O Irão na Tempestade Perfeita

“History moves in waves, but regimes fall in moments.”

Anne Applebaum

 

A República Islâmica do Irão encontra-se, desde o início da década de 2020, no centro de uma confluência de factores internos e externos que configuram um dos períodos mais críticos da sua história contemporânea. A acumulação de tensões políticas, económicas, sociais e geoestratégicas produziu uma verdadeira “tempestade perfeita”, na qual dinâmicas estruturais de longa duração se articulam com choques recentes, expondo fragilidades profundas do regime teocrático e revelando novas formas de contestação e de reconfiguração regional.

O sistema político iraniano assenta num modelo híbrido, onde instituições republicanas coexistem com estruturas teocráticas dotadas de poder de veto. O Líder Supremo, figura central do regime, detém autoridade superior a qualquer órgão eleito, controlando as Forças Armadas, sistema judicial, serviços de segurança e os principais meios de comunicação. O Conselho dos Guardiães, responsável pela filtragem de candidaturas, impede a emergência de competição política genuína, assegurando a continuidade ideológica do regime.

Este arranjo institucional, concebido para preservar os princípios da revolução islâmica, evoluiu para uma autocracia consolidada, sustentada por uma elite clerical estreitamente articulada com a Guarda Revolucionária (IRGC). Inicialmente criada para proteger a revolução, a IRGC transformou-se num actor multifacetado com influência transversal. Para além do seu papel militar, controla sectores estratégicos como energia, construção civil, telecomunicações e redes financeiras paralelas, constituindo um complexo militareconómico que limita reformas e reforça a interdependência entre poder religioso e poder coercivo. Esta fusão aproxima o Irão de modelos de “autoritarismo militarizado”, embora com especificidades derivadas da sua natureza teocrática.

A morte de Mahsa Amini, em 2022, desencadeou a mobilização social mais significativa desde 1979. O movimento “Mulher, Vida, Liberdade” ultrapassou rapidamente a questão do véu obrigatório, transformando-se numa contestação estrutural ao regime. A amplitude sociológica dos protestos envolvendo mulheres, jovens urbanos, estudantes, trabalhadores e minorias étnicas evidenciou a profundidade do descontentamento acumulado.

A resposta estatal, marcada por repressão sistemática, detenções em massa e relatos de tortura e julgamentos sumários, não eliminou a contestação; apenas a deslocou para formas mais difusas, digitais e subterrâneas. Entre 2025 e o início de 2026, o país viveu a fase mais violenta desde 1979, com milhares de mortos e dezenas de milhares de detenções. Organizações de direitos humanos estimam mais de 3300 mortos e 24000 detidos, números possivelmente superiores devido ao apagão da internet. O próprio regime admitiu “vários milhares” de mortos algo sem precedentes.

A classificação de manifestantes como mohareb (“guerra contra Deus”), crime punível com pena de morte, reforçou a percepção de que o Estado opera num regime de “emergência permanente”. A presença reforçada da IRGC e das milícias Basij transformou várias cidades em espaços de controlo militar de facto.

O regime não se encontra à beira de colapso imediato, mas entrou numa fase de fragilidade estrutural acelerada. A economia deteriorase mais rapidamente do que a capacidade repressiva consegue compensar, e a legitimidade interna atingiu o ponto mais baixo em décadas. A revolta de Janeiro de 2026 é frequentemente descrita como a mais abrangente e socialmente inclusiva desde 1979, marcando uma ruptura irreversível na relação entre sociedade e Estado.

As periferias étnicas como curda, balúchi, árabe e azeri assumem um papel central na contestação. A repressão militarizada reflecte o receio do regime de que reivindicações identitárias evoluam para movimentos separatistas, fenómeno observado noutros Estados multiétnicos sob regimes autoritários.

No plano externo, o Irão reforçou a sua política regional assertiva como mecanismo de sobrevivência estratégica. Através de alianças com grupos armados no Líbano, Iraque, Palestina e Iémen, Teerão procura projectar poder, criar zonas de influência e dissuadir adversários. Esta estratégia híbrida simultaneamente ideológica e pragmática permite ao regime compensar o isolamento diplomático e manter relevância geopolítica, mas intensifica tensões com os Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo. A retórica entre Washington e Teerão atingiu níveis particularmente elevados após 2025, com declarações americanas classificando um eventual ataque ao Líder Supremo como “guerra total”. Este ambiente contribui para uma volatilidade regional persistente.

O programa nuclear iraniano permanece um dos elementos mais sensíveis da política internacional. A retirada dos Estados Unidos do JCPOA, em 2018, desencadeou uma aceleração do enriquecimento de urânio, aproximando o país de níveis compatíveis com capacidade militar. A opacidade das actividades nucleares alimenta suspeitas e aumenta o risco de confrontos directos ou indirectos. Uma eventual capacidade nuclear militar teria implicações profundas para o equilíbrio de poder no Médio Oriente.

A economia iraniana enfrenta uma crise estrutural marcada por sanções internacionais, má gestão interna e corrupção sistémica. A desvalorização da moeda, a inflação persistente e o elevado desemprego juvenil alimentam o descontentamento social. A dependência do petróleo limita a diversificação económica, enquanto o controlo da IRGC sobre sectores lucrativos bloqueia a concorrência e a inovação. O resultado é um ciclo de instabilidade que se autoreforça.

Apesar da repressão, o regime recuperou algum controlo operacional no início de 2026, com a reabertura parcial de escolas e universidades e o reforço da vigilância digital. Contudo, esta estabilidade é frágil e assenta em mecanismos coercivos cada vez mais sofisticados. Até 2030, o autoritarismo iraniano tende a evoluir para um modelo híbrido que combina repressão física com controlo algorítmico avançado como reconhecimento facial, monitorização preditiva de redes sociais e restrições personalizadas de acesso à internet. Este “autoritarismo digital” reduz custos de repressão e aumenta a eficiência do controlo social.

Paralelamente, a sociedade iraniana continuará a transformar-se. A juventude, conectada ao mundo digital e exposta a valores globais, tende a radicalizar a recusa da legitimidade do regime. A diáspora, em expansão, poderá consolidar-se como pólo de oposição transnacional. A resistência cultural como cinema, literatura, moda, redes feministas clandestinas deverá intensificar-se, aprofundando o fosso entre sociedade e Estado.

Até 2030, três cenários principais podem ser considerados sendo o primeiro de autoritarismo tecnológico consolidado como o mais provável, com manutenção do poder através de vigilância digital, controlo económico e alianças externas. O segundo com transição gradual desencadeada por crise económica extrema, disputa sucessória ou pressão internacional coordenada e a terceira de ruptura abrupta provocada por colapso económico, cisões internas na IRGC ou protestos massivos incontroláveis.

Assim, o Irão encontra-se num ponto de inflexão histórico. A estabilização aparente do início de 2026 não resolve as contradições profundas entre sociedade e regime, nem elimina os riscos geopolíticos que envolvem o país. Até 2030, o Irão poderá consolidar um autoritarismo digital sofisticado, afirmar-se como pivô geopolítico euroasiático ou entrar num processo de transição. Independentemente do cenário, continuará a desempenhar um papel central no equilíbrio político e securitário do Médio Oriente.

22 Jan 2026

Embaixador do Irão em Lisboa condenou “institucionalização do uso indevido da força”

O embaixador do Irão em Lisboa, Majid Tafreshi, condenou “institucionalização de uma nova política”, concretizada com o instrumento do “uso indevido da força”, aludindo aos Estados Unidos e a Israel. Numa entrevista à agência Lusa, Tafreshi advertiu que este processo irá “alastrar-se” se os países, sobretudo os ocidentais, “não tomarem medidas sérias” contra os Estados Unidos e Israel, “que têm incitado à agitação pública”.

“Não há garantias de que tais práticas não venham a repetir-se, sobretudo quando já se ouvem discussões inquietantes, como as relativas à posse da Gronelândia”, destacou Tafreshi, lembrando a actuação norte-americana na Venezuela, e as insinuações contra a Colômbia e Cuba.

A entrevista decorreu antes de o diplomata ser chamado pelo Governo português por causa da repressão violenta de manifestações contra o Governo iraniano, anúncio feito ontem pelo ministério dos Negócios Estrangeiros.

O diplomata iraniano lembrou ter já solicitado aos “colegas académicos” e diplomatas a criação em Portugal, de um novo fórum intitulado “Diálogo entre Inimigos”, na procura de uma “paz universal e de um mundo livre de guerra e de tensão”, bem como a criação de novos mecanismos – como uma União da Ásia Oriental – “poderia constituir uma iniciativa com significado”.

“Acredito que a política e os políticos deveriam seguir mais de perto a vontade dos seus próprios povos, que, na realidade, não parecem ter grandes conflitos entre si – como se observa claramente no turismo, nos estádios de futebol, nos concertos e em centenas de outras interacções humanas”, argumentou o diplomara iraniano.

Sobre os recentes desenvolvimentos no Irão, em que, disse, manifestações pacíficas centradas em desafios económicos, com o passar do tempo, “alguns elementos presentes nessas concentrações escalaram para incidentes violentos”, incluindo acções armadas que, segundo relatos, “envolveram indivíduos com treino prévio”.

