Mundo e aldeia

Como ler um haiku contemporâneo? 

Os olhos modernos ao ritmo da lentidão antiga.
A cada haiku o leitor suspende o olhar sobre a folha, levanta-se e dá alguns passos em redor da sala ou mesmo da própria casa.
Depois regressa. E lê um outro haiku. E procede, a seguir, da mesma maneira: suspensão da leitura e breve caminhada.
 
 
1.
até a eternidade 
precisa de atenção
– pó em cima da mesa 
 
2.
a base dez no cálculo
não faz tropeçar
– centopeias
 
3.
os pirilampos 
à luz do dia
são luz do dia
 
4.
enquanto cai 
a folha aprende a nadar
– árvore junto ao rio
 
5.
uma folha cai de um prédio alto
não é uma folha
– o outono deprime
 
6.
mulher diante de homem
difícil código secreto
– as pálpebras dela
 
7.
um relâmpago 
ilumina a luz elétrica
– duelo estranho
 
8.
o mármore 
acalma a cólera
– o grito parece sussurro
 
9.
bafio 
e aranha no canto
– o coração está só
 
10.
escreveu na madeira 
o nome dele
– o alfabeto treme
 
11.
no escuro
perde-se 
quem vê
 
12.
leio o livro 
“a história do mundo”
– da aldeia não saio

7 Mai 2021

Os cegos e o globo

As tradições literárias do Oriente não são apenas tradições de escrita, são tradições de velocidade e lentidão e são, muitas vezes, consequência de uma forma tradicional e específica de olhar.

A escrita não está só no mundo. Nem inicia o mundo. Olhas e depois escreves, andas e depois escreves, sentas-te e depois escreves.

A forma como olhas, andas e te sentas determina, claro, a forma como escreves. A forma como olhas, andas ou te sentas, em parte vem da forma como olhavam, se sentavam e andavam os teus avós.
Por isso mesmo, cada vez me interessa mais o haiku como forma de abrir uma fenda rápida que rapidamente se fecha.

1.
globo
mapa e mão
– a mesma escala

2.
a mesa
onde cabe o mundo
é pequena

3
num piano Tchaikovsky
no outro, calado,
um afinador

4
– vendem-se armas
publicidade
interrompe a batalha

5
a mãe sobreviveu
– curada
começa a curar

6
às de espadas
a mesa treme
o jogo acaba

7
o tripulante do avião
desmaia ao pisar
o chão

8
em terra esqueceram
os dados que dão sorte
– tempestade

9.
a guerra
aprendeu sons
com o relâmpago

10.
um soco
não acerta
na multidão

11.
o louco ao ar livre
desenha
a tempestade

12.
os cegos
falam por cima
da muralha

———–

30 Abr 2021

Mulheres de Itália 15

Mulheres de Itália 15

Daria está junto à janela e vê quatro homens que saem com um caixão às costas e debruça-se para a frente e pergunta lá para baixo: quem morreu? 
Deanna tem os pés frios e mesmo com os binóculos apontados para a casa do vizinho não consegue esquecer o frio que vem dos pés.
Debora está a comer um gelado de morango.
Degna vê um documentário sobre os Gulag com a namorada, Florina, há imagens terríveis e ela fecha os olhos, mas Florina está a mexer-lhe nas cuecas e ela não sabe se está a gostar ou se está a ficar irritada por Florina não prestar atenção nenhuma ao documentário.
Delfina controla o pânico e com a vassoura tenta matar o rato.
Delia está enjoada com o champagne que bebeu na festa e chama o seu amigo Abbondio e pergunta-lhe se ele a pode acompanhar à casa de banho. 
Delinda está a perguntar se Fabrizio gosta dela, mas Fabrizio gosta é da Lelia.
Delizia dá imensos erros de ortografia e quando chega a casa o pai olha para o teste dela de português como se ela acabasse de cometer o pior dos pecados.
Demetria vê-se reflectida no vidro e imagina o vidro ocupado por pessoas que a admiram muito e que lhe batem palmas, mas o vidro está sujo e Demetria tem preguiça de o limpar.
Deodata tem debaixo da camisa dois pequenos enchumaços, mas está tudo tão bem feito que na festa os rapazes que não a conhecem olham muito para ela.
Desdemona está no intervalo de almoço, a comer na mesa em frente a um colega de quem não sabe o nome.
Desiderata sai da sala discretamente para deixar Emilia a sós com o professor porque sabe que há coisas que não se podem fazer com uma amiga presente.
Devota sopra num clarinete e sai um som tão agudo e estridente que até a mãe tapa os ouvidos com as mãos e esboça um esgar de repulsa.
Diamante diz o seu nome alto para todos ouvirem e já perdeu a vergonha de ser gorda e ter um nome tão bonito.
 

