Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA Disputa pela Gronelândia (II) “Nations do not compete for land; they compete for the power that land unlocks.” Halford J. Mackinder A posição da União Europeia (UE) face à crescente atenção dos Estados Unidos à Gronelândia, intensificada durante a presidência de Donald Trump, gerou inquietação e reflexão estratégica. Embora a Gronelândia não faça parte da UE desde 1985, a ilha permanece integrada no Reino da Dinamarca, EstadoMembro da União, o que confere ao tema uma dimensão política e institucional incontornável. A posição europeia resulta, assim, da necessidade de proteger a integridade territorial de um dos seus membros, de salvaguardar interesses estratégicos no Árctico e de preservar a estabilidade das relações transatlânticas. A UE encara a Gronelândia como parte do espaço político europeu alargado, não pela sua pertença formal, mas pela ligação constitucional à Dinamarca. Qualquer tentativa externa de adquirir ou exercer controlo sobre o território é interpretada como uma interferência directa na soberania de um EstadoMembro. A proposta americana de compra da ilha foi recebida em Bruxelas como um gesto diplomático disruptivo, que ultrapassou os limites tradicionais da cooperação entre aliados. A defesa da soberania dinamarquesa constitui o primeiro pilar da posição europeia. A UE tem reiterado que a integridade territorial dos seus EstadosMembros não é negociável e que qualquer alteração ao estatuto de um território europeu exige consentimento pleno e voluntário das autoridades nacionais e locais. A ideia de uma transacção territorial, evocativa de práticas do século XIX, contraria os princípios contemporâneos do direito internacional e da governação europeia. A UE reconhece o Árctico como uma região de importância crescente, tanto pela sua relevância ambiental como pelo seu valor geopolítico. O degelo acelerado, a abertura de novas rotas marítimas e o acesso a recursos minerais estratégicos transformaram a região num espaço de competição entre grandes potências. A UE, que se define como “actor global”, procura garantir que o Árctico permaneça uma zona de cooperação pacífica, governada por normas multilaterais e por mecanismos de gestão partilhada. O interesse americano pela Gronelândia é interpretado em Bruxelas como parte de uma estratégia mais ampla de afirmação militar e económica no Árctico. Embora os Estados Unidos sejam aliados fundamentais no quadro da NATO, a UE mantém reservas quanto a iniciativas unilaterais que possam alterar o equilíbrio regional. A militarização excessiva da Gronelândia, nomeadamente através da eventual instalação de armamento nuclear, seria vista como um factor de instabilidade, com impacto directo na segurança europeia. A Gronelândia possui vastas reservas de minerais críticos, incluindo terras raras, essenciais para a transição energética e para a indústria tecnológica europeia. A UE tem procurado reduzir a dependência de fornecedores externos, sobretudo da China, e vê na cooperação com a Gronelândia uma oportunidade para reforçar a sua autonomia estratégica. O interesse americano em controlar esses recursos suscita preocupações em Bruxelas, que receia uma concentração excessiva de poder sobre cadeias de abastecimento vitais. A UE defende que a exploração mineira na Gronelândia deve ser realizada de forma sustentável, transparente e em parceria com actores europeus, garantindo benefícios para a população local e evitando práticas de exploração predatória. A UE valoriza profundamente a relação transatlântica, mas considera que alianças sólidas exigem respeito mútuo e previsibilidade. A proposta americana de adquirir a Gronelândia foi interpretada como um gesto que desconsiderou a sensibilidade política europeia e que colocou em causa a confiança entre parceiros. Bruxelas procurou, contudo, evitar uma escalada diplomática. A resposta