Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMiguel Enrique Stédile, académico Acaba de ser editado no Brasil, pela Expressão Popular, o “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas”, de autoria de Miguel Enrique Stédile, Julián Bokser, Diego Pautasso e Javier Vadell. O co-autor Miguel Enrique Stédile explica que a obra apresenta “uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul”. Já há planos para uma segunda edição Porquê editar este Dicionário e quais os principais conteúdos que são mostrados ao leitor? Nos últimos anos tem havido um crescente interesse pela China no Brasil e na Argentina, tanto pelo público académico, quanto pelo leigo. Entretanto, a literatura publicada localmente ainda é insuficiente para dar conta de todas as dimensões da experiência chinesa. Então, a partir da necessidade de uma obra de referência que permitisse ao leitor ser introduzido rapidamente a alguns conceitos e questões-chave, apresentamos o Dicionário, uma obra que permite aos pesquisadores brasileiros e hispano-falantes contarem com um livro que reúna num só local estas questões mais frequentes. O dicionário reuniu mais de 70 pesquisadores brasileiros e argentinos, com uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul. Que China nos é contada neste livro? É dado maior foco à mudança económica do país, na sua abertura ao mundo, por exemplo? Sim. Seria impossível escrever em pouco tempo um dicionário sobre a cultura ou a história chinesa, por exemplo. Optámos então por um dicionário de questões políticas, económicas e sociais. Evidentemente, há um conjunto de questões que remetem ao início da Nova China, mas concentramo-nos também em questões mais contemporâneas para que o leitor possa compreender um pouco mais do que se trata o país que emerge da Reforma e Abertura. Como se pode olhar para a evolução do “Socialismo com Características Chinesas”, sobretudo a partir dos anos 80? Podemos falar de Deng Xiaoping como um dos seus teóricos? A trajectória chinesa desperta muito interesse e eu diria até inspiração aos países do chamado Sul Global, porque assistimos a um país que enfrentou guerras civis, invasões estrangeiras, a saída de uma condição de precariedade para o topo do PIB [Produto Interno Bruto] global. Evidentemente, os papéis de Mao Zedong, Zhou Enlai e desta geração revolucionária sã imprescindíveis sem os quais não haveriam as bases para que a geração seguinte pudesse assentar as transformações. Da mesma maneira, Deng [Xiaoping] é um personagem importantíssimo. Mas quando olhamos a trajectória em perspectiva histórica, percebemos que o grande protagonista é o povo chinês. Por melhores iniciativas que seus líderes tenham, elas só se transformam em realidade, quando o povo as compreende e agarra. Quais as mudanças trazidas pelo governo de Xi Jinping a este modelo governativo? Creio que o período actual com o Presidente Xi é interessantíssimo e, por si só, tem nos dado muitos motivos para pensarmos numa segunda edição ampliada. O Governo do Presidente Xi coincide com uma grave crise económica mundial, a pandemia global e a crise climática, e neste contexto, a China consegue não apenas se posicionar de forma a enfrentar estas crises, como apresenta caminhos que poderiam ou deveriam ser seguidos por outras nações. Acho que há muitas contribuições inovadoras neste período actual sobre a civilização ecológica, a inovação e mais recentemente sobre a questão da soberania digital e a Inteligência Artificial, além da erradicação da pobreza extrema. Qual a importância de editar esta obra no Brasil, tendo em conta o relacionamento do país com a China? Estamos publicando simultaneamente no Brasil, pela editora Expressão Popular, e na Argentina, pelo editorial Batalla de las ideas. Creio que, ao mesmo tempo em que suprirá uma pequena parte da grande lacuna que temos em relação ao conhecimento da China, despertará o interesse para que outros pesquisadores produzam mais sobre estes temas. Mas, espero, em especial, que sirva como um convite para os nossos colegas académicos procurarem mais parceiras de intercâmbio científico e tecnológico com a China e que aproximem os nossos países de formas mais significativas e cooperadas, para além das volumosas relações comerciais que os nossos países possuem. Ana Maria Saldanha escreve sobre Grande Baía, Macau e Hong Kong O “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas” conta com a colaboração de Ana Maria Saldanha, ex-professora universitária em Macau e docente na Universidade Normal de Hunan, sendo esta uma das autoras juntamente com nomes como Julián Bosker, Diego Pautasso ou Javier Vadell, entre outros. Na entrada do dicionário “Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, Ana Maria Saldanha descreve como esta região é “frequentemente comparada ao Vale do Silício devido à sua importância económica e tecnológica”, sendo “uma iniciativa de desenvolvimento estratégico da China”. Lê-se ainda que o “projecto visa integrar e reforçar a cooperação económica e tecnológica entre as nove cidades da província de Guangdong” e as regiões administrativas especiais, tratando-se de um “ambicioso projecto de desenvolvimento económico e de cooperação regional”. Através da Grande Baía, Pequim pretende “transformar a área numa das mais dinâmicas e inovadoras do mundo, competindo com regiões como as baías de São Francisco, Tóquio e Nova York”. Ana Maria Saldanha recorda como, em 2015, “a Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Reforma, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério do Comércio (da República Popular da China) divulgaram o documento ‘Visões e Acções para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI”, tendo-se definido aí a “Construção da Grande Baía Guangdong, Hong Kong e Macau”. Nesta entrada do dicionário é também referido que “o apoio estatal tem desempenhado um papel crucial neste processo de integração regional graças aos investimentos maciços em investigação e desenvolvimento”, sendo que a China “estima que o desenvolvimento da inovação e da tecnologia impulsiona a economia, melhora a qualidade de vida e cria empregos de qualidade”. Ainda assim, a autora destaca como embora “as oportunidades de desenvolvimento sejam vastas, a região enfrenta desafios, decorrentes da existência de diferenças entre os sistemas jurídicos e económicos de Hong Kong e de Macau em relação à China continental”. Porém, “os objectivos pretendidos estão a ser alcançados: o Governo Central tem conseguido manter uma estreita conexão entre as regiões administrativas especiais e o restante território da província de Guangdong, num contexto em que a estabilidade regional é considerada de suma importância”. Ana Maria Saldanha acrescenta ainda que a região da Grande Baía “é uma iniciativa ambiciosa que visa capitalizar sinergias regionais”, além de aspirar “tornar-se um centro de inovação científica e tecnológica” na promoção “do empreendedorismo” e atracção de “quadros especializados, local e internacionalmente”. “Ainda que existam obstáculos, nomeadamente em razão de disparidades políticas e socioeconómicas, a região tem um forte potencial para se estabelecer como líder mundial em inovação e desenvolvimento sustentável”, lê-se ainda. Simplificar conceitos Em informação oficial difundida pela editora Expressão Popular nas redes sociais, a propósito do dicionário, lê-se que o “socialismo chinês desenvolveu conceitos próprios para responder aos desafios da modernização, da soberania e da construção socialista”. A ideia é levar o leitor a compreender conceitos fundamentais como o desenvolvimento económico do país, a “experiência socialista contemporânea”, a “Reforma e Abertura”, que se iniciou com Deng Xiaoping a partir de 1978; e ainda o papel do Estado. O livro constitui, assim, uma síntese do “vocabulário político, económico e histórico a partir da experiência da Revolução Chinesa até aos dias actuais”.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteXavier Garcia, jornalista e autor: “O domínio mundial do Ocidente acabou” “China, ameaça ou esperança – A realidade de uma revolução pragmática” é o nome do mais recente livro de Xavier Garcia, editado em português pela Tempo Galiza Editora. O autor, que foi correspondente da EFE em Pequim, explica algumas ideias construídas pelo Ocidente em relação ao país e diz que Portugal deve aproveitar a ligação a Macau para estreitar laços com a China Tem vasta experiência na China, na qualidade de repórter. Como começou a sua relação com o país, e de que forma está demonstrada neste livro? A minha relação com a China começou em 2018 porque fui destacado como director da delegação da agência de imprensa EFE em Pequim. Vivi sete anos na China e desde o princípio que me surpreendeu o desenvolvimento, capacidade para organizar a vida de tantos milhões de pessoas, as mudanças rápidas, políticas orientadas a longo prazo e questões realmente decisivas, como a eliminação da pobreza, a distribuição de riqueza ou a questão ecológica. Também me surpreendeu o carácter pacífico das pessoas e, digamos, mediterrâneo, festivo, bem como o gosto pela comida ou a importância da família, a maneira simples de viver e de fazer as coisas de uma forma prática. A China é uma ameaça, uma esperança ou um pouco das duas coisas, e porquê? Considero que a China representa, acima de tudo, uma esperança para o mundo, pois demonstrou a eficácia das suas políticas contra os problemas mais graves da humanidade, como a pobreza ou a crise climática. Também porque defende uma relação internacional pacífica entre países, diferente daquela a que estamos habituados, uma relação baseada no comércio, na cooperação, no ganho mútuo e não na imposição de um país sobre o outro. A China não procura impor o seu modelo a ninguém e defende um mundo multipolar onde as diferentes culturas e civilizações possam coexistir na sua diversidade. Quando se fala de revolução