Gente e Casamentos – Família, infância – Legendas sem Fotografias (10)  

Recordações de I.

Estou sempre rodeado de gente. Gosto disso. Sempre foi assim. Se não tens gente à volta perdes-te. É como o norte, sul, este, oeste. As pessoas à volta são o norte, sul, este, oeste. No Norte está o pai, no sul, a mãe, etc. Mas isso também é triste porque devemos orientar-nos sozinhos. E uma bússola não deve poder substituir o papel dos pais (risos) seria barato e fácil demais. Quanto custa uma bússola? Já perdi a noção do preço das coisas. Uma bússola devia valer tanto como uma casa. É o que eu acho. É barata demais para aquilo que faz.

Ter uma casa é bom, mas quando sais para onde é que vais? Por isso é que a bússola devia ser bem cara. Quando os meus pais morreram, eu não queria sair de casa. Tinha medo de bater a porta, começar a andar e, em poucos passos, perder-me no meio de uma floresta qualquer. Quando os pais morrem tudo fica mais ou menos floresta. O parque da cidade parece uma floresta da Amazónia e até as ruas de uma cidade parecem uma floresta. Senti que quem podia matar os lobos por mim já cá não estava. Agora tinha de ser eu a pegar na espingarda. E eu não sei disparar, nunca soube. É triste isso, não é? Devia ter aprendido a disparar.

Recordações de C.

Quando menina, sempre tive muitos amigos e amigas. É curioso, estou sempre rodeado de gente – é a melhor paisagem, não é? As pessoas. Em geral, gosto delas (risos). Em geral, gostamos sempre, não é? Depois no específico é que a coisa complica (risos). Viver especificamente com uma pessoa, por exemplo, não é nada fácil.

Talvez fosse mais fácil viver com uma árvore. Ela não se mexe, respira e ouve (risos). Respirar é bom. Uma árvore teria sido uma boa opção. Mas as meninas querem sempre casar a sério e casar com uma árvore não é casar a sério (risos). Mas elas respiram. É muito bom ter alguém a respirar ao lado de nós, não é?

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

3 Dez 2021

Malandro e Princesa

Família, infância – Legendas sem Fotografias (9)
Recordações de M.

Aqui estou eu, com a cruz ao peito, mas com ar malandro. Está aqui a minha vida toda. Sempre tive este sorriso de quem diz: estão a ver-me aqui, mas eu estou também noutro lado. É de alguém que se diverte com a vida.

Sempre percebi isso, sem humor e um sorriso a vida não se leva a bem como uma maleta pouco pesada. Tem que se ter pouco pesa na mala, isso é evidente. (pausa) E o riso também é importante para a sedução. Um sorriso é o mais importante. Sempre o usei desta maneira. Como se me estivessem a fotografar e eu tivesse que estar com ar sério, mas, ao mesmo tempo, quisesse mostrar que era um rebelde. Quando uma fotografia nos apanha assim, a sorrir, significa que não somos dominados por ela. A imagem não manda em mim. É isso que eu estou a dizer aqui nesta fotografia. Não estou aqui na vida só para ser um bom obediente. Não quero ficar bem na imagem, quero divertir-me também. Foram bons tempos estes, mas agora também são. Estou bem velho, mas continuo com aquele ar malandro. Acho que quando morrer e abrirem o caixão eu vou estar com este ar malandro. Podem fotografar à vontade que não me vão apanhar com ar sério.

Recordações de C.

Pareço uma princesa, não é? Como as imagens enganam. Não sou de todo uma princesa. Acho que sou um bocadinho mais abaixo (risos). Abaixo de princesa é o quê, duquesa? Nunca soube as hierarquias militares ou estas. Mas no mínimo gostava de estar logo abaixo de uma princesa, é disso que me lembro. Como se fosse uma possível substituta de princesas. Como no futebol, se um jogador jogo mal entra outro. Eu podia entrar, caso a princesa se magoasse ou ficasse feia (risos). Por mim, não me importava até de ser eu a lesionar a princesa (risos) desde que ninguém visse. Estou a brincar.

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

26 Nov 2021

Somos muito egoístas, não somos?

Família, infância – Legendas sem Fotografias (8)

Recordações de P.

Feira popular, P. e pais, 1950, casa dos espelhos. P. está de saia em frente a espelhos que a multiplicam.

Somos muitos e esta foto assusta-me. Somos pessoas a mais. Eu ali não sei o que me assustava mais, se ver que eu não estava sozinha, que tinha muitas irmãs, mas que eram falsas, que só existiam ali, no espelho…ou se me assustava ainda mais ver os vários pais e mães que tinha à minha volta, também reflectidos pelos espelhos. Agora penso a olhar para isto: será que conheci bem a minha mãe e o meu pai? Penso agora se o que eu via deles não era uma destas imagens falsas, de espelho. Onde estava o meu pai? Se calhar, a família é um pouco isto: estamos na feira popular, numa casa de espelhos, e vemos centenas de imagens dos nossos pais e nossas. Por vezes, para resistirmos a tudo, agarramo-nos a uma imagem da nossa mãe ou do nosso pai e ficamos com ela, como se fosse a única. Por mim, isso está muito bem. Vejo pouco diferença entre uma imagem e a coisa verdadeira. É como nesta fotografia, é difícil dizer exactamente onde está o meu pai. Ou onde está a minha mãe. Por isso, eu vou escolher a imagem que quiser. Aquela que me deixar mais confortável. Todos fazemos assim, quando somos crianças e depois quando crescemos. Não há mal nenhum nisso. Temos de escolher a imagem que nos acalma mais. Não a imagem que nos dá mais pesadelos. Todos temos de nos defender, não é?