“Lamentavelmente, estes acontecimentos resultaram em vítimas entre agentes das forças de segurança, forças de ordem pública e cidadãos comuns”, afirmou Tafreshi, depois de o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, ter condenado e exigido o fim da “repressão dos protestos no Irão, que resultaram em mais de 600 mortos desde 28 de Dezembro, segundo uma organização não governamental.

O embaixador do Irão em Lisboa referiu os “milhões de cidadãos iranianos” que participaram segunda-feira em manifestações públicas, “reflectindo uma mudança no quadro geral e expressando apoio ao seu país islâmico”, o que, tal como no passado, a notícia tem uma atenção limitada dos meios de comunicação social ocidentais.

Incentivos exteriores

Questionado sobre o que está a estrangular a economia iraniana, Tafreshi destaca a intervenções de Israel, “em menor grau”, e os Estados Unidos, “que têm incentivado a agitação pública”, bem como os desafios económicos do Irão que são significativamente influenciados por sanções extensas impostas” por Washington.

“Estas medidas, que o Irão considera ilegais, têm também sido apoiadas por países europeus que defendem os direitos humanos, apesar de existirem preocupações de que tais políticas tenham afectado negativamente direitos fundamentais da população iraniana, incluindo o acesso a cuidados de saúde”, denunciou.

“O respeito pela Carta das Nações Unidas, as amargas lições da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais e as experiências devastadoras e os custos dos acontecimentos no Afeganistão, na Síria, na Palestina, no Líbano, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia e noutros locais deveriam ser suficientes para nos recordar a necessidade urgente de priorizar, mais do que nunca, a coexistência pacífica”, acrescentou.

Sobre o elevado número de vítimas mortais, Tafreshi negou que a segurança iraniana esteja a utilizar o uso desproporcional da força, exemplificando, a par do elevado número de mortes entre civis, com o número significativo de mortos e feridos de polícias”.

Poder do povo

Questionado sobre as palavras de Reza Pahlavi – filho do antigo xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto após a Revolução Islâmica de 1979 – em que afirmou que tenciona regressar em breve ao Irão, Tafreshi considerou que, com o “apoio de alguns meios de comunicação social ocidentais e sionistas”, parece estar a tentar desempenhar o papel de um “Robin dos Bosques”.

“No entanto, Robin dos Bosques nunca apelou às pessoas comuns para recorrerem à violência ou violarem normas e princípios internacionais, como o ataque a embaixadas e instalações diplomáticas. Durante o reinado do seu pai, apesar de o Irão contar com o apoio dos Estados Unidos e do Ocidente, o país perdeu a sua 14.ª província, o Bahrein. Com base na experiência, os Estados Unidos apoiam e exploram qualquer pessoa capaz de prejudicar a independência e a segurança do Irão”, respondeu.

Tafreshi negou, por outro lado, que o regime – “o termo “regime é uma expressão ilegítima e enviesada” – esteja em risco, destacando novamente “os milhões” de iranianos que se manifestaram segunda-feira em favor da soberania do Irão.

“A República Islâmica pertence ao povo do Irão. O ayatollah [Ali] Khamenei é o líder do Irão e um desses cidadãos”, sublinhou o diplomata, para quem a China e a Rússia mantêm “boas relações” com Teerão, pelo que não é necessário contar com Pequim ou Moscovo para defender o país, que conta com o seu próprio povo para proteger a sua segurança e soberania.

14 Jan 2026

Irão | China pede que se preserve a estabilidade face a ameaças dos EUA

A China apelou ontem a que se “preserve a estabilidade” do Irão e manifestou a sua “oposição a qualquer ingerência externa ou ao recurso à força”, em resposta aos avisos de Washington sobre uma possível escalada contra Teerão.

Em conferência de imprensa, a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, afirmou que Pequim “espera e apoia que o Irão mantenha a estabilidade nacional” e reiterou a oposição da China à “interferência nos assuntos internos de outros países” e à “ameaça ou ao uso da força nas relações internacionais”.

As declarações surgem depois de órgãos de comunicação norte-americanos terem noticiado que a Casa Branca está a ponderar diferentes opções, incluindo medidas militares, em relação ao Irão, ao mesmo tempo que Washington instou os seus cidadãos a deixarem o país por razões de segurança. Mao declarou que a China “espera que todas as partes façam mais para contribuir para a paz e a estabilidade no Médio Oriente”.

Sobre a situação de segurança e os protestos no Irão, a porta-voz garantiu que a China “acompanhará de perto a evolução dos acontecimentos” e que adoptará “todas as medidas necessárias” para proteger os seus cidadãos no país.

No plano económico, Mao reiterou a posição já expressa ontem pela embaixada chinesa em Washington face às ameaças tarifárias do Presidente norte-americano, Donald Trump, dirigidas aos países que mantenham relações comerciais com o Irão. A porta-voz sublinhou que “não há vencedores numa guerra tarifária” e frisou que a China “defenderá firmemente os seus direitos e interesses legítimos e legais”.

As declarações surgem depois de Trump ter anunciado a imposição de tarifas adicionais aos países que “façam negócios” com o Irão, uma medida que a China tem vindo a classificar como uma sanção unilateral, num contexto de crescente tensão diplomática e de segurança em torno do país persa.

14 Jan 2026

Irão ameaça retaliar contra EUA e Israel em caso de ataque

O presidente do parlamento do Irão avisou ontem que os militares norte-americanos e Israel serão “alvos legítimos” em caso de ataque por parte de Washington, tal como ameaçou o Presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Os comentários de Mohammad Bagher Qalibaf representam a primeira vez que Israel é incluído na lista de possíveis alvos de um ataque iraniano. Qalibaf, um elemento da ‘linha-dura’ iraniana que já concorreu à presidência no passado, fez a ameaça enquanto os deputados invadiam a tribuna do parlamento, gritando: “Morte à América!”

Durante a sessão do parlamento, transmitida em directo pela televisão estatal iraniana, Mohammad Qalibaf fez um discurso aplaudindo a polícia e a Guarda Revolucionária paramilitar do Irão, particularmente os seus voluntários Basij, por terem “permanecido firmes” durante os protestos realizados no país contra a teocracia iraniana. “O povo do Irão deve saber que lidaremos com eles da forma mais severa e puniremos aqueles que forem detidos”, disse.

Qalibaf prosseguiu ameaçando directamente Israel, referindo-se-lhe como “o território ocupado”, e também as forças armadas dos EUA: “No caso de um ataque ao Irão, tanto o território ocupado como todos os centros militares, bases e navios americanos na região serão nossos alvos legítimos”, afirmou, acrescentando: “Não nos consideramos limitados a reagir após a acção e agiremos com base em quaisquer sinais objectivos de ameaça”.

A seriedade das intenções do Irão em relação ao lançamento de um potencial ataque ainda não é clara, especialmente após o país ter ficado com as defesas aéreas destruídas durante a guerra de 12 dias em Junho com Israel. Qualquer decisão de entrar em guerra caberia ao líder supremo do Irão, o ‘Ayatollah’ Ali Khamenei, de 86 anos.

Morte na rua

As forças armadas dos EUA afirmaram no Médio Oriente que estão “posicionadas com forças que abrangem toda a gama de capacidade de combate para se defenderem, os parceiros e aliados e os interesses dos EUA”.

Entretanto, os protestos que desde há duas semanas decorrem no Irão que contestam o regime e que, segundo a Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos (HDRANA, na sigla em inglês), já provocaram pelo menos 192mortos, levaram ontem manifestantes a inundar as ruas da capital e da segunda maior cidade do país.

O New York Times e o Wall Street Journal, citando funcionários anónimos dos EUA, disseram no sábado à noite que Trump recebeu opções militares para um ataque ao Irão, mas não tomou uma decisão final.

12 Jan 2026

Khamenei diz a Trump que está a “sonhar” se acha que destruiu as instalações nucleares do Irão

O líder supremo do Irão, ‘ayatollah’ Ali Khamenei, afirmou ontem que o Presidente norte-americano, Donald Trump, está “a sonhar” se acredita que os Estados Unidos destruíram as instalações nucleares iranianas.

Em Junho passado, no âmbito de um conflito entre Israel e o Irão que durou 12 dias, os Estados Unidos juntaram-se ao aliado israelita nas operações de bombardeamento a alegadas infraestruturas nucleares do regime iraniano. “Isso é óptimo, continuem a sonhar!”, afirmou o líder iraniano, referindo-se às repetidas alegações de Trump de que o programa nuclear de Teerão foi “totalmente destruído”.

“Quem julga que é para dizer que um país deve ou não ter [o direito] à energia nuclear?”, perguntou Khamenei durante um encontro com atletas na capital iraniana. No sábado, o Irão anunciou que já não estava vinculado às restrições do seu programa nuclear definidas num acordo internacional concluído há 10 anos, que expirou nesse mesmo dia, reiterando, no entanto, o seu compromisso com a diplomacia.

Este acordo, assinado em 2015 pelo Irão, França, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Rússia e China, visava regular as actividades nucleares da República Islâmica em troca do levantamento das sanções da ONU, que pesavam fortemente sobre a economia iraniana.

