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Foto: Fotografia de Pan Yue

Na tarde de 21 de Fevereiro de 1932, Xu Qinwen saiu para acompanhar um convidado. Quando voltou a casa, encontrou o criado à porta. O homem vinha informá-lo que ninguém o ia deixar entrar. Aborrecido, tirou do bolso a sua chave, mas verificou que não abria a porta. Tocou várias vezes à campainha. Ninguém atendia. Xu ficou furioso. Deu a volta até à porta das traseiras, partiu o gancho de ferro e entrou no pátio. O silêncio era total. A seguir apanhou um choque, na relva jaziam duas jovens mulheres cobertas de sangue. Uma delas estava desmaiada. Era Tao Sijin, amiga da sua filha. A outra era a sua melhor amiga, Liu Mengyin, e estava morta. O crime aconteceu no Lago Oriental, em Hangzhou, um dos locais mais românticos da China. Este episódio tornou-se rapidamente um escândalo nacional e apareceu em todos os jornais do país.

Tao e Liu estudavam na Escola de Artes de Zhejiang. Eram companheiras de quarto e envolveram-se numa relação romântica. Ambas tinham combinado que nunca se casariam. Mas Liu veio a apaixonar-se por outra mulher, uma nova professora. Tao jurou que mataria uma delas. Entretanto as férias de Verão começaram e Tao e Liu ficaram em casa de Xu. Um dia Liu queria tomar banho e mandou o criado comprar-lhe um produto para a pele. Nessa altura, Tao trancou as portas e desencadeou uma discussão. Exigia que Liu terminasse a relação com a professora. A discussão descontrolou-se rapidamente e Tao foi buscar uma faca à cozinha. Matou a amante e a seguir desmaiou.

Tao foi condenada a prisão perpétua. Entretanto a II Guerra Mundial deflagrou e os japoneses tomaram Hangzhou. Tao acabou por ser libertada, e veio a casar com o juiz que tinha presidido ao julgamento, dando assim um epílogo bastante sumarento à história.

Na China, durante as décadas de 20 e 30, a homossexualidade era um fenómeno muito comum entre os estudantes, tanto do sexo feminino como masculino. No entanto, para as “novas mulheres” estava na moda ter uma relação lésbica. “Tórridas, irmãs homossexuais” era uma expressão que circulava entre as elites sociais.

Depois do escândalo Tao-Liu ter chocado o país, a influente revista feminina Linglong(《玲珑》Requintada apelou ao “fim” da homossexualidade, afirmando: ” […] a homossexualidade é ilegal, imoral e fisiologicamente errada. É um acto criminoso. Esta forma perversa de pornografia é por vezes perigosa. As raparigas devem ter relações heterossexuais e almejar uma vida feliz e brilhante.”

O assunto foi inevitavelmente abordado na literatura da época, fortemente influenciada pelas tendências ocidentais. Escritoras dissertaram longamente sobre as tórridas irmãs homossexuais. Por exemplo, no romance de Ling Shuhua’s (凌叔华 1900–1990) Romeu era uma rapariga (《说有这么一回事》), a escritora encoraja as mulheres a “livrarem-se das sombras impostas pelo passado e a embarcar em experiências fora do alcance da percepção e dos valores masculinos.”

Provavelmente Ling Shuhua será recordada pelo seu caso amoroso com Julian Bell, um jovem poeta pertencente ao Bloomsbury Group, e que escreveu sobre ela numa carta a um amigo: “…embora não seja bonita, sinto-me muito atraído por ela.” Perante isto, deixo uma questão aos meus caros leitores: expliquem-me como é que isto funciona? Por favor respondam-me por email.

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