 

Recordações de P.

P. e prima A. (morreu neste ano em que estamos). Aqui à frente dos pastéis de Belém, 1956.

Quantas pessoas morreram este ano? Muitas, não foi? Mas a minha prima morreu mais. Nós somos muito egoístas, não somos?

 

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

13 Nov 2021

Elegância e Imagens – Família, infância – Legendas sem Fotografias (7)

Recordações de P.
Fotógrafo de rua, P. e pais, 1955, Rossio. 

 

Estamos elegantes. O rossio era um sítio elegante. Para irmos a certos sítios precisávamos de estar elegantes, pois se não estivéssemos não nos deixavam entrar. Nunca mais me esqueci disso. Se estás feio, não entras. Se estás bonito, entras. Vejo uma certa crueldade nisto, mas não sei explicar porquê. Sempre percebi que a elegância era importante e que isso abria as portas mais complicadas. Uma espécie de abracadabra. Os feios e mal vestidos não sabiam pronunciar abracadabra. Não encontravam a palavra certa para pôr de lado um obstáculo. Eu sempre senti que tinha essa palavra certa. Não sei qual é. Claro que não é abracadabra. Até pode não ser nenhuma palavra, pode ser apenas um silêncio qualquer e um gesto certo. Mas sempre senti que tinha esse poder. E que outros não. E isto não me deixava orgulhosa, o que é estranho. Por vezes, ficava mesmo envergonhada de sentir que era elegante e que por isso entrava em sítios que outras pessoas não entravam. É estranho isto. Gostava de não ter aprendido a palavra abracadabra. Mas os meus pais ensinaram-me a fazer abracadabra desde cedo. Não sei se foi uma prenda deles, se foi um castigo qualquer. Mas não posso ser injusto, eles queriam defender-me.

Recordações de C.

Estive sempre rodeado de mulheres. Isso tem importância. Nas fotos quase que não se vêem outros meninos nem homens graúdos. As imagens só apanham o que está na realidade, não é? Não podem inventar. A minha cabeça pode inventar, até a minha memória pode inventar. Mas a fotografia não. Gostava de ter outras fotografias, mas não tenho. Posso inventar ou mentir, mas não tenho muito jeito para isso. Já passou. Estas imagens já passaram, já não existem. Prefiro assim.

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

22 Out 2021

Sombras, o joelho

Família, infância – Legendas sem Fotografias (6)

Recordações de P.
1. A Mãe, não faço ideia onde, 1911. As sombras são tão estranhas, não são? Parecem que são noutro espaço. Parece que têm vida própria. Lembro-me de um livro que li em que a sombra se chateava de estar sempre e a seguir o corpo e ia à sua vida. Ia para outro lado e fazia o que queria. A nossa sombra fazer coisas que nós não fazemos é bem estranho. Mas não é assim tão impossível. Esta fotografia lembra-me disso, não sei porquê. Espero que a minha sombra não se escape de mim quando eu morrer. Tenho medo disso, que uma pessoa morra e a sua sombra decida continuar por aqui. Somos nós, mas sem corpo. É uma sombra de nós. Mas é muito parecida connosco e isso assusta muito. Pelo menos a mim
3 – Provavelmente vizinhos , família C. , dona de uma fábrica de chocolates na Rua Artur Lamas. Lembro-me bem por isso, por causa dos chocolates. Quem era dono de uma fábrica de chocolates era dono do mundo, pelo menos. Era como ser dono de uma empresa de petróleo. Fazia aquilo que era mais importante para uma criança. Chocolate e petróleo, é curioso. Um combate mais ou menos desigual, mas eu nesta idade pensava que uma fábrica de chocolates era a coisa mais poderosa do mundo. Por causa de uma fábrica de chocolates podia começar uma guerra. Eu tinha a certeza disso. Por mim, começava mesmo uma guerra. Era mais que justo.
4 – P. e o pai, 1949 em Belém, fotógrafo de rua. Temos os dois chapéus. Eu gostava de estar ali em cima da perna dele. Parecia que podia cair a qualquer momento, mas era ele, o meu pai, que me impedia. Era como se ela, a cada segundo, me estivesse a salvar. Sentia-me seguro dessa maneira, mas ao mesmo tempo pensava que dependia dele, do meu pai, era estranho. Mas sim: talvez preferisse os momentos quando estava com os dois pés no chão. Ainda hoje prefiro. Não gosto de depender dos outros. Mas este joelho também já não existe.
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior
10 Out 2021

Qualquer coisa, felicidade – Família, infância – Legendas sem Fotografias (5)

Recordações de C.