A data do fim do prazo do documento tinha sido fixada para 18 de Outubro de 2025, exactamente 10 anos após o texto ter sido aprovado pela ONU através da resolução 2231. O acordo limitava o enriquecimento de urânio do Irão a 3,67 por cento e previa a supervisão rigorosa das atividades nucleares pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o organismo de supervisão nuclear da ONU.

Apesar de o negar, o Irão é frequentemente acusado pelo Ocidente e por Israel, um inimigo declarado de Teerão, de desenvolver secretamente armas nucleares. A partir de agora, “todas as disposições [do acordo], incluindo as restrições ao programa nuclear do Irão e mecanismos relacionados, são consideradas encerradas”, escreveu no sábado o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano.

Com história

O acordo já tinha sido alvo de vários reveses. Em 2018, durante o primeiro mandato presidencial de Donald Trump, os Estados Unidos retiraram-se unilateralmente do acordo e restabeleceram sanções contra o Irão. Em retaliação, Teerão retirou-se gradualmente de certos compromissos estabelecidos no acordo.

Segundo a AIEA, o Irão é o único país sem armas nucleares a enriquecer urânio a um nível elevado (60 por cento), próximo do limite técnico dos 90 por cento, necessário para o fabrico de uma bomba atómica. Teerão suspendeu também toda a cooperação com a AIEA em Julho, após a guerra de 12 dias desencadeada por Israel.

Os Estados Unidos também realizaram ataques contra algumas instalações nucleares iranianas durante esse conflito e, em retaliação, Teerão lançou mísseis e drones contra Israel. O conflito pôs fim a uma série de negociações indirectas entre os Estados Unidos e o Irão sobre o programa nuclear iraniano, que estavam em curso desde Abril.

Posteriormente, e por iniciativa da França, do Reino Unido e da Alemanha, a ONU restabeleceu as sanções contra o Irão no final de Setembro, suspensas há 10 anos. O fim do acordo nuclear torna as sanções “nulas e sem efeito”, afirmou o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, numa carta enviada no sábado à ONU. Ainda assim, acrescentou, “o Irão expressa firmemente o seu compromisso com a diplomacia”.

21 Out 2025

China/ Irão | MNE chinês garante apoio ao país em encontro com homólogo iraniano

Os chefes das diplomacias chinesa e iraniana encontraram-se à margem da reunião da Organização de Cooperação de Xangai. Pequim voltou a manifestar todo o seu apoio a Teerão em defesa da sua dignidade

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, assegurou ontem ao seu homólogo iraniano, Abás Araqchí, que Pequim continuará a apoiar Teerão na defesa da sua “soberania e dignidade nacionais”.

O encontro decorreu ontem na cidade chinesa de Tianjin, à margem da reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), segundo comunicado divulgado pela diplomacia chinesa.

“China e Irão mantêm relações diplomáticas há mais de meio século, tendo resistido às vicissitudes internacionais com um desenvolvimento estável e saudável”, afirmou Wang Yi, acrescentando que, como parceiro estratégico integral, a China “continuará a apoiar o Irão na defesa dos seus direitos e interesses, através do diálogo”.

O chefe da diplomacia chinesa manifestou ainda disponibilidade para “aprofundar a confiança mútua, reforçar a cooperação, expandir os intercâmbios e promover o desenvolvimento estável e de longo prazo” das relações bilaterais.

Araqchí agradeceu o “valioso apoio” de Pequim, sublinhando que “a vontade do Irão de desenvolver as relações com a China é ainda mais firme”.

“A parceria estratégica integral entre o Irão e a China tem grande potencial e amplas perspectivas”, acrescentou o ministro iraniano.

Sobre a questão nuclear, Araqchí reiterou que o Irão “não desenvolve armas nucleares”, mas também “não renuncia ao seu legítimo direito ao uso pacífico da energia nuclear”.

“Estamos dispostos a retomar negociações e consultas com todas as partes o mais brevemente possível, desde que exista respeito mútuo, com vista a uma solução política”, afirmou.

 

Via do diálogo

Wang Yi reiterou que a China “opõe-se ao uso da força ou à ameaça do uso da força” e defendeu que “as diferenças devem ser resolvidas através do diálogo e da consulta”.

“Damos importância ao compromisso do Irão de não desenvolver armas nucleares e respeitamos o seu direito ao uso pacífico da energia nuclear. Apreciamos os esforços iranianos para alcançar a paz por meios diplomáticos”, afirmou o ministro chinês, assegurando que Pequim continuará “a desempenhar um papel construtivo na solução da questão nuclear e na promoção da estabilidade no Médio Oriente”.

O encontro entre Wang e Araqchí ocorre após um conflito de 12 dias entre o Irão e Israel, iniciado a 13 de Junho com uma ofensiva israelita contra alvos iranianos. A acção foi na altura condenada pelos membros da OCX, incluindo a China e a Rússia, aliados estratégicos de Teerão.

17 Jul 2025

OCX | Chefes da diplomacia reúnem-se na China

Os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) reuniram-se ontem em Tianjin, nordeste chinês, num momento marcado por tensões internas e pelo esforço de Pequim para reforçar a coesão do bloco.
A reunião junta os chefes da diplomacia de países como China, Rússia, Índia, Irão e Paquistão, entre outros, num ano em que a presidência rotativa da organização está a cargo de Pequim.
Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, o encontro visa promover “um consenso mais alargado” entre os Estados membros, abordando a cooperação regional e os principais desafios internacionais.
A reunião decorre poucas semanas após uma cimeira entre ministros da Defesa da OCX, realizada em Qingdao, que terminou sem declaração conjunta devido a desacordos sobre questões de segurança, nomeadamente no combate ao terrorismo.
Nessa ocasião, a Índia recusou assinar o texto final, acusando veladamente o Paquistão de usar o terrorismo transfronteiriço como instrumento político e de dar abrigo a grupos extremistas.
A presença do ministro dos Negócios Estrangeiros indiano, Subrahmanyam Jaishankar, surge na sequência de uma reunião com o homólogo chinês, Wang Yi, realizada na véspera em Pequim, naquela que foi a primeira visita de um chefe da diplomacia indiana à China desde o confronto fronteiriço no vale de Galwan, em 2020, que causou vítimas mortais em ambos os lados.
Wang apelou para um relançamento das relações com base na “boa vizinhança e confiança mútua”, enquanto Jaishankar destacou os avanços na normalização dos laços no último ano e frisou a necessidade de evitar novas fricções fronteiriças e restrições comerciais.
O ministro indiano defendeu ainda que a OCX deve adotar uma política de “tolerância zero” face ao terrorismo.

Ultrapassar diferenças
O chefe da diplomacia iraniano, Abás Araqchí, também participa na reunião, depois de um recente conflito de 12 dias entre Irão e Israel, que lançou uma ofensiva contra alvos iranianos a 13 de Junho. Esses ataques foram condenados por vários membros da OCX, incluindo a China e a Rússia, aliados estratégicos de Teerão.
Citado pelo jornal oficial Global Times, o director do Centro de Desenvolvimento Social Euroasiático do Conselho de Estado chinês, Li Yongquan, minimizou as tensões internas, sublinhando que “as diferenças não anulam o valor da organização” e que a OCX constitui “uma excelente plataforma para gerir essas divergências e impedir que se agravem”.
Na mesma linha, o investigador Cui Heng, do Instituto Nacional para a Cooperação Judicial e Intercâmbio Internacional da OCX, afirmou que a organização, inicialmente centrada na segurança, evoluiu para um mecanismo de cooperação abrangente.
“Há um défice de segurança na Eurásia, agravado pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e a OCX oferece um quadro complementar para colmatar essa lacuna”, explicou.

Meio mundo
A OCX, que integra países como China, Rússia, Índia, Irão, Cazaquistão, Quirguistão, Paquistão, Tajiquistão, Bielorrússia e Usbequistão, é considerada a maior organização regional do mundo em termos de população e extensão geográfica, abrangendo cerca de 40 por cento da população global.
Apesar de os membros afirmarem que a OCX não é uma aliança militar e visa proteger os Estados contra ameaças como o terrorismo, o separatismo e o extremismo, alguns analistas consideram que a sua principal função é contrabalançar a influência da NATO.
Li rejeitou essa leitura, defendendo que a organização “não é um contrapeso direto aos Estados Unidos” e que assenta “no respeito pela soberania, integridade territorial e diversidade cultural” dos seus membros.

16 Jul 2025

Irão | Aprovada suspensão da cooperação com a AIEA

O Parlamento iraniano votou ontem a suspensão da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica na sequência de 12 dias de guerra marcados por ataques israelitas e norte-americanos contra instalações nucleares do Irão.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) recusou-se a condenar o ataque contra as instalações nucleares iranianas, comprometendo a credibilidade internacional do organismo das Nações Unidas.

As declarações de Ghalibaf ocorreram após os deputados terem votado a favor da suspensão da cooperação com AIEA. “A Organização Iraniana de Energia Atómica vai suspender a cooperação com a AIEA enquanto a segurança das instalações nucleares não for garantida”, acrescentou o Presidente do Parlamento de Teerão.

No dia 13 de Junho, Israel, com o apoio dos Estados Unidos, atacou instalações militares e nucleares iranianas. O Irão retaliou disparando mísseis e lançando aparelhos aéreos não tripulados contra Israel. O cessar-fogo foi acordado na terça-feira, após intervenção da Administração norte-americana.