19 Dez 2020

Mulheres de Itália (1) No ano de 2020

1
Abbondanza desce as escadas do prédio a correr.
Está com pressa.
Quer comprar pão e corre como se fosse perseguida.
Há outros inimigos neste século: as superfícies das coisas tornaram-se o inimigo.
O ar também parece não simpatizar contigo.
Abbondanza não corria assim desde os dez anos quando jurou vencer uma corrida a Pietro no recreio da escola primária.
Acilia limpa meticulosamente os vidros da janela do quarto do filho.
Ada ri-se de uma anedota do tempo da União Soviética contada por Maoro.
Adalberta tosse uma vez e assusta-se como se tivesse tossido cem vezes.
Foi uma vez diz Carlo, o marido.
E levanta o dedo indicador da mão direita. Uma vez.
Adalgisa lê o La Reppublica e cospe numa das páginas.
Addolorata tenta perceber na internet se é bom dar pão aos cães porque a mãe diz que não.
Adelaide diz que a beleza é metade para cada um: metade para quem a tem, metade para quem a recebe.
Adelasia grita à janela o nome de Pietro, o namorado que está no outro lado de Itália e não atende o telemóvel há três dias.
Ou está morto ou já não me ama, pensa Adelasia – e depois diz que uma ou outra coisa são quase iguais. Mas logo a seguir arrepende-se do que disse.
Adele aprende a mexer numa máquina de costura e as suas mãos que durante anos masturbaram homens velhos por pouco dinheiro parecem estar tensas, mais do que o resto do corpo.
Adelina parece um espectro, cada vez mais magra. O seu marido Antonio está cada vez mais bruto. Esfrega-lhe violentamente comida na boca fechada. Come, cabra – diz.
Adina dança para o seu namorado que está distraído a ver as notícias. Tenta perceber onde está o seu peso e onde está a sua leveza, como se a leveza fosse uma unidade como o peso é.
Mas a leveza não se pode pesar nem medir e por isso talvez não exista, pensa Adina.
Adria fala ao telefone longamente com Catarina. Diz que já destruiu a martelo uma máquina obsoleta que tinha guardado na cave. Fez-me bem, diz.

11 Set 2020

Ainda o discurso do homem que está muito ligado a casa

1.

Por vezes tenho isto nas costas, este incómodo, como se fosse a cauda de um animal.
Um animal doméstico, pois claro, pois a minha cauda é, afinal, um cordão umbilical e essa pele que deveria ter sido destruída logo à nascença e enterrada em solo bem fundo e inacessível, afinal continua aqui nas costas, e vai andando pela cidade e termina na fachada principal da casa.
Estranho, como se fosse um tubo que fizesse parte de uma canalização de água, gás, algo desse tipo.

2.

E, de facto, trata-se de um cano, um cano humano, este cordão umbilical, e é ali que António vai buscar a sua energia; como se fosse um posto de gasolina mais ou menos paternal.
E podemos descrever a paisagem do seguinte modo: o cordão umbilical fortíssimo, espesso, grosso, e bem difícil de mastigar, vindo da cauda de António, entra pela parede da fachada principal para dentro de casa e vai directo ao centro, ao poço que está na sala, e ali vai ele, para baixo, como se fosse uma mera mangueira, um cano bem orientado.
É do fundo desse poço que António retira a sua energia.

3.