1 – Porto, 1949

Esta é a tal fotografia polémica. Nesta data, a L. esteve no Sá da Bandeira com uma peça em que fazia de bailarina. Convidou um corpo de baile de profissionais. Á direita está a minha mulher, as duas da esquerda são as suas irmãs e que a que tem gola de pele é bailarina. Clara qualquer coisa.Desculpem. Não me lembro do nome. Somos todos qualquer coisa. Com o tempo, perdemos vários nomes e ficamos João, qualquer coisa, Clara, qualquer coisa. Eu sou o Carlos qualquer coisa para algumas pessoas, de certeza, que estão agora a ver fotografias onde por acaso apareço eu. E isso também me arrepia: pensar que, em algum lado, neste momento, estão a ver uma fotografia em que eu apareço. Que direito têm elas de me ver se eu não estou presente e nem sequer sabem quem eu sou? Não gostava de ser Carlos qualquer coisa para ninguém. Mas sei que sou. E ser Carlos qualquer coisa já nem é assim tão mau. Podia ser só qualquer coisa que estava para ali na fotografia. Ser Clara qualquer coisa ou Carlos qualquer coisa, não é mau, não é mesmo nada mau.

Recordações de P.

1 – Casino de Espinho, casamento da prima D., 1968

Eu com os meus pais. Nunca fui muito feliz. Não me lembro onde estamos… é estranho isso: não sei onde estamos, mas sei onde eu estava. Estava num sítio em que não era muito feliz. Gostaria muito de ter saído desse sítio. De ser fácil sair desse sítio. Seria bom que que bastasse levantar-me e começar a andar para sair desse sítio onde estava infeliz. Mas não é assim que as coisas acontecem. Fartei-me de andar e não saía do mesmo lugar. Deve haver um movimento qualquer que é capaz disso. Alguém que aprenda a voar, por exemplo, e saia por cima, sem ninguém ver. Mas eu só aprendi a andar. Dançar é só uma forma de andar aperfeiçoada. Acho que vou ficar neste sítio que não sei onde é, entre os meus pais, para sempre. É como se não tivesse saído desta fotografia. É estranho, não é?

 

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

24 Set 2021

A morte, o colo – Família, infância – Legendas sem Fotografias (4)

Recordações de C

1 – FUNCHAL, 1936

O menino vestido de branco sou eu, com o meu primo M, já falecido. Foi médico militar, esteve em Goa. Alguém me ofereceu um carrinho que era um boi e o calmeirão do meu primo foi-se lá meter, mas eu como sou muito forte… O carrinho servia para levar carga e cimento, mas eu levei o meu primo lá em cima. É estranho ver a fotografia de um menino que já morreu, morreu bem mais tarde e velho. Assim ficam os tempos todos baralhados na cabeça. Às vezes penso que as imagens deviam ser proibidas por causa disso. Enganam os olhos e bem pior: parece que querem enganar o tempo. Mas eu sei que não conseguem. Fingem que enganam o tempo, mas não conseguem. O meu primo foi médico militar e já morreu, como disse. Aqui ainda é um menino. Ainda não sabia nada. Agora também não sabe nada, de certeza. Não é depois de morto que se aprende. É estranho isto, morrer e estar aqui à frente ainda miúdo, numa imagem. Não gosto de ter medo, mas às vezes tenho mesmo medo das imagens. Como se elas fossem uma maldição. Quem for fotografado vai morrer. Qualquer coisa desse tipo. Será que hoje há alguém no mundo que não tinha sido fotografado? Não sei. Mas acho isso mesmo: quem não foi fotografado não vai morrer. É a minha crença, tenho direito a ter uma. As imagens das pessoas que morreram deviam desaparecer, evaporar-se das películas.

2 – Funchal, 1946
Claro que o mais fortalhaço sou eu, com os meus 3 irmãos. As minhas irmãs ainda estão vivas, o meu irmão já faleceu.
Gosto da composição. Estou lá em cima. E formamos um triângulo. Um triângulo com quatro irmãos. É estranho, mas é assim.

3 – Porto, exposição colonial do Porto 1934
Sou eu e com uma senhora que eu não sei quem é. Quem organizou esta exposição foi o Capitão G., e que fez o que era costume nessa altura: os jardins zoológicos humanos.
É tão estranho isto, estarmos no colo de alguém que não sabemos quem é. Não caímos ao chão, mas não sabemos quem nos salva. Não é estranho?

a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

18 Set 2021

Uma bala, as casas – Família, infância – Legendas sem Fotografias (3)    

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

Recordações de E.

1. Este era o sobrinho mais novo da minha mãe, filho de um irmão. Era muito bonito, gostava muito de música, tocava muito bem piano. Um dia estava a tocar junto a um amigo que tinha uma caçadeira na mão e o alvejou. Só lá estavam os dois. Não é em Lisboa, ele está com ar de férias, deve ser no Algueirão.
Sempre pensei que alguém que acerta com uma bala num pianista devia ser duas vezes preso, mas sei que as leis não são assim. As leis não ligam muito à arte, sempre pensei sobre isso. As leis não percebem nada de arte. Acertar com uma bala na mão de um pianista é muito grave, não achas?
 
