PARTILHAR
PERSONAGENS

Afrodite

Ártemis

Chefe dos Guardas

Corifeu

Coro de mulheres

Criada de Fedra

Criado de Hipólito

Fedra

Hipólito

Teseu 

(A acção passa-se nos limites da floresta, junto à cidade de Trezena, no Peloponeso)

CRIADO

A rainha Fedra, mulher de seu pai, o rei Teseu, aguarda-nos. Que dirá ela por regressarmos a Trezena sem ele, meu príncipe?

HIPÓLITO

Que posso dizer, senão a verdade? Tenho obrigação de dizer a verdade, assim me ajude a minha deusa de devoção, Ártemis.

CRIADO

Sei bem, senhor, das suas enormes virtudes, pois acompanho-o desde criança. Mas neste caso, o que é a verdade?

HIPÓLITO

A verdade, aqui neste caso como em qualquer outro, é ser conforme aos factos, se falamos do que é exterior, ou conforme à pureza do coração, sem mancha de egoísmo, de desejo, de interesse, de maldade, se falamos do que é interior. Por isso, e com a ajuda da mais virtuosa da deusas, direi à rainha que meu pai, o seu rei e marido, continua desaparecido. Que infelizmente, e após meses de procura, continuamos sem resposta ao que lhe terá sucedido. Não o podemos dar nem como vivo nem como morto. Pois aquele que está ausente, e sem dar notícias por si próprio ou que cheguem relatos por outrem, está refém da mais poderosa das deusas e a mais vil: a Dúvida.

CRIADO

E que pena tenho, meu príncipe, que em todos estes meses pela Hélade, não tenha encontrado amor! Nenhuma mulher virtuosa…

HIPÓLITO

Sabes bem que não há e nem pode haver mulher nenhuma em minha vida. Pois sirvo apenas à deusa Ártemis, que me instiga à castidade, às purezas das acções e do coração. Nenhuma mulher irá mudar esta minha genuína afeição, este meu modo de vida. E que poderia uma mulher fazer, senão levar-me a esbanjar o tempo em futilidades, em prazeres mundanos, por muito virtuosa que fosse? Procura o amor se queres perder-te; mantém-te casto se queres encontrar-te.

(Hipólito e o criado saem de cena e entra o coro de mulheres)

(PÁRODO)

CORO DE MULHERES

Ai como a juventude é senil!

Diz saber o que é a vida

E nem sequer do amor sabe.

E muito pior que o amor

É sem dúvida uma paixão.

Tragam-nos um jovem sábio

E nós fá-lo-emos imortal.

Porque não aprendem os jovens

A humildade e o recato

Já que nada sabem da vida?

Julga Hipólito que está salvo

Pela devoção a Ártemis?

Esta mesma teme sua irmã

E agora também por ele.

Hipólito nem se dá conta

Que essa palavras provocam

A pior de todas as deusas.

Não se pode ofender o poder

A quem varre existências.

Afrodite toca os cabelos

E faz cair um exército.

(saem de cena; agora a cena passa-se na sala do trono; chega Hipólito e ajoelha-se perante Fedra)

FEDRA

Levanta-te e dá-me notícias de Teseu!

HIPÓLITO

Minha rainha, o rei, meu pai e seu marido, não deu sinal de vida. Nem de vida e nem de morte; a sua vida está refém da deusa Dúvida.

FEDRA (levanta-se e dirige-se ao jovem príncipe, com olhos de quem é escrava de uma imagem, e toca-lhe num dos ombros)

Hipólito, não esmoreças. Teu pai é forte e capaz. Não haver notícias é boa notícia. Os males sempre arranjam maneira de saírem do claustro do anonimato, de aparecerem onde menos se esperam, e na sua aparição intempestiva são sempre mais rápidos que os cavalos de Zeus; é o bem que se esconde ou dificilmente se deixa ver.

(Hipólito anui, um pouco por resignação, um pouco por cansaço, e Fedra pede que ele se refresque, que descanse duas horas antes de ser servido o jantar. Fedra suspira ao ver o jovem afastar-se)

PARTILHAR
José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here