E claro que existem amigos e inimigos e por vezes cães ou lobos ou hienas, animais domésticos ou selvagens, que têm em comum estômago e impaciência e subitamente zás, comem uma parte do meu caminho de regresso, comem uma parte de um itinerário, como se cortassem com os dentes um mapa físico, um mapa material. E se estão com fome que comam, ninguém deve exigir mais dos animais. Eles já nos dão tanto!

E foi isso que aconteceu. De repente, a minha cauda estranha, o meu cordão umbilical, foi interrompido algures lá atrás, a meio do caminho e dessa forma a circulação de energia foi também suspensa. Estou fraco porque animais vários arrancaram e mastigaram o meu caminho de volta.
Estou, pois, perdido. Não sei voltar a casa.

4 Set 2020

Circunferência e Medo

1.

Estamos no mundo, diz Anteu, para baixar a temperatura que apedreja as coisas com a sua irritação.

Temperatura desejamos entre corpos que estão demasiado sozinhos e poderiam, quando juntos, ser – ou tornarem-se pelo menos por minutos – geógrafos instantâneos que avançam a quatro pés e se orientam pelo dia como se em itinerário na casa comum de infância que nunca tiveram, claro.

Uma alegria que ensine a dispersão como se um corpo pudesse ser em mente o que é a forma de explosão de um bando de pássaros assustados em que cada um se atira para um canto diferente do nada que existe acima do solo deixando 360 linhas que saem do centro do medo para um ponto da linha da circunferência onde se sentem seguros.

2.

Um medo que provoque disciplina e linha rectas e não caos e fugas descontrolados na cabeça, pés e trajecto.

3.

Há uma linha invisível no espaço que permite que nele pássaros cansados e acossados possam pôr patas e sossego e ficar ali como se em vez de animais voadores fossem seres com peso capazes de levitar como uma curiosa neblina com fome. Essa neblina faz sons, quem diria; mas dela não vem apenas a melodia e a pequena leveza; há dejectos, excelência, tudo o que canta tem também no mundo outras obrigações impostas pela vida – bem menos belas, senhor, bem menos belas.

4.

Mas se uníssemos a posição final em que o medo colocou cada membro da matilha medrosa, traçaríamos uma absolutamente perfeita circunferência com o compasso óptico, esse modo velho e orgânico de encontrar no mundo as velhas formas de Platão: quadrado, quadrado, triângulo, por vezes; circunferência sempre.

5.

A circunferência, não há forma que mais satisfaça a gula do olho.

————

28 Ago 2020

O caminho para casa

Um pedaço de pele que de perto provoca uma certa repulsa, um tremor em quem está diante de algo que deveria ser íntimo e está ali, afinal, bem explícito.

Um cordão umbilical que sai da casa de António e vai até às suas costas; um cordão umbilical mesmo, real, que existe, tem carne, e pode ser esticado até ao infinito, capacidades elásticas invulgares; é isto, de resto, a família – um modo bem material de não te esqueceres do caminho para casa.

Um pouco como nos mitos dos meninos que se perdem e deixam vestígios atrás de si para reconhecerem o seguro caminho para casa. E aqui também há o risco que existe quando se deixam alimentos a definir um itinerário de regresso. O risco é sempre o mesmo. Aqui também com o enorme fio de cordão umbilical que pode ter a dimensão, o comprimento, de centenas, milhares de metros, milhares de quilómetros, o risco é este, é simples: podem vir animais com fome devorar o caminho de regresso. E quando os animais comem o caminho de regresso, as crianças ficam perdidas na floresta ou na grande metrópole, dentro de um elevador, por exemplo, e podem não saber mais como regressar às suas origens. E, de facto, como toda a gente sabe, há uma energia humana, absolutamente alta e irregular, que só pode ser transportada desde a fonte inicial.

Há como que um buraco no centro da sala da casa antiga, um poço dentro de casa, de onde se retira uma água que dá força e é aí que António vai buscar a sua energia. É aí que está ligado o seu cordão umbilical, um cordão que sai das suas costas, como uma cauda.

