Desmontar o brinquedo da vida 

No seu melhor, a poesia faz-nos ver. Traz até à nossa consciência uma mundividência, visões às quais o acesso nos é difícil ou completamente vedado. Em Respirar Debaixo De Água (Averno, 2013), Tiago Araújo leva-nos pelas páginas a sentir o que é ter uma vida de empréstimo. A vida surge diante de nós como se não fosse uma vida real, uma vida de verdade, mas antes uma vida que nos foi emprestada. A vida surge-nos como se fosse uma temporada numa casa ou num país emprestado. E, no fundo, é isso que todas as nossas vidas são, embora não as sintamos como sendo assim. Aqui, passamos a respirar isso com claridade, passamos a respirar debaixo de água como se fosse esse o nosso elemento natural. Lê-se logo, na primeira estrofe do livro:

no meu círculo familiar sabe-se

que na infância estive quase a afogar-me

num rio calmo. a gravidade da situação pode ter sido

exagerada, mas essa tarde quente tornou-se numa das ficções que

ajudam a definir a personalidade.

alguns anos depois passei a ver-me como

o afogado, o rapaz que respira debaixo de água

onde os sons são distorcidos à passagem da boca. (…)

Aquele que esteve à beira da morte, ainda antes mesmo de saber o que é temer a morte, antes de saber que a morte é o caroço da vida, como é o caso da criança, passa a assumir esse evento da sua vida como constitutivo do seu ser. E, como é bem de ver, o que menos importa aqui, como em todas as visões, é se há alguma correspondência entre a poesia e os factos. Aqui, no livro, é assim. Aqui no livro, um homem caminha com a vida que podia não ter sido, com a consciência aguda de ser uma vida que só foi até ao momento de poder não ter sido. E, a partir desse momento, ela faz-se sentir como empréstimo; como se tivesse espatifado o carro e alguém lhe emprestasse um outro até que resolva a situação. E a situação não se resolve, porque a situação é a vida. E, por isso mesmo, a continuação do poema que lemos atrás, diz:

como é habitual nas pessoas a quem é dada uma

segunda oportunidade, tenho-a desperdiçado

sem sentimentos de culpa (…)

A vida, a única que se tem, passou a ser sentida como uma segunda oportunidade, que é desperdiçada, e que é também uma metáfora poderosa acerca da condição humana. Por exemplo, quem já não deu conta de si a pensar: “como vim parar aqui a esta vida?”; “que me aconteceu no tempo que passou?”; “que fiz eu da minha vida?”. São tudo formulações, e outras há, de espanto por se estar na vida, numa vida que não parece ser a nossa, mas que também não há outra. Esta distorção existencial, esta dobra no tempo, esta duplicidade de nos vermos a nós mesmos como se não fôssemos nós, aparece de modo particularmente feliz nestes versos de Tiago Araújo, ainda no primeiro poema do seu livro:

sinto a adolescência como um membro amputado que

continua a doer depois de desaparecido, uma

dor fantasma num corpo fantasma, trazido de uma era

em que a música começava a definir a personalidade e a hiena

do desejo

inaugural e não saciado

devorava as entranhas durante todo o dia, durante

toda a noite.

(…)

depois, como sabes,

entrámos todos na vida adulta como

quem no mar sai para fora de pé

(…)

a realidade, como a água, devolve sempre os corpos que engole.

(…)

Esta consciência de que a vida nos falta, que há qualquer coisa que nos falta, não se fica apenas por aquilo que já foi, como a adolescência amputada pela realidade da vida adulta, a vida falta-nos a cada instante, porque nós estamos no mundo como sonâmbulos, não só em relação ao mundo, mas principalmente em relação a nós próprios: “na infância ensinaram-me como é perigoso / acordar um sonâmbulo, lição que tenho / aplicado de forma exemplar em relação a mim próprio.” (p. 8) Embora no poema, o poeta se refira apenas a si mesmo, podemos alargar a acusação a todo o humano, com mais ou menos variáveis nessa prática de caminhar a dormir.