pragmática, entende que o Ocidente deve olhar para a relação com a China de outra forma, com mais pragmatismo? O Ocidente, pragmaticamente, deveria tentar aprender com algumas das coisas que a China faz bem, aprendendo com os outros. Deveria deixar de tentar impor os seus valores e formas de organização política ao resto do mundo. Deveria olhar para outras civilizações e países com mais humildade, procurando aprender com o que pode servir para melhorar a vida das populações. O Ocidente precisa de aceitar que o tempo do seu domínio mundial acabou, mas que pode coexistir em paz com o resto do mundo, respeitando as outras culturas sem ter de abdicar dos seus valores. Na obra, faz uma espécie de “denúncia das campanhas mediáticas ocidentais” criadas para “desprestigiar a China”. Quais as mais evidentes? Por que razão são criadas estas campanhas e quais são os seus principais objectivos? Para as potências económicas, corporativas e mediáticas ocidentais, um país que se define como comunista não pode servir de exemplo para o resto do mundo, muito menos para o chamado Sul Global. O objectivo é demonizar e denegrir a imagem da China para que nenhuma das suas políticas possa ser vista como positiva, sob pena de representar uma alternativa viável ao modelo capitalista neoliberal promovido pelo Ocidente. Qualquer medida chinesa, mesmo as claramente desejáveis, como a erradicação da pobreza ou a construção de uma civilização ecológica, deve ser apresentada de forma negativa. Para tal, são empregues todas as estratégias e manipulações mediáticas, se não mentiras descaradas, bem como um arsenal de palavras e expressões que contribuem para deixar uma impressão negativa no leitor. Estas estruturas descritivas são constantemente repetidas até serem inconscientemente aceites como verdadeiras. Toda a política chinesa é criticada, há sempre um custo que a invalida. Trata-se de informação altamente tendenciosa, que exige um leitor muito atento e perspicaz para reconhecer as armadilhas. Fala-se de propaganda chinesa, mas a propaganda ocidental é mais complexa de detectar. Requer um leitor atento. Como vê a posição da Espanha em relação a Pequim? O primeiro-ministro espanhol tem assumido algumas posições contrárias a Washington em matéria de geopolítica que podem agradar mais à China. Considera que isso traz benefícios, sobretudo económicos? Nos últimos tempos, Sánchez tem desempenhado um papel de destaque na política internacional e na União Europeia em questões cruciais como o genocídio em Gaza, a guerra do Irão e as relações com a China. A aproximação à China é recente, dado que Espanha tinha perdido terreno considerável para outros países europeus até há apenas quatro anos. Uma maior cooperação com a China trará, sem dúvida, benefícios para Espanha, graças à liderança da nação asiática em áreas-chave para o futuro, como a inovação tecnológica e a transição energética. Além disso, a China representa um aliado previsível e fiável numa altura em que a relação precária com os Estados Unidos parece cada vez mais instável. Portugal está a perder terreno face à Espanha na relação com a China? A relação da Espanha com a China tem crescido significativamente nos últimos meses. Recentemente, foi anunciado que a China ultrapassou a Alemanha e é agora o principal fornecedor da Espanha. Além disso, Pequim escolheu Espanha para acolher a sua maior fábrica de automóveis na Europa. Neste aspecto, Portugal tem vindo a perder terreno para Espanha economicamente. No entanto, mantém uma relação de longa data com a China, particularmente em territórios como Macau, algo que Espanha não possui. Isto representa uma vantagem que Portugal deve aproveitar para aprofundar laços a todos os níveis. Esse estreitamento não deve estar condicionado à filiação política do Governo em funções. A China está a mudar o formato das relações internacionais e diplomáticas que temos vindo a conhecer até agora? De que forma? Sim. A China propõe um novo modelo de relações internacionais regido pelos cinco princípios da coexistência pacífica que moldaram a sua política externa durante mais de 70 anos: essencialmente, não interferência nos assuntos internos de outros países, respeito pela soberania e integridade territorial e não agressão. Durante mais de 200 anos, estivemos habituados a uma forma de relações internacionais em que alguns países se impõem a outros, com vencedores e vencidos. A China promove uma política de ganho mútuo, na qual todos os países beneficiam da cooperação, seja ela económica, científica ou cultural. Além disso, defende uma ordem internacional muito mais justa do que aquela que emergiu da Segunda Guerra Mundial, com uma representação mais equitativa e proporcional do Sul Global em instituições como a ONU e outras. Apoia um mundo multipolar no qual não exista uma potência hegemónica dominante e todas as civilizações possam coexistir e colaborar pacificamente. Como encara o conceito “Socialismo com características