 
Recordações de J.

1 – 1955 (2/3 anos) Mouchão , Parque Pernes (perto de Santarém). 
Cá estamos os dois irmãos. Iguaizinhos. Estamos sempre com o mesmo corte de cabelo e com o mesmo frio. Vêem? Era isso: estávamos os dois ao mesmo tempo no verão ou no inverno. E nunca no mesmo verão e inverno dos outros. Era diferente: quando os dois andávamos no espaço parecia para mim que se abria uma clareira à nossa frente. Como aquela coisa do mar que vai para os dois lados e deixa passar o povo prometido. Quando éramos crianças eu via as coisas assim. Andávamos os dois e o mar abria para passarmos. Depois, fui percebendo que não. E lá fui tentando não me afogar. Não é fácil.
 
2 – 1953/54 , Casa da Avó em Pernes. Um à frente e outro atrás. Mas era mais ou menos igual. Ninguém queria estar à frente. Quando a avó dizia para um de nós: dá um passo em frente, nós olhávamos sempre para o outro e para onde ele estava. Tínhamos de aparecer os dois na fotografia se não a  fotografia estava estragada. Uma imagem sem os dois era falsa ou estava estragada. É estranho pensar nisso agora.
 
3 – Eu e o meu irmão na nossa casa, Pernes, 1952. A casa é aquilo que quando recuamos nos dá abrigo. Gosto das fotografias que têm casas atrás de pessoas. Dá boa sorte. É bom ter para onde recuar, não é?
 
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

10 Set 2021

A blusa, ficar quieto – Família, infância – Legendas sem Fotografias (2)

Recordações de E.
 
1.
Isto é no rio da Várzea de Sintra, depois de um almoço Domingueiro. Estão os meus pais e eu a simular uma queda, por isso eles estão a rir. E estão a rir porque estão com medo. O riso é isso: eles estão com medo de que eu um dia caia a sério. Tinha 16 anos, foi a primeira vez que calcei sapatos de salto alto. A blusa fui eu que a fiz. Também a minha vida foi eu que a fiz. Com as mãos, com os pés, com a cabeça. Gostava que tivesse ficado tão bem terminada como aquela blusa, mas a vida depende de muitas outras pessoas, de muito material que não dominamos. É muito confusa. Às vezes apeteceu-me dizer: façam vocês a minha vida, eu já estou farta. E já não sei fazer isso. Estou velha demais para decidir qualquer coisa. É estranho, não é? A pessoa sentir que já não sabe fazer uma blusa é uma coisa, sentir que já não sabe decidir o mais importante na vida, isso é bem mais grave. Mas é bom ver estas imagens: sabia nesta altura fazer uma blusa. Isso é muito impressionante, não é?
 
2. – Deve ter sido em 1943, eu tinha para aí 4 anos, a minha mãe mandou fazer este vestido. As lojas do meu pai eram muito perto, ali na Baixa, e a minha mãe levou-me ao meu pai e ele gostou tanto de me ver que pegou em mim e me levou logo ao fotógrafo.
Começamos desde muito novas a querer ficar bem na fotografia. Eu não sabia que esta imagem ia resistir até hoje. Eu, nessa idade, de 4 anos, sabia muito pouco. Mas sabia que naquele momento tinha de ficar bem quieta. E isso era muito sério. Estar muito quieta quando se tem quatro anos não é para qualquer um. Estar sempre a mexer-se de um lado para o outro é bem mais fácil. Em frente à máquina ou mesmo na vida. Viver sem se mexer muito do lugar não é assim tão fácil. Para mim não foi.
 
 
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

3 Set 2021

O carro, o espaço – Família, infância – Legendas sem Fotografias (1)

Ilustração de Ana Jacinto Nunes
 

Recordações de A
1.
Pai e amigos em Paris, início dos nos 60. Ninguém que não conheça as pessoas, sabe como diferenciar os amigos dos pais. Se têm a mesma idade, a mesma forma de andar, como saber quem é quem? Vocês não sabem. Mas eu sei, o meu dedo sabe: este é o meu pai. Esta é a minha mãe. O meu dedo sabe, o meu corpo sabe.
 
2.
Fátima, primeira viagem grande da A., anos 50, possivelmente 1957. Um carro em 1957 não é um carro como hoje, era uma aparição, uma presença importante. E quando eu era pequena, o carro era uma espécie de país para onde entrava e me deixava ir. Um país que tinha uma janela em que a paisagem mudava constantemente. O carro era um país mais alto do que eu. E tinha motor. Era um país estranho, mas eu estava sempre a adormecer dentro do carro. Não tinha medo.
 
Recordações de E.
 
1.
Eu tinha para aí 4 anos, esses senhores eram alentejanos de Portalegre e eram amigos dos meus pais. A foto foi tirada nos Anjos. Eu ia para lá porque gostava muito daquele quintal. Gostava mais do quintal do que das pessoas no geral. Qualquer uma. Sempre gostei do espaço. Se nos deixam correr é porque são nossos amigos. E o espaço era isso: era o meu amigo.
 