24 Ago 2020

O bunker da aldeia

Está nas traseiras da casa. Na garagem que serve para colocar lá o carro vermelho que Januária acabou de comprar. Um carro absolutamente despropositado, não apenas na cor mas também na velocidade – um carro que pode andar a mais de duzentos quilómetros, colocado ali, no meio de uma aldeia sem estradas, apenas com caminhos para, quanto muito, quatro vacas andarem lado a lado. Mas o prazer de ter um carro vermelho e potente na garagem bastava. E sim, depois, havia o celeiro dos animais e os campos, bem grandes.
E era então na parte de trás da casa, dentro da garagem, agora ao lado do carro vermelho, que estava aquele Bunker, como lhe chamavam todos na aldeia. Era um Bunker mesmo, com dois metros de altura, mais ou menos cilíndrico, que poderia parecer uma enorme garrafa de gás, mas era, afinal, o Bunker onde Deus estava fechado.
O Bunker onde Deus estava fechado tinha apenas uma janelita lá em cima, pequeníssima, que só daria quanto muito para um olho. O certo é que mesmo com essa visibilidade, reduzida, Deus via tudo o que se passava na aldeia, comentava, julgava e castigava. Já tinham pensado em tapar aquela janelita para o olho, que tanto jeito fazia, é verdade, a Deus que estava lá dentro mas que, por vezes, se tornava um incómodo – era como se a aldeia fosse vigiada constantemente por um helicóptero que sobrevoasse cada cantinho, cada casa de banho, cada barracão escuro onde namorados tentavam resolver rapidamente a sua excitação, cada acto escondido, cada fala secreta, etc.
Deus que estava fechado num Bunker dava indicações, murmurava coisas, quase sempre incompreensíveis, enfim, fazia o seu trabalho mesmo chegando ao exterior apenas por aquela janelita mínima que não teria mais do que dois centímetros por dois centímetros.
Numa noite de passagem de ano, naquelas noites em que todos bebem demais, quatro adolescentes – o mais velho não teria dezoito anos e por isso não foram castigados a sério nem presos, claro – mas, então, nessa noite de passagem de ano, já bem bebidos, os quatro rapazes convenceram mais três ou quatro para irem à garagem atirar Deus, que estava fechado num Bunker, para o rio. Juntaram-se, organizaram-se, ataram uma corda, duas, três ao Bunker e, depois, primeiro num movimento em conjunto, derrubaram o Bunker onde estava Deus – que passou, então, de ser um elemento vertical para estar junto ao solo, deitado, como que morto. E a seguir transportaram-no como se transporta realmente um morto ou uma peça de mobília preciosa e antiga. Era preciso muito força porque o Bunker onde Deus estava fechado era pesadíssimo, mas eles tinham toda a noite da passagem do ano para carregar o Bunker no que parecia de longe um cortejo qualquer demoníaco; muitos rapazolas, agora seriam talvez uns quinze, dezasseis, em redor de uma massa metálica compacta que era arrastada sem opor resistência.
Chegarem assim à beira do rio com o Bunker onde estava Deus; cantaram uma canção obscena e, depois, ao sinal do chefe do bando, empurraram, com mãos e pés, o Bunker onde estava Deus para dentro do rio. Um enorme estrondo, um ruído gigantesco fez o Bunker ao cair e ao bater no muro da margem e, nesse mesmo instante, os miúdos começaram a correr como malucos, a fugirem dali, aos gritos, ao mesmo tempo com medo e orgulho.
Houve buscas no dia seguinte, alguns habitantes de aldeia até mergulharam, sustendo a respiração o máximo possível para irem bem ao fundo, mas o certo é que o Bunker onde estava Deus nunca mais apareceu e ainda hoje deve estar algures no fundo do rio, inútil e encalhado.