chinesas”? Existe ainda desconhecimento por parte dos outros países em relação a este modelo de governação? Ainda existe muita ignorância em relação à China, pois há também o interesse em retratá-la como um país opaco, obscuro e desconhecido. O que não se conhece inspira medo, e o medo é um dos principais factores que quem detém poder utiliza para controlar os cidadãos. A China adopta um socialismo marxista adaptado às características históricas da sua antiga civilização, fortemente influenciado pelas suas principais escolas de pensamento filosófico, como o taoísmo e o confucionismo, e pragmático, muito ancorado na realidade, procurando sempre as melhores soluções para melhorar a qualidade de vida da população. É um sistema que só poderia ser aplicado na China e está intimamente ligado às idiossincrasias do país. No entanto, isso não nos impede de aprender muito com este modelo. Em termos gerais, quais são as principais mensagens que este livro nos transmite? Em poucas décadas, a China passou de um dos países mais pobres do mundo para se tornar na segunda maior economia global, sem praticamente disparar um único tiro fora das suas fronteiras. O seu desenvolvimento tem sido, e continua a ser, pacífico, tirando 800 milhões de pessoas (75 por cento dos pobres do mundo) da pobreza. Nos últimos 15 anos, o país tem demonstrado também uma grande consciência ambiental, procurando construir uma civilização ecológica. Agora, centra-se na redistribuição da riqueza gerada e na correção das desigualdades criadas pela economia de mercado, ao mesmo tempo que promove um desenvolvimento de alta qualidade baseado na inovação tecnológica. Tudo isto é feito de forma pragmática, fundamentada em princípios marxistas, mas rejeitando completamente o dogmatismo. A China experimenta diversas soluções para os problemas emergentes e adopta aquela que produz os melhores resultados para melhorar a vida das pessoas. É flexível, como o bambu. É um país que não é governado por elites económicas, mas por funcionários públicos excepcionalmente bem formados, que demonstraram a sua capacidade de gerir assuntos públicos ao longo dos anos, desde o nível local até aos mais altos escalões pelas mentes mais brilhantes entre 1,4 mil milhões de pessoas. Estes são apenas alguns dos factos que os meios de comunicação ocidentais nos escondem, obcecados em pintar um retrato de um país que pouco ou nada tem a ver com a realidade.
Hoje Macau Via do MeioFilosofia e História: Interpretando a “Era Xi Jinping” Por Jiang Shigong Jiang Shigong (强世功, nascido em 1967) é professor da Universidade de Pequim e um dos quadros mais importantes do Partido Comunista Chinês (PCC) na área da filosofia, uma figura central no pensamento que defende um caminho de desenvolvimento distinto para a China, baseado nas suas próprias tradições e realidades, em contraponto com os modelos ocidentais. Uma leitura importante para compreender o modo como a filosofia clássica é integrada na via actualmente percorrida pela liderança chinesa e onde igualmente se referem as diferenças entre o “Ocidente metafísico” e a “China histórica”. (continuação do número anterior) Socialismo com características chinesas para uma nova era: A solução chinesa para a modernização O terceiro posicionamento da era Xi Jinping fornecido pelo relatório ao 19.º Congresso do Partido está dentro da história do movimento comunista internacional. O relatório destaca especialmente que o Socialismo com Características Chinesas entrou numa nova era, indicando que “o socialismo científico está cheio de vitalidade na China do século XXI e que a bandeira do Socialismo com Características Chinesas está agora hasteada bem alto e orgulhosa para que todos vejam”. Marx e Engels defenderam o socialismo científico e promoveram o movimento comunista no mundo, dando início à busca pelo caminho para a modernização do socialismo. Se dissermos que Marx e Engels fizeram parte da primeira fase da experiência socialista na Europa Ocidental (ou seja, a Comuna de Paris), então a segunda fase é o modelo soviético baseado na construção do socialismo após a Revolução de Outubro e o impacto que isso teve no campo socialista. A Nova China basicamente imitou o modelo da URSS no período imediatamente após a sua fundação. Desde a exploração inicial de Deng Xiaoping do Socialismo com Características Chinesas até à defesa posterior de Xi Jinping do Socialismo com Características Chinesas, esta abordagem amadureceu e tomou forma continuamente, e agora se mantém firme como a terceira fase na busca do caminho para a modernização do socialismo. Na verdade, esta fase começou com a reflexão de Mao Zedong sobre o modelo soviético após 1956 e com o seu «Sobre as Dez Grandes Relações», quando a China começou a traçar um caminho de desenvolvimento independente para a modernização do socialismo. No entanto, devido a circunstâncias históricas particulares, a busca por um caminho chinês tornou-se a ainda mais radical «Revolução Cultural». A Reforma e Abertura, na verdade, voltaram ao caminho aberto por «Sobre as Dez Grandes Relações», buscando mais uma vez construir o socialismo com características chinesas. Quando o caminho soviético para a modernização do socialismo fracassou completamente, devido à desintegração da União Soviética e ao fim da Guerra Fria, a China ergueu a grande bandeira do Socialismo com Características Chinesas no cenário mundial, tornando-se um poderoso concorrente do capitalismo ocidental como modelo de desenvolvimento. Os estudiosos apontaram que, se no início o socialismo salvou a China, agora a China salvou o socialismo. O que deve ser observado é que o conceito empregado pela primeira vez por Deng Xiaoping foi “um socialismo com características chinesas”, que também foi o tema central do relatório do 13º Congresso do Partido (1987). O relatório do 14º Congresso do Partido (1992) mudou isso para “socialismo, com características chinesas”. A partir do relatório do 16.º Congresso Nacional, passou a ser “socialismo com características chinesas”. À primeira vista, isto parece ser apenas uma questão de semântica, mas, na verdade, as mudanças reflectem uma profunda importância política. As duas primeiras expressões assumem como certo que existe um «socialismo» fundamental, o socialismo definido pelas obras de Marx e Lenin e pela prática da União Soviética, e que apenas adicionamos algumas «características chinesas» à estrutura socialista básica. Mas a ideia de «socialismo com características chinesas» significa que o socialismo não tem realmente um modelo de desenvolvimento fundamental, consistindo, em vez disso, num conjunto de princípios e ideias básicos. Esses princípios e ideias devem ser continuamente explorados e desenvolvidos na prática, acompanhando o avanço do tempo. O “socialismo com características chinesas” não está a adicionar características chinesas a uma “estrutura socialista” já definida. Em vez disso, utiliza a experiência vivida pela China para explorar e definir o que, em última análise, é o “socialismo”. Por esta razão, o «socialismo» não é um dogma ossificado, mas sim um conceito aberto que aguarda exploração e definição. A China não está a seguir cegamente as ideias e instituições socialistas produzidas pela experiência ocidental do socialismo, mas sim a traçar o caminho do desenvolvimento socialista com base numa maior autoconfiança, levando o projecto da modernização da construção socialista à sua terceira fase. Por esta razão, o relatório do 18.º Congresso Nacional falou correctamente sobre «autoconfiança no caminho», «autoconfiança na teoria» e «autoconfiança nas instituições» envolvidas na construção do Socialismo com Características Chinesas. A razão pela qual a China se tornou cada vez mais autoconfiante e encorajada na sua busca pelo caminho para a modernização do socialismo tem a ver com a profundidade da tradição cultural chinesa. Foi precisamente a cultura chinesa que infundiu à ideia de «comunismo» uma nova capacidade espiritual, abrindo um novo caminho para a modernização do socialismo e encorajando todos os países em desenvolvimento a abrirem os seus próprios caminhos para a modernização. Por esta razão, o relatório ao 19.º Congresso Nacional acrescentou a «autoconfiança cultural» às outras três, de modo que agora existem «quatro autoconfianças». Uma vez adotada a perspectiva do movimento comunista internacional, o posicionamento da era Xi Jinping não pode mais se limitar à história do Partido, à história da república ou à história da civilização chinesa. Ele entra na história da civilização mundial por meio do movimento comunista internacional. Isso significa que o socialismo com características chinesas deve alcançar reconhecimento universal em todo o mundo. A história da civilização mundial é a história dos diferentes países e povos em todo o mundo passando da tradição para a modernidade. Neste processo de transformação, os Estados Unidos e certos países da Europa Ocidental lideraram a transição para a modernidade. Isso levou-os a colonizar outros países e povos, forçando-os a escolher o modelo ocidental. Ao longo do século XIX, a Alemanha foi a primeira a iniciar a busca por um caminho para a modernização diferente do capitalismo da Inglaterra e dos Estados Unidos, um modelo que mais tarde foi apelidado de «capitalismo de Estado». Após a derrota da Alemanha nas duas guerras mundiais, o desafio do modelo alemão ao modelo anglo-americano fracassou. No século XX, o modelo soviético representou o segundo desafio ao caminho capitalista ocidental para a modernidade, estabelecendo o seu próprio caminho socialista de estilo soviético para a modernidade e, ao fazê-lo, mudou a configuração mundial. Países de desenvolvimento tardio, como a URSS e a China, transformaram-se da noite para o dia de países atrasados, feudais e agrícolas em superpotências mundiais, ilustrando claramente a superioridade interna do caminho socialista. No