europeia combinou firmeza na defesa da soberania dinamarquesa com moderação discursiva, de modo a preservar a cooperação estratégica com Washington em áreas como a defesa, comércio e segurança internacional. A UE sublinhou que o diálogo sobre o Árctico deve ocorrer em fóruns multilaterais e no quadro da NATO, e não através de iniciativas unilaterais. As declarações de Trump no Fórum de Davos de 2026 intensificaram ainda mais estas tensões. Perante líderes globais, Trump afirmou que os Estados Unidos “não usarão força” para adquirir a Gronelândia, embora tenha sublinhado que o país seria “francamente imparável” caso decidisse fazêlo. Acrescentou que “nenhuma outra nação pode defender a Gronelândia” e que Washington pretendia iniciar “negociações imediatas” para assumir controlo do território. Numa das passagens mais polémicas, declarou: “Queremos um pedaço de gelo para a protecção do mundo, e eles não o dão. Podem dizer sim e ficaremos muito agradecidos, ou podem dizer não e nós lembraremos.” Trump reforçou ainda a narrativa histórica segundo a qual os Estados Unisos “salvaram a Gronelândia” durante a II Guerra Mundial e insinuou que devolver o território à Dinamarca teria sido um erro. Repetiu críticas à NATO, acusando os aliados europeus de contribuírem pouco para a segurança comum, e ameaçou impor tarifas de 10% a vários países europeus aumentando para 25% caso a venda da Gronelândia não avançasse. As reacções europeias foram imediatas e firmes. O ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, considerou “positivo” que Trump tivesse retirado a opção militar da mesa, mas sublinhou que “a ambição do presidente permanece intacta” e que a pressão americana continuava a ser inaceitável. Em Bruxelas, as declarações foram interpretadas como uma escalada retórica que colocava em causa a confiança entre aliados e que procurava transformar a Gronelândia num instrumento de chantagem económica e estratégica. Diplomatas europeus classificaram o discurso como “belicoso” e “desalinhado com o espírito de cooperação” esperado no Fórum de Davos, notando que a ameaça de tarifas sobre EstadosMembros da UE constituía uma forma de coerção incompatível com relações transatlânticas estáveis. A Dinamarca, embora responsável pela política externa e de defesa da Gronelândia, enfrenta desafios específicos na gestão do território. A autonomia crescente da ilha, combinada com o interesse de potências externas, coloca Copenhaga numa posição delicada. A UE tem procurado apoiar a Dinamarca, reforçando a sua capacidade de negociação e oferecendo instrumentos de cooperação económica e científica com a Gronelândia. Bruxelas entende que a estabilidade da região depende de uma articulação equilibrada entre os interesses da Dinamarca, as aspirações da população gronelandesa e a necessidade de evitar ingerências externas que possam comprometer a segurança europeia. Assim, a posição da UE face ao interesse americano pela Gronelândia assenta em três princípios fundamentais; a defesa intransigente da soberania de um EstadoMembro; a preservação da estabilidade e da cooperação no Árctico; e a protecção dos interesses estratégicos europeus em recursos críticos e segurança regional. As declarações de Trump em Davos reforçaram a percepção europeia de que o tema ultrapassa a mera disputa territorial, revelando uma estratégia americana assertiva que combina pressão económica, narrativa histórica e ambição geopolítica. Embora reconheça a importância da parceria transatlântica, a UE rejeita abordagens unilaterais que possam fragilizar o equilíbrio político europeu ou transformar o Árctico num palco de confrontação entre grandes potências. A Gronelândia, situada entre continentes e entre lógicas de poder, tornouse um teste à capacidade da UE de afirmar a sua autonomia estratégica e de proteger os seus membros num contexto internacional cada vez mais competitivo.
