Pois nada

“Ão, Ão!”, faz o cão um pouco por toda a parte: trela solta, barriga cheia e meios de condução. Não sabe se tem patrão, porque hoje ninguém sabe a quantas manda, se manda e porque o faz.

Finalmente, o castelo vazio. Máquina quase perfeita. Praga. A primavera da tua cara na minha mão. Os tanques outra vez. Braga e variações de cordame lesto, a soltar uma estrela. E por todo o lado o cão. A fazer “ão, ão!”, ressabiado. Um súbito tornado, a cabeleira loira, o silicone. Um trombone recita o hino, mas fino. O cão faz “ão, ão”. Chama terno pelo patrão. Ele hoje não vem. Está em reunião, está sempre em reunião.

A máquina e a bonança: a marionete não se importa, ela dança e redança pelas ruas. Pas de deux. Beaucoup de quatre. “Ão, ão”, agita o cão. Propriamente. Basta um madeiro, dizia eu, para navegar até ao fim do mundo – se a gente quiser – que é ali atrás daquela esquina, sobretudo depois da cheia neste porto interior. Mas não chegava, porra!… Não alcançava, belzebu!… Só partia, só partia… só velava, na surdez frígida da capela, e no altar, de meu barco, ardia a vela. Ardia também a urze, lentamente, na peneira. Haurido o fumo ficar. Perdido o rumo nadar. “Ão, ão”, vasculha o cão. “Olha, não achei nada”, rosna baixo o desgraçado. Pois nada, meu filho, nada…

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