2.
Foi um passeio que nós demos, penso que à volta de Sintra. O meu pai fotografou-nos e a minha mãe está ao centro e eu ajoelhada e dos lados os meus irmãos. Que curioso isto, porque nos ajoelhamos nós? Há tantas razões! Podemos falar de fé ou de pedir perdão, mas às vezes é mais importante do que isso: é para não taparmos ninguém na imagem. É para salvar a imagem de outra pessoa. E isso é estranho para mim: ajoelhar-me para salvar a imagem de outra pessoa. Ou para melhorar a imagem, para a fazer algo mais estético, mais bonitinho. Que estranho, uma pessoa ajoelhar-se por questões estéticas. É estranho, não é?
 
a partir da Natureza Fantasma de Marco Martins e Companhia Maior

27 Ago 2021

Filmes e fotos de infância, a memória – Luz e fogo (4)

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

1.
Cada pessoa está sentada diante do tempo, em dissecação continuada ou saltada. Que fez e viu o meu corpo enquanto era novo e o que desse percurso ficou no exterior?
As imagens recuperam a sua origem, essa câmara escura que roubava luz e figuras da realidade e no início as virava de cabeça para baixo. E sim, a memória é também um acto manual: há nela imagens de cabeça para baixo, outros tortas ou deformadas, imagens que perderam a parte de cima ou os pés, imagens que perdem a cabeça, literalmente ou de modo metafórico.
 
2.
Uma imagem que perdeu a cabeça não é necessariamente uma fotografia de fotógrafo desastrado que faz retratos do pescoço para baixo como se o rosto fosse um segredo. Uma imagem que perde a cabeça pode ser também uma imagem alucinada, uma imagem com luz vinda de demasiadas direcções – a alucinação é isso: uma luz distinta e imprevista.
 
3.
Cegueira como forma de cortar a recepção da luz exterior e assumir que, a partir dali todas as imagens são memória ou invenção, mas internas e privadas.
É sempre um trabalho de cegueira, a memória; só de olhos vendados quem vê pode recordar. Trata-se de uma suspensão do presente e da paisagem. Quero recordar, não quero ver. Quero voltar a ver o que já vi. Somos como alucinados diante de fotos antigas: este sou, este o meu pai, esta a minha mãe.
 
4.
Diante de fotografias, comovo-me com esta projecção de uma luz que ainda existe embora a sua origem já tenha desaparecido. O corpo desapareceu, mas ficou uma certa forma bela e antiga de interromper o escuro.
5.
Pergunta: O que são fotografias de infância? 
Resposta: uma certa forma bela e antiga de interromper o escuro.
 

13 Ago 2021

Máquina e identidade – Luz e fogo (3)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins
 
1.
A máquina apoderou-se da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia.
A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia.
Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. 
O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros.
É evidente que te podes comover até com a arte abstracta, ponto linha e plano de Kandinsky, o senhor estético que chora uma lágrima qualquer por causa de uma qualquer linha azul. Mas tais sujeitos delicados são raros. Mesmo a pintura figurativa ou a descrição detalhada de um familiar, por via da escrita, jamais chegam a esse punctum em forma de poço ou queda que existe na fotografia de um nosso familiar que já morreu ou na nossa própria fotografia anos atrás – esta nossa fotografia que retrata, diga-se, um familiar nosso que já morreu. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.
 
2.
A nossa fotografia, de há trinta anos é também, então, a fotografia de um familiar que morreu – um familiar bem próximo, o mais próximo que existe, aliás. Mas como designar este familiar que está na fotografia e que sou eu, afinal, anos atrás? Não é o meu irmão mais velho ou mais novo, não é o meu pai nem o meu filho, sou eu, mas claro que não sou eu. Eu já não sou o que fui – e as formas verbais da linguagem ensinam o possível ao portador afectivo dessa linguagem – e tenho aquilo que fui nas minhas mãos quando pego numa fotografia. E sim, é urgente encontrar um nome para este estranho familiar que a fotografia coloca à minha frente. É aquilo que eu já não sou, é o meu não, o meu negativo, o meu antes.
 

30 Jul 2021

Memória e Fotografia – Luz e fogo (2)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

4.
As fotografias são memória em película.
Quando pegas na tua memória com as mãos podes queimar-te.
As fotografias são feitas em parte de fogo, isso é evidente.
Cuidado com as mãos.