Jorge Rodrigues Simão Perspectivas VozesA disputa pela Gronelândia (Continuação do artigo publicado em 29 de Janeiro) A dimensão performativa da política externa desempenha aqui um papel central. A possibilidade de retirar território a um aliado, ainda que por via negocial, projectaria uma imagem de força e imprevisibilidade. Para a Casa Branca, essa imprevisibilidade funcionaria como instrumento de dissuasão perante adversários estratégicos, nomeadamente a Rússia e a China. A ideia de que os Estados Unidos estariam dispostos a considerar acções ousadas em cenários improváveis reforçaria a credibilidade das suas ameaças e promessas no sistema internacional. A “captura de Maduro” é um elemento que teria tornado mais plausível a utilização da força em contextos inesperados. Independentemente da factualidade deste episódio, ilustra a lógica interna da administração Trump com actuações de alto impacto, mesmo que controversas, serviriam para demonstrar determinação e capacidade de acção, criando um ambiente favorável para pressionar parceiros e adversários. Neste quadro, a Gronelândia surgiria como o passo seguinte numa estratégia de choque destinada a desbloquear negociações com Copenhaga. Embora as motivações de Trump apresentem características próprias, existe um ponto de convergência entre a sua visão e os interesses estruturais do Estado americano que é a possibilidade de reforçar a presença militar na Gronelândia através da instalação de um arsenal nuclear. Esta hipótese, inserese na lógica de dissuasão estratégica que tem orientado a política de defesa dos Estados Unidos desde o pósguerra. A proximidade geográfica da Gronelândia ao espaço euro-asiático tornaria o território um local privilegiado para posicionar armamento capaz de responder rapidamente a ameaças provenientes da Rússia ou da China. A modernização das forças nucleares, num contexto de deterioração dos tratados de controlo de armamentos, aumenta a probabilidade de que Washington procure novos locais para reforçar a sua postura estratégica. A Gronelândia, pela sua localização e pelo enquadramento jurídico existente, oferece condições particularmente favoráveis. A convergência entre a ambição simbólica da presidência e os interesses militares do Estado cria, assim, um terreno comum que pode explicar a insistência americana em aumentar a sua influência sobre a ilha. Mesmo que a aquisição territorial não seja necessária para atingir estes objectivos, a possibilidade de reforçar a presença militar pode ter contribuído para legitimar, internamente, a iniciativa presidencial. A posição da Dinamarca constitui outro elemento essencial para compreender a dinâmica em torno da Gronelândia. Embora formalmente soberana sobre a ilha, Copenhaga enfrenta limitações estruturais que condicionam a sua capacidade de resistir a pressões americanas. A dependência económica e militar em relação aos Estados Unidos, aliada à importância da NATO para a segurança europeia, reduz a margem de manobra dinamarquesa. A Gronelândia possui autonomia interna significativa, mas continua integrada no Reino da Dinamarca. A sua população, embora pequena, tem reivindicado maior controlo sobre os recursos naturais e sobre as decisões estratégicas que afectam o território. A proposta de compra americana colocou Copenhaga numa posição delicada de que rejeitar a oferta significava contrariar um aliado fundamental e aceitála implicaria abdicar de um território que, apesar de remoto, possui valor simbólico e estratégico crescente. A recusa dinamarquesa, amplamente divulgada, não eliminou a pressão americana. Pelo contrário, evidenciou a fragilidade da posição europeia no Árctico e a dificuldade de conciliar interesses nacionais com a realidade de um sistema internacional marcado pela competição entre grandes potências. A controvérsia em torno da Gronelândia não pode ser analisada isoladamente pois reflecte transformações mais amplas na ordem internacional, incluindo a militarização crescente do Árctico, competição por recursos estratégicos, redefinição das alianças tradicionais, emergência de lideranças políticas que privilegiam gestos simbólicos de grande impacto e a erosão de normas diplomáticas que, durante décadas, regularam as relações entre aliados. A proposta de compra da Gronelândia, embora improvável de concretizar, tornou visível a forma como o território se tornou peça central num jogo de poder global. A ilha, outrora periférica, é hoje um espaço onde se cruzam interesses económicos, militares e simbólicos de grande magnitude. Assim, a análise do interesse americano pela Gronelândia revela uma combinação complexa de factores estruturais e conjunturais. Por um lado, Washington procura assegurar o controlo de um território essencial para a sua estratégia militar e para o acesso a recursos críticos. Por outro, a presidência de Donald Trump introduziu uma dimensão simbólica e política que ultrapassa os cálculos tradicionais da política externa. A tentativa de adquirir a Gronelândia não deve ser interpretada apenas como excentricidade presidencial, mas como expressão de uma visão de poder que combina ambição histórica, nacionalismo e uma estratégia de imprevisibilidade calculada. A convergência parcial entre esta visão e os interesses do Estado americano explica a persistência do tema e a sua relevância no debate internacional. A Gronelândia, situada entre continentes e entre lógicas de poder, tornouse um espelho das tensões que moldam o século XXI. A disputa pelo seu futuro continuará a reflectir não apenas a competição entre Estados, mas também a forma como estes procuram redefinir o seu lugar num mundo em transformação acelerada.
