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(continuação da semana passada: “Jacinto sabia que as forças estavam no limite. Apenas a vontade o mantinha ali, quiçá a imagem do sonho. porque já não era o corpo físico que o sustinha. “A imaginação dá asas”, pensava, tentando manter-se animado e imaginando-se uma criatura alada. A chuva começou a cair”)

Por mais que se imagine e enquanto as leis da física não sofrerem uma alteração profunda, ou a nossa espécie, as asas não crescem assim, sem mais nem menos. Não a curto prazo, pelo menos. Não quando estamos pendurados numa corda velha, escorregadia, e olhamos para baixo sem conseguir imaginar o fundo. Não quando já deixámos de fantasiar com a ideia de nos deixarmos atrair pelo abismo. Não quando chove como se o mar estivesse em cima e não em baixo. Assim estava Jacinto.
Talvez a atracção fatal se tenha desvanecido ao lembrar-se de uma passagem de “Ishmael”, a história de um gorila que explicava ao homem o sentido da vida – Dizia o animal tornado mestre que, quando os homens procuravam descobrir a forma de voar, criaram aquelas passarolas que tudo indicava serem apropriadas ao objectivo. Tinham asas que batiam e assim dos precipícios se atiravam. Por momentos julgavam estarem mesmo a voar mas, na realidade, estavam a cair a uma velocidade vertiginosa em direcção ao chão onde se iriam esmagar – Se bem que a ideia do voo para o vazio tivesse sido tão aconchegante há bem pouco, Jacinto não queria esmagar-se. Antes pelo contrário, a força do sonho tão desejado mantinha-o ali, agarrado, com o resto das forças que ainda conseguia invocar.
É bem verdade que a necessidade transforma-nos em sobre-humanos, em algo que se conseguíssemos aplicar diariamente envergonharia até os heróis da Marvel. Teria sido o poder do sonho que o fez agarrar-se à vida, ali bem representada por aquela corda escorregadia? Talvez mais ainda que o medo do esmagamento contra o solo invisível. Jacinto pensou mais depressa.
O dia, antes alvo e solarengo, tinha dado lugar a uma quase escuridão que um relâmpago agora rompia. Breve que foi, chegou para que Jacinto visse o sangue a esvair-se das mãos cerradas na corda. Talvez fosse isso também a aumentar-lhe a determinação, a fazê-lo querer sair daquela situação insustentável.
“A imaginação não me vai dar asas”, pensou Jacinto, agarrando-se à vontade, o único tesouro que ainda lhe restava.
A intensidade da chuva tinha amolecido a parede do precipício, o suficiente para que finalmente surgisse uma possibilidade. Apercebendo-se disso, Jacinto pontapeou a parede com quanta força a posição lhe permitia até que, por fim, conseguiu apoiar primeiro um, e depois os dois pés. Apenas as pontas mas o suficiente para a situação ter passado de desesperada a difícil. “Evolução”, rejubilou Jacinto. Já conseguia respirar. Já conseguia avaliar a situação sob uma perspectiva mais favorável, o suficiente para fazer planos, o suficiente para descobrir uma forma de subir a escarpa, o suficiente para recordar-se das palavras de um sábio com quem um dia se tinha cruzado no caminho: “há sempre uma reserva dentro de nós”, tinha ele dito, “…de energia e de vontade. Se tiveres amor suficiente e compaixão. Se acreditares e fores capaz de olhar para dentro de ti próprio. Mesmo que esteja lá mesmo no fundo. Procura e descobrirás. Acredita quando mais ninguém for capaz, mesmo quando tudo parecer indicar o pior.” Assim era de facto e a tempestade que normalmente achamos trazer apenas desgraças tinha sido o seu bilhete para a salvação.

MÚSICA DA SEMANA

“”When I Live My Dream” (David Bowie – 1967)

When I live my dream
When I live my dream, I’ll forgive the things you’ve told me 

And the empty man you left behind
It’s a broken heart that dreams, it’s a broken heart you left me 
Only love can live in my dream
I’ll wish, and the thunder clouds will vanish 

Wish, and the storm will fade away
Wish again, and you will stand before me while the sky will paint an ouverture 
And trees will play the rhythm of my dream

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