A ferida tornou-se doença

Horta Seca, Lisboa, 27 Agosto

Acerca da primeira leva de selecionados para o Prémio Oceanos, aforismo nada novo e não se fala mais nisso: nome reconhecido na espuma vai mais longe que mil qualidades.

Horta Seca, Lisboa, 28 Agosto

Rodopiando no vórtice, por todo o lado encontro o tempo, agora mesmo nesta barata estrebuchando nas escadas rolantes do metro. Logo na inutilidade dos últimos movimentos outrora ágeis percorrendo o nada. Depois, vem lá do começo dos tempos para labutar decompondo o lixo que fazemos sendo. Ou vice-versa.

Horta Seca, Lisboa, 29 Agosto

«Histórias para meninas distraídas», assim se chama, mas estes poemas da Liliana [Ribeiro] estão prenhes de fina atenção. Ainda não falara do pequeno volume, dos iniciais colecção Mão Dita, aguardando inutilmente a oportunidade de lançamento na capital, que a norte já se desmultiplicou como quem semeia. Os versos misturam, qual biscoito de mel com gota de estricnina, um modo de ser gentil e duro. Infância, «adultância» e outras ânsias, mas também amor, morte, a palavra e o maior dos panos de fundo: o feminino. Ah, e o tempo, esse devorador, que merecia «Cartão Vermelho»: «Ninguém nos tinha dito que o tempo a favor de todas as possibilidades acabaria. Acabaria o ciclo, o ensaio, a diversão, a determinação instruída. A meta fixa fora sempre um truque, um sinal para as mãos se juntarem no banco do autocarro e assistir gratuitamente ao concerto no estádio municipal. Tudo o resto, desvarios, distrações contra as árvores iguais.» Acabado de ler o manuscrito, outro cuja publicação demorou o irrazoável, anotei: a ferida como doença. Tanto fica por dizer.

Horta Seca, Lisboa, 30 Agosto

Supostamente, qualquer computador se liga, enigma palpitante, ao coração do átomo onde arfa Cronos comedor de filhos e senhor de todas as colheitas, mesmo as mais sangrentas. Por que raio ou significado os números do canto inferior direito, do meu pêcê, irmanados pelos dois pontos, manetas de ponteiros, cavalgam muito além do comum? Induzem em erro, mas ajudam a cumprir. Contudo, chegar antes continua sendo alta de pontualidade. Marcará o kairos o das oportunidades que, por ver mal as horas, fui perdendo?

João Villaret , Lisboa, 1 Setembro

A querida Daniela [Gomes] desatou a compor uma boa série de «Covers» (ed. Paralelo W), i.e., ou seja, quer dizer. Recolheu fotografias antigas e anónimas sobre as quais pintou correspondências com versos de canções díspares e significativas. A que se reproduz na página, por exemplo, corresponde aos três últimos versos de Sandy Denny, acolhida nos Fairport Convention. Para sublinhar que não sei para onde o tempo se escoa, incluo aqui mais uns quantos e ponho a canção a rodar (vai passar a constar do karaokabysmo, cancioneiro selvagem das noites deste verão de mentirinha). «Across the evening sky, all the birds are leaving/ But how can they know it’s time for them to go?/ Before the winter fire, I will still be dreaming/ I have no thought of time// For who knows where the time goes?/ Who knows where the time goes?// Sad, deserted shore, your fickle friends are leaving/ Ah, but then you know it’s time for them to go/ But I will still be here, I have no thought of leaving/ I do not count the time// For who knows where the time goes?/ Who knows where the time goes?» A Daniela, fazendo uso de extrema e melancólica sensibilidade, isolou as figuras com trabalho sobre a cor que inventa carnes e matérias e prolonga as melodias. Isolou o humano, retirou-o das suas circunstâncias, para o fazer voar por sobre infâncias, desencontros, sonhos, ramos, rochas, corpos e casas. E aquele não lugar entre a luz e nenhures. Estamos sós com a música. Cai-se com facilidade em vários, por isto ou aquilo, olhar ou situação, detalhe ou conjunto, mas prendi-me a este da explosiva leitura do fulgor tendo por companhia as nuvens. Sei bem as razões.

Horta Seca, Lisboa, 3 Setembro

Tão dolorosamente belas são as imagens do Museu Nacional do Brasil ardendo, no seu aniversário! A estatuária que vigia, do telhado, perdeu terceira dimensão, são meras sombras face ao combate perdido, cegas do horizonte perdido, engasgadas pelo fumo tóxico da memória livre das ciências, talvez devessem deixar-se cair com o estrondo seco do escândalo. O gato embalsamado morrerá de vez ou sobra-lhe ainda hipótese de roçar alguém algures? Quantas mortes ali vivas voltarão a morrer à mão da estupidez impune? A múmia de Amon, o gajo de Atacama e o acocorado de Aymara e cada esqueleto ainda sendo ali poderiam levantar-se em grito para atormentar consciências. Bendegó, o meteorito vai resistir a estas brasas para continuar aceso na memória da incúria criminosa. A beleza é efémera ou não seria, razão maior para a admirar. E conservar. Ferida obscena, esta imagem da barbárie, servindo ideologia sanguinária que prefere a morte, na vez do humano que pulsa em cada migalha de museu. Que quotidianamente aceita sacrificar no altar do lucro a cultura, por dispensável, gratuita, inútil. Experimento em cada museu coração que pulsa. Pode até ter sido erguido sobre ideias gastas, solúveis na espuma da raiva, mas uma única delas justifica seiva e pulsação: fotossíntese. Falta-nos – cada vez mais – o ar.

Santa Bárbara, Lisboa, 5 Setembro

Vinte e cinco anos depois, continuo trocando os pés pelas mãos, incapaz de te dar o horizonte que merecias, tão aquém do possível que até dói. Nem poema consigo novo. «Os teus braços, afinal tu/ como sítio abrangente (a floresta)/ lugar panorâmico (o mar em fundo)/ onde me recolher/ sem palavras/ precisei delas gastei-as para chegar/ a ti/ despia-me já choroso (o mar em mim)/ e depositava-me/ massa desprendida solta de gordura e afecto e/ ossos/ nos teus abraços de estátua vibrante/ ora cama repousante/ ora colo ofegante/ soluçante, eu e os pensamentos/ ardendo à nossa volta/ incendiados pelo resto incandescente/ das palavras caminho/ os teus cabelos cobrem-nos de mundo/ aceitaste/ aceitaste-me/ os teus olhos húmus convidam à sementeira/ não terá sido por isso/ o desespero encontrou a intimidade/ continuo os soluços/ pois deles se soltam/ dançando/ as estrelas/ da já noite/ até que a tranquilidade/ por vida praça que rasgaste / na pele do promontório (a floresta)/ me acolheu desfeito/ não precisei da manhã para amanhecer/ ou de perder os verbos (a nuvem)/ para me erguer estendido/ na tranquilidade/ quedo tolhido fiquei/ já que continuei a vir pelas palavras caminho/ para repetidamente / morrer (em ti)».

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