Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteCristina Rocha Leiria, autora do projecto do Centro Ecuménico Kun Iam: “A obra que mais me preencheu” Até 13 de Março pode ser vista, no Centro Ecuménico Kun Iam, a mostra “Moments of Light with Kun Iam”, uma exposição de Cristina Rocha Leiria, arquitecta, escultora e autora do projecto do centro. Ao HM, Cristina Rocha Leiria fala de um espaço criado para todos, incluindo ateus, e lamenta a falta de divulgação da exposição Imagem: Fundação Rui Cunha Fale-me de “Moments of Light”, a exposição patente no Centro Ecuménico Kun Iam. O centro foi criado para o silêncio, porque tudo é feito para as maiorias, mas temos de pensar nas minorias, que têm direito de existir. Pode existir uma minoria que precisa de silêncio. Podem ser vistos cristais levados de Portugal e adquiridos também na China, escolhidos por mim, e pedras energéticas. Incluem-se ainda 25 peças feitas pela Atlantis [empresa portuguesa do grupo Vista Alegre] em cristal, além de um bazar com outros materiais. O centro ecuménico foi inaugurado em 1999, passaram-se 25 anos. Como olha hoje para o projecto? Sente que está devidamente aproveitado? É a obra que mais me preencheu. Trabalhei nele ao nível da arquitectura, porque é essa a minha área de formação, e trabalhei também com a escultura porque é o que faço, embora não tenha tirado qualquer curso. Faço escultura como terapia. Trabalhei ao nível da música com Rão Kyao e outro maestro, que perceberam o que eu queria e fizeram uma composição de tal ordem que toca o dia todo [no Centro] e as pessoas nunca se cansam. Tratei, na altura, de tudo o resto, da decoração e do que lá se vendia. As coisas foram-se esgotando e acabou por não haver quase nada para vender, à excepção de uns livros e postais. Criámos muita coisa que se vendia, os turistas iam lá, não faziam barulho porque percebiam que era um sítio de silêncio, compravam e esse espaço tinha um certo rendimento. Deve-se divulgar este centro ecuménico, que se tornou um ex-líbris de Macau, junto dos turistas como algo que Macau tem e que não existe em mais nenhum outro lugar urbano no mundo. Portanto, o centro funciona neste momento com uma exposição minha e um bazar que tem produtos que se vendem noutros locais e que não têm nada a ver com o centro ecuménico, mas que são um chamariz. Como foi o arranque da construção deste projecto? Já tinha feito alguma coisa com tanta ligação ao mundo espiritual? Vivi em Moçambique até ir para Lisboa estudar arquitectura. Desde criança que conheço a deusa Kun Iam, porque a minha mãe tinha uma estátua branca de Kun Iam em casa, e era a coisa que eu mais gostava naquela casa. Mal sabia eu que um dia viria a fazer um centro dedicado a esta deusa. Quando vim para Macau trabalhar no Leal Senado, como assessora do presidente, com o primeiro dinheiro que ganhei fui a Hong Kong comprar um abat-jour branco com a figura de Kun Iam, que ainda hoje tenho. Em relação à parte espiritual, esta vem de criança, sempre gostei do silêncio. Quando faço arquitectura ou escultura é sempre em completo silêncio. Estou só eu ligada ao trabalho e a um mundo que, como não é tangível, muitas pessoas nem se apercebem dele, nem acreditam nele. Eu acredito porque sinto que quando trabalho duas noites sem dormir, ou três dias seguidos, em qualquer projecto, em silêncio, acordo de manhã e penso nas ideias que tive, surpreendo-me até com elas. Então a parte espiritual está reflectida na escultura que faço. Especializei-me em habitação e a espiritualidade também se reflecte nos projectos que fiz em Macau na área da habitação social. A espiritualidade é uma parte de mim, e o centro ecuménico é orientado para isso. Nestas visitas guiadas que tenho feito tento puxar pelos mais jovens para que percebam que podemos ser muito ajudados por energias que não vemos. Não dou nomes às coisas e digo para não se importarem com isso, porque o importante é tomar consciência que há mais do que aquilo que vemos. O mundo material não é o único que nos