26 Jun 2025

Israel/Irão | China pede esforços para evitar fecho de Estreito de Ormuz

O fecho do Estreito de Ormuz pode afectar seriamente não só a economia chinesa, mas todo o comércio internacional

 

A China pediu ontem esforços internacionais para “evitar um impacto no desenvolvimento económico mundial”, após o parlamento do Irão ter proposto o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20 por cento do petróleo e gás mundial.

“O Golfo Pérsico e as suas águas circundantes são canais importantes para o comércio internacional de bens e energia”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun, numa conferência de imprensa em Pequim.

Guo sublinhou que “manter a segurança e a estabilidade na região está no interesse comum da comunidade internacional” e defendeu que “os esforços para promover a distensão dos conflitos devem ser intensificados”.

O porta-voz reagia à proposta apresentada no domingo pelo parlamento iraniano, na sequência do ataque dos Estados Unidos a instalações nucleares no Irão, para que o Estreito de Ormuz seja encerrado ao tráfego marítimo – uma medida com impacto global no comércio de hidrocarbonetos e que terá ainda de ser aprovada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano.

Guo reiterou que a operação militar de Washington “exacerba as tensões no Médio Oriente” e revelou que a China, juntamente com a Rússia e o Paquistão, apresentou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas um projecto de resolução que apela a “um cessar-fogo imediato e incondicional” entre Irão, Israel e Estados Unidos.

“Atacar instalações nucleares sob as salvaguardas do Organismo Internacional de Energia Atómica constitui uma violação grave dos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional”, declarou o porta-voz, pedindo “a todas as partes” que evitem uma escalada e defendendo o regresso ao “caminho da solução política”.

Sem comentários

Guo não comentou directamente as declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que exortou a China a interceder junto do Irão para evitar o encerramento do estreito.

“Apelo ao Governo chinês, em Pequim, para que contacte Teerão sobre esta matéria, pois dependem fortemente do Estreito de Ormuz para o fornecimento de petróleo”, afirmou Rubio numa entrevista à estação televisiva norte-americana Fox News. O eventual encerramento do Estreito de Ormuz afectaria o comércio global e, em particular, a China – o maior importador de petróleo iraniano e parceiro estratégico de Teerão.

24 Jun 2025

MNE iraniano diz que primeiro israelitas e agora EUA “fizeram explodir a diplomacia”

O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros reagiu aos apelos da União Europeia e Londres para voltar ao diálogo afirmando que os Estados Unidos e Israel “decidiram fazer explodir” a diplomacia ao bombardearem o Irão.

“Estávamos a negociar (sobre o programa nuclear iraniano) com os Estados Unidos quando Israel decidiu fazer explodir essa diplomacia”, afirmou Abbas Araghchi, através da plataforma X e depois em declarações em Istambul, acrescentando que, depois, quando estavam em diálogo com países da União Europeia – referindo-se às negociações em Genebra esta semana -, “os Estados Unidos decidiram, por sua vez, reverter esta diplomacia”.

“Que conclusões se podem tirar disto?”, respondeu Araqchi aos apelos feitos ontem pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, e pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer.

A alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Kaja Kallas, apelou para que “todas as partes” dêem “um passo atrás”, regressem à mesa de negociações e evitem uma nova escalada”, depois do bombardeamento, na passada madrugada, dos EUA contra as principais instalações nucleares do Irão.

O primeiro-ministro britânico, por seu turno, apelou para que o Irão “regresse à mesa das negociações”, sublinhando que “a estabilidade na região é uma prioridade”. Na resposta dura a estes apelos para voltar à mesa de negociações, o chefe da diplomacia iraniano sustentou ainda: “Como poderia o Irão voltar a algo que nunca abandonou, e muito menos destruiu?”.

Ao ataque

O Presidente norte-americano, Donald Trump, confirmou na passada madrugada que as forças armadas dos Estados Unidos atacaram três centros nucleares no Irão, incluindo Fordo, juntando-se directamente a Israel para travar o programa nuclear do país.

“Concluímos o nosso bem-sucedido ataque às três instalações nucleares no Irão, incluindo Fordo, Natanz e Esfahan”, disse Trump numa publicação nas redes sociais. A guerra começou na madrugada de dia 13 de Junho, com Israel a lançar uma vasta ofensiva militar contra o país persa, alegadamente para impedir o avanço do programa nuclear iraniano para fins militares.

Os ataques dizimaram infraestruturas militares e nucleares do Irão, que tem respondido com vagas de mísseis sobre as principais cidades israelitas, incluindo Tel Aviv e Jerusalém, assim como várias instalações militares espalhadas pelo país.

23 Jun 2025

DST | Alerta para evitar viagens a Israel e ao Irão

A Direcção dos Serviços de Turismo (DST) emitiu ontem uma nota de alerta para que os residentes evitem viajar para Israel ou Irão tendo em conta os últimos acontecimentos bélicos e políticos, referindo que “não devem viajar para estes dois países e quem se encontrar naqueles países deve abandonar os territórios o mais rápido possível, garantindo a sua segurança pessoal”.

Além disso, a DST diz estar “a acompanhar a situação em Israel e no Irão, alertando os residentes de Macau para estarem atentos à situação de segurança”.

Até ontem, ainda não tinha sido recebido qualquer pedido de informação ou assistência para a linha aberta da DST. A mesma nota indica de que não há telemóveis de Macau a circular no Irão, tendo em conta os dados fornecidos pelas operadoras de telecomunicações de Macau.

Desde sexta-feira que Israel e o Irão têm vindo a bombardear-se mutuamente, levando algumas embaixadas a encerrar temporariamente a sua presença no Irão. Os ataques começaram por Israel a alvos designados em várias partes do Irão, contribuindo para piorar as tensões que já se viviam no Médio-Oriente graças ao conflito israelo-palestiniano. Os ataques dos últimos dias já mataram mais de 200 pessoas, a maioria no Irão.

20 Jun 2025

Médio-Oriente | China já retirou cerca de 800 cidadãos do Irão

A China já retirou cerca de 800 dos seus cidadãos do Irão, desde o início na semana passada da ofensiva militar de Israel contra aquele país, que provocou várias centenas de mortos.

Desde 13 de Junho, as Forças Armadas israelitas têm conduzido ataques aéreos de grande intensidade sobre território iraniano, justificando a operação com o objectivo de impedir Teerão de desenvolver armas nucleares. Em resposta, o Irão prometeu manter os bombardeamentos sobre Israel até ao fim dos ataques.

“O total de 791 cidadãos chineses já foi transferido do Irão para zonas seguras, e mais de 1.000 pessoas estão em processo de retirada”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China Guo Jiakun, durante uma conferência de imprensa em Pequim.

Segundo o mesmo responsável, cidadãos chineses também foram retirados em segurança de Israel. “A China expressa a sua gratidão aos países envolvidos pelo apoio e assistência prestados”, declarou Guo Jiakun.

Israel voltou a atacar o Irão na noite de quarta-feira, pela sexta vez consecutiva, num contexto de crescente tensão, agravado pelas declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que exigiu a “capitulação incondicional” de Teerão.

Aliado de Israel, Trump escreveu na rede Truth Social que os Estados Unidos “sabem exactamente onde se esconde o chamado ‘guia supremo’” do Irão, o aiatola Ali Khamenei, mas garantiu que não têm, “pelo menos para já”, intenção de o “eliminar (matar!)”. Confrontado com estas declarações, o porta-voz chinês afirmou que “uma nova escalada de tensões no Médio Oriente não serve os interesses de nenhuma das partes”.

“Os países que exercem influência particular sobre Israel devem demonstrar objectividade e justiça, assumir as suas responsabilidades e desempenhar um papel positivo e construtivo para travar a escalada”, afirmou Guo Jiakun, numa referência implícita aos Estados Unidos.

19 Jun 2025

Teerão | Novas explosões ouvidas ontem na capital iraniana

Novas explosões foram ontem ouvidas em Teerão, capital do Irão, no terceiro dia de um ataque israelita em grande escala contra a República Islâmica, avançou um jornalista da agência AFP no local.

Os meios de comunicação social iranianos, Khabar Online e Ham Mihan, noticiaram que os sistemas de defesa aérea no oeste e noroeste de Teerão tinham sido activados “para contrariar novos ataques”, enquanto o diário iraniano Shargh transmitiu um vídeo que mostrava colunas de fumo no leste da capital. O exército israelita garantiu ter ontem atingido mais de 80 alvos em Teerão, em ataques aéreos nocturnos que envolveram “cerca de cinquenta caças”.

“Durante toda a noite, os caças da Força Aérea sobrevoaram Teerão e atingiram infraestruturas e alvos do projeto nuclear iraniano”, segundo um comunicado militar, citado pela AFP.

Israel atingiu “mais de 80 alvos, incluindo o Ministério da Defesa [e o que Israel descreve como] a sede do projecto nuclear [militar] iraniano [a Organização de Investigação e Inovação Defensiva, ou Sepand, segundo a sigla persa], bem como alvos onde o regime escondia arquivos nucleares”.