Hoje Macau China / ÁsiaGronelândia | EUA avisados para não usar outros países como pretexto Pequim reafirma o seu compromisso com o direito internacional e adverte as autoridades norte-americanas para não inventarem narrativas com vista a satisfazer os seus interesses próprios A China avisou ontem os Estados Unidos para não usarem outros países como pretexto para prosseguir os seus interesses na Gronelândia e garantiu que as suas actividades no Ártico estão em conformidade com o direito internacional. “Os direitos e liberdades de todos os países para conduzir actividades no Ártico de acordo com a lei devem ser plenamente respeitados”, afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Mao Ning, em conferência de imprensa. “As actividades da China no Ártico visam promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável na região e estão de acordo com o direito internacional”, sublinhou. Segundo a porta-voz, “os EUA não devem prosseguir os seus próprios interesses usando outros países como pretexto”, até porque “o Ártico diz respeito aos interesses gerais da comunidade internacional”. O Presidente norte-americano, Donald Trump, reiterou na sexta-feira, na Casa Branca, que não vai permitir que a Rússia ou a China “ocupem a Gronelândia” e que decidiu “fazer alguma coisa” em relação ao território autónomo dinamarquês, do qual pretende adquirir controlo “a bem ou a mal”. Trump adiantou que gostaria de fazer um acordo para adquirir a Gronelândia, uma região semiautónoma da Dinamarca, membro da NATO, para impedir que a Rússia ou a China a assumam. As tensões entre Washington, a Dinamarca e a Gronelândia aumentaram este mês, à medida que Trump e a sua administração pressionam sobre o assunto e a Casa Branca pondera uma série de opções, incluindo o uso da força militar, para adquirir a vasta ilha ártica. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que uma tomada de poder norte-americana na Gronelândia marcaria o fim da NATO. O povo é quem mais ordena Na sexta-feira, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e os líderes dos outros quatro partidos no parlamento do território emitiram uma declaração conjunta reiterando que o futuro da Gronelândia deve ser decidido pelo seu povo. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul, tinha ontem um encontro marcado com o seu homólogo norte-americano, Marco Rubio, em Washington para discutir uma estratégia conjunta de segurança da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para o Ártico. Antes de viajar, o diplomata alemão afirmou que desejava discutir com Rubio como “assumir conjuntamente esta responsabilidade dentro da NATO, dadas as antigas e novas rivalidades na região entre a Rússia e a China”. Segundo dados oficiais, a presença e os interesses da China na Gronelândia são mais limitados do que os EUA alegam e estão focados principalmente no sector comercial, com vários empreendimentos mineiros e industriais frustrados nos últimos anos. No entanto, em 2018, a China declarou-se um “Estado quase-ártico” num esforço para ganhar mais influência na região e anunciou planos para construir uma “Rota da Seda Polar” como parte da sua iniciativa global “Uma Faixa, Uma Rota”, um megaprojecto de infraestruturas e investimento global, proposto pela China em 2013 para reavivar a antiga Rota da Seda, que visa ligar Ásia, Europa, África.
Hoje Macau China / ÁsiaGronelândia | China apela ao respeito pela Carta da ONU Pequim defendeu ontem que as relações entre países devem respeitar os princípios da Carta das Nações Unidas, após declarações dos Estados Unidos sobre uma possível acção militar para assumir o controlo da Gronelândia. A porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning disse em conferência de imprensa que a posição de Pequim tem sido consistente ao defender que as relações entre Estados devem ser geridas de acordo com os objectivos e princípios da Carta da ONU, sem fazer mais comentários sobre o caso. O tema surgiu após Washington ter sugerido novamente a possibilidade de utilizar meios militares na sua estratégia para adquirir ou influenciar o controlo da Groenlândia, uma questão que tem gerado oposição de países europeus e do próprio governo dinamarquês, que afirmam que o território só pode decidir o seu futuro soberanamente. As declarações de Mao ocorrem num contexto de tensão internacional ampliado pela recente operação militar dos EUA na Venezuela, na qual as forças norteamericanas capturaram o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e que suscitou debate sobre a legalidade do uso da força e o respeito pela soberania de Estados. A China tem intensificado apelos ao respeito pelo direito internacional e à soberania dos Estados na sequência das ações externas dos EUA, sublinhando que qualquer controlo de território soberano por outro país deve respeitar as normas e princípios consagrados na Carta das Nações Unidas.