5.
O século vinte ficou técnico dos pés à cabeça e o que, em muitos séculos, era memória em desenho e escrita bateu de frente com essa revolução. Há muito que as mãos produziam artefactos para o humano não esquecer a família ou a cidade, mas a invenção da fotografia e do cinema colocaram a tecnologia ao serviço de uma nova memória, mais meticulosa e exacta e mais democrática. Não precisas de saber desenhar ou escrever, accionar um botão basta.
A matéria da memória deixou de ser feita com as mãos hábeis, deixou de ser arte de artesão. Até ao final do século XIX, as mãos faziam objectos e memória – quando escreviam e desenhavam; mas agora parece bastar um dedo fazer o gesto mais simples e uma pequena pressão.
As mãos tornaram-se secundárias e acima de tudo a aptidão artística foi colocada no armazém ou no museu. Já não precisas de ser escritor ou pintor para fixar um rosto ou uma montanha que não queres esquecer.
Carregar num botão não tem a mesma dificuldade, apesar de tudo, do detalhe que o quadro exige das mãos e de um pincel.
Podes, se for caso disso, accionar a máquina fotográfica com o cabo do pincel de um pintor antigo – mas tal é uma performance, não uma necessidade.
Só um completo desastrado de dedos não consegue, no século XXI, tirar uma fotografia ao seu pai ou ao seu filho. Se a fotografia é boa, de luz e intensidade, isso é outro assunto. A família, a memória e a tecnologia, eis três palavras que se aproximaram muitos – talvez demasiado – nos últimos anos.

23 Jul 2021

Memória e Infância – Luz e fogo (1)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

 

1.

A memória é uma forma de o cérebro colocar imagens na cabeça que não existem cá fora – e perder a memória é um incêndio algures no nosso sótão mais privado – e as imagens, já sabemos, são bem inflamáveis. As palavras ardem a uma temperatura, as imagens a uma outra – talvez mais baixa, talvez mais alta, não sabemos. Estudemos, pois, quem perde a memória; o que perde primeiro: palavras ou imagens?
Sabemos que as canções ficam quase sempre para último, como a definitiva resistência – mas as canções não são palavras, são palavras com certo ritmo; são palavras elevadas a um qualquer estado aéreo que as faz aproximar mais do céu que da terra. As canções ficam na nossa memória e não sairão tão cedo, isso é evidente e é apenas um exemplo.
A música é talvez o que fica, mesmo em bailarinos: como num incêndio onde tudo o que é material é destruído, mas das cinzas vem um som, uma canção.
É isso perder a memória, das cinzas vem um som. E muitas vezes esse som é uma canção de infância.
E assim definimos rapidamente aqui uma regra: são as canções de infância que melhor resistem aos incêndios.
O fogo não destrói o som. E isso tem de ser repetido: o fogo não destrói o som.

2.
A infância é evidentemente um sítio onde o nosso corpo estava como quem está no estrangeiro. Pode ser um feliz país estrangeiro ou um infeliz país estrangeiro, mas sim, nenhuma criança conhece as palavras dessa língua – e um adulto ainda menos.
Talvez a velhice seja o estrangeiro mais agreste e menos compreendido a que o corpo tem acesso. De qualquer maneira, mas para alguns a infância não foi essa maravilha que os contos de fadas contam.

3.
Perder a memória como quem está diante do último incêndio no sótão dos pais.
E diga-se rapidamente: a morte dos pais é isso: o incêndio principal. Com a morte dos pais, vai esse armazém afectivo para o céu ou para a terra ou directamente para um local, no corpo do filho, onde a vida choca de frente com os seus limites.

16 Jul 2021

Jacaré e bomba

Os haikus modernos vigiam a guerra como um avião moderno, quase silencioso, que só leva olhos e atenção; nenhum explosivo.

1.
ansioso
o jacaré
(permanece) imóvel

2.
delirante
o balão
não volta

3.
um bisonte parado
vê passar a bicicleta
– não entende a roda

4.
os sinos não distinguem
um morto de outro
– as famílias sim

5.
cautela, não te aproximes
um homem está infectado
e é teu amigo

6.
galo despedido
os meninos acordam sem ele
– música electrónica

7.
dinamite ocupa o ar da sala
– o perfume desapareceu
do vestido enamorado

8.
a primeira investida da viúva
é contra o sol
– morte num dia lindo

9.
escreveu poesia
– agora é responsável
por uma explosão

10.
engenheiro assina o papel
mas o vento leva
documento e lixo

11.
as cadeiras parecem vazias
e cheias
– cinema bombardeado

12.
bombardeiro parado
no porta-aviões
– uma cana de pesca

2 Jul 2021

Torre e Caminhos

Entender um pormenor é começar a entender tudo. Mas é preciso continuar, claro.

1.
o míssil inteligente
não entende
a letra A

2.
a gargalhada impede a linguagem
– os dois amigos
estão felizes

3.
– na torre
vigia distraído
observa o insecto

4.
sistema binário
amigo ou inimigo
– humano demasiado ansioso

5.
na igreja
os meninos beliscam
o devoto distraído

6.
som distorce mensagem
– recebida com sorriso
declaração de ódio

7.
não encontra as músicas
a infância passou
– desmonta o rádio velho

8.
não havia aqui uma fogueira?
o computador
no centro da sala

9.
a aldeia da infância cresceu
– procuro mas não encontro
os meus pais vivos

10.
os maxilares ouvem-se
ensonados
– dorme mas pensa nela

11
só eles sabem o caminho
– os cegos, os loucos
os mudos

25 Jun 2021

Tempestade, céu e avião

1.
tempestade
– os ventos procuram 
o norte
 
2.
descarrilamento 
– a vida fica 
onde a deixou o desastre
 
3.
de noite 
na alfândega 
dançam canções livres
 
4.
os degraus 
só têm um sentido
– ela está lá em cima
 
5.
com o anel rapa
do sapato
o excremento da vaca
 
6.
homem corajoso 
imobilizado 
– carro sem gasolina
 
 
 
