Muralha, Bárbaros e Portas

 

Muralha, Bárbaros e Portas

 

1Há uma parábola de Kafka que conta que, num certo império, quiseram construir uma muralha à volta de todo o país para impedir que os bárbaros entrassem. A parábola de Kafka conta que a construção demorou tanto tempo que, quando terminou, os bárbaros já estavam lá dentro e agora, com a indestrutível muralha à volta, já não conseguiam sair.

A parábola não continua, mas poderíamos pensar que o passo seguinte, caricato, seria o império começar a derrubar o muro construído para que os bárbaros pudessem finalmente ser expulsos. Os mesmos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Ou então os filhos dos operários que haviam construído o muro eram agora contratados para o deitar abaixo. Muitas vezes isto: gerações sucedendo-se, uma fazendo o contrário do que fez a outra.

2Em Itália há um único santo que não fez milagres. Era um porteiro que foi feito santo. Ele só abria portas. Era porteiro de uma escola, mas abria portas com tanta alegria que foi feito santo. Abrir as portas com alegria. Uma bela síntese.

Quantas portas já abriste com alegria? Eis uma pergunta que deve ser feita no último momento. Antes das últimas palavras de um moribundo.

 

Poemas do Oriente: A amizade

Todo atento ao mais mínimo gesto do outro.
Mas atenção inconsciente, uma forma concreta e
humana de substituir o ar.
O copo que o cotovelo distraído derruba
apanhado ainda no início da queda pelo amigo que pensava noutro assunto.
Ou talvez afinal o amigo contasse os deuses
de noite visíveis no céu
e o movimento evitando a queda
tenha sido um aceno útil para cima;
ritual e oração substituídos num gesto
pelo velho instinto.

fim


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

20 Dez 2019

IC | “Antigas muralhas da cidade” alvo de restauro

OInstituto Cultural (IC) vai proceder, a partir de sexta-feira, ao restauro das “antigas muralhas da cidade”, também conhecido como o troço próximo da Igreja da Penha. De acordo com um comunicado, “durante a realização das obras serão colocadas vedações no parque do miradouro de Nossa Senhora da Penha a separar os peões da área de trabalho, mas estes trabalhos não terão impacto no horário de funcionamento do miradouro”. Prevê-se que os trabalhos de restauro estejam concluídos em meados de Novembro.

4 Set 2018

Instituto Cultural | Terreno com interesse arqueológico espera classificação há 8 anos

Um terreno onde foi encontrado um troço de muralha, que se acredita ter sido erguida durante a Dinastia Ming, está selado desde 2010. O HM esteve no local que aparenta estar abandonado, com vegetação a crescer para a via pública, apesar do IC dizer que tem tratado da muralha de forma contínua

 

Há mais de oito anos que o Governo está a trabalhar para classificar o terreno n.º 35 da Rua Dom Belchior Carneiro – nas traseiras das Ruínas de São Paulo – onde foi encontrado um troço de um muralha, que se acredita que tenha sido construída durante a Dinastia Ming (1368-1644), e ainda achados arqueológicos datados da Dinasta Qing (1644-1912). Contudo, o terreno, que está isolado com chapas metálicas, aparenta estar ao abandono, com a existência de lixo no local e vegetação a crescer para a via pública.

O HM esteve ontem no local, e através das brechas existentes nas chapas metálicas conseguiu verificar que o terreno está coberto com vegetação, ao ponto de cobrir o que aparenta ser a muralha antiga. Também é possível ver algum lixo dentro do terreno, como um chapéu de chuva e outros objectivos de metal.

Apesar da situação verificada, o Governo, através do Instituto Cultural (IC), garante que as muralhas estão a ser “continuamente analisadas, investigadas e tratadas ordenadamente nos termos da Lei de Salvaguarda do Património Cultural”.

O HM quis igualmente saber se existem planos por parte do IC para abrir o local ao público e expor a muralha, mas a pergunta não teve resposta.

Mesmo assim, o IC, garantiu que a muralha está identificada e que já faz parte da lista de imóveis que poderão futuramente ser classificadas: “As descobertas arqueológicas da antiga muralha, sita no terreno do N.º 35 da Rua de D. Belchior Carneiro, foram já incluídas na lista do levantamento de bens imóveis do Instituto Cultural”, respondeu o Executivo.

Problemas conexos

Além de ainda não ter sido classificado, o terreno onde se encontra a muralha, há outra questão relacionada com o lote de terra. A muralha foi descoberta em 2010, numa altura em que a Companhia de Desenvolvimento Predial Shabill estava a escavar no local para construir um edifício de sete andares para habitação e comércio. As obras tinham sido autorizadas pela DSSOPT, que inclusive emitiu a licença de construção.

Porém, desde 2010 que a construção ficou embargada. Uma situação que impede a empresa de desenvolver um terreno que lhe tinha sido atribuído. “Há oito anos que o processo se arrasta e há óbvios prejuízos para toda a gente. E os prejuízos maiores são para a RAEM, que está há oito anos com o terreno sem ser aproveitado como sítio arqueológico, estando a população e o turismo impedidos de o usufruir”, contou ao HM, fonte próxima da Shabill, que vincou que a empresa está empenhada em resolver o assunto pelo diálogo, evitando os tribunais.

Segundo a mesma fonte, a empresa compreende que não é possível construir no local, mas deseja ver a situação resolvida com uma alternativa. “Desde 2010 e até ao presente que a empresa proprietária está impedida de fazer o que quer que seja. O Governo não dá seguimento a nenhuma das propostas que a empresa apresentou para resolver o problema, nomeadamente trocar aquele terreno por outro, noutro local da cidade que identificou e já indicou”, foi explicado.

O terreno alternativo apresentado pela Shabill fica situado junto às bombas de gasolina, perto do Cemitério da Nossa Senhora da Piedade.

26 Jul 2018