Para o Diogo Calado

É do fundo dos tempos que vem a relação do ser humano com a luta. A palavra “agonia” dizia o lugar onde as pessoas se reuniam para assistir às competições entre atletas pela disputa de um prémio. Hoje, a palavra está reservada para o derradeiro combate que se trava contra a morte. As competições desportivas entre os gregos eram uma disputa mortalmente séria. Lutava-se pelo título, mas, sobretudo, pelo prestígio, porque os atletas, os competidores, representavam uma casa, uma família, um estado. Competir era ter a possibilidade de inscrever o seu nome no livro dos vivos. É sobreviver, de alguma maneira, à lei da morte. A morte em combate é o ideal orientador da disputa e o gatilho da violência máxima. Embora haja apenas relatos de quatro mortes em combate desde o ano 550 até 110 a.C., a própria lei ateniense reconhecia morte em combate como não intencional e, portanto, involuntária. Não admitia abertura de processo nem, por isso, condenação e castigo. Dito isto, ninguém se apresentava para disputar uma competição sem estar absolutamente bem preparado.

Todos os rapazes nascidos livres tinham algum tipo de treinador: um pai, um irmão ou um estranho, seja contratado por um dos pais ou compartilhado com os outros no ginásio. Além disso, nenhum rapaz, por mais aristocrata que fosse, poderia disputar a competição pan-helénica em boxe, luta, ou o pancrácio, sem uma preparação competente. E longa. Não eram poupados gastos para se poder ter o melhor treino possível.

Mas é como laboratório da vida que importa tentar perceber o que estava em disputa num combate. Demos a palavra a Platão:

“Se fôssemos boxeurs, deveríamos ter estado a aprender a combater, muitos dias antes do combate e a trabalhar no duro, praticando em mimetismo todos aqueles métodos que pretendemos empregar no dia em que estaremos a lutar pela vitória, e imitando a coisa a sério da melhor maneira possível: assim, deveríamos usar luvas acolchoadas em vez de luvas usadas no ringue, para obter a melhor prática possível a dar golpes e a evitá-los; e se por acaso não tivermos companheiros de treino, […] se alguma vez estivéssemos num deserto, e sem companheiros de treino, não poderíamos recorrer à luta de sombra do tipo mais literal, contra nós mesmos? Ou o que mais adequadamente se deveria chamar à prática da postura do pugilista?” (Platão. Leges 830a).

Píndaro, o grande poeta lírico grego, entretece com cada descrição do que objectivamente se passa num combate um saber sentencial. A “moral da história” pode ser folclore nacional ou a forma mais ou menos popular com que sobrevem um pensamento. É da profundidade abissal da vida que se projecta a própria compreensão de um sentido para o combate. Não é um sentido óbvio, mas faz vibrar quem se encontra no ringue, quem assiste ao combate, quem lê sobre ele.

Nada, nunca, é apenas o que acontece no momento em que a prova tem lugar. O dia do combate é a cabeça de um cometa que traz atrás de si a cauda de dias e dias, meses e anos, até décadas de preparação. E joga-se a vitória ou a derrota. Joga-se um modo de vida, aquilo com o qual alguém se relacionará para sempre depois de ter acontecido. Pode ter repercussões para a vida inteira, podemos ficar presos de derrotas e de vitórias. Também podemos não fazer nada de vitórias passadas e as derrotas poderão estar à nossa espera na hora da nossa morte.

Tal como na vida, a preparação é ao mesmo tempo que a disputa. Na citação conhecida de Samuel Butler: “a vida é como executar um solo de violino em público, aprendendo a tocar o instrumento ao mesmo tempo que se toca”. Tal como o passo de Platão, a preparação é feita com vista à antecipação de todos os cenários possíveis, da esquiva ao contra-ataque, de todos os golpes que se possam desferir, trabalhados isoladamente e em encadeamento. Procura-se antecipar as acções possíveis do combatente do outro canto. Todo o treino, dieta, descanso tem em vista a disputa. A disputa tem em vista a vitória. Um combate não é um acto isolado. Quantos combates pode um combatente disputar na sua carreira? Quantos terá perdido. Ali, um dos grandes, para alguns o maior boxeur do século XX, perdeu cinco dos seus 61 combates. Parece impensável que os grandes combatentes não tenham permanecido invictos. Mas, na verdade, se o ringue for como a vida, é provável que coisas improváveis aconteçam e que numa saraivada de golpes ou num só, inesperado, as luzes se apaguem, e acordemos sem ter acompanhado a nossa própria queda. Aprende-se com a possibilidade da derrota, como se aprende com a derrota. Uma derrota é um desfecho de um combate, como a vitória, se excluirmos o empate. A derrota não existe para qualquer um. Só quem disputa a vitória pode perder. Só quem disputa a vida pode viver. Os gregos não achavam que tínhamos um lugar garantido na vida. Só alguns o poderão encontrar.

“Só um homem que sabe o que é ser derrotado pode atingir o fundo da sua alma e erguer-se com um grama extra de poder capaz de o fazer vencer quando o combate está empatado.” (Ali)

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