Caiu da cadeira do poder

Possivelmente os leitores mais jovens nem saberão bem a história do ditador António Oliveira Salazar. Mas, eu conto-vos uma estória trágico-cómica que aconteceu com o antigo presidente do Conselho de Ministros durante o tempo da ditadura que reinou antes do 25 de Abril de 1974.

Fontes próximas da ama do ditador, Dona Maria, contaram-nos que o ditador era ouvinte diário dos programas humorísticos dos ‘Parodiantes de Lisboa’. Num belo dia, o ditador estava no ripanço do Forte de São Julião da Barra, sentado numa cadeira de lona, a apanhar os seus raios de sol e a escutar um programa de rádio da equipa dos humoristas lisboetas. A dada altura, achou tanta graça a uma rubrica do programa radiofónico que deu várias gargalhadas e caiu da cadeira batendo com a cabeça na pedra do chão e nunca mais recuperou da lesão cerebral.

Agora, passados mais de 50 anos, outro chefe de governo também caiu da cadeira, mas esta, a do poder. Luís Montenegro quando tomou posse como primeiro-ministro, devido à vitória tangencial da AD, afirmou que estava pronto para governar por quatro anos com transparência e estabilidade. Dois termos da maior importância em política, mas que em nada foram cumpridos pelo primeiro-ministro.

Na semana passada, Luís Montenegro caiu da cadeira do poder por culpa exclusiva sua. O político, líder do PSD e primeiro-ministro em gestão começou a andar nas bocas do mundo por falta de transparência nos seus negócios que alegadamente continuaram quando enveredou pela política a sério e pela falta de estabilidade no seu governo devido aos muitos casos que se registaram em pouco mais de 300 dias de governação, nomeadamente os 16 portugueses que morreram por o INEM ter levado a efeito uma greve e não ter dado apoio clínico a essas pessoas. Sobre transparência parece-me que está tudo dito e na última crónica especificámos em pormenor os cambalachos da sua empresa familiar e sobre as imobiliárias dos políticos que os fazem pertencer, enquanto cai uma estrela cadente, em homens abastados com casas de luxo, boas quintas ou um monte no Alentejo.

Aconteceu que depois de duas moções de censura ao Governo terem sido chumbadas, o Partido Socialista entrou na Assembleia da República com um requerimento potestativo para uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as dúvidas existentes na actividade da empresa familiar do primeiro-ministro e às quais nunca quis responder na totalidade.

Em face da atitude socialista, Luís Montenegro resolveu reunir o Conselho de Ministros e anunciar a apresentação de uma moção de confiança no parlamento. Pronto, estava o caldo entornado. Toda a gente viu que Luís Montenegro tinha enveredado pela chantagem e iria confrontar os socialistas no sentido se estes retirassem o requerimento para uma Comissão Parlamentar de Inquérito, ele também recolhia a moção de confiança. A sessão parlamentar que discutiu e votou a moção de confiança foi uma vergonha na história de 50 anos de democracia. O Governo e o líder parlamentar do PSD fizeram uma figura tristíssima e repugnante que levou à condenação de todos os parlamentares, excepto um grupelho chamado Iniciativa Liberal que ainda tem esperança de se aliar à AD e um dia ir para o governo de Portugal. Com a votação expressa em maioria absoluta contra a moção de confiança assistimos à queda de Montenegro, e seus pares, da cadeira do poder.

Depois, o Presidente da República, que sempre discordou de Montenegro na apresentação de uma moção de confiança, recebeu os partidos e reuniu o Conselho de Estado anunciando que as eleições se realizarão no dia 18 de Maio.

A bagunça da campanha eleitoral para dar fim a um ciclo de eleições nunca visto, vai começar. Montenegro está convencido que vai ganhar e Pedro Nuno Santos convencido está. Há sondagens para todos os gostos, umas dão vitória à AD e outras ao Partido Socialista. Uma coisa é certa: o Chega irá ter muito menos deputados do que tinha nesta legislatura que agora termina. Superamos agora a turbulência eleitoral registada na segunda metade da I República, de má memória.

Nesse período foram convocadas quatro eleições gerais para preencher assentos parlamentares: em Maio de 1919, Julho de 1921, Janeiro de 1922 e Novembro de 1925. Quatro actos eleitorais em seis anos e seis meses. Apesar de tudo, num intervalo mais dilatado do que a alucinante série de recentes eleições legislativas: Outubro de 2019, Janeiro de 2022, Março de 2024 e as que vão seguir-se no dia 18 de Maio. Há cem anos, nada de substancial ia sendo solucionado com as sucessivas chamadas às urnas. Pelo contrário, cada toque a rebate eleitoral deixava o quadro político e governativo sempre mais convulso. A história parece indicar que tudo se vai repetir. Os políticos dos nossos dias, sejam de que quadrante forem, deviam assimilar as lições da história. Antes, porém, é indispensável conhecê-la…

