China | Obra sobre Socialismo com características chinesas editada no Brasil

Acaba de ser editado, pela editora Expressão Popular, no Brasil, a obra “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas”, co-coordenada por Miguel Enrique Stédile e que apresenta “uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul”, conforme conta ao HM, em entrevista. Já há planos para uma segunda edição

Porquê editar este Dicionário e quais os principais conteúdos que são mostrados ao leitor?

Nos últimos anos tem havido um crescente interesse no Brasil e na Argentina pela China, tanto pelo público acadêmico, quanto pelo leigo. Entretanto, a literatura publicada localmente ainda é insuficiente para dar conta de todas as dimensões da experiência chinesa. Então a partir da necessidade de uma obra de referência que permitisse ao leitor ser introduzido rapidamente a alguns conceitos e questões-chave, apresentamos o Dicionário. [Esta é] uma obra que permite aos pesquisadores brasileiros e hispano-falantes de contarem com um livro que reúna em um só local estas questões mais frequentes. O Dicionário reuniu mais de 70 pesquisadores brasileiros e argentinos, com uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul.

Que China nos é contada neste livro? É dado maior foco à mudança económica do país, na sua abertura ao mundo, por exemplo?

Sim. Seria impossível escrever em pouco tempo um dicionário sobre a cultura ou a história chinesa, por exemplo. Optamos então por um dicionário de questões políticas, econômicas e sociais. Evidentemente, há um conjunto de questões que remetem ao início da Nova China, mas nos concentramos também em questões mais contemporâneas para que o leitor possa compreender um pouco mais do que se trata o país que emerge da Reforma e Abertura.

Como se pode olhar para a evolução deste “Socialismo com Características Chinesas”, sobretudo a partir dos anos 80? Podemos falar de Deng Xiaoping como um dos seus grandes teóricos?

A trajectória chinesa desperta muito interesse e eu diria até inspiração aos países do chamado Sul Global, porque assistimos a um país que enfrentou guerras civis, invasões estrangeiras, a saída de uma condição de precariedade para o topo do PIB [Produto Interno Bruto] global. Evidentemente, o papel de Mao Zedong, Zhou Enlai e desta geração revolucionária é imprescindível, sem a qual não haveriam as bases para que a geração seguinte pudesse assentar as transformações. Da mesma maneira, Deng [Xiaoping] é um personagem importantíssimo. Mas quando olhamos a trajectória em perspectiva histórica, percebemos que o grande protagonista é o povo chinês. Por melhores iniciativas que seus líderes tenham, elas só se transformam em realidade, quando o povo as compreende e agarra.

Quais as mudanças trazidas pelo governo de Xi Jinping a este modelo governativo?

Creio que o período actual com o Presidente Xi é interessantíssimo e, por si só, tem nos dado muitos motivos para pensarmos numa segunda edição ampliada. O governo do Presidente Xi coincide com uma grave crise econômica mundial, a pandemia global e a crise climática, e neste contexto, a China consegue não apenas se posicionar de forma a enfrentar estas crises, como apresenta caminhos que poderiam ou deveriam ser seguidos por outras nações. Acho que há muitas contribuições inovadoras neste período actual sobre a civilização ecológica, a inovação e mais recentemente sobre a questão da soberania digital e a Inteligência Artificial, além da erradicação da pobreza extrema.

Qual a importância de editar esta obra no Brasil tendo em conta o relacionamento do país com a China?

Estamos publicando simultaneamente no Brasil, pela editora Expressão Popular, e na Argentina, pelo editorial Batalla de las ideas. Creio que, ao mesmo tempo em que suprirá uma pequena parte da grande lacuna que temos em relação ao conhecimento da China, despertará o interesse para que outros pesquisadores produzam mais sobre estes temas. Mas, espero, em especial, que sirva como um convite para os nossos colegas acadêmicos para que procurem mais parceiras de intercâmbio científico e tecnológico com a China e que aproximem nossos países de formas mais significativas e cooperadas, para além das volumosas relações comerciais que os nossos países possuem.

Ex-docente em Macau escreve sobre Grande Baía, Macau e Hong Kong

O Dicionário do Socialismo com Características Chinesas conta com a colaboração de Ana Maria Saldanha, ex-professora universitária em Macau e actualmente docente na Universidade Normal de Hunan, sendo esta uma das autoras juntamente com nomes como Julián Bosker, Diego Pautasso ou Javier Vadell, entre outros.

Na entrada do dicionário “Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, Ana Maria Saldanha descreve como esta região é “frequentemente comparada ao Vale do Silício devido à sua importância econômica e tecnológica”, sendo “uma iniciativa de desenvolvimento estratégico da China”. Lê-se ainda que o “projeto visa integrar e reforçar a cooperação econômica e tecnológica entre as nove cidades da província de Guangdong” e as regiões administrativas especiais, tratando-se de um “ambicioso projeto de desenvolvimento econômico e de cooperação regional”. Na Grande Baía Pequim pretende “transformar esta área em uma das mais dinâmicas e inovadoras do mundo, competindo com regiões como as baías de São Francisco, Tóquio e Nova York”.

Ana Maria Saldanha recorda como, em 2015, “a Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Reforma, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério do Comércio (da República Popular da China) divulgaram o documento ‘Visões e Ações para Promover a Construção Conjunta da Faixa Econômica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI”, tendo-se definido aí a “Construção da Grande Baía Guangdong, Hong Kong e Macau”.

Nesta entrada do Dicionário é também referido que “o apoio estatal tem desempenhado um papel crucial neste processo de integração regional graças aos investimentos maciços em investigação e desenvolvimento”, sendo que a China “estima que o desenvolvimento da inovação e da tecnologia impulsiona a economia, melhora a qualidade de vida e cria empregos de qualidade”.

Ainda assim, a autora destaca como embora “as oportunidades de desenvolvimento sejam vastas, a região enfrenta desafios, decorrentes da existência de diferenças entre os sistemas jurídicos e econômicos de Hong Kong e de Macau em relação à China continental”. Porém, “os objetivos pretendidos estão sendo alcançados: o governo central tem conseguido manter uma estreita conexão entre as regiões administrativas especiais e o restante território da província de Guangdong, em um contexto em que a estabilidade regional é considerada de suma importância”.

Ana Maria Saldanha acrescenta ainda que a região da Grande Baía “é uma iniciativa ambiciosa que visa capitalizar sinergias regionais”, além de aspirar “tornar-se um centro de inovação científica e tecnológica” na promoção “do empreendedorismo” e atracção de “quadros especializados, local e internacionalmente”.

“Ainda que existam obstáculos, nomeadamente em razão de disparidades políticas e socioeconômicas, a região tem um forte potencial para se estabelecer como líder mundial em inovação e desenvolvimento sustentável”, lê-se ainda.

Simplificar conceitos

Em informação oficial difundida pela editora Expressão Popular nas redes sociais, a propósito deste Dicionário, lê-se que o “socialismo chinês desenvolveu conceitos próprios para responder aos desafios da modernização, da soberania e da construção socialista”.

A ideia é levar o leitor a compreender conceitos fundamentais como o desenvolvimento económico do país, a “experiência socialista contemporânea”, a “Reforma e Abertura”, que se iniciou com Deng Xiaoping a partir de 1978; e ainda o papel do Estado. O livro constitui, assim, uma síntese do “vocabulário político, econômico e histórico a partir da experiência da Revolução Chinesa até aos dias atuais”.

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