14 Ago 2020

Flores e sonambulismo

1. A mulher que se levanta de noite

 

Montava-se a maquineta, como era conhecida, improvisando ligações e aproveitando material de utensílios fora de circulação. Os cintos de segurança de um automóvel que tinha sofrido um acidente terrível – o carro caíra por um penhasco abaixo e o casal, que acabara de saber que a mulher estava grávida, morreu, – do automóvel pouco restou, então, mas esses cintos de segurança, que mesmo no meio da tragédia haviam feito o seu trabalho, estando ainda funcionais, haviam sido arrancados e transplantados, por assim dizer, para a cama de Margarida, que era sonâmbula desde os cinquenta anos, mas agora, com oitenta e seis, se tornara muitíssimo perigosa para si própria nessas deambulações nocturnas inconscientes.

Não fora fácil, mas os três filhos, depois de discutirem, concordaram que era a única solução. E assim prendiam todas as noites a mãe com esse cinto de segurança – mecanismo que, sem o saberem, já era manipulado e dominado por completo, mesmo durante o sono, pela velha Margarida que, sonâmbula, fazia primeiro um acto de Houdini modesto, desapertando os dois – eram dois – cintos de segurança – primeiro o que rodeava os braços, depois o que lhe segurava os pés, e lá avançava depois ela para as suas diatribes errantes pela noite da casa. Quando voltava à cama, sempre a dormir, deitava-se, dobrava-se a custo e fechava o cinto que lhe segurava as pernas, depois o 2º cinto de segurança, o que lhe ficava ao nível do peito, e ali ficava, então, adormecendo, já tranquila, depois de um pequeno passeio inconsciente.

Mesmo sendo visíveis muitos objectos fora do sitio, uma outra vez partidos, os filhos não compreendiam nada, e culpavam um animal que pudesse ter entrado por ali, pela casa deserta.

2. A seita

Era uma seita de adolescentes, mas seita sim. Pelo menos era essa a palavra que eles utilizavam, numa espécie de reuniões secretas, realizadas em pé, no meio de recreio, reuniões que duravam por vezes não mais do que uns segundos.

Andavam, depois, por toda a aldeia, a pares – porque um vigiava e o outro actuava e limpava a aldeia de flores. Era uma seita contra as flores. Tudo homens, aliás: rapazes de dez, onze, doze e um com catorze.

Uma seita que só aceitava novos membros que jurassem que não deixariam viva nenhuma flor com que se cruzassem. De dia, quando ninguém estava por perto; ou à noite, em bando, eles actuavam – e já eram conhecidos. Quase não havia flores na aldeia. Apenas algumas dentro de certas casas. E mesmo essas estavam como que debaixo de uma ameaça, uma ameaça estúpida, inconsequente, sem sentido algum, uma ameaça de um grupo de adolescentes, de uma seita, como eles se designavam, que certamente se extinguiria, de forma natural, quando os miúdos crescessem e com o seu crescimento deixassem as flores em paz.

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7 Ago 2020

A orelha

Conta-se isto: um homem ficou surdo, o homem mais importante da aldeia, porque uma águia lhe levou uma orelha.
É bem visível a águia em redor da igreja, quando os sinos batem a horas certas; e quem está lá em redor aponta para o céu e vê aquele animal ágil que leva nas suas patas uma orelha.
Há quem tenha olhos meticulosos e há quem use binóculos, mas garante-se que só as pessoas da aldeia conseguem ver a tal orelha.
E dizem também que foi assim que Beethoven ficou surdo: uma águia levou a orelha de Beethoven, e há quem diga que aquela orelha que alguns vêem ali, nas patas da águia da aldeia, é ainda a orelha de Beethoven – é isso pelo menos que os mais velhos garantem. É a orelha de Beethoven.
Por vezes vêm admiradores de aves, ornitólogos de todo o mundo com as suas poderosas máquinas fotográficas, tentar apanhar a águia que tem a orelha de Beethoven. Mas, por alguma razão estranha, as máquinas fotográficas não são suficientemente ágeis, porque é disso que se trata – de agilidade – e esta é uma qualidade que muito existe nos animais, enquanto as máquinas, apesar dos seus complicados algoritmos internos, não entendem o que é isso de agilidade. Entendem a pontualidade, entendem os cálculos e a contabilidade, entendem o ritmo certo e os ritmos errados, entendem a competência e sabem cumprir uma ordem na perfeição, porém as máquinas não entendem essa coisa tão básica e ancestral que se chama agilidade.
E é por isso – por essa falta de agilidade das máquinas – que não se conseguiu até hoje fotografar a águia que leva nas patas a orelha de Beethoven.
Mas quem vive na aldeia, diz que não há dúvidas. A águia antiga leva nas garras uma orelha preciosa.