Mas neste livro sui generis acerca do humano, nesta consciência da vida não nos chegar, de ela mesma ser simultaneamente o que temos e o que nos falta, encontra o seu paroxismo nos versos iniciais do terceiro poema, “matar o tempo (mente corpo)”: “nasci gémeo. o meu irmão falso / morreu quase à nascença. formei a personalidade como a memoria da metade que me falta.” (p. 10)

E se a vida, enquanto está a ser, já é o que é, quando deixa de ser mostra então a sua pouca valia em todo o seu esplendor. A cada momento que a vida passa valemos menos, a vida vale menos, e na morte não só desaparecemos, mas rapidamente desapareceremos também da memória dos outros. Um dia havemos de não ser como se nunca tivéssemos sido. Havemos de não ser como se nunca tivéssemos vindo à existência, como se nunca aqui tivéssemos posto os pés. O nada que somos será literal, “colecciono fotografias de família, vendidas em alfarrabistas / por pouco dinheiro, como prova de que estamos / a uma ou duas gerações do esquecimento.” (p. 12) Passamos uma vida à procura de quê? Passamos uma vida a fazer o quê, na realidade, para além “das tarefas diárias com que nos ocupamos a / matar o tempo” (p. 15)? Este livro é, no fundo, uma enorme interrogação, de um modo muito particular, acerca do que estamos nós aqui a fazer, na vida, no mundo, na memória. Que fizemos nós para merecer isto, a vida, assim tão grande que temos de inventar tarefas, e tão pequena que ninguém se lembrará de nós? “(…) esta é a hora em que / não chegas, pontualmente, todas as tardes.” (p. 19) E isto que o poeta escreve acerca de alguém, também escreve acerca da vida: ela, pontualmente, a horas, sempre a horas, nunca chega até nós. Temo-lo visto ao longo destas páginas. E quando Tiago Araújo termina o poema “yorick (2)” com “pedacinhos de nada”, estes pedacinhos de nada não são apenas o que eventualmente possa ou não ter nos bolsos, mas cada um de nós, no vórtice do universo, no vórtice de não se saber nada de nada de nada.

Não sabermos quem somos é não sabermos o que é a vida, o que andamos a aqui a fazer, e é este o mundo em que estamos a viver, isto é, é assim que é estar vivo, é assim estar a viver. A vida aparece-nos como praxis inevitável, um contínuo ter de fazer coisas até ao fim. Não é mau, nem bom, é assim, como nos dizem estes versos certeiros, do poema Lázaro: “a canção pode ter chegado ao fim lázaro, mas não o teu trabalho: / a arte da ressurreição inserida na rotina diária”. (p. 27) A vida como ela é, ou respirar debaixo de água, ou viver sem saber o que isso é, ou estar a fazer caminho para nada são sinónimos que aprendemos neste livro, que não é um livro pessimista, nem abjecto, pois sabe que a vida diz-se de muitas maneiras e encarregar-se-á ela própria de se adjectivar a cada momento. Mais do que um livro contra a vida, e as nas suas múltiplas apresentações, quer sejam social, biológica ou metafísica, é um livro que desmonta o brinquedo que é a vida, deixando página a página as múltiplas peças que a compõem, que não são mais do que peças, nem boas nem más. Fique-se, por fim, com este poema de Tiago Araújo:

os números

este é o livro da minha descendência:

adelino gerou armindo que gerou adão que gerou

tiago que gerou três. dois deles correm agora na sala em

perseguições alternadas. o terceiro cresce sem que o

vejamos ainda. somos cada vez mais, embora insuficientes

para substituir os mortos que coleccionamos em álbuns de

família, e por motivos práticos vivemos quase isolados na nossa

felicidade domestica, um sentimento mal recebido pela crítica.

durante a infância ninguém morreu. os corpos

eram retirados do olhar das crianças de forma subtil e

eficaz. chegou por fim o momento de consultar

a conta-corrente, de avaliar os ganhos e as perdas.

um nome por cada nome, numa família em que o

que passou é quase tão desconhecido como o futuro.

fomos trazidos até aqui por uma paixão

quase constante entre os sexos, ao longo dos séculos.

e agora, na idade adulta, é a cada dia

que nos vamos aproximando do passado.

por ter sido muito diferente em outras épocas, mas

hoje é Saturno que é devorado pelos filhos enquanto vê

televisão, numa tarde de sábado.

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