interessa, há mais para tomarmos contacto e agradecermos. Macau é um território pautado pelo consumo, o jogo, os excessos. Ter um centro desta natureza nesta sociedade tem um maior significado? Este centro é ecuménico, mas nada tem a ver com a Igreja, remetendo sim para algo abrangente. O centro foi feito para ateus, agnósticos, religiosos e não religiosos, para todos aqueles que precisem de silêncio. E no mundo de Macau, ou em grandes meios urbanos, há sempre poluição auditiva. Esse centro foi feito numa ilha que pedi de propósito ao Governador de então, o general Vasco Rocha Vieira, que foi uma pessoa muito aberta a esta proposta. Essa ilha foi criada porque, na altura, não havia espaço em Macau para colocar um monumento de 20 metros de altura. O centro tornou-se um símbolo, muitos vão lá rezar, mas não foi feito para isso. Devo dizer que acredito que a essência do divino está em cada um de nós, mas nem todos têm consciência disso. Outros estão abertos para essa essência. Voltando à exposição. O que podem as pessoas aprender com ela? Estou agora em Macau por um período de seis meses, mas tenho tratado também de vários assuntos relacionados com projectos que fiz em Portugal há muitos anos e que estou a tentar que sejam recuperados. A exposição, por si, está lá e não é um atractivo. É bom saber-se que a reabertura do centro ecuménico não teve a divulgação que deveria ter. Ninguém sabe que o centro ecuménico foi aberto, e quem aparece lá são as pessoas que deixam os filhos nos parques, observam o espaço, e vão lá com as crianças. É interessante porque os mais pequenos dirigem-se, precisamente, para os pontos de energia identificados por mim. Aparecem pessoas que andam a passear, entram, mas não vão de propósito ver a minha exposição. Depois, como vêem a porta de saída que dá para o rio, saem logo e a exposição passa despercebida. Mas lamenta que não se tenha feito mais divulgação. Não se fez, não. Agora é que estou a fazer esse trabalho e a divulgar junto de pessoas amigas. Estou a acabar uma exposição sem que, de facto, as pessoas tenham usufruído, quando tenho esculturas com mensagens. Demoro cerca de um mês a fazer uma escultura, e vou escrevendo, pensando, fazendo poesia, então tenho muito a transmitir às pessoas sobre cada escultura. Muitas pessoas dizem que saem de lá mais ricas. Vou pedir que a exposição seja prolongada além do dia 13 de Março e era bom que isso acontecesse, porque têm aparecido grupos de pessoas, inclusivamente algumas que marcam hora comigo e eu vou fazer a visita guiada. Como surgiu a sua ligação à cultura chinesa? Essa ligação vem de infância. Depois aprofundei muito essa ligação porque tive de estudar sobre a deusa Kun Iam. Tive de ver muitas figuras de Kun Iam para pensar como iria fazer uma que estivesse ali suspensa, ao ar livre sujeita aos tufões e ventos fortes, bem como altas temperaturas. A parte espiritual foi mais fácil para mim, porque desde criança que me interesso por filosofias orientais. Essa parte da espiritualidade [na construção do centro ecuménico] foi, para mim, mais fácil, embora tenha tido muitas dificuldades. Dei tudo de mim, livros para a biblioteca, e até contribuí a nível financeiro para este centro, para que muitos jovens pudessem usufruir dele. Disse-me que algumas obras que edificou necessitam de recuperação. É ingrato esse lado do artista, de ver os projectos a destruírem-se com o tempo, sem preservação? Não lamento nada, tento, sim, entender. Mas também tento defender os propósitos que existiam no arranque de cada projecto. Tento entender a maneira de ser dos chineses que viveram tantos anos limitados e com muitas proibições. Gostaria de entender porque puseram um bazar na exposição a vender tantos produtos. O mesmo acontece em Portugal: tenho a obra “Vela ao Vento”, em Tavira, numa rotunda enorme que tinha um lago, foi algo que tentei fazer de forma poética, mas depois vejo que as pessoas menosprezam. Agora não há água no espaço e crescem ervas. Sinto que há uma falta de respeito pelo artista.
