Guerra, Cidades e Campo

As três linhas de haiku transformam-se num zoom via linguagem. A linguagem aproxima-se da realidade e vê detalhes. Mas, sim, há também o grande plano.
 
 
1.
uma granada 
em pleno voo
perdeu o sentido
 
2.
a cavalaria não usa 
cavalos 
– velocidade e elegância
 
3.
em paris
um pássaro 
é novidade
 
4.
buzinas e tráfego 
– onde estão os limões 
e o tempo?
 
5.
tecido macio 
cores perfeitas
– ninguém para ocupar o vestido
 
6.
o século XIX 
está na sala
– biombo do bisavô
 
7.
os meninos correm 
a lua ao fundo 
– lições de perspectiva
 
8.
o som do sino 
assinala 
a moda atrasada
 
9.
janelas fechadas 
silêncio
– mosteiro cheio 
 
10.
ecrã desligado 
continuas a fixá-lo
– espelho negro
 
11.
o dinheiro 
causa atrito 
– mão de escultor
 
12.
rua vazia
o vagabundo 
entra 

14 Mai 2021

Doze haiku para Abril  

Haiku na cidade moderna.
Abril, doze sínteses. O olho tenta ver.
 
1.
o copo vazio 
dá sede
– viajante
 
2.
gentileza 
com pressa
– grosseria
 
 
3.
pesa demasiado 
na mochila
– o oráculo 
 
4.
o estrondo
não chega 
ao ouvido concentrado
 
4b
estrondo 
é silêncio 
– ouvido concentrado
 
5.
engenheiros desenham 
uma mulher nua
– pausa nos números
 
6.
os imortais 
inventam 
um jogo lento
 
7.
o ébrio acorda
– encontra sapatos
mas não os pés
 
8.
o comboio chega
à estação
– os corações partem
 
9.
estica os lábios 
e cala-se
– beijo
 
10.
mãos com vinho 
tocam 
na árvore verde-clara
 
11.
aprendeu a assobiar
para ter companhia 
do cavalo
 
12.
um cego 
encontra
um amigo

23 Abr 2021