PARTILHAR

A vista, do terraço do restaurante do Conrad Hotel, é uma das mais terríveis do planeta Terra. É o lugar onde o que o homem faz e o que a natureza é se encontram esplendorosamente, sem máculas e sem culpas. Fui apenas duas vezes a esse lugar: a primeira por amor de uma mulher; a segunda pela morte de um homem. Karadeniz morreu em sua casa junto à torre de Gálata, numa das muitas noites em que lá ficava, em que não me apetecia apanhar um táxi para a minha casa em Baltalimani, junto a Bebek, no Bósforo. Deve ter tido uma morte santa, sem sofrer. Foi para a morte como se tivesse ido apenas deitar para outro dia. Encontrei-o de manhã com o rosto mais pálido do que o costume, e já só consegui tocar-lhe o frio. O homem já não estava ali. Tinha o passado à minha frente, diante do rosto e das mãos e não sabia o que fazer. Fiquei ali parado, sem fazer nada, a saber a morte. A seguir ao funeral de Karadeniz, em Istambul, o seu filho, T., que conheci na cerimónia, pediu-me para jantar com ele. Precisava de falar comigo com urgência, antes de partir para Londres, ainda essa noite.

T: Soube pelo porteiro que você passava muito tempo com o meu pai, posso saber porquê?

PJM: Porque gostava dele e ele me ensinava muito.

T: Ensinava-lhe o quê?

PJM: Tudo! Só não me ensinou a matar.

T: A mim, foi só o que ele me ensinou.

PJM: Ensinou-o a matar!?

T: Não propriamente, mas vi-o várias vezes a disparar com a espingarda contra os gatos da rua.

PJM: Foi só para saber porque me encontrava com o seu pai, que quis encontrar-se comigo?

T: Não, não foi só por isso! Queria saber como é que ele morreu, parece que não sofreu, pois não?

PJM: Não, não sofreu. Morreu a dormir.

T: Morreu como viveu!

PJM: A dormir!?

T: Não, sem sofrer.

PJM: Julga que o seu pai não sofreu na vida, é isso que me está a dizer?

T: Não me leve a mal, mas não quero falar sobre isto consigo, com quem nunca vi e provavelmente nunca mais vou ver. Não me leve a mal, mas não sou muito bom a falar de mim.

PJM: Não tem de que se desculpar! Compreendo perfeitamente. Há mais alguma coisa que queira saber?

T: Gostava de saber o que é que você faz na vida?

PJM: Escrevo livros.

T: Que tipo de livros é que escreve?

PJM: Romances, poesia e teatro.

T: Romances acerca de quê?

PJM: Acerca da vida e da morte, acerca dos homens.

T: E isso dá-lhe para viver?

PJM: Às vezes, dá! Outras vezes, não.

T: Então e quando não dá, o que é que você faz?

PJM: Isto é alguma entrevista, que me está a fazer?

T: Se quiser não me responda, não é obrigado a fazê-lo. Mas tenho curiosidade em saber que tipo de pessoa passou os últimos…

PJM: Dois anos!

T: Dois anos!?

PJM: Sim!

T: Pois, gostava de saber que tipo de pessoa passou os últimos dois anos a visitar o meu pai, a fazer-lhe companhia.

PJM: A companhia era mútua. Quanto à sua pergunta anterior, quando os livros não dão para viver, peço dinheiro emprestado, até que volte a dar.

T: O meu pai chegou a emprestar-lhe dinheiro?

PJM: Não! Estou num momento em que não é preciso.

T: O meu pai chegou a falar-lhe de mim, a dizer-lhe o que faço?

PJM: Sim!

T: E o que é que ele disse que eu fazia?

PJM: Disse-me que você era um homem de negócios, que importava vegetais da Turquia para Inglaterra.

T: Foi só isso que ele disse, não mencionou mais nada?

PJM: Não, só me disse isso. Porquê, há mais alguma coisa que você faça que o seu pai não me tenha contado?

T: Não, não há mais nada. Queria só ter a certeza de que o velho não tinha perdido o juízo, nestes últimos anos de vida.

PJM: O seu pai esteve sempre muito lúcido até ao fim, pode ficar descansado. O seu pai era um homem muito bom.

T: Muito bom!? Ele chegou a contar-lhe como era o inferno?

PJM: Qual inferno?

T: Qual inferno!? A casa! Crescer naquela casa com dois loucos à volta dos gatos: um aos tiros aos animais e o outro a salvá-los; e eu no meio, sem ser gato. E nem os matava, nem os salvava. Ele não contou isso, pois não?

PJM: O seu pai contou-me dos gatos, sim. Também me parece que sempre soube do mal que tudo isso lhe fez. Até ao fim, nunca quis aceitar culpa de nada, mas julgo que ele sempre se sentiu culpado em relação a si.

T: Que mais culpas é que ele poderia ter?

PJM: Culpa em relação à sua mãe.

T: Em relação à minha mãe, não teve culpa nenhuma. A minha mãe era louca. Não se pode fazer nada por um louco, muito menos ser responsável por ele.

PJM: O seu pai amava muito a sua mãe.

T: Essa é que é a sua culpa! Nunca lhe perdoei, ter-se sempre esquecido de mim, do que eu precisava, por causa dessa louca.

PJM: Se pensa assim da sua mãe, porque foi com ela para Londres, porque não pediu para ficar com o seu pai?

T: Precisamente para magoá-lo. E também, porque não queria ter mais nada que ver com ele. Queria esquecê-lo. Queria ser uma pessoa completamente diferente dele. Queria ser o homem que ele nunca foi.

PJM: Não sente culpa, por isso?

T: Na vingança não há culpa.

Depois de um longo silêncio, T. pegou no seu telefone e deu instruções para o piloto do helicóptero que o esperava no heliporto do hotel. Nesse momento pensei que Karadeniz sempre estava certo acerca das actividades do filho, que não é só legumes que ele importa para Inglaterra. Despedimo-nos e eu fiquei ainda ali sentado à espera de ver o ferro a voar para o aeroporto, levando para sempre da minha vida a história desta estranha família. Uma família sem culpa, a vingar-se da vida.

PARTILHAR
José Saramago atribuiu-lhe o primeiro prémio literário com o seu nome. Viveu na Ásia, no Médio Oriente e no Brasil. De escritor-promessa a persona non grata no meio literário, Paulo José Miranda, licenciado em Filosofia, é poeta, escritor e dramaturgo, e tem obra publicada.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here