Duas pedras em cada mão

Hoje vou precisar de ser sucinto, pois isto que tenho para dizer requer detalhe e minúcia, não vá eu juntar duas palavras que entram depois num contexto diferente do original, e nem vindo desmentir mais tarde a mais peluda e marreca das deturpações alguém acredita na minha versão – a única, no fundo. Mas indo directo ao assunto, vi no outro dia um vídeo que tem circulado pelas redes sociais onde um serviço noticioso ja à primeira vista de idoneidade suspeita dá conta de um caso de violência extrema, onde alegadamente um grupo de crianças “muçulmanas” teria apedrejava fiéis cristãos à saída da missa numa igreja do sul de França, e logo num dia de feriado religioso. Só esta descrição já seria o suficiente para que milhares de utilizadores da rede partilhassem este travesti (“notícia” daria azo a “interpretações extensivas”), com outros que entretanto faziam o mesmo, entre igualmente milhares de “likes”, e comentários que variavam entre o fatalismo resignado (“olha, quéqueu diçe, quiamos todes morrer”), o juízo final (“até que enfim, Deus, este mundo vai acabar!”), e a máquina de matar (“bombas já neles todos””).

Mas então e o vídeo, era autêntico? Era, um autêntico balde de fezes ralas. Via-se uma igreja cristã, certo, que podia ser no sul de França ou na Capadócia, mas o locutor, um canadiano se não estou em erro, dizia “France”, e nós “oui oui”. E via-se crianças a atirar pedras, de facto, e pareciam “muçulmanas”, não porque atiravam pedras, mas sim porque o faziam no sítio onde é comum deparar com esse cenário: nos territórios ocupados da Palestina – e estas eram imagens “vintage” desse “cromo” da nossa (falta de) civilização. No fim, e após tecer oportuníssimas considerações a respeito das tais crianças, que “nascem a pedir para morrer como mártires”, o locutor chega-se próximo da câmara, faz uma cara de maníaco e conclui berrando uma tirada fulminante de analise política: “É a religião da paz, minha gente!”. Como é que eu sei se o vídeo é falso? Essa pergunta preocupa-me por uma série de razões que nada têm a ver com o conteúdo da falsa notícia – e digo falsa porque é a única (des)informação que tenho. Fico preocupado porque basta ter dois olhos, estar acordado e mais ou menos sóbrio para perceber que o vídeo é falso, mas isto não deteve milhares de pessoas de o partilhar e comentar sem uma única referência a esse detalhe, que é tudo o que importa, no fundo. Pior ainda são os que não vêem o clip, porque “não têm coragem”, mas não se inibem de comentar: “não vi porque não aguento ver estas coisas, mas esses demónios deviam estar todos mortos” – neste timbre, ou pior.

São tempos difíceis, estes que atravessamos, e nada pior do que o éter das religiões para inebriar as massas, que devem já estar fartas de paz. Pelo menos é que eu entendo pelos apelos à guerra, aos festejos quando se dá conta de bombordeamentos, e sobretudo à relativização que se faz da vida humana em nome da religião, ou neste caso contra uma delas. Sei que as pessoas de bem preferem não entrar discussões fúteis, ou tentar chamar a atenção para o facto de se estar a usar um discurso extremista para se combater o outro “extremismo”, com o pretexto de o afastar da sua zona de conforto, e tudo com o terrorismo a servir inicialmente de mote, mas entretanto relegado para segundo plano. Era bom no entanto que quem de direito pudesse colocar alguma água na fervura, nem que fosse pelo autêntico deboche que tem sido a falsificação de factos, números e como já referi em cima, imagens. Também já me foi dito que isto é uma “fase”, e que esta tamanha bizarria explica-se pelo súbito aparecimento de um estrato menos educado da população a comentar nos fórums e nas redes sociais, e que apesar de escrever mal e estar dotada de um raciocínio simplista, partilha com os restantes um sentimento que a desinibe: o medo. Por esse mesmo motivo se explica também a radicalização de outros comentadores, outrora mais moderados, mas que justificam esta mudança em nome do combate ao “radicalismo”.

O medo, seja ele ou não justificado, pode explicar muita coisa, mas não explica tudo. Leio entre os muitos comentários na rede, e até alguns artigos de opinião na imprensa, gente que vem falar de uns tais “valores europeus”, ou “europeístas”; não sei bem do que se trata, mas concerteza que não tem nada a ver com a União Europeia, que desde que me recordo só oiço dizer horrores e manifestações de indiferença e desprezo. Também não entendo como é que alguns portugueses pularam com tanta facilidade para dentro da carroça do ódio, e aqui talvez seja uma boa oportunidade para recordar aquilo que me mantém numa posição de neutralidade. Não nasci nem cresci com os tais “valores europeus”, e o que me ensinaram, e se calhar foi por acaso, é que a nossa natureza humanista e globalizada dotou-nos de tolerância e respeito pela diferença, que foi, e espero ainda ser aquilo que nos distingue dos povos que à força impuseram o seu jugo à custa da repressão, segregacionismo e exclusão – um pouco como na “lei do mais forte”, no contexto da selecção das espécies. Aceitei estas valências como justas e irrevogáveis, e suficientemente sólidas para não se deixarem derrubar por uma provocação vinda de quem não se identifica com elas. E em retrospectiva, dá-me vontade de questionar os tais valores que desconheço, pois se na sua defesa a primeira opção é o conflito e a agressão, não deverão ser tão válidos assim, que os justifique preservar.

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