31 Jul 2020

O louco da aldeia

Na aldeia há isto: noite que vem subitamente como um ataque de lobos, e assusta. E depois alvorada, estridente, uma luz que parece assobiar aos ouvidos e não deixa ninguém dormir. Todos se levantam de um salto como se o solo exigisse a sua presença humana desde o primeiro minuto de luz. Luz como o chefe exigente que aponta cada segundo de atraso num bloco de notas implacável e mau – que será passado a Nosso Mau Senhor, o diabo, que gosta de maltratar os preguiçosos quando eles já são velhos, têm doenças, incapacidades físicas profundas e já não se podem defender. E por isso, na aldeia, levantam-se de um salto, quase assustado, quando sentem a primeira luz do dia a coscuvilhar algures entre os olhos e o nariz naquilo que parece uma pena de criança a fazer cócegas.

Há depois o louco da aldeia que anda com um altifalante, um daqueles que amplifica e muito. Um altifalante, para mais ligado – de uma forma amadora e impulsiva mas correcta e funcional – a um amplificador de som; e o maluco ali vai, levando às costas, esses aparelhagem de aumentar, essa máquina de aumentar a maluquice auditiva e pelas ruelas da aldeia vai repetindo uma única palavra:
Luz, luz luz luz!

É maluco, e por isso nunca se percebe se pede luz ou se diz que falta luz ou se está a vender luz como quem vende frutos do campo, ou se aquela palavra luz perdeu, para o louco, o sentido original, e agora é para ele apenas o mesmo que um grito, o substituto de um grito – em vez de gritar e assustar as pessoas, quem sabe o louco terá optado por uma das muitas palavras que o dicionário contém, e por isso ali anda a gritar luz luz luz.

Mas o certo é que aquela palavra perturba e muitos interpretam aquele andar pelas ruelas do louco Joaquim, com a aparelhagem às costas, como se fosse uma mochila, com alças e tudo, construídas pela mãe do louco, isso mesmo, uma senhora respeitada cada vez mais porque é mãe, e é mãe de um louco, respeitada como se ela própria fosse a doente; nenhuma mãe é mais respeitada do que a que tem um filho louco, mas sim, foi a senhora Ifigie, assim se chama, quem coseu as alças daquela mochila improvisada e o louco, bem tratado por todos os da aldeia, ali está, um minuto depois, ou nem isso, da primeira luz do nascer do sol, ali está ele, caminhando por todas as ruelas da aldeia, perto das janelas das casas, a gritar: luz luz luz.

No fundo, é isso, ele acorda a aldeia e transforma a luz, algo visual, num signo sonoro – Luz LUZ LUZ, e é valorizado como se aquilo fosse uma profissão; alguns não se coíbem mesmo de lhe pôr moedas no bolso como quem paga por fora ao carteiro ou ao homem que traz o pão.

Aquele homem, de facto, não traz pão, mas traz luz, pelo menos uma luz que entra pelos ouvidos e obriga os preguiçosos a levantarem-se. O carteiro, o padeiro, e o homem que traz luz através de um altifalante. Três ofícios essenciais.

Em vez de música desastrada e demasiado ouvida, aqui, na aldeia, escuta-se uma palavra que para alguns é interpretada religiosamente. Aquele homem, com uma mochila improvável às costas, traz uma recordatória para cada habitante: não te esqueças que há luz.