Por sua vez, o governo iraniano anunciou ontem que o metro e as mesquitas de Teerão permanecerão abertos 24 horas por dia para que a população se refugie dos ataques israelitas, que retomaram ao meio-dia os bombardeamentos contra a capital iraniana.

A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, anunciou que “as mesquitas, as escolas e o metro estarão à disposição do público como abrigos”, quando os meios de comunicação social nacionais começaram a noticiar novos bombardeamentos israelitas nos bairros de Saadat Abad e Punak, no noroeste da capital. O portal iraniano Khabar Online noticiou que o Instituto de Investigação Niroo, na região noroeste de Teerão, foi atacado por Israel.

Segundo a agência Young Journalists Club, próxima do governo iraniano, as defesas aéreas da cidade já foram activadas para repelir o ataque.

Entre mortos e feridos

A porta-voz do governo iraniano apelou à calma. “Os centros de serviços, como os bancos e os centros médicos, estão ao serviço do público e outros centros têm também a possibilidade de alguns funcionários trabalharem à distância”, explicou perante os meios de comunicação social, segundo a agência noticiosa oficial iraniana IRNA.

A guerra entre Israel e o Irão, desencadeada na madrugada de 13 de Junho por bombardeamentos israelitas que visaram instalações militares e nucleares iranianas, causou já mais de 100 mortos e 800 feridos no Irão, entre lideranças militares, cientistas e civis.

Os ataques israelitas, efectuados por 200 aviões contra uma centena de alvos, atingiram sobretudo Teerão (norte) e as centrais de enriquecimento de urânio de Fordow e Natanz (centro), o aeroporto nacional de Mehrabad e várias bases militares.

O Irão retaliou com centenas de mísseis direccionados às cidades de Telavive e Jerusalém, que fizeram pelo menos 13 mortos e 150 feridos.

16 Jun 2025

Aviação | Xi Jinping envia condolências à Índia pelas vítimas do acidente em Ahmedabad

O Presidente da China, Xi Jinping, enviou sexta-feira mensagens de condolências à homóloga indiana, Droupadi Murmu, e ao primeiro-ministro, Narendra Modi, pelo acidente aéreo ocorrido em Ahmedabad, que causou pelo menos 279 mortos, incluindo sete cidadãos portugueses. “Estou profundamente entristecido ao saber do acidente do voo da Air India, que causou numerosas vítimas”, afirmou Xi, numa mensagem citada pela agência noticiosa oficial Xinhua.

Em nome do Governo e do povo chinês, o chefe de Estado expressou “as mais sentidas condolências” às famílias das vítimas mortais e desejou rápidas melhoras aos feridos. O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, também enviou uma mensagem semelhante a Narendra Modi, associando-se às manifestações oficiais de solidariedade com o Governo e o povo da Índia.

Durante uma conferência de imprensa realizada sexta-feira em Pequim, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Lin Jian revelou ainda que Xi Jinping endereçou mensagens de condolências ao rei Carlos III e que Li Qiang fez o mesmo com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, dada a presença de cidadãos britânicos entre as vítimas.

A aeronave, um Boeing 787 com destino a Londres, despenhou-se pouco depois de descolar da cidade indiana de Ahmedabad, na manhã de quinta-feira. O acidente, já considerado uma das piores tragédias aéreas da história recente da Índia, provocou 268 mortos, incluindo várias pessoas em terra, e apenas um sobrevivente.

Segundo as autoridades indianas, o avião perdeu potência pouco depois da descolagem e embateu num complexo residencial, provocando uma grande explosão alimentada pelo combustível a bordo. O avião transportava 230 passageiros — 169 indianos, 53 britânicos, sete portugueses e um canadiano — e 12 tripulantes.

16 Jun 2025

Irão | China condena e pede fim dos ataques de Israel

Israel continua a levar a guerra ao Médio-Oriente. Depois do genocídio em curso em Gaza, e de ataques ao Líbano e à Síria, o governo radical de Netanyahu volta-se agora para o Irão

 

A China condenou sexta-feira os ataques israelitas contra o Irão e apelou a Israel para que pare a actividade militar contra a República Islâmica durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU. “Aumentar as tensões na região não beneficiará ninguém e apelamos a Israel para que pare os ataques ao Irão”, disse o embaixador da China junto do Conselho de Segurança, Fu Kong, citado pela agência noticiosa oficial iraniana IRNA.

O representante permanente da China nas Nações Unidas afirmou que Israel “causou massacres no Irão e danificou instalações nucleares no país”. Fu referia-se aos ataques lançados por Israel contra instalações militares e nucleares no Irão que causaram pelo menos 78 mortos e 320 feridos, segundo as autoridades de Teerão.

Nos ataques, segundo a IRNA, morreram o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, major-general Mohammad Bagheri, o comandante do Quartel-General Central de Khatam-al Anbiya, major-general Gholam Ali Rashid, e o comandante dos Guardas da Revolução, major-general Hossein Salami. Também foram mortos o físico Mohammad Tehranchi e o cientista nuclear Fereydoon Abbasi, além de civis.

“De acordo com as autoridades israelitas, estes ataques vão continuar. A China condena estas acções que violam a segurança e a integridade territorial do Irão”, afirmou o diplomata chinês.

Fu advertiu que os ataques “terão consequências graves”, que não especificou, e que o agravamento das tensões na região “não beneficiará ninguém”. “Apelamos a Israel para que ponha termo aos ataques e para que todas as partes respeitem o direito internacional”, insistiu.

Contra escalada

Fu Kong disse que a China estava “muito preocupada” com os efeitos directos dos ataques no processo diplomático do Irão. “A China sempre apoiou a diplomacia e opôs-se a acções unilaterais”, afirmou.

Fu defendeu ainda o respeito pelo direito do Irão, enquanto signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, de utilizar a tecnologia nuclear para fins pacíficos.

“Há muito tempo que se verificam conflitos no Médio Oriente e a situação continua crítica. A comunidade internacional deve procurar obter um cessar-fogo em Gaza, uma desescalada na região e a prevenção da escalada das tensões e dos conflitos”, afirmou.

Fu Kong apelou aos “países com influência sobre Israel”, numa alusão aos Estados Unidos, para que desempenhem “um papel construtivo”. “O Conselho de Segurança [da ONU] deve desempenhar o papel de guardião da paz”, acrescentou, segundo a agência iraquiana. Na sequência dos ataques israelitas, o Irão lançou centenas de mísseis e ‘drones’ contra Israel.

16 Jun 2025

Visita | MNE iraniano em Pequim para consultas sobre questão nuclear

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, iniciou ontem uma visita à China para consultas sobre a questão nuclear, antes da terceira ronda de conversações com os Estados Unidos, prevista para sábado.

O Irão e os Estados Unidos deverão voltar a encontrar-se no sábado, em Omã, para uma nova sessão de conversações sobre a questão nuclear iraniana entre Araghchi e o enviado dos EUA para o Médio Oriente, Steve Witkoff.

Ao mesmo tempo, peritos iranianos e norte-americanos deverão iniciar discussões técnicas sobre a questão nuclear na capital de Omã. “É necessário manter os nossos amigos na China informados sobre a evolução das negociações e consultá-los”, disse Araghchi à televisão estatal iraniana.

A China é um dos signatários do acordo nuclear internacional celebrado com o Irão em 2015, mas que caducou na sequência da decisão dos EUA de se retirarem do mesmo três anos depois, durante a primeira presidência de Donald Trump.

“A China desempenhou um papel importante e construtivo na questão nuclear no passado, e o mesmo papel é certamente necessário no futuro”, acrescentou o ministro iraniano. O acordo de 2015 previa o levantamento das sanções internacionais contra o Irão em troca da supervisão do seu programa nuclear pela Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA).

De acordo com a AIEA, o Irão estava a honrar os seus compromissos até à retirada dos EUA, que foi acompanhada pelo restabelecimento das sanções norte-americanas.

24 Abr 2025

Irão | MNE de viagem para a China

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, viaja para a China hoje, anunciou ontem o Governo do Irão, antes das novas negociações sobre um acordo nuclear entre Teerão e Washington que acontecem nos próximos dias.

“O Ministro dos Negócios Estrangeiros viajará para a China amanhã [terça-feira]”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaïl Baghaï, numa conferência de imprensa semanal, sem fornecer mais detalhes de imediato. Araghchi já tinha visitado a China em Dezembro.

A China é um dos países signatários do acordo nuclear internacional concluído em 2015 com o Irão, mas que foi abandonado após a decisão dos Estados Unidos de se retirarem daquele pacto três anos depois, sob a primeira presidência de Donald Trump.

Três outros membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — França, Reino Unido e Rússia — além da Alemanha e da União Europeia (UE) são também signatários do acordo. O acordo previa o levantamento das sanções internacionais contra o Irão em troca da supervisão do seu programa nuclear pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Desde que regressou à Casa Branca, em Janeiro, Trump instou o Irão a negociar um novo texto, mas ameaçou Teerão com uma acção militar se a diplomacia falhasse. Abbas Araghchi deverá participar numa nova ronda de negociações no sábado, sob mediação de Omã, com o enviado dos EUA para o Médio Oriente, Steve Witkoff, de acordo com a diplomacia iraniana.