Hoje Macau Grande PlanoDinamarca | PM recusa vender Gronelândia A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, mostrou-se ontem disponível para dialogar com os Estados Unidos sobre a Gronelândia, frisando que o território autónomo “não está à venda”. “Temos sido muito claros: todos temos de respeitar a soberania de todos os Estados no mundo – e a Gronelândia é hoje uma parte do reino da Dinamarca – não está à venda”, referiu. A líder dinamarquesa, falava à entrada do primeiro retiro de líderes da UE, iniciativa criada pelo presidente do Conselho Europeu, António Costa, para debates mais informais. Concordo totalmente com os americanos que a região do Extremo Norte, a região do Ártico, é cada vez mais importante quando falamos de defesa e segurança e de dissuasão, e é possível encontrar uma forma de assegurar uma pegada mais forte [dos Estados Unidos] na Gronelândia, onde já estão”, referiu ainda Mette Frederiksen. A chefe do governo de Copenhaga lembrou ainda que as tropas dinamarquesas combateram ao lado dos EUA durante muitas décadas. O Presidente dos EUA, Donald Trump, tem reivindicado um maior acesso ao Ártico e manifestou o interesse de adquirir a Gronelândia, um território autónomo gerido pela Dinamarca.
Luís Carmelo h | Artes, Letras e IdeiasE se a Gronelândia fosse um travesti? [dropcap]H[/dropcap]á alguns dias, andei à procura de ilações absurdas para iniciar uma crónica. Precisava desse condimento. Já veremos por que razão. O percurso seria elementar: bastava passar por notícias vindas da Arábia ou do Irão, ou entrar em algumas universidades como a de Quilmes, em Buenos Aires, cujas pesquisas científicas são sempre interessantes, nomeadamente a que provou que os hamsters recuperam melhor das mudanças de fusos horários, quando estão sob o efeito de viagra. Mas como os humanos são seres azougados, bastou esperar umas horas para que um dos títeres do nosso tempo me proporcionasse ilações absurdas: depois de se comemorarem 152 anos sobre a compra do Alaska ao Canadá (já nem falo dos conhecidos episódios na fronteira sul pela mesma época), eis que o PR dos EUA se propôs comprar a Gronelândia à Dinamarca, um território correspondente a 26 vezes a superfície de Portugal. Um simples negócio imobiliário. Moral da história: procurar ilações absurdas no nosso tempo é um acto absurdo. Kierkegaard e Camus, cada um a seu jeito, já se tinha encarregado do assunto e a primeira-ministra Mette Frederiksen, em Copenhaga, leitora do primeiro dos autores por razões óbvias, voltou agora a sublinhá-lo com aqueles seus olhos de iceberg verde vago. Há seis anos, já outra PM dinamarquesa, Helle Schmidt, tinha caído no goto de Obama, durante as exéquias de Mandela. As primeiras-ministras dinamarquesas e os EUA parecem, pois, para o pior e para o melhor, manter uma relação estilo Deucalião e Pirra. Mas o assunto que me trazia para os corredores desta crónica era literário e elevado, podia lá ser outro, e prendia-se com o conto de Truman Capote ‘Uma candeia numa janela’ que pode ser assim resumido: um homem perde-se na floresta e descobre uma casa onde é bem recebido. A anfitriã é uma senhora de idade, viúva, que vive com vários gatos. O homem passa aí a noite e no outro dia descobre que o amor pelos gatos de Mrs. Kelly estava recheado de dotes faraónicos. Ao abrir a arca frigorífica, uma vasta colecção de gatos congelados comprova-o. E a dona da casa confessa a sua perdição: “Todos os meus velhos amigos. No eterno repouso. É que eu não suportava a ideia de os perder”. O conto tocou-me, porque faço parte daquela franja da humanidade que tem um enorme fraquinho pelos gatos. Mas não sou maluco ao ponto de ir votar no PAN, pois é mais importante voltar a normalizar o Serviço Nacional de Saúde do que criar um paralelo destinado aos mais belos felinos da galáxia. Voltando ao tema, devo referir que, por razões profissionais, procurei na rede críticas a este conto de Capote e ao livro onde ele surge