entanto, o desafio do modelo soviético fracassou com a desintegração da União Soviética. O capitalismo ocidental liderado pelos Estados Unidos parecia anunciar uma vitória mundial e lançou uma campanha de «globalização» baseada no modelo ocidental. Por esta razão, para alguns pensadores ocidentais, o caminho ocidental para a modernização tornou-se a única verdade universal, e a história mundial entrou na fase do «fim da história». Aos olhos de outros pensadores, porém, embora a globalização tenha levado superficialmente ao «fim da história», na realidade o fim da história produziu conflitos que resultaram num «choque de civilizações». Essa noção substituiu a ideologia da Guerra Fria, e a civilização da humanidade correu o risco de retornar à idade das trevas pré-moderna. Neste contexto internacional, a construção do socialismo com características chinesas não só tem grande significado no que diz respeito ao grande renascimento da nação chinesa no contexto da história da civilização chinesa, como também possui grande significado no que diz respeito à busca do futuro da civilização da humanidade em geral. A possibilidade de a civilização chinesa dar uma nova contribuição para toda a humanidade depende, em grande medida, da capacidade da civilização chinesa de encontrar um novo caminho para a modernização do desenvolvimento da humanidade. Isso é especialmente verdadeiro no caso dos países em desenvolvimento tardio: eles podem livrar-se da dependência imposta pela modernidade capitalista e superar os conflitos culturais e as dificuldades que enfrentam nas divisões mundiais actuais? Foi precisamente nesse sentido que o relatório do 19.º Congresso Nacional posicionou claramente a era Xi Jinping na história da civilização mundial: «Ela oferece uma nova opção para outros países e nações que desejam acelerar o seu desenvolvimento, preservando a sua independência; e oferece a sabedoria chinesa e uma abordagem chinesa para resolver os problemas que a humanidade enfrenta.» Durante a era Deng Xiaoping, o objectivo da exploração do socialismo com características chinesas era compreender como resolver as questões de desenvolvimento da própria China e evitar ser “deixada para trás” pela onda da globalização. Mas, após a ascensão da China para se tornar a segunda economia mundial, o país agora está no centro do palco mundial e não pode ignorar as suas obrigações para com o resto do mundo, concentrando-se exclusivamente no seu próprio destino. A China deve recalibrar as suas relações com o mundo, ligando a construção do socialismo com características chinesas ao desenvolvimento de todo o mundo, participando activamente na governação mundial e assumindo as suas responsabilidades para com toda a humanidade. Para conseguir isso, desde o 18.º Congresso do Partido, Xi Jinping tem-se dedicado a impulsionar a transformação da política, da economia e do pensamento chineses, apontando claramente a necessidade de construir um novo sistema de governação internacional com base no «princípio de alcançar o crescimento partilhado por meio da discussão e da colaboração» 共商共建共享的全球治理观. Esta noção de «alcançar o crescimento partilhado através da discussão e da colaboração» tem as suas raízes no pensamento da cultura tradicional chinesa de que «o mundo pertence a todos» 天下为公, bem como nas noções de harmonia expressas no ditado «harmonia sem uniformidade» 和而不同. Tudo isto é, sem dúvida, a contribuição da sabedoria chinesa para toda a humanidade. No relatório ao 19.º Congresso do Partido, a palavra «contribuição» aparece onze vezes, o maior número em qualquer relatório do Partido na história. E a razão pela qual o PCC toma a sua «contribuição» para a humanidade como seu próprio guia de ação é precisamente para provar que o grande renascimento do povo chinês não é nacionalista, mas cosmopolita. Uma das raízes desse espírito cosmopolita está na tradição universalista confucionista (tianxia 天下), como vemos quando o relatório ao 19º Congresso do Partido invoca a noção de “quando a Via prevalece, tianxia [tudo sob o céu] é compartilhado por todos” 大道之行,天下为公; outra raiz é a crença comunista na libertação de toda a humanidade. O relatório ao 19.º Congresso do Partido salienta especialmente que «o Partido Comunista Chinês luta tanto pelo bem-estar do povo chinês como pelo progresso humano. Fazer novas e maiores contribuições para a humanidade é a missão permanente do nosso Partido». Historicamente, a civilização chinesa fez contribuições fundamentais e importantes para o desenvolvimento da civilização no Leste Asiático e em todo o mundo. Desde a era moderna, embora a revolução democrática e o caminho socialista da China tenham feito contribuições importantes para a libertação dos povos oprimidos, essas contribuições foram basicamente o resultado de escolhas e decisões feitas diante do modelo ocidental de modernização. Mas uma das razões pelas quais agora enfatizamos o grande renascimento da nação chinesa e a importância