7.
o homem imoral 
ajuda o velho a levantar-se
– vida confusa
 
8.
no museu 
o quadro entedia-se 
– demasiados visitantes
 
9.
mão do torto 
coração
– mas direito o traço
 
10.
na montanha alta
– é uma altura efémera
tens de descer
 
11.
o atleta  
não entende 
a meta…
 
12.
na meta 
ganha balanço
– parte quando devia dormir…
 
13.
na meta 
começa
o dia seguinte
 
14.
luzes fechadas
mas a casa não dorme
– ansiedade
 

18 Jun 2021

Madeira podre, pó, fotografia a cores

De que forma vemos os indícios? Como se faz zoom com a linguagem e sem tecnologia? Como é que de uma peça pequena se vai para um grande plano? A linguagem como forma de observar. E também: o acto de ver como uma forma de pensar. 

Estás a pensar ou a ver? Pergunta absurda, pergunta inaceitável.
 
1.
no estaleiro 
madeira podre no canto
– já viajou muito
 
2.
os hospedeiros adormecem
ao lado do visitante
– vinho
 
3.
coliseu de Roma
– o ciclista passa 
com pressa
 
4.
não há caminho 
quando o homem 
está com sono
 
5.
também sacode o pó
do objecto
menos valioso
 
6.
a alta torre Eiffel atingida
por uma gota 
– início da chuva tímida
 
7.
um banquete 
talheres de prata
– falta a alegria
 
8.
três irmãs 
uma não casou
– a televisão ligada
 
9.
traços do jogo no chão
o avião sobrevoa
– os meninos fugiram
 
10.
sabe para onde ir 
mas diminui o passo
– piso escorregadio
 
11.
alimento apodrece 
ao lado 
de uma fotografia a cores

11 Jun 2021

Discurso, Ferro, Oração

O olhar passa pelas coisas como se estas falassem ou pelo menos a sua mudez fosse desesperada. Os objectos não são assim tão passivos.
 
1.
discurso solene
interrompido 
por uma folha branca
 
2.
ecrã saltitante 
à frente do corpo morto
– ataque cardíaco
 
3.
criança resgatada 
fala língua ininteligível
– o horror amputa a sintaxe
 
4.
todos os rostos 
iguais 
– a nuca 
 
5.
o cego toca 
com a mão 
no tecto
 
6.
câmara de filmar 
desligada 
– dança o ministro
 
7.
bombeiros chegam tarde 
nenhum fogo
– uma carta
 
8.
moldura sem quadro
quando ela sai
– espelho solitário
 
9
o rei está sentado 
e fala
– a cadeira está trémula
 
10.
pai morto, mãe desaparecida
menina de seis anos
canta na rua
 
11.
o ferreiro é forte
o metal dobra-se
– o dia não
 
12.
– candeeiros iluminam 
o caminho está livre
não queres ir por aí
 
13.
ajoelha-se para rezar 
corta-se
– vidro
 
14.
o barco no mar 
o medo na terra 
o trovão no ar

5 Jun 2021

Sul, Norte, Braço, Lixo

1.

chegaste ao Sul

– não te esqueças

do Norte

2.

o mestre tem só

uma flecha

– uma vontade

3.

a altura

das botas

não te pertence

4.

– as minhas mãos

no escuro

encontrei-as

5.

– quem é?

a dúvida

entrou no quarto

6.

o submarino assusta os peixes

mas os arbustos estão

felizes

7.

a bomba encolheu

os ombros

– não se pode culpar quem caiu

8.

o soldado pesa menos

que o seu peso

– transporte do ferido

9.

animais perdidos

a solução vem de cima

– helicópteros salvam

10.

números no papel

muitos zeros

– despensa vazia

11.

no meio do lixo

procura

compaixão

12.

o relógio velho

faz companhia

ao solitário

13.

o imperador adormeceu

à frente

dos meninos

14.

um segundo depois da explosão

– um braço

procura um homem

28 Mai 2021

Aviões e bolhas de sabão – Mulheres de Itália (26)

Jeanette está a fazer um teste de QI que saiu numa revista.

Jada está a pensar que Heidi tem um nariz torto.

Jeanne está a aprender a apertar os atacadores e o avô está a gritar.

Jael abre a boca para mostrar a matéria frágil dos dentes.

Jaquelina diz que só há uma divindade que é o tempo, o espaço não.

Jenara está a limpar uma lousa do túmulo do pai.

Jaione está a apertar um parafuso numa mesa de mármore.

Jasone assobia uma música pop para não ouvir a namorada.

Jenifer desabotoa a bata, senta-se, pousa a radiografia na mesa, e começa a chorar.

Jaira limpa obsessivamente os sapatos ao tapete como se o tapete fosse um medicamento estranho que transforma sapatos doentes em sapatos saudáveis.

