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(PRIMEIRO EPISÓDIO)

FEDRA (para si mesma)

Por Zeus, mulher, não voltes a pensar nisso!

(entra a sua criada)

CRIADA

Que diz a minha senhora? A que fantasmas se dirige?

FEDRA

Não são fantasmas, são tristezas. Ainda não se sabe de Teseu.

CRIADA

Já lá vão quantos meses?

FEDRA

Sete meses!

CRIADA

Não haverá mulher nessa história, minha senhora?

FEDRA

Que mulher, mulher? Que mulher? O rei já passou a idade. Afrodite gosta de jovens mortais e de deuses, não iria agora perder o seu tempo e a sua arte com Teseu. Já lá vai o tempo em que Teseu, através de Afrodite, ardia.

CRIADA

Desculpai-me! A minha senhora é rainha e sabe mais do que eu, mas, e que a deusa não nos oiça, ela é muito traiçoeira. Não podemos confiar que a idade seja um escudo capaz de proteger das flechas de Afrodite. E a rainha reparou como o príncipe se parece cada vez mais com o pai, quando Teseu era novo?

FEDRA (disfarçando, como se estivesse distraída)

Quem?… Ah, o príncipe! Não, não reparei. Mas se assim for, não é de estranhar, é a ordem natural das coisas.

CRIADA

Será que Hipólito tem muitas amantes, como seu pai tinha, antes de conhecer a senhora?

FEDRA

Pelo que oiço falar, é devoto da deusa Ártemis. Casto como uma jovem virgem de Esparta, e muito virtuoso.

CRIADA

Que a deusa Ártemis ou Hipólito não provoquem a ira de Afrodite, com tamanha desdenha em relação ao poder do corpo!

FEDRA

Porque dizes isso?

CRIADA

Minha senhora, o mundo está cheio de histórias que se contam, e nenhuma delas boas…

FEDRA

Mas que poderia correr mal, mulher? O príncipe é casto. E é seguramente um jovem equilibrado e dedicado, não iria cometer a imprudência de ofender deuses ou deusas.

CRIADA

Se a minha senhora o diz… Mas que ele é um bonito homem, é. E Afrodite não gosta de perder homens desses para a sua irmã, Ártemis.

FEDRA

A beleza dele só dá mais valor à sua devoção! Virtude e caça perfazem o todo da sua vida. Que mal poderia uma deusa desejar a um homem assim? Ele pode ser muito igual a Teseu, fisicamente, mas no resto todo ele é diferente.

CRIADA

Mas não deixa de ser triste, ver um homem tão belo e pormo-nos a imaginar que nunca fará alguém feliz no leito, que nunca dirá palavras sussurradas ao ouvido de uma mulher, como aquelas que a senhora me contou que Teseu lhe disse, um ano após o vosso primeiro encontro: “Em todas as mulheres belas te vejo, em todas as mulheres feias o medo de te perder.

FEDRA

Não invoques fantasmas, mulher!

CRIADA

Teseu ainda não foi dado como morto, senhora, ainda não é fantasma.

FEDRA

O fantasma da minha juventude. O fantasma das palavras que os homens me diziam e dos beijos que empurravam embarcações. Há quanto tempo não vivo isso! tanto tempo passou, que já morreu. É um fantasma.

CRIADA

Mas atormentam a senhora, essas lembranças?

FEDRA

Não são lembranças, são fantasmas! E a vida dos fantasmas, outra não é, senão atormentar aqueles a quem aparecem.

(pausa)

Julgas que é possível alguém mudar completamente de vida por outra pessoa?

CRIADA

Completamente, como, senhora?

FEDRA

Completamente. Abandonar as suas crenças; deixar o seu lar, ignorar o seu sangue…

CRIADA

Neste mundo, minha senhora, o que não faltam são misérias e dores. Que ninguém nos oiça, mas se aquilo a que se refere é aquilo que eu penso ser, não falta aí nada para a desgraça. E desgraça, minha senhora, é o que é mais possível de acontecer. Fosse eu a minha senhora, e desejaria antes que o impossível, neste caso, se sobrepusesse ao possível.

FEDRA

E que possível é esse, mulher?

CRIADA

As coisas correrem bem. Ninguém mudar de vida. Pois esta, como está, é mais do que os deuses podem prover.

FEDRA

Vamos preparar-nos para o jantar.

CRIADA

Vamos, sim, minha senhora. Há muito que aprendi que aquilo que os deuses querem, os mortais não contrariam.

(saem de cena; entra o coro de mulheres)

(PRIMEIRO ESTÁSIMO)

CORO DE MULHERES

A vida não importa nada.

Um deus destrói a cidade,

Dois arrasam o mundo todo

E a paixão é muitos deuses.

Vejam como Fedra caminha

Para a sua perdição total.

A imagem é uma prisão.

Escravos que somos para nós.

A beleza de Hipólito

Lembrou um tempo que não viveu

Senão em seus belos sonhos.

O tão desejado amado,

E não passa de uma imagem,

Que em nós temos desde sempre.

E não adianta perguntar

Porque é este e não outro,

Pois outro é sempre o mesmo.

A matriz inscrita na alma

Como um brasão nos diz o corpo,

E o resto que perseguimos,

Quando um homem nos faz derreter.

Hipólito é o mais belo,

Se em ti isso está inscrito;

Não o nome, a imagem.

CORIFEU

Mulheres, não falai crispado,

Como o mar em dias de chuva!

Fedra resistirá se quiser.

Por mais forte que seja a deusa,

A vontade é mais que tudo.

E ninguém pode desculpar-se

Dizendo que foi pelo vinho

Ou por arte de Afrodite.

CORO DE MULHERES

Como os homens desconhecem

A força da deusa Afrodite!

Facilmente destroem vidas,

Mas não escapam da sua sorte.

Como sobreviver à vida,

Se ela é em nós imagem

Corpo ideal nunca visto,

Uma figura para sempre,

Pela qual se morre, se vive?

Enlouquece-se por tão pouco

E tão pouco é quase tudo.

Há mulheres enlouquecidas

Por um verso ou uma frase,

Que são outras formas de corpo.

Pois muito sofrem as mulheres,

Até para nascerem homens.

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José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

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