Em 2021, a China assinou um acordo estratégico abrangente de 25 anos com o Irão. Esta importante parceria abrange áreas tão diversas como a energia, a segurança, as infraestruturas e as comunicações.

21 Abr 2025

BRICS | Xi sublinha “significado estratégico” da relação com Irão

Num encontro bi-lateral, à margem da cimeira dos BRICS, o Presidente chinês reuniu com o seu homólogo iraniano para reafirmar o seu apoio à segurança e desenvolvimento do Irão numa altura de grande turbulência internacional

 

O Presidente da China disse que Pequim vai desenvolver “sem hesitação” uma “cooperação amigável com o Irão”, independentemente da “evolução da situação internacional”, sublinhando o “significado estratégico” da relação bilateral, indicou ontem a diplomacia chinesa.

Xi Jinping e Masud Pezeshkian reuniram-se na quarta-feira à margem da cimeira dos BRICS, a decorrer na cidade russa de Kazan, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, em comunicado. O Presidente chinês sublinhou que as relações entre os dois países adquiriram um “significado estratégico” no meio de “transformações globais aceleradas”, acrescentou.

“A China reafirma o apoio ao Irão na defesa da soberania e segurança, bem como no desenvolvimento económico e social”, disse o líder chinês, num período de tensão entre Teerão e Israel.

Xi acrescentou que a China está “profundamente preocupada com a actual situação no Médio Oriente”, referindo que “conseguir um cessar-fogo em Gaza é a chave para aliviar as tensões na região”.

“A comunidade internacional deve trabalhar em conjunto para instar as partes relevantes a aplicar seriamente as resoluções do Conselho de Segurança da ONU para evitar nova escalada”, afirmou Xi.

As duas nações comprometeram-se a trabalhar em conjunto com base no “respeito pelas normas internacionais, na salvaguarda dos seus direitos legítimos e no reforço da cooperação em vários domínios”, lê-se na mesma nota. Xi também expressou a disponibilidade da China para desenvolver “uma parceria estratégica abrangente para benefício de ambos os povos”.

Oriente atraente

O líder chinês felicitou o Irão pela recente adesão plena ao bloco de economias emergentes BRICS, sublinhando o desejo de aumentar a cooperação neste quadro e noutros fóruns multilaterais. A China chegou à cimeira numa altura em que tenta seduzir o Sul Global, com novas vias de financiamento e cooperação, num contexto de crescente competição geopolítica com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos.

Os BRICS constituem uma oportunidade para Pequim promover uma reforma do sistema de governação global mais consentânea com os seus interesses e com o que designa por “verdadeiro multilateralismo”, em oposição à “hegemonia norte-americana”.

O grupo BRICS, inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, expandiu-se para nove membros com a integração do Irão, Egipto, Etiópia e Emirados Árabes Unidos e procura tornar-se um poderoso contrapeso ao Ocidente na política e eventos comerciais mundiais, que são de particular interesse para Moscovo e Teerão, que enfrentam sanções europeias e norte-americanas.

25 Out 2024

Israel | Irão ameaça retaliação a qualquer ataque

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, ameaçou ontem Israel de que Teerão vai retaliar qualquer ataque contra território iraniano. “Exortamos Israel a não testar a vontade [do Irão]”, disse Araghchi num evento que assinalou em Teerão o ataque do Hamas contra território israelita, que matou 1.200 pessoas a 7 de Outubro do ano passado.

“Qualquer ataque a instalações do Irão será objecto de uma resposta mais forte”, afirmou o chefe da diplomacia de Teerão.

Entretanto, o Exército israelita declarou ontem que a Força Aérea matou o comandante do Hezbollah em Beirute Suhail Hussein Husseini, a última vítima de uma série de ataques contra dirigentes do movimento xiita libanês (Partido de Deus), incluindo o antigo líder máximo Hassan Nasrala.

De acordo com Avichay Adraee, porta-voz do Exército israelita os aviões de combate efectuaram um ataque de precisão em Beirute e eliminaram Husseini, sem especificar o dia específico do ataque.

De acordo com um comunicado militar, Huseini foi “responsável pela gestão orçamental e logística dos projectos mais sensíveis do Hezbollah”, como a planificação de ataques a partir da Síria ou do Líbano e a transferência de armas entre o Irão e a milícia libanesa.

Na segunda-feira, as forças israelitas fizeram novos ataques em Beirute contra o quartel-general dos serviços secretos do Hezbollah, bombardeou o sul do Líbano e a zona do Vale de Bekaa, no leste do Líbano.

9 Out 2024

O Clube da Luta (II)

“Pezeshkian might be able to bring some social freedoms. But he will be a weak president because Khamenei and his allies are much more powerful than the president.”

Sohrab Hosseini

(continuação)

O império persa informal, tal como o império turco em reforma, e o Estado judaico dotado de uma poderosa diáspora entre as elites americanas pensam para além da escala clássica do Médio Oriente. Esta delimitação preguiçosa deixa muito a desejar. A Grande Guerra não conhece restrições geográficas. A sua dimensão é mundial porque está destinada a determinar a evolução das dezenas de conflitos maiores e menores que a distinguem.

A desamericanização e a desglobalização avançam a galope. É pouco provável que sejam invertidas pelo que resta do Ocidente. O antigo Grande Médio Oriente deve ser mantido sob observação especial. Não tanto pelo seu valor intrínseco, mas porque as ligações ou desconexões do triângulo Israel-Irão-Turquia com o triângulo Estados Unidos-China-Rússia, o vértice do jogo, serão decisivas. A visão geopolítica da República Islâmica resume-se na fórmula 4×3. Quatro pilares ideológicos, dois dos quais subversivos, o islamismo político de tradição khomeinista e pan-islâmica e o terceiro-mundismo adaptado ao clima do “Sul Global”, para além do nacional-imperialismo iraniano e do xiismo tradicional. Aplicado aos países estrangeiros vizinhos, à Ásia Ocidental e à esfera do “Sul Global”, suficientemente não especificada.

A experiência minoritária do xiismo nos círculos muçulmanos e a subtileza persa convidam a considerar qualquer táctica iraniana com o benefício do inventário. A ductilidade é a sua imagem de marca. A temperatura do Irão neo-imperial não deve ser medida tanto pelos factores étnicos e religiosos como pelos nós militares, logísticos, tecnológicos e económicos da sua extroversão de intensidade variável. O objectivo estratégico é afirmar-se de forma decisiva no arco que vai do Levante ao Afeganistão/Paquistão e ao sistema Hormuz-Bab el-Mandeb, chave de acesso ao Indo-Pacífico. Para isso, é necessário expulsar o Grande Satã dessa zona ou, pelo menos, induzi-lo a uma postura passiva. E acompanhar o Pequeno Satã até à sua extinção como “entidade sionista” incompatível com o ambiente islâmico em que surgiu é uma questão de tempo. O jogo final será disputado contra a Arábia Saudita e as oligarquias sunitas do Golfo.

O confronto regional com as petromonarquias árabes parece estar agora em segundo plano, atenuado pelas recentes aproximações de emergência entre sauditas e iranianos, estimuladas pela astenia de Washington que preocupa os seus antigos clientes do Golfo. A rivalidade a longo prazo não está, portanto, terminada. O “eixo de resistência” criado por Teerão com actores assimétricos como o Hezbollah libanês, o regime sírio, os palestinianos da Jihad islâmica e o Hamas é uma faca de dois gumes. Uma contra Israel, declarada e praticada. A outra, encoberta mas estratégica, contra a família saudita que se apoderou abusivamente dos “Lugares Santos”. Porque se a fundação da “entidade sionista” em solo muçulmano e a penetração americana são estranhas à “Casa do Islão”, portanto transplantes destinados a serem rejeitados, o desafio da hegemonia no campo islâmico é permanente. Os clientes do império de Teerão, exibidos como libertadores da Palestina, são e devem continuar a ser duplos.

Ao mesmo tempo que combatem Israel, têm de contrariar Riade e os seus associados. Por exemplo, o Hezbollah deve bloquear as vagas tentativas sauditas de atrair o Líbano para a sua esfera de influência. Quando o Estado sionista cair, porque está destinado a cair não deve acabar sob a casa saudita e/ou outros ramos sunitas do Golfo. O eixo de resistência é o crescente xiita invertido, o cavalo de batalha dos regimes árabes pró-ocidentais, ou supostamente. Desde os que mantêm uma paz fria com Israel (Egipto e Jordânia) até aos signatários dos “Acordos de Abraão”, à espera de descolar. Acordos bilaterais patrocinados em 2020 por Washington e oferecidos por Jerusalém aos Emirados Árabes Unidos e ao Bahrain, ou alargados a Marrocos e ao Sudão (que finge existir).

No pressuposto de que, mais cedo ou mais tarde, a cooperação secreta israelo-saudita, reduzida após o 7 de Outubro de 2023, encontrará uma sanção pragmática. O factor ordenador da geopolítica do Médio Oriente, segundo Teerão, não é o tão propalado confronto Israel-Irão. É a rivalidade entre iranianos e sauditas, complicada pelo emiratismo. A linha divisória em torno da qual oscilam os actores regionais divide o império persa e o Golfo, com grande peso saudita. Onde Abu Dhabi, com a força da enorme riqueza financeira posta ao serviço das miragens da família dirigente, joga sozinho, como um terceiro grande. Terá o Irão os meios para uma estratégia de grande potência? Uma pergunta tipicamente europeia, de quem sofre de economicismo crónico.