Hoje Macau EventosFRC | Sábado é dia de “Passeios com História” no Centro Kun Iam A Fundação Rui Cunha promove este sábado, a partir das 15h, mais uma edição da iniciativa “Passeios com História”, que mais não são do que visitas guiadas a locais de interesse histórico ou cultural de Macau com acompanhamento de algum especialista. Desta vez, cabe à escultora Cristina Leiria, autora do projecto do Centro Ecuménico de Kun Iam, organizar a visita Sábado é dia de mais uma edição da iniciativa “Passeios com História”, organizados pela Fundação Rui Cunha (FRC), e que promove visitas guiadas, em português e inglês, a locais de Macau com interesse histórico e cultural. Desta vez o passeio começa às 15h ao Centro Ecuménico Kun Iam, e é conduzido pela arquitecta e escultora portuguesa Cristina Leiria, autora do projecto original inaugurado a 21 de Março de 1999, recentemente renovado e reaberto a 11 de Dezembro de 2024. O Centro Ecuménico Kun Iam foi um projecto idealizado pela autora, com o apoio da UNESCO, “visando perpetuar o respeito mútuo e a amizade entre todos os povos e civilizações”, segundo a página oficial do IC. O complexo de arte pública mede 32 metros de altura no total, 20 dos quais referentes à estátua de bronze da deusa Kun Iam, que pesa 50 toneladas. “A base da estátua, em forma de Flor de Lótus, é constituída pela Sala de Contemplação onde se pode repousar, ouvir música e ler. Na decoração da cúpula os artistas de Macau, Kwok Woon e Joana Ling, pintaram, sobre papel de arroz, figuras, símbolos e textos relacionados com Lao Tse, Confúcio, Mêncio e Buda”, refere ainda a informação do IC. O andar inferior oferece uma Sala Polivalente, com capacidade para 50 pessoas, dedicada a concertos, conferências, visionamento de filmes e outras actividades multiculturais, como exposições de arte. Exposição activa Actualmente, no local, encontra-se a exposição individual de Cristina Leiria, “Momentos de Luz com Kun Iam”, a convite do IC para assinalar a conclusão dos trabalhos de restauro e de conversão num espaço de turismo cultural polivalente, 25 anos após a presença da autora na sua inauguração. A mostra, que se prolonga até ao próximo dia 13 de Março, exibe estátuas da deusa Kun Iam e outras obras associadas, em materiais como jade, cristal, madeira ou aço escovado, e é complementada por imagens e vídeos que retratam o processo de concepção e construção do Centro Ecuménico, dando a conhecer ao público os bastidores do seu planeamento e edificação. Nascida em Lisboa a 25 de Abril de 1946, Cristina Rocha Leiria viveu em Moçambique entre os dois e os 17 anos, altura em que regressou para estudar arquitectura na Escola Superior de Belas Artes, tendo mais tarde realizado um curso de especialização em Planeamento na University College, em Londres. Aprofundou estudos sobre Feng Shui, em Macau, China e Japão, e Eletromagnetismo em França, tendo exercido em locais tão distintos como Reino Unido, Moçambique, Rodésia, África do Sul, Portugal e Macau. A construção do Centro Ecuménico Kun Iam foi um desafio lançado pelo então Governador de Macau, Vasco Rocha Vieira (recentemente falecido), sendo este um espaço onde o silêncio tem lugar a existir, num sítio específico. A estátua dedicada à deusa Kun Iam tem 20 metros de altura e é feita de bronze, tendo bastante significado espiritual para grande parte dos orientais.
Hoje Macau EventosKun Iam | Centro Ecuménico renovado e inaugurado Foi inaugurado, esta quarta-feira, o novo Centro Ecuménico Kun Iam que se apresenta agora ao público como um “espaço de turismo cultural polivalente”, segundo o Instituto Cultural (IC). Para a inauguração, foi escolhida a exposição “Momentos de Luz com Kun Iam – Exposição Individual de Cristina Rocha Leiria”, arquitecta e escultora portuguesa. Assim, desde quarta-feira que é possível visitar “um espaço de turismo cultural polivalente, com espaços expositivos e lojas de venda de produtos culturais e criativos, contribuindo assim para o desenvolvimento do turismo cultural na comunidade e para a diversificação da oferta de experiências culturais do público”. Na mostra de Cristina Rocha Leiria, revelam-se “estátuas de Kun Iam e outras obras associadas, permitindo ao público apreciar a sua beleza transcendental da através da textura e dos contornos de materiais como o jade, o cristal, a madeira e o aço escovado, através da interacção entre a luz e as esculturas”. A exposição “é complementada com imagens e vídeos que retratam o processo de concepção e construção do Centro”. “Momentos de Luz com Kun Iam – Exposição Individual de Cristina Rocha Leiria” estará patente até ao dia 13 de Março de 2025, estando aberta ao público em geral, com entrada livre. O Centro Ecuménico Kun Iam está aberto diariamente das 10h às 18h.
