A Grande Dama do Chá

Por Fernando Sobral

 

O escritório de Marina Kaplan no “Bambu Vermelho” era pequeno e despojado, mas acolhedor. Por detrás da cadeira onde ela se sentava, estava, em cima de um móvel de madeira maciça, uma estatueta de jade verde de um guerreiro chinês. A seu lado, uma fotografia de uma família que, devido à forma como estava vestida, deveria ser russa. Memória do passado que ela não queria esquecer. Ao lado de Marina, também sentado, estava Ezequiel de Campos. O seu sorriso era o de um sedutor. Os seus olhos azulados combinavam com o cabelo branco penteado para trás. Garantia segurança e, num advogado, isso era tudo. Entre a orelha esquerda e o pescoço via-se uma cicatriz. E ele parecia ter o prazer raro de a acariciar, de vez em quando, como uma velha ferida que nunca sarara. Talvez a acariciasse só para marcar distâncias.

Ou para mostrar a sua inacessibilidade. Quando Cândido chegou ao “Bambu Vermelho”, Ezequiel fez-lhe um sinal e disse-lhe:

– Bebes um vodka connosco?

Cândido sorriu e seguiu-o até à pequena sala onde Marina tinha o seu escritório. Cândido conhecera-o numa das noites que passara ali, há uns meses. Já então andava com Marina Kaplan.

– Continuas a tocar, Cândido?
– É a minha vida. Não sei fazer muito mais coisas.
– Sabes, não queres é sair do teu conforto. Temos de saber o que queremos. Eu sei que não gosto de jazz. É uma música que nos faz sentir quem ninguém ama ninguém.
– Pelo contrário, aproxima as pessoas, faz com que dancem perto uns dos outros.
– É exactamente por isso. As pessoas tocam-se, têm desejos. Concretizam-se. Mas evitam amar-se.

Dá muito trabalho.

Marina olhou para os dois. Não sabia se Ezequiel falava a sério. Nunca se sabia, porque era indecifrável a sua voz pausada. Dizia-se que Ezequiel era o homem melhor informado de Macau.

Ou, pelo menos, ele fazia com que todos acreditassem nisso. Cândido disse:

– És um homem muito informado sobre o que se passa em Macau.
– Enganas-te. Aqui ninguém sabe nada sobre ninguém. Apesar de todos acharem que sim.

O que Ezequiel queria dizer é que só ele sabia quase tudo sobre todos. Cândido bebeu um trago de vodka, que era de excelente qualidade.

– Como consegues arranjar este vodka, Marina?
– A Rússia não desapareceu. E há quem continue a saber fazer vodka. Os bolcheviques também o bebem. Às vezes, demais. Por isso não é proibido.

Dizendo isto, Marina agarrou no seu copo, elevou-o e levou-o aos lábios, bebendo tudo de um golo. E, depois, atirou o copo contra a parede, estilhaçando-o.

– O vodka é fogo. Faz com que ardam as nossas veias.

Cândido sorriu. Ezequiel ficou a olhar para a quantidade de vodka que ainda tinha no copo, mas não fez tenção de bebê-lo. Disse apenas:

– O fogo enerva-me. Há demasiado à nossa volta. Prefiro a prudência. Também deverias aprender isso, Cândido. Para que a nossa vida seja longa, e agradável, é conveniente sermos prudentes, não achas?

Ezequiel falava sobretudo para Marina. Cândido encolheu os ombros. Uma vidente dissera-lhe, um dia, que a sua linha da vida era longa. Morreria velho. Por isso poderia cometer todos os riscos.

Ezequiel pareceu adivinhar os pensamentos do músico, mas não deu muita importância a isso.

– Sabes o que é a prudência, Cândido?

Cândido assentiu. Respondeu:

– Acho que sim. Vivemos tempos perigosos. A guerra cerca-nos. Mas podemos evitá-la, não te parece? Mesmo que ela exista, podemos fingir que ela não existe.