É claro que décadas de sanções, guerras, ineficácia e corrupção pesam sobre a saúde do aparelho produtivo iraniano, especialmente no sector crucial da energia. Mas a República Islâmica contorna a maior parte das restrições impostas por Washington, de tal forma que oferece aos russos tutoriais não gratuitos sobre como triangular e criar condutas financeiras e comerciais de emergência. Nascidas temporárias, estas manobras tecem redes alternativas à influência americana. Originalmente postos de primeiros socorros, transformam-se em hospitais de campanha e, amanhã, talvez, em alternativas permanentes à “ordem baseada em regras”, uma imagem de marca do Ocidente cheio de estrelas. Mais limitativo é o clima político interno, onde a transição das origens teocrático-territoriais para o regime actual é bastante instável. A incompatibilidade entre os jovens progressistas e as estruturas repressivas que respondem ao Pasdaran e ao Basiji, dotadas de vistosas agências de espionagem e de polícia, é chocante.

Será que a sucessão do Guia Supremo, que em breve atingirá a idade de Ali Khamenei, de 85 anos, será a faísca que incendiará o material inflamável acumulado dentro e à volta do regime? O confronto poderá ser desencadeado ainda mais cedo. O descontentamento em relação ao sistema (nezam) exprime-se na abstenção eleitoral galopante, na ausência de candidatos alternativos aos pré-seleccionados pelos apparatchiks. A eleição do sucessor do falecido Presidente Raisi, deu-no uma ideia mais clara. Até à eventual reforma ou mudança do sistema, a pergunta rainha permanecerá sem resposta. A estratégia do império persa ignora ou depende da ideologia do regime do momento? Kissinger perguntava-se em público se o Irão era uma nação ou uma causa. Traduzindo, um actor racional, portanto disposto a comprometer-se com a América, ou subversivo. Em privado, a resposta foi “uma nação com a sua própria causa, claro”. Talvez um elemento útil para a análise seja a relação entre o último Xá e o seu subversivo. Ambos muito mais pragmáticos do que pareciam.

O primeiro pró-ocidental, mas não o fantoche anglo-americano descrito pelos revolucionários marxistas-islamistas. O outro, mais nacional-imperial na sua teologia. Se os barões da inteligência sobrevivessem nalgum departamento de ciências políticas da Ivy League, ofereceriam a Mohammad Reza Pahlevi e a Ruhollah Khomeini diplomas honorários duplos ad memoriam na teoria do realismo aplicado. A estratégia de qualquer grande potência é manter-se nessa posição. O mesmo se aplica ao império persa, que se considera como tal, mesmo que não possua todos os seus atributos. Incluindo a bomba. O fio vermelho que liga o projecto atómico do Xá, lançado nos anos de 1950, ao da República Islâmica traça a continuidade estratégica entre dois regimes com uma genealogia imperial comum. Ambos se reclamam herdeiros da dinastia Aqueménida (cerca de 550-330 a.C.). O cilindro de Ciro entusiasma tanto o Xá como Khomeini e os seus sucessores.

O desenvolvimento da energia atómica desejado pelo Rei dos Reis fala em termos civis e pensa em termos militares. Os juristas xiitas que lideram a revolução insistem nesta ambiguidade. O líder supremo confirma a opção civil com fatwa ao mesmo tempo que aprova o programa secreto de enriquecimento de urânio, de modo a poder desenvolver um arsenal atómico associado a mísseis balísticos hipersónicos com um alcance de mais de 1500 quilómetros. Capazes de atingir Israel numa dúzia de minutos. Teerão será uma potência nuclear quando decidir fechar o círculo. Basta-lhe uma luz verde do Guia ou de quem quer que seja. Será conveniente para o Irão tirar a máscara e desafiar os dois Satãs? Não me parece que seja o caso. O regime de dormência nuclear permite a Teerão explorar as vantagens da dissuasão suprema sem se expor a retaliações israelitas e americanas.

1 Ago 2024

Irão | China e Índia felicitam novo Presidente

O Presidente chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, felicitaram Masoud Pezeshkian pela sua vitória nas eleições presidenciais do Irão, mostrando abertura para trabalhar em conjunto com o novo governante.

Xi Jinping enviou no sábado uma mensagem de felicitações a Masoud Pezeshkian, na qual assegurou que a coordenação entre Beijing e Teerão nos assuntos internacionais “contribui positivamente para a estabilidade regional e global”.

Xi afirmou que, numa “situação internacional complexa”, a China e o Irão “sempre se apoiaram mutuamente, trabalharam em conjunto e consolidaram continuamente a confiança estratégica mútua”, segundo a agência noticiosa oficial Xinhua, citada pela Efe.

O líder chinês afirmou que atribui “grande importância” aos laços com o Irão e disse estar “disposto a trabalhar com o novo Presidente para conduzir a parceria estratégica abrangente entre a China e o Irão numa direcção mais profunda”.

“A China e o Irão têm promovido consistentemente o intercâmbio e a cooperação em vários domínios e mantido uma boa comunicação e coordenação nos assuntos regionais e internacionais, o que não só beneficia o povo chinês e iraniano, mas também contribui positivamente para a promoção da paz e da estabilidade na região e no mundo”, afirmou.

Também o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, felicitou Massoud Pezeshkian pela sua vitória na segunda volta das eleições presidenciais no Irão.

“Estou ansioso por trabalhar em estreita colaboração consigo para reforçar as nossas relações bilaterais calorosas e de longa data em benefício dos nossos povos e da região”, escreveu Modi na rede social X, citado pela AFP.

Teerão e Nova Deli mantêm uma relação estreita, tendo a República Islâmica sido, durante muitos anos, o principal fornecedor de petróleo ao gigante asiático.

8 Jul 2024

Irão | Presidenciais mais abertas do que o esperado

Os iranianos vão sexta-feira às urnas para eleger um novo Presidente de entre seis candidatos, incluindo um reformador até agora desconhecido que espera abalar a preponderância dos conservadores.

Esta eleição presidencial, inicialmente prevista para 2025, foi organizada em poucas semanas para substituir o Presidente Ebrahim Raissi, que morreu num acidente de helicóptero a 19 de Maio.

O acto eleitoral realiza-se num contexto delicado para a República Islâmica, que tem de gerir simultaneamente tensões internas e crises geopolíticas, da guerra na Faixa de Gaza à questão nuclear, a cinco meses das eleições presidenciais nos Estados Unidos, seu inimigo declarado.

A campanha, que começou de forma desapaixonada, foi mais competitiva do que a anterior, em 2021, graças à presença do reformista Massoud Pezeshkian, que se impôs como um dos três favoritos.

Os seus dois principais adversários são o conservador presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf, e Saïd Jalili, o ultraconservador ex-negociador nuclear. Esta proximidade de destaque poderá levar a uma segunda volta, o que só aconteceu numa eleição presidencial, em 2005, desde o início da República Islâmica, há 45 anos.

Para ter hipóteses de ganhar, Massoud Pezeshkian deve esperar uma elevada taxa de participação, ao contrário da eleição presidencial de 2021, que foi marcada por uma abstenção recorde de 51 por cento quando nenhum candidato reformista ou moderado foi autorizado a concorrer.

As diferentes escolhas

Na terça-feira, o líder supremo, ayatollah Ali Khamenei, apelou aos iranianos para que “compareçam em grande número”, receando a mais que provável baixa taxa de participação, tendo como pano de fundo os 41 por cento registados nas legislativas de Março passado.

Para Ali Vaez, especialista sobre questões ligadas ao Irão do International Crisis Group (ICG), o futuro Presidente terá de enfrentar “o desafio de evitar alargar o fosso entre o Estado e a sociedade”. Até à data, nenhum dos candidatos “apresentou um plano concreto para resolver estes problemas”, considera.

O reformista Pezeshkian, de 69 anos, viúvo e pai de família, garantiu aos eleitores que era possível “melhorar” alguns dos problemas com que se defrontam os 85 milhões de habitantes do Irão. No entanto, aos olhos de alguns eleitores, este médico que se tornou deputado carece de experiência governativa, tendo sido apenas Ministro da Saúde há cerca de 20 anos.

Em contrapartida, Mohammad-Bagher Ghalibaf é, aos 62 anos, um veterano da política, depois de ter feito carreira na Guarda Revolucionária, o poderoso exército ideológico da República Islâmica.

Por seu lado, Saïd Jalili, 58 anos, que perdeu uma perna durante a guerra Irão-Iraque, nos anos 80, atrai os apoiantes mais fervorosos da República Islâmica, apoiando a firmeza inflexível de Teerão face aos países ocidentais.

No outro extremo do espectro, Massoud Pezeshkian defende uma aproximação nas relações com os Estados Unidos e com a Europa, a fim de levantar as sanções que afectam duramente a economia, e recebeu o apoio do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Javad Zarif, o arquitecto do acordo nuclear alcançado com as grandes potências em 2015.