Hoje Macau EventosCentro Kun Iam | Cristina Leiria dá palestra este sábado Decorre este sábado, às 15h, no auditório do Museu de Arte de Macau (MAM) a palestra “Silêncio e Bem-Estar – O Projecto do Centro Ecuménico de Macau”, proferida pela escultora portuguesa Cristina Rocha Leiria. Segundo um comunicado do Instituto Cultural (IC), a escultora “irá partilhar com o público uma explicação técnica sobre o processo de fundição da estátua de Kun Iam e apresentação sobre a concepção criativa que serviu de base para o desenho do Centro Ecuménico Kun Iam”. O plano do Centro Ecuménico Kun Iam teve início em 1997. A obra foi inaugurada em 21 de Março de 1999. Composta por uma grande estátua de bronze da Deusa Kun Iam e uma base em forma de flor de lótus, a escultura tem 32 metros de altura e logo após a sua inauguração, recebeu o apoio da UNESCO, que elogiou o Centro como um símbolo que promove o respeito e a compreensão mútua entre diferentes povos e civilizações. Cristina Rocha Leiria concebeu a estátua de Kun Iam e o Centro Ecuménico Kun Iam com base no conceito de “silêncio e bem-estar”, a fim de “proporcionar um espaço tranquilo e repousante para o público, num contexto urbano que se encontra em constante movimento”. O IC descreve ainda que o rosto da estátua de Kun Iam “foi meticulosamente esculpido”, procurando “transmitir uma mensagem de universalidade e de coexistência pacífica entre todos os povos”. Uma vez que o Centro Ecuménico Kun Iam celebra 25 anos de existência, a escultora foi convidada para proferir esta palestra, a fim de o público poder “recordar e redescobrir uma vez mais a concepção criativa que está por detrás desta obra inspirada na Deusa Kun Iam”, além de poderem “conhecer melhor a filosofia de uma vida pacífica e pura, que está implícita no conceito deste espaço”. A sessão decorre em inglês, contando com interpretação simultânea em cantonense. As inscrições podem ser feitas no sistema da Conta Única de Macau.
Hoje Macau EventosKun Iam | Inaugurada exposição sobre flores de lótus O Centro Ecuménico Kun Iam exibe até ao dia 30 de Junho deste ano uma exposição sobre flores de lótus, apresentando 19 peças ou conjuntos de trabalhos de caligrafia, pintura e arte digital que pertencem à colecção do Museu de Arte de Macau. A mostra, promovida e organizada pelo Instituto Cultural, permite, assim, conhecer de perto o trabalho de artistas como Jao Tsung-I, mestre em sinologia; Yuan Yunfu, director-geral da Direcção da Associação de Artistas da China; Situ Qi, um dos pintores mais experientes da Escola de Lingnan; e Lok Cheong, prestigiado artista de Macau. Segundo um comunicado, a exposição “reúne uma grande variedade de estilos criativos, permitindo ao público admirar diferentes formas de representar o lótus e as suas qualidades espirituais de paz e de pureza”. Na cultura chinesa tradicional, o lótus simboliza a bondade e encarna a verdade, a virtude e a beleza. Macau sempre foi conhecida como uma terra abençoada pelo lótus. Nesse sentido, esta mostra é especialmente organizada para “simbolizar a estabilidade, a paz e a prosperidade da RAEM, tal como uma flor de lótus plenamente aberta”. Além da exposição, haverá ainda espaço para a actividade familiar “Desenhar Flor de Lótus no Centro Ecuménico”.