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Facebook, 2 Abril

O meu querido exilado de si, Alex Gozblau, anima nas etéreas paragens uma rádio íntima, The Unborn Radio (https://www.facebook.com/The-Unborn-Radio-881810651873520/). Hoje ofereceu-me uma lágrima. A voz de Kevin Rowland diz cantando que «It’s okay to be a private person, John… It’s okay – I don’t show much of myself in life, but in my music… I reveal all. (…)  I’m learning to operate in this world; I’m just learning, and so can you. // I’m learning about how to be true to an idea, it’s a beautiful thing. I’m gonna do it, Johanna, I’m gonna it. I’m gonna spread beauty to the best of my ability.» Isto de ser pessoa privada e ter que custosamente arranjar maneira de nos mantermos fiéis a uma ideia, uma ideia de nós, é terreno comum. Quantas figuras da criação, além da canção, contêm esta potência explosiva de nos unir (uns aos outros) e de nos partir (em pedaços)? Tantas ramificações, entre terra e céu, podiam ancorar nesta pérola perdida dos Dexy’s Midnight Runners, sempiternos parceiros de adolescência, essoutro nome para aventura. Acresce que esta demo esquecida de It’s Ok Johanna vem de par com o screen test de Andy Warhol para Ann, the Girl Who Cried a Tear. Ele há dias assim, que nos escorrem pelo rosto.

Mymosa, Lisboa, 7 Abril

Sendo a agenda slightly promiscuous girl, difícil foi fugir dos seus avanços a tarde toda. Quantos dias de conversa em torno de música surfei com o mano surfista Rui Garrido? Conversa? Quantos discos, concertos, bandas, projectos, histórias ou vozes o Rui me apresentou? Pois. A minha perspectiva foi sempre a do usuário-otário. No meu dicionário íntimo, música define fascínio: limito-me a arder no encantamento. Não toco instrumento algum, não canto nem uma nota, raramente reconheço melodias, esqueço as canções de que sou feito, às vezes grito, há quem diga que me viu dançar. Sinto muito… Não foi surpresa sabê-lo de corpo inteiro, depois de anos à volta dos rostos, a desenhar linhas de baixo em banda: Democrash. Claro, a capa do primeiro álbum homónimo (na ilustração) leva a sua assinatura, com aviso de que apenas uma cassete foi ferida e um martelo usado. O martelo está bem, dizem. A fita da tarde embrulhou-se ainda no abrasivo meio editorial. O Rui dirige o departamento gráfico de um grande grupo e na bateria bate o Francisco Camacho, outro distinto editor da praça. Maduros também os outros três, que foram de fazer agora banda de garagem onde celebrar a energia bruta da adolescência. Sem merdas. Com riffs. A cassete congelada não podia ser melhor metáfora. O espírito conserva-se. Com a batida, o sax e o verso I’m better writer when I’me down enquadrando explicações sacadas a livro de psicologia, Writer’s block diverte-me de modo agudamente festivo. Devo passá-lo doravante aos meus autores? Mas o tema, como se diz, que não me abandona chama-se delete me: «delete me when I’m over/ delete me when I’m over/burn all these words and more/forget all the jokes I made» (https://youtu.be/GKVc__3Lcbw). E o gozo continua, apesar das vidas e não sei quê. De qualquer modo, ao vivo tendem a ser mais o contrário de estar morto.

Horta Seca, Lisboa, 12 Abril

Talvez fosse ideia de antologia (que cabeça a do editor, que transforma qualquer coisa em livro-projéctil!), a selecção de textos capazes de definir as paisagens apocalípticas que atravessamos. Do martelo e da navalha, portanto. Ainda que nesse contexto, Tresmalhado, de Jorge Roque (ed. Averno), não deixaria de o ser. São inclassificáveis estes textos notáveis, contos breves de atenção ao quotidiano, à linguagem, invectivas políticas, invocações de memória, contabilidade do falhanço, avaliação de rumos e ponto da situação, tendo por fundo, em baixo contínuo autobiográfico, a voz, o olhar e a dor do narrador. «O que sinto não é uma ideia, um pensamento, uma filosofia. Grito. Irreprimível grito. Lâmina desarvorada. Corta, fere, rasga, ceifa. Nada vê, nada mede. Galga, salta, escoiceia. Silêncio. Imóvel, ressoante.» Um despojamento singular da escrita faz dela lâmina: corta, fere, rasga, ceifa. E se marca o seu corpo, não pode deixar de ferir outros, sargentos deste estar vivo que basta. Mais. Trabalhando na área cultural do Estado lida a cada dia com a falência ética da literatura. «A literatura, à escala da vida, é coisa de nada. A literatura portuguesa, à escala da literatura todos os dias praticada em cada recanto da terra, pelos milhões de bichos esquisitos que a povoam, um nada desse nada. Cada escritor dessa dita literatura, génio da língua, da oportunidade ou do bairro, da sua crença, da crítica ou do mercado, compreendidos, incompreendidos e errantes, amados, mal amados e ainda os que nem uma coisa nem outra, a quem coube uma verdade mais estreita, talvez mesmo verdade nenhuma para lá do tempo a esgotar-se, um nada desse nada desse nada.» Mandaria a prudência que não dissesse o quanto me revejo nesta solidão sem rebanho.

Outro capítulo, relembrado há dias no Obra Aberta (http://www.abysmo.pt/obra-aberta/), pelo mano Valério [Romão], seria o poema-carta de veias abertas do Vasco [Gato]: Fera Oculta (ed. Douda Correria). Por ali sangra, além do lirismo de combate, photomaton do inferno doméstico, «este logro quotidiano/em que um homem e uma mulher/se esfalfam para manter à tona/a ampulheta instável dos seus nomes/quando esse punhado de areia/subtraído à erosão dos deuses/mereceria o sopro pleno/de um dia sem rodeios/um baptismo mais vasto e súbito/que não prendesse cada coisa/aos seus próprios pés». O puto, entretanto, nasceu e semeia desassossegos, apesar de. «Que se foda a época/digo-te já/que se foda a sépia dos futuros/eu quero aparecer no dia/dia do teu nascimento/desarmado como uma árvore/sem outra missão que não amparar-te o susto/e dizer-te baixinho/bem-vindo ao continente dos frágeis/podes parar de nadar»

Santa Bárbara, Lisboa, 15 Abril

Provavelmente não será verdade, pouco importa. O Teatro Amazonas, em Manaus, tem uma equipa a funcionar 24 sobre 24 horas para impedir a selva de engolir cada detalhe, das escamas de cerâmica da cúpula ao mármore das estátuas, dos lustres em vidro de Murano às paredes de aço de Glasgow, da boca de cena ao fosso da orquestra. A natureza reclama o seu, pouco importa que seja cultura. Alberto Carneiro (1937-2017) fez o mesmo, sem estrago, acrescentando na vez, com o alcance de uma sequoia e a elegância do bambu. Depois de lhe entrar obra adentro nunca mais vi da mesma maneira a cerejeira e o museu.

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