publicado, ‘Música para Camaleões’. E foi então que, por acaso, encontrei um artigo científico que deixa as pesquisas da Universidade de Quilmes a um canto. Insere-se no naipe de investigações que, hoje em dia, fazem vida nos chamados ‘Estudos de Género’. O texto é da autoria de Michael P. Bibler e deixo-o aqui sem mais comentários (a tradução é minha, deixo o original em inglês em rodapé): “Embora a história nos prepare para o facto de os gatos congelados serem símbolos ou substitutos do seu falecido marido, torna-se claro que ela ama os seus gatos literalmente enquanto gatos e nada mais. Capote leva-nos a compreender e a aceitar este amor pelos seus gatos como uma coisa em si mesma. E ao fazê-lo, ele convida-nos a imaginar um mundo mais hospitaleiro capaz de se ajustar a outras opções para além dos limites do casamento heterossexual, incluindo, ainda que sem se limitar a tal, a sua homossexualidade.” Depois de ler esta preciosidade, pergunto-me se valerá a pena sequer comentá-la. Entre comprar a Gronelândia e a ideia de que os gatos congelados significam uma sexualidade de várias entradas, o que sobrará? Sobrará talvez uma breve narrativa de teor oral que me foi contada por um amigo pintor que, por coincidência, é um apaixonado pela prosa de Truman Capote, pelos romances de Camus e pela filosofia de Kierkegaard: ‘O marido queria praticar sexo anal com a mulher, mas não sabia como pôr em prática um projecto de tal complexidade. Lembrou-se de comprar um busto de Napoleão. Colocou-o em frente à cama, ao lado da televisão. Na noite seguinte, a mulher perguntou – “O que faz ali aquele busto?” – e o marido, virando-se para ela, replicou – “qual busto, qual quê, o que tu queres sei eu”. E lá avançou como pôde, coitado’. Esta breve narrativa, que em certos meios científicos é classificada como anedota, tem uma carga suplementar de vernáculo (diz literalmente “ir ao cu”), o que lhe confere um certo fundo antropológico. Se se convidasse o senhor Michael P. Bibler a interpretar este excurso no auditório da Gulbenkian, o que diria ele? Diria que o marido, ao focar-se no peito de Napoleão (era essa a inexorável proeminência do busto), estaria a convidar-nos a imaginar um mundo mais hospitaleiro e capaz de se ajustar a outras posições e opções para além dos limites do sexo oral, competência em princípio partilhável nos mundos hetero e homossexual. Acrescentaria ainda em jeito de conclusão: como os humanos não conhecem o género a que pertencem e precisam de aulas para o descobrir (por causa do dilúvio, Deucalião e Pirra ainda estão na lista de espera), se se tratasse do busto de Trump, tornar-se-ia necessário descongelar os gatos de Mrs. Kelly e a Gronelândia inteira e, depois de tudo derretido, tal como aconteceu com os hamsters de Quilmes, logo se veria para que fuso pendiam as coisas. Só então se podia, com propriedade, falar em negócio imobiliário. Capote, Truman, Música para Camaleões, trad. paulo Faria, Livros do Brasil, Porto, 2015 pp.35-38 [Em linha]. (S/D.) https://static.fnac-static.com/multimedia/PT/pdf/9789723829044.pdf [Consult. 3 Ago. 2019]. “Although the story prepares us to expect that the frozen cats could be symbols or surrogates for her dead husband, it becomes clear that she loves her cats literally as cats and nothing more. Capote pushes us to acknowledge and accept this love for her cats just as it is. And by doing so, he invites us to imagine a more hospitable world in which we accommodate other kinds of object-choice beyond the confines of heterosexual marriage, including but certainly not limited to his own homosexuality.”. In Michael P. Bibler, Capotes´s Frozen Cats – Sexuality, Hospitality, Civil Rights, Journal Angelaki, Journal of theoretical humanities. [Em linha]. (Volume 23, 2018 – Issue 1 / Queer Objects. Issue Editors: Guy Davidson and Monique Rooney) https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0969725X.2018.1435387?journalCode=cang20 [Consult. 3 Ago. 2019].