Do outro lado da linha

“Bom dia, queria por favor pedir o seguinte para 4 quartos….”. Não consegui terminar. Do outro lado da linha, a voz que atende o número 5 deste telefone já me adiantava a especificação de cada quarto e acrescentava “e quer água, certo?”. Sorri para mim, que não tenho mais ninguém para o fazer. “Sim, é isso mesmo, e hoje também agradecia que trouxessem sacos do lixo”. Senti um sorrir do outro lado da linha.

“Quando sair ainda nos conhecemos”, disse. “Espero que sim” responderam-me. Agradeci. Alguns dias depois de muitos telefonemas acima e abaixo, as vozes começam a ser familiares. Sem rosto começamos a conhecermo-nos aqui dentro, a saber dos nossos hábitos e a zelar por eles. É reconfortante. Parece que partilhamos o espaço no anonimato. Só porque somos pessoas.

A Catarina ligou, a minha mãe está bem disposta. O meu pai também. A Sofia gostou de me ler e mandou-me um beijo de manhã.

Fizeram-me o teste há dois dias. Um par de médicos bateu à porta. Pareciam saídos das equipas especiais do Chernobyl. Estava visivelmente nervosa, como estou sempre quando a distância de um médico em serviço é menor que 500 metros. Quem me conhece sabe que desenvolvo uma espécie de fobia a esta malta da saúde. Não tenho nada contra, mas o meu corpo não reage bem à sua proximidade. Os dentistas assumem o pódio. Têm o primeiro lugar na população de quem fujo a sete pés. Depois vêm os outros.

Enfiaram-me um cotonete gigante pela narina acima, mas tiveram o cuidado de me perguntar qual a o lado do nariz que me dava mais jeito. Acho que com a amostra foi também um ou dois neurónios. Senti um ardor que foi aumentando depois para não me fazer esquecer com facilidade o momento. Os médicos não podiam estar melhor. Trataram-me como uma criança. Seguraram-me a cabeça durante o processo antevendo o pulito que ia dar quando aquilo me trepasse cabeça afora. No final ouvi “bom trabalho”.
Não me vieram buscar. Sinal de que estou bem.

As missionárias

Cinco da tarde. Sei que a Cristina e a Vera estão a caminho. Têm agora uma espécie de missão diária que cumprem religiosamente e com todo o apreço. Vêm entregar-nos os sacos. Agora, todos os dias, no lusco fusco, recebo um saco, com bens essenciais e muito mais. No outro dia, como surpresa, puseram-me uma garrafa do meu néctar favorito. Das pequeninas. Ali, encaixada entre o iogurte de frutos silvestres, o tortellini de espinafres e mozzarela, as bananas e a aveia. Brilhava. Era ouro. À noite brindei com a Carla. Até a tampa fez um “tchim” cristalino.

Faz hoje oito dias, levantei voo. Daqui a mais oito, levanto outro.

Até amanhã

Macau, 25 de Março, de 2020

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