histórica desse renascimento é que esperamos integrar as várias conquistas da civilização ocidental com a tradição civilizacional chinesa e criar um novo caminho para a modernização, pavimentando assim um caminho fundamental para a civilização da humanidade à medida que ela passa da tradição para a modernidade. Embora muitos estudiosos proponham o «modelo chinês» como sendo distinto do «modelo ocidental», Xi Jinping, no seu discurso de 1 de julho de 2016 comemorando a fundação do PCC, escolheu em vez disso a «sabedoria chinesa» e a «solução chinesa». A própria escolha destes conceitos ilustrou a sabedoria chinesa, porque uma teoria tianxia verdadeiramente universal pode conter em si vários modelos de desenvolvimento. Na verdade, os «cinco princípios básicos da coexistência pacífica» há muito defendidos pela Nova China e a noção cultural tradicional chinesa de que «o rei justo não procura governar pessoas além do alcance da lei e da civilização» 王者不治化外之民 fazem parte de uma visão comum. Historicamente, a China nunca impôs a sua cultura aos países vizinhos, e a razão pela qual a cultura chinesa tem raízes tão profundas que se desenvolveram e se expandiram continuamente é porque a China respeitou a cultura dos países vizinhos e soube adoptar os pontos positivos dessas culturas para o seu próprio aperfeiçoamento contínuo, proporcionando assim uma postura exemplar e atraindo o estudo e a emulação dos países e regiões vizinhos. Por esta razão, a «solução chinesa» significa que a China não irá, de forma alguma, impor o seu modelo de desenvolvimento a outros países, como fez o Ocidente, mas irá, em vez disso, fornecer um conjunto de princípios, ideias e métodos de desenvolvimento, permitindo que outros países procurem um caminho de desenvolvimento adequado, de acordo com o seu próprio caráter nacional. Da mesma forma, o socialismo com características chinesas, como solução chinesa para a modernização, não procurará lançar um desafio em grande escala para suplantar o modelo capitalista ocidental, como fez o modelo socialista soviético. Num mundo liderado pela hegemonia ocidental, propor uma «solução chinesa» encontrará naturalmente oposição, contradições e conflitos, mas a China não tomará absolutamente a iniciativa de provocar uma nova Guerra Fria, porque respeita consistentemente o modelo de desenvolvimento de todos os países e continua a estudar e a beneficiar das conquistas razoáveis de outros modelos, enriquecendo e aperfeiçoando assim o seu próprio desenvolvimento. O relatório ao 19.º Congresso indica claramente que devemos «promover a transformação criativa da excelente cultura tradicional da China, criando um novo desenvolvimento», e que não devemos «esquecer a nossa intenção original, absorver elementos do exterior e enfrentar o futuro». Por esta razão, face aos conflitos regionais e civilizacionais provocados pela defesa ocidental do «fim da história», a China, apesar da sua ascensão, continuará a manter uma postura discreta de contenção e evasão de pactos e, no decorrer dos acontecimentos internacionais, nunca escolherá primeiro um lado com base em desacordos étnicos, religiosos, culturais ou ideológicos. A China adoptará sempre uma atitude pragmática e, perante conflitos, fará o seu melhor para preservar excelentes relações comerciais, políticas e culturais, ao mesmo tempo que se esforçará por fornecer bens públicos, tais como infraestruturas, transportes e Internet, ao resto do mundo, especialmente aos países em desenvolvimento. A sabedoria chinesa de «evitar conflitos por princípio» mudará silenciosamente o mundo, no decorrer do qual a China demonstrará verdadeiramente uma espécie de autoconfiança cultural e maturidade política. Por esta razão, em contraste com a busca pela hegemonia mundial que se seguiu à ascensão da Alemanha, da URSS e dos Estados Unidos, a China tem, na verdade, defendido uma espécie de «excepcionalismo chinês» ao longo de sua ascensão. Este excepcionalismo sublinha claramente a diferença entre a cultura chinesa e a cultura ocidental, que é que, enquanto a cultura ocidental tenta consistentemente chegar à resolução de qualquer antagonismo a favor de uma das posições originais, a cultura chinesa procura consistentemente encontrar a unidade dentro do antagonismo, o que resulta num pluralismo baseado em ideias de harmonia. Por esta razão, a ambição da «solução chinesa» é precisamente absorver todos os elementos positivos de todo o mundo a partir da sua base na civilização e tradição chinesas e, posteriormente, promover a transformação moderna da civilização e tradição chinesas, criando, em última análise, uma nova ordem para a civilização humana que transcenda e absorva a civilização ocidental. Desta perspectiva, tanto os desafios alemães do século XIX como os soviéticos do século XX ao caminho de desenvolvimento ocidental foram, em última análise, divergências dentro da civilização ocidental. Todos estes são modelos de desenvolvimento do «fim da história» baseados na tradição cristã. Apenas a «solução chinesa» que estamos atualmente a construir é um novo caminho de desenvolvimento verdadeiramente construído com base na história e tradição da civilização chinesa. Se dissermos que, desde o início da era moderna até à era de Deng Xiaoping, a principal missão da modernização da China foi aprender e assimilar as conquistas da modernidade capitalista ocidental e da modernização socialista, então a «solução chinesa» para a modernização projectada na era de Xi Jinping busca claramente transformar esse estudo e absorção no renascimento da civilização tradicional e, assim, criar um caminho de desenvolvimento para a modernidade diferente do da civilização ocidental. Isto significa não só o fim do panorama político global do domínio da civilização ocidental desde a era das grandes descobertas, mas também significa quebrar o domínio global da civilização ocidental nos últimos 500 anos no sentido cultural e, portanto, inaugurar uma nova era na civilização humana. No relatório ao 19.º Congresso do Partido, esta nova era é descrita da seguinte forma: «Devemos respeitar a diversidade das civilizações. Ao lidar com as relações entre civilizações, vamos substituir o afastamento pelo intercâmbio, os conflitos pela aprendizagem mútua e a superioridade pela coexistência.” Isso claramente parte do ponto de vista da civilização chinesa, nega os dois caminhos de desenvolvimento civilizacional ocidentais pós-Guerra Fria, “o fim da história” e o “choque de civilizações”, e traça um novo retrato do desenvolvimento da civilização da humanidade. (continua)
Hoje Macau China / ÁsiaChina não “exportará” modelo chinês, diz Xi Xi explicou. Os outros compreenderam. É o futuro contado às crianças e ao povo O diálogo de alto nível entre o Partido Comunista da China e vários partidos políticos mundiais foi inaugurado no dia 30, em Pequim, sob o tema: “Construção conjunta da comunidade de destino comum da humanidade e de um mundo melhor: responsabilidades dos partidos políticos”. O secretário-geral do Comité Central do PCC e presidente chinês Xi Jinping assistiu à cerimónia de abertura do diálogo, tendo proferido um discurso na ocasião. Segundo Xi, o PCC não “importará” modelos estrangeiros de desenvolvimento nem “exportará” o modelo chinês nem pedirá a outros países que “copiem” a prática chinesa. O presidente reiterou que o PCC se empenha tanto para o bem-estar do povo chinês como para o progresso humano. Então, o PCC criará mais oportunidades para o mundo promovendo o desenvolvimento da China, disse Xi. O PCC, como o maior partido político no mundo, também explorará a lei do desenvolvimento social para a humanidade pela sua própria prática que compartilhará com outros países. Os representantes dos vários partidos políticos estrangeiros reconheceram o conceito de construção da comunidade de destino comum da humanidade, apresentado por Xi, e demonstraram o propósito de que os diversos partidos políticos do mundo possam desempenhar um papel importante na realização dessa meta. O presidente do Partido Popular do Camboja e primeiro-ministro do país, Hun Sen, referiu que a realização do evento pelo PCC tem um significado histórico, assinalando que espera realizar diálogos e intercâmbios com Xi e outros líderes de partidos políticos no âmbito do desenvolvimento dos seus países, regiões e do mundo. Inspiração para África O secretário-geral do Partido da Revolução da Tanzânia, Abdulrahaman Kinana, afirmou que o “Pensamento sobre o Socialismo com Características Chinesas na Nova Era” apresentado por Xi no 19º Congresso Nacional do PCC, é uma importante inspiração para os países em desenvolvimento, tendo sido amplamente reconhecido e apoiado pelo povo africano. Kinana acrescentou que o seu partido quer fazer esforços conjuntos juntamente com o PCC e outros partidos políticos do mundo para construir um mundo melhor. O membro do Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e membro do Parlamento angolano, Mário Pinto Andrade, assinalou que o seu partido valoriza o importante discurso feito por Xi no 19º Congresso Nacional do PCCh e os êxitos obtidos pela China no seu desenvolvimento socioeconómico. Mário Andrade disse que o PCC atribui uma grande importância à construção de organizações partidárias, promove a democracia dentro do partido, aprofunda a educação do espírito partidário e o combate resolutamente a corrupção. O MPLA reconhece o conceito apresentado pela parte chinesa e apoia os esforços feitos pela China na defesa da paz mundial, soberania nacional, erradicação de pobreza e realização da justiça social, acrescentou. Enquanto primeiro evento diplomático multilateral organizado pela China após o 19º Congresso Nacional do PCC, este diálogo, que conta com participação de líderes de cerca de 200 partidos e organizações políticas de mais de 120 países, é o primeiro diálogo de alto nível entre o PCC e os diversos partidos políticos do mundo.