Piquenique na praia e chá

Hoje o senhor que mede a temperatura não sorria como de costume. Perguntou, como habitualmente, se estava bem, enquanto me mostrava os números no termómetro. Mas parecia cabisbaixo.

“Está bem?”, perguntei. Fechou os olhos, franziu as sobrancelhas na testa morena e encolheu os ombros altos. “Estou um bocadinho preocupado. Já sabe do caso da pessoa que esteve em Macau e que acusou positivo?” Sim. Percebi-lhe a preocupação. “Mantenha-se protegido” consegui dizer, antes do “Até logo e obrigada”. Mais tarde, ao trazer-me o almoço, insistiu no bater da porta. Já tinha pendurado o saco na maçaneta, para a refeição não arrefecer no chão. “Insisti porque não quero que o almoço fique frio. É melhor quente” justificou. A refeição de hoje não vai arrefecer, vai estar sempre morna com a intenção deste anónimo, de tez escurinha, olhos negros e rasgados, que traz sempre uma palavra de ânimo por detrás da máscara. Às vezes imagino-lhe as feições. Podem ser tantas.

O Pedro morreu. Recordo os meus primeiros dias em Macau em que ao pesquisar na net por um espaço independente dei de caras com o “Che Che”. Nos comentários online não faltavam referências às particularidades do seu proprietário: “caricato”, “especial”, “com o seu feitio”, etc. Depois de conhecer o dito espaço ao som de Portishead e Laurie Anderson, conheci o Pedro. Tricas e tréguas, whiskey japonês e sempre boa música. Bem-haja.

Tenho que comprar um cesto de vime. Já está combinado. O António teve a ideia com uma recordação de outros tempos, mais felizes, e mostrou-ma numa fotografia. Quando for possível, vamos fazer um piquenique.

No cesto levamos uma toalha aos quadradinhos brancos e vermelhos, copos de vidro e uma garrafa de vinho branco num pequeno saco térmico. A praia vai ter um mar azul, nem que seja só na nossa imaginação. Qualquer Hac Sá ou Cheok Wan servem mesmo com as águas que teimam em manter tons terra. Mas nesse dia, vai estar tudo azul. O céu também.

Mudei a disposição do tapete. Agora o Yoga é de frente para a janela e para a montanha que é mais mágica do que a do Thomas Mann. Depois aqueci água. Deixo-a pousar. Não se deve queimar o chá, ensinaram-me um dia. Com a água mais calma, misturo-lhe as folhas que trouxe da última vez que fui a Zhuhai. Lá o chá é sempre melhor. Fica ali até ver a cor verde, ainda clara, aparecer. É nessa altura que se bebe. Quente e fresco.

Até amanhã

M.M.

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