17 Mar 2025

Montenegro é o bombeiro

No próximo domingo Portugal terá um novo primeiro-ministro. Entrámos na última semana de campanha eleitoral. Até agora tem sido um lavar de roupa suja entre os principais candidatos, Pedro Nuno Santos, Luís Montenegro e André Ventura. Nunca tivemos tantos indecisos, cerca de 20 por cento, e tanta gente a dizer que não vai votar. A grande parte do eleitorado já não acredita nas promessas dos políticos e estes nada têm feito para sensibilizar o potencial eleitor a decidir-se pelo voto concreto. Durante a semana passada assistimos a um pouco de tudo com evidência profunda nas hostes da AD comandada por Luís Montenegro. Aconteceu-lhe um pouco de tudo, incluindo uma lata de tinta verde pela cabeça abaixo por parte de um jovem activista que diz defender o clima. A AD parece não ter conselheiros que entendam de política a sério. Vejam só: pediu a Cavaco Silva para “ressuscitar” e apelar no voto AD, o homem que foi o pior Presidente da República; convocou o ex-primeiro-ministro Passos Coelho para um comício no Algarve. O mesmo Passos Coelho que os pensionistas e muitos portugueses nem querem ouvir falar no seu nome pela governação destruidora que realizou enquanto governante contra os mais desfavorecidos, incluindo o corte nas pensões e a retirada do subsídio de Natal. Passos Coelho subiu ao palco e só deixou recados a Montenegro e misturou imigrantes com a falta de segurança existente no país. Uma aberração política que foi criticada por todos os analistas políticos. E depois rematou com um recado de lesa pátria. Deu a entender a Montenegro que a AD tinha de ganhar nem que para isso tivesse uma maioria parlamentar aliada ao Chega. Uma posição contrária ao líder da AD que sempre tem anunciado que nunca fará uma aliança com o Chega. Depois, a AD chamou a outra acção de campanha Assunção Cristas, a tal governante que deixou os inquilinos na desgraça e que ao mudar a lei a favor dos senhorios, provocou na classe média um sofrimento que ainda hoje é sentido pelo país fora. Sem consultores credíveis a AD rematou da pior maneira chamando ao palco Durão Barroso, o tal primeiro-ministro que fugiu à responsabilidade de governar o país para ocupar um “tacho” na União Europeia e a mesma criatura que o povo não esquece devido ao apoio que deu a Bush e seus capangas para invadir o Iraque. E foi este mesmo político que veio apelar ao voto na AD como se uma pessoa fosse ao mercado comprar bananas. E o que restou a Montenegro? Ser simplesmente bombeiro e apagar todos estes fogos que o estiveram a prejudicar para que possa realizar o seu sonho de ser primeiro-ministro. O que ainda lhe valeu foi a lata de tinta verde pela cabeça abaixo. Fez-nos recordar a bofetada que deram a Mário Soares na Marinha Grande, quando estava em maré baixa e que a bofetada o tornou num mártir e ganhou as eleições desse ano. Durante a campanha a AD tem anunciado várias patetices impossíveis de realizar e, talvez, por isso, as sondagens dão um empate técnico com o Partido Socialista.

Quanto a Pedro Nuno Santos, o seu partido cometeu um erro de palmatória em dar-lhe indicações para parecer um político moderado, sem radicalismos, e tentar conquistar votos ao centro que normalmente poderiam pertencer ao PSD. Nuno Santos tinha de ser ele próprio: o político frontal, que fala alto, olhos nos olhos seja com quem for, activo ao máximo e a anunciar a realização dos projectos que sempre sustentou. Pelo contrário, começou apagado, melhorou um pouco, mas sempre moderado e talvez só nesta semana irá aparecer o verdadeiro Nuno Santos e é se quer ganhar as eleições.

Quanto aos outros candidatos assistimos a uma pobreza franciscana. A Iniciativa Liberal perdeu Cotrim de Figueiredo e constata-se que Rui Rocha não tem perfil para conseguir mais que cinco por cento dos votos. Mariana Mortágua não chega nem aos calcanhares da filosofia política de Catarina Martins, uma seguidora das teses aprendidas no contacto com o grande político Francisco Louçã. Mortágua não apresentou nada de novo e apenas está preocupada que os socialistas ganhem as eleições para poder fazer parte de uma nova geringonça. A CDU, com a liderança do PCP, mostrou que Paulo Raimundo foi uma péssima escolha para secretário-geral. Não tem mesmo jeito nenhum para falar às massas e o PCP deve estar muito arrependido de ter posto de parte Bernardino Soares, o melhor político comunista. Para vos falar do Livre, é dizer-vos que a desilusão sobre Rui Tavares foi total. O líder do Livre que estava a subir nas intenções de voto estragou tudo de um dia para o outro quando afirmou que se a AD ganhasse poderia viabilizar um governo da direita democrática. Uma gaffe inacreditável, para quem sempre se anunciou como homem de esquerda. Por último, referir-vos o PAN, um partido que a maioria do país nunca leu o seu programa. E é pena, porque Inês de Sousa Real sabe o que diz e defende princípios de grande valor, especialmente em defesa da natureza e dos animais. Dá a ideia de estar sozinha e se conseguir voltar a ser eleita será um milagre.

Faltam apenas cinco dias de campanha eleitoral e obviamente que nestes dias serão jogadas todas as cartadas para que cada um consiga obter o melhor resultado. Uma coisa já é certa: a abstenção voltará a ser enorme, porque os descontentes aumentaram e não querem saber mais de eleições. Ganhe quem ganhar, teremos certamente um país praticamente ingovernável a aguardar que o Presidente da República marque novamente eleições para Outubro.

4 Mar 2024