia da Pátria», foi o objectivo inicial ao adoptar o «10 De Junho» como o «Dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas».

Apesar de não ser feriado, o «Bloomsday» é comemorado um pouco por todo o Mundo – é o dia dedicado a Leopold Bloom, protagonista do livro «Ulysses», de James Joyce, em vários lugares e em várias línguas.
Em Dublin, os fãs da obra refazem o percurso dos personagens pelas ruas da cidade conforme descrito por Joyce.

«Ulisses», nome latinizado do herói, é uma recriação moderna da «Odisseia» de Homero. É uma personagem eterna. Publicado a 2 de Fevereiro de 1922, dia do seu aniversário, em Paris, o romance – epopeia (tragédia do quotidiano) – «Ulysses», escrito entre 1914 e 1921, em Trieste, Zurique e Paris, foi um livro proscrito em todos os países anglo-saxónicos, incluindo os Estados Unidos da América e o Reino Unido, por conter alguns aspectos impublicáveis, nomeadamente obscenidades.

James Augustine Aloysius Joyce, escritor irlandês, nasceu em Rathgar, subúrbios de Dublin, a 2 de Fevereiro de 1882, filho de família rica católica. Entra numa escola jesuíta, passa pela Universidade de Dublin, onde se forma, e parte para Paris com a intenção de estudar Medicina. Desiste e passa todo o seu tempo a escrever. Modernista, um inovador – a linguagem é a personagem principal – e um dos autores de maior relevância do século XX, tornou-se um dos marcos da literatura ocidental contemporânea. Joyce foi romancista, contista e poeta.

A história de «Ulisses» (um «monstro», nas palavras do autor) narra um dia – 18 horas (dezoito capítulos – começa por volta das 8 horas da manhã e termina após as 2 da madrugada seguinte) – na vida do irlandês Leopold Bloom. «Bloomsday» vem do sobrenome da personagem carismática do livro, e passa-se no dia 16 de Junho de 1904. Bloom, amigo de Joyce, 38 anos, filho de pai judeu, agente de publicidade, imigrante, homem comum, sente-se deslocado na comunidade xenófoba de Dublin, capital da Irlanda – um expatriado tal como Joyce quando escreveu o livro.

James Joyce escolheu o dia 16 de Junho para ser imortalizado na sua obra «Ulisses» – um livro revolucionário no estilo e na concepção -, porque foi nesse dia que fez amor pela primeira vez com Nora Barnacle, jovem camareira do condado de Gallway, que viria a ser a sua companheira para o resto da vida.

As suas obras de maior referência são: «Música de Câmara» – uma antologia de 36 poemas líricos curtos – (Poesia) 1907; «Gente de Dublin» (Contos) 1914 e, os romances «Retrato de um Artista Quando Jovem» (1916) – livro autobiográfico, «Ulisses» (1922) – uma obra de esforço «homérico» e o intrigante sonho «Finnegans Wake».

Fernando Pessoa, num curto rabiscado comentário crítico à leitura de «Ulysses», comparou a arte de James Joyce à de Mallarmé, chamando-lhe «a arte fixada no processo de fabrico, no caminho. A mesma sensualidade de Ulysses é um sintoma de intermédio. É o delírio onírico, dos psiquiatras, exposto como fim.», sentenciando em jeito de conclusão: «Uma literatura de «antemanhã», porventura adivinhando nele a revelação de um novo estilo literário, um novo alvorecer, pressagiando, quiçá, o que iria ser o futuro literário:

«Começa, no ar da antemanhã, A haver o que vai ser o dia…» (in «Começa, no ar da antemanhã»), a escrita de Joyce como “[…] aquela fria Luz que precede a madrugada, E é já o ir a haver o dia […]” (in «Mensagem»).

Joyce faleceu em Zurique, na Suíça, a 13 de Janeiro de 1941. Atrevo-me a encomendar-vos um exercício de imaginação para o fim-de-semana:

E se James Joyce estivesse em Macau, agora mesmo, a escrever o Ulisses? Que trajecto tomaria Bloom (chamar-se-ia como? Nome chinês? português?), que pessoas do dia-a-dia da nossa cidade serviriam para ele retratar as sereias que agora nos encantam, os ciclopes dos nossos temores, as feiticeiras que nos traçam destinos, os deuses com que hoje nos cruzamos…??? Que língua ou línguas falaria? Que batalhas travaria? Que armas escolheria? Também «silence, exile and cunning» (silêncio, exílio e astúcia) do jovem Dedalus?

E se tivéssemos por cá, agora mesmo, um ‘James Joyce’ de verdade, de carne e osso, prestimoso, que se abalançasse a reescrever a epopeia nesta exígua curva recortada na orla meridional do país do meio?…

Macau já teve (e tem) os seus heróis, porventura escassos, demasiado na sombra e humildes, apagados e pouco idolatrados com certeza, para o bem social que precisávamos. Mas as suas vidas, rectidão de carácter e postura mereciam ser contadas e cantadas como a de Ulisses, à visa de inspiração e exemplo para nós, simples mortais.

Sem precisarmos de recuar muito no tempo, muitos de nós já cá viveram anos suficientes para assistir à generosidade, bondade, alegria, humanidade, resiliência, talento e sensibilidade de muitos heróis das causas nobres e justas. Eu próprio tive a honra de acompanhar o passo com alguns heróis que me marcaram profundamente: Lancelote Rodrigues, Carlos d’Assumpção, Manuel Teixeira, Adé, Leonel Barros, Domingos Lam, Silveira Machado, Tomás Bettencourt Cardoso, Henrique de Senna Fernandes, Alberto Alecrim… e os, tantos, sem nome sabido, que praticam o bem em silêncio…

Rejubilo e sensibilizo-me com a força de vontade e abenegação de heróis do presente, aqui, entre nós, como a Irmã Juliana Devoy… ou que partiram recentemente, como o filantropo Stanley Ho. Macau teve, nas suas ruas e pó, heróis que ficaram para a História, como Sun Yat-sen, Wenceslau de Moraes, Camilo Pessanha, João Paulino de Azevedo e Castro, José da Costa Nunes, Arquimínio Rodrigues da Costa, Xian Xinghai…, esperemos que apareçam muitos mais.

Parece que hoje em dia ninguém quer confessar que o outro é melhor que si próprio, que alguém suplanta a mediania, é mais valoroso, solidário, generoso, esforçado, temerário, e nos dá alento, com o seu testemunho, para persistirmos nos valores em que acreditamos e no que realmente vale a pena lutar nesta vida. Todos enfrentamos lutas e chegamos a encruzilhadas, mas poucos lutam as lutas dos outros e vão à luta por todos.

Quem me dera acordar um dia destes e ser (ou não…) feriado – o “Lancelote Day”!!! Aliás, o seu nome até se coaduna com a ideia, nome de outro herói, o lendário cavaleiro da Távola Redonda. Quis o destino que o «nosso» saudoso Lancelote, o do Lac de cá, o Lago Nam Van de Macau, se apressasse a juntar-se aos outros heróis de tarefas cumpridas, no dia seguinte ao Dia de Bloom, a 17 de Junho, faz agora sete anos.

Desafio a pluma mais talentosa da praça a transportar para os séculos XX-XXI tal figura do imaginário e redesenhá-la na pessoa do alegre, bonacheirão e bondoso padre, que foi nosso conterrâneo, e na altura nem sabíamos a sorte que tínhamos de o ter por perto!

 

“Mais do que a obra de um só homem, Ulisses parece de muitas gerações (…). A delicada música da sua prosa é incomparável”
J. Luís Borges, sobre o «Ulisses»de James Joyce, 1937
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