– Diz-me, o que é que é que achas que conduz um homem para a guerra?
– Sei lá. A ignorância? A estupidez?
– Tudo isso e outra coisa, a imprudência. Porque é que os portugueses sobrevivem há quase 500 anos em Macau? Porque são prudentes. Sabem as suas forças e as suas fraquezas. Moldam-se.

Estão bem com todos. Que interessa agora estar ao lado dos japoneses ou dos ingleses? Um ganhará, outro perderá no fim. E esse não se adivinha. Ainda é mais difícil saber quem dos senhores da guerra chineses vencerá. Por isso há que ser pragmático. Macau é um porto de abrigo para todos. Sempre fomos comerciantes. Temos de colaborar com todos. Sabemos que isso é bom para nós e para os nossos interesses.

Cândido ouvia-o, mas olhava sobretudo para Marina. Continuava bela e insinuante. Ezequiel não era o seu único amante em Macau, pressentia. Ezequiel, indiferente ao olhar que Cândido e Marina trocavam, voltou a falar:

– Mantém os olhos sempre atentos, desconfia de tudo e, de preferência, evita morrer. O grande general Sun Tzu dizia que a mais preciosa faculdade dos reis era a manipulação divina dos cordéis, que consistia em pôr em funcionamento um serviço secreto. É preciso antever as jogadas dos outros. Porque a mesma mão que faz, também desfaz. Não podemos pensar que Macau está imune ao que se passa à volta. O paraíso tem sido, muitas vezes, destruído. Sempre pela mesma coisa, a guerra.

– O mundo é o nosso grande inimigo. Em tudo.

Ezequiel riu.

– Será. Mas se todos dominassem as leis da sedução como faz a Marina, este seria um mundo melhor.

Marina sorriu e beijou a face de Ezequiel. Este passou-lhe a mão pelo braço e depois voltou a fitar Cândido. Nesse momento bateram na porta do escritório. Jin Shixin entrou e aproximou-se devagar. Conhecia Ezequiel, através de Marina. Usava um clássico vestido chinês, o Cheongsam, justo, que lhe alongava a silhueta. Vestia-o sem calças por baixo, o que lhe dava um ar ainda mais sensual. Jin sabia usá-lo, porque era um vestido que obrigava a gestos bem cuidadosos. Rodeou a mesa e foi colocar-se, de pé, por detrás da cadeira onde estava sentada Marina. Sorriu para Cândido.

– Voltamos a encontrarmo-nos.
– Em melhores circunstâncias.
– É verdade.

Nem a face de Ezequiel nem a de Marina revelaram surpresa. Sabiam, claramente, o que se passara.

– De que falavam?

Cândido disse:

– Da guerra e de Macau.
– Então falavam da sobrevivência.

Marina sussurrou:

– Disso mesmo. Para sobreviver, às vezes, é preciso saborear as cinzas deixadas pelo fogo.
Jin Shixin não disse nada. Fixou o olhar em Cândido. Ela era uma mulher que sabia ler os homens sem deixar que a lessem. Sabia seduzir e só era seduzida quando isso lhe interessava. Mas a forma como olhava para Cândido revelava que ainda tinha dúvidas sobre ele. Ela disse então:

– Macau é a cidade dos amores impossíveis. Durante séculos atraiu comerciantes e padres em busca de ópio e de almas. Não se pode contentar todos para sempre.

– Tal como agora é impossível contentar japoneses e chineses, não é verdade?

Jin retorquiu:

– Não coloque os ocidentais fora da guerra.

Quando elevava a voz, Jin ficava com um ar elegante e altivo. Demasiado tentador. Ezequiel disse, apaziguador:

– Se tivermos um jardim e só lá estiverem plantadas rosas não será tão bonito como se lá tivermos flores diferentes. Em Macau e na Ásia se só tivermos uma cultura ou uma religião perde-se a diversidade. E a beleza.

Jin suspirou e respondeu:

– Isso é no mundo ideal. Não num tempo de guerra, onde todas as flores são destruídas.

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