28 Jun 2024

Morte de Raisi é uma “grande perda para o povo iraniano”, diz Xi Jinping

O Presidente chinês, Xi Jinping, classificou ontem a morte do homólogo iraniano Ebrahim Raisi como trágica e uma “grande perda para o povo iraniano”, divulgou o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês. “O Presidente Xi Jinping sublinhou que a sua morte trágica foi uma grande perda para o povo iraniano e que o povo chinês perdeu um bom amigo”, disse o porta-voz da diplomacia chinesa, Wang Wenbin, em conferência de imprensa.

A última visita de Estado do Presidente chinês ao Irão ocorreu em Janeiro de 2016, mas Xi comprometeu-se a visitar novamente o país, durante uma visita de Raisi a Pequim, no ano passado. Parceiros políticos e económicos, os dois países enfrentam pressões por parte do Ocidente, nomeadamente devido às suas posições face à invasão da Ucrânia pela Rússia.

O Irão enfrenta também duras sanções dos Estados Unidos, devido ao seu programa nuclear. O conflito em Gaza veio agravar as tensões entre Teerão e Washington. Durante a visita de Raisi a Pequim, os dois países apelaram ao levantamento das sanções, dizendo que “garantir os dividendos económicos do Irão” é uma “parte importante” do acordo nuclear, assinado em 2015.

As duas partes assinaram então uma série de documentos de cooperação bilateral que abrangem áreas como a agricultura, comércio, turismo, proteção ambiental, cultura ou desporto. Pequim já tinha assinado em 2021, um vasto acordo estratégico de 25 anos com Teerão. Esta importante parceria abrange áreas tão variadas como a energia, segurança, infra-estruturas e comunicações.

Nação inabalável

As equipas de socorro iranianas recuperaram ontem os restos mortais de Ebrahim Raisi e dos outros oito passageiros que seguiam no helicóptero que se despenhou no domingo no noroeste do Irão, anunciou o Crescente Vermelho.

O helicóptero que transportava também o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hossein Amir-Abdollahian, despenhou-se na zona de Kalibar e Warzghan, na província do Azerbaijão Oriental, no noroeste do país. Poucas horas antes, o Governo iraniano confirmava a morte de Rasi, acrescentando que o desastre não vai causar “qualquer perturbação na administração” do país.

21 Mai 2024

Nem Hamastão nem Fatahstão (III)

“The purely military or undiplomatic recourse to forcible action is concerned with enemy strength, not enemy interests; the coercive use of the power to hurt, though, is the very exploitation of enemy wants and fears”.

The Diplomacy of Violence
Thomas Schelling

 

 

Se os Acordos de Abraão tinham por objectivo bloquear a anexação da Cisjordânia em 2020, segundo Yousef Al Otaiba, embaixador dos Emirados em Washington, a sua extensão à Arábia Saudita poderia ter agora o duplo objectivo de mudar o curso da guerra e de relançar as negociações políticas que estão paradas há dez anos. De facto, os riscos para Israel tornaram-se mais elevados com a guerra em curso.

A situação tornou-se também mais complexa para a administração americana, que investiu os seus melhores recursos diplomáticos em torno da normalização entre sauditas e israelitas. O fim da “guerra total” em Gaza e um acordo israelo-saudita poderiam também ter um efeito positivo na campanha eleitoral do actual presidente democrata, cujas sondagens continuam a cair na perspectiva das eleições de Novembro próximo. Os Estados Unidos não escondem o seu afastamento progressivo do Médio Oriente desde a retirada do Iraque, em Dezembro de 2011, reiterada pela acção diplomática do Presidente Barack Obama no acordo nuclear internacional com o Irão e, mais recentemente, pelos Acordos de Abraão, sob a presidência de Donald Trump.

Mas o conflito em Gaza expandiu-se perigosamente na região com o ataque do Irão e Hezboolah, arrastando a América para as malhas de outros conflitos há muito não resolvidos. Em particular, os bombardeamentos britânico-americano contra várias posições militares dos Hutis no noroeste do Iémen destinam-se a travar os seus ataques contra a navegação comercial no Mar Vermelho e a travar a acção desestabilizadora do Irão, o seu improvável titereiro. Os americanos dissociaram oficialmente esta acção militar do conflito de Gaza, numa dupla tentativa de desacreditar as mensagens pro-palestinianas dos Hutis e de obter um consenso árabe que tarda em chegar.

Contrariamente à possível normalização, integração ou pacificação regional que Antony Blinken previa para o seu aliado israelita, a acção anglo-americana no Iémen arrisca-se a acrescentar mais um apêndice à guerra de Gaza, com resultados muito incertos, bem como a ressuscitar o espectro da guerra civil do Iémen e as suas ramificações regionais.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Yi Wang, não demorou a contradizer a posição americana. Numa visita ao Cairo, qualificou a tensão no Mar Vermelho como “uma encarnação das repercussões externas do conflito de Gaza” e denunciou a ilegalidade dos ataques anglo-americanos ao Iémen por não terem autorização do Conselho de Segurança da ONU. Também se distanciou dos Estados Unidos e apelou, juntamente com o seu homólogo egípcio, a um cessar-fogo imediato em Gaza e a uma paz duradoura que passe pelo reconhecimento internacional do Estado da Palestina. Mas, para além das denúncias, o ministro chinês não apresentou uma solução diplomática para a insegurança no Mar Vermelho, por onde passa cerca de 12 por cento do tráfego marítimo mundial. Limitou-se igualmente a reiterar a posição chinesa a favor de uma conferência internacional sobre o conflito israelo-palestiniano, que, embora partilhada por Estados da região e da Europa, se opõe, sem sucesso, à abordagem bilateral seguida por Israel, apoiada pelos Estados Unidos, “no tratado de paz” com o Egipto negociado em 1978-1979.

No Médio Oriente em ebulição, a competição sino-americana não dividirá ainda mais os países da região, que tencionam manter-se afastados dela para maximizar os seus benefícios. Não irá incitar a UE, dividida e ausente, a assumir um papel político incisivo nos assuntos da região. Em vez disso, vai pressionar os Estados Unidos a continuar a lidar com ela.

Entretanto, o Irão lançou dezenas/centenas de drones kamikaze, mísseis de cruzeiro e lançadores balísticos a 13 de Abril contra Israel, em represália pelo bombardeamento da sede consular do regime dos ayatollah em Damasco a 1 de Abril. Trata-se do primeiro ataque directo da República Islâmica contra o Estado judaico. Teerão informou, no entanto, que tinha informado os seus vizinhos em tempo útil antes de lançar o ataque. Israel e os seus aliados tiveram, assim, tempo para preparar contra-medidas. Em todo o caso, os alvos designados não eram as zonas mais densamente povoadas. Os mísseis e os drones visavam sobretudo o Golã, o Sul e a Cisjordânia. Mas também foram efectuados ataques contra Jerusalém. De acordo com as Forças de Defesa de Israel, foram lançados cerca de 170 drones, 30 mísseis de cruzeiro e 120 mísseis balísticos.

Alguns foram dirigidos contra a base de Nevatim, onde estão estacionados os valiosos caças F-35. Com a ajuda de americanos, britânicos, franceses, jordanos e sauditas, 99 por cento dos projécteis foram interceptados. O Estado judaico avaliou a necessidade de um contra-ataque.

O gabinete de guerra presidido por Binyamin Netanyahu consideraou o tipo e o momento com as pressões americanas e dos aliados para não haver retaliação. Os dois membros do governo de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich, apelaram a medidas militares pesadas. Por seu lado, o Presidente dos Estados Unidos, apelou ao “Rei Bibi” para que não retaliasse contra o ataque e considerasse os sucessos antiaéreos como uma “vitória”. Aparentemente coincidindo com o aniversário do Guia Supremo da Revolução Islâmica, Ali Khamenei, Israel efectuou uma represália limitada e simbólica contra uma base aérea perto de Isfahan.

Ainda não há uma reconstituição coerente dos factos e o ataque foi efectuado com a utilização de pequenos drones, talvez mesmo a partir do interior do território iraniano, onde há muito tempo actuam agentes dos serviços secretos do Estado judaico.

A resposta militar à agressão iraniana na noite de 13 para 14 de Abril foi feita com mísseis de longo alcance lançados de aviões segundo o “Jerusalem Post”. É certo, porém, que as defesas antiaéreas iranianas foram activadas e que se ouviram explosões, circunstâncias que confirmariam a perfeição de um ataque e apontariam para a hipótese de vectores exteriores à República Islâmica. Na ausência de mais pormenores, porém, parece possível concluir que Israel atacou efectivamente o Irão de forma a não causar vítimas, escolhendo um alvo de natureza militar e não muito distante das instalações utilizadas por Teerão para o seu programa de investigação nuclear. Assistimos a um exercício daquilo a que Thomas Schelling chamou “diplomacia da violência”.

A mensagem transmitida pelo Estado judaico é, paradoxalmente, uma manifestação de boa vontade, porque se evitaram danos irreparáveis e agora também Israel pode considerar encerrada, pelo menos, esta fase do confronto com o Irão. Mas é também um aviso dirigido aos ayatollahs e ao Pasdaran (Guarda Revolucionária Iraniana) de que uma nova infracção será punida com ataques muito mais mortíferos a que Teerão não poderá resistir.

15 Mai 2024