Javiera bebe água quente porque leu que faz bem ao estômago e à cabeça.

Jeniffer está a pilotar um pequeno barco e as mãos tremem mais do que o mar exige

Jakinda faz bolhas de sabão com uma palhinha, mas a mãe, que é a única pessoa que importa, está a olhar para outro lado.

Jawila pega no martelo para corrigir uma pauta musical e depois ri-se muito e diz à sua amiga Ilaria que corrigir uma pauta musical com um martelo é um gesto à Beethoven contemporâneo e ela é no fundo uma Beethoveniana do século XXI.

Jenna conta o número de furacões que existiram na América do Sul na última década andando no tempo como quem anda num mapa.

Jala põe doce no pão enquanto não está ninguém em casa.

Jayde está diante de uma máquina de venda automática de comida e bebida e, como está com fome, aquilo parece-lhe a montra mais bem feita da cidade.

Jennifer arrota involuntariamente e fico muito envergonhada.

Jenny está a aprender a escrever rápido ao computador, mas o seu dedo mindinho parece resistir aos ensinamentos e estar quase sempre de fora, como se estivesse a vigiar o resto dos dedos.

Joann está a ver um livro de aviões para escolher em qual preferia ter um desastre. São todos bonitos, diz.

21 Mai 2021

Guerra, Cidades e Campo

As três linhas de haiku transformam-se num zoom via linguagem. A linguagem aproxima-se da realidade e vê detalhes. Mas, sim, há também o grande plano.
 
 
1.
uma granada 
em pleno voo
perdeu o sentido
 
2.
a cavalaria não usa 
cavalos 
– velocidade e elegância
 
3.
em paris
um pássaro 
é novidade
 
4.
buzinas e tráfego 
– onde estão os limões 
e o tempo?
 
5.
tecido macio 
cores perfeitas
– ninguém para ocupar o vestido
 
6.
o século XIX 
está na sala
– biombo do bisavô
 
7.
os meninos correm 
a lua ao fundo 
– lições de perspectiva
 
8.
o som do sino 
assinala 
a moda atrasada
 
9.
janelas fechadas 
silêncio
– mosteiro cheio 
 
10.
ecrã desligado 
continuas a fixá-lo
– espelho negro
 
11.
o dinheiro 
causa atrito 
– mão de escultor
 
12.
rua vazia
o vagabundo 
entra 

14 Mai 2021

Mundo e aldeia

Como ler um haiku contemporâneo? 

Os olhos modernos ao ritmo da lentidão antiga.
A cada haiku o leitor suspende o olhar sobre a folha, levanta-se e dá alguns passos em redor da sala ou mesmo da própria casa.
Depois regressa. E lê um outro haiku. E procede, a seguir, da mesma maneira: suspensão da leitura e breve caminhada.
 
 
1.
até a eternidade 
precisa de atenção
– pó em cima da mesa 
 
2.
a base dez no cálculo
não faz tropeçar
– centopeias
 
3.
os pirilampos 
à luz do dia
são luz do dia
 
4.
enquanto cai 
a folha aprende a nadar
– árvore junto ao rio
 
5.
uma folha cai de um prédio alto
não é uma folha
– o outono deprime
 
6.
mulher diante de homem
difícil código secreto
– as pálpebras dela
 
7.
um relâmpago 
ilumina a luz elétrica
– duelo estranho
 
8.
o mármore 
acalma a cólera
– o grito parece sussurro
 
9.
bafio 
e aranha no canto
– o coração está só
 
10.
escreveu na madeira 
o nome dele
– o alfabeto treme
 
11.
no escuro
perde-se 
quem vê
 
12.
leio o livro 
“a história do mundo”
– da aldeia não saio

7 Mai 2021

Os cegos e o globo

As tradições literárias do Oriente não são apenas tradições de escrita, são tradições de velocidade e lentidão e são, muitas vezes, consequência de uma forma tradicional e específica de olhar.

A escrita não está só no mundo. Nem inicia o mundo. Olhas e depois escreves, andas e depois escreves, sentas-te e depois escreves.

A forma como olhas, andas e te sentas determina, claro, a forma como escreves. A forma como olhas, andas ou te sentas, em parte vem da forma como olhavam, se sentavam e andavam os teus avós.
Por isso mesmo, cada vez me interessa mais o haiku como forma de abrir uma fenda rápida que rapidamente se fecha.

1.
globo
mapa e mão
– a mesma escala

2.
a mesa
onde cabe o mundo
é pequena

3
num piano Tchaikovsky
no outro, calado,
um afinador

4
– vendem-se armas
publicidade
interrompe a batalha

5
a mãe sobreviveu
– curada
começa a curar

6
às de espadas
a mesa treme
o jogo acaba

7
o tripulante do avião
desmaia ao pisar
o chão

8
em terra esqueceram
os dados que dão sorte
– tempestade

9.
a guerra
aprendeu sons
com o relâmpago

10.
um soco
não acerta
na multidão

11.
o louco ao ar livre
desenha
a tempestade

12.
os cegos
falam por cima
da muralha

———–

30 Abr 2021