24 Jul 2020

O herói da aldeia

É muito comum, nos livros antigos, falar-se do Atlas que levava o mundo às costas. Noutros mapas, o mundo em vez de ser levado por um brutamontes, era conduzido, tranquilamente, por uma tartaruga que rodava à velocidade exacta da rotação da terra. Agora, com novos cálculos e novos aparelhos para ver, já se percebeu que não há tartaruga – ou, pelo menos, àquilo a que os antigos chamavam tartaruga, os modernos chamam rotação da terra, atracção gravítica, ou o que seja – e outros nomes mais científicos e menos animalescos. Porém, a hipótese da tartaruga não deixou, mesmo no século XXI, de ser absolutamente fascinante para algumas crianças – e esta capacidade da abrir a boca em oh de espanto intenso não deve ser desvalorizada. O mundo deve continuar a espantar-nos senão é melhor sairmos daqui para outro lado.

Mas agora, dizia, na aldeia, não há atlas, homem forte a levar o mundo às costas, nem tartaruga, há um homem simples, Ramiro, que leva às costas uma garrafa de gás de cada vez. Um homem forte, mas à medida humana e não mitológica. Leva uma garrafa de gás cheiinha através de subidas íngremes a que nenhuma camioneta, ou mesmo motorizada, consegue ter acesso. Não há, pois, alternativa. O homem, que de costas parece um caminhante solitário com a sua mochila bem cilíndrica, o homem é uma espécie de herói modesto, herói da província – pois é ele que leva ali às costas calor e luz. E quem leva às costas calor e luz futuros, quem leva às costas, no fundo, uma parte significativa e essencial do futuro – material para ver as coisas quando está noite e material para não tremer com as temperaturas baixas – quem tem esta responsabilidade merece ser valorizado.

O homem, que já tem as costas tortas de tanto calor e luz e futuro que distribuiu por casas colocadas, plantadas, como árvores loucas, em sítios quase inacessíveis, esse homem então recebe, por vezes, umas moedas a mais, e um copo de vinho. O que é bem pouco para um herói, mas cujas proezas fizeram dele, afinal, pouca coisa: para o exterior, um marreco de quem os meninos da cidade, que nada percebem de esforço e de questões míticas, troçam.

17 Jul 2020

Desenhos e matemática

1.

Médico ginecologista judeu alemão.
Estudou aviação e astronomia.
Morreu em 1968.
As temperaturas mais baixas atacam partes do corpo desprevenidas.
Os infográficos de Fritz Kahn que no século XX explicavam a gripe, a estrutura do corpo, a linguagem e o desejo. Explicavam tudo.
No século XXI, o gráfico tenta explicar, mas tropeça nas linhas e fica a balbuciar, meio mudo.

2.
Tudo o que pode ser desenhado pode ser verdadeiro.
Podemos desenhar algo e o seu contrário. Daí o perigo.

3.
Dias e noites e dias.
Miguel Cardoso lembra que Zeus trata bem aquele “que dispõe a casa/ e sabe o caminho da cama à cozinha/ o nome do vizinho, o tempo oportuno”. E que Zeus trata bem aquele que conhece ainda “os utensílios necessários, os trilhos que conduzem/ de volta à sala depois do campo vasto.”
Um trilho que vem do campo vasto e nos amarrota na cadeira – mas pouca gente vem hoje do campo vasto.
Diminuiu de tamanho o mundo, e tudo que é vasto se vê de longe.

4.
A nossa carta ser secreta, a carta dos outros ser acessível facilmente, eis a questão, mas colocada a grande escala; à Escala dos Estados e da guerra. Guerra micro e macro entre dois desejos: quero perceber o essencial do outro, quero esconder o essencial do outro.
Pensar nos grandes códigos secretos em tempo de guerra.

5.
Turing e uma carta que escreveu à própria mãe falando da sua investigação matemática e da possível aplicação em máquinas com um sistema “quase impossível de descodificar e muito rápido de codificar”.
No final da carta, pergunta à mãe: “tenho dúvidas sobre a moralidade de semelhante coisa? Qual é a tua opinião?”.
O matemático e a mãe.

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10 Jul 2020

Biombos e Monte Fuji

1.

Os biombos japoneses são formas de tapar e anunciar.
De súbito, uma parede móvel que ali está, não para existir, mas para anunciar o que está por trás. Não é muro e daí vem a sua diferença absoluta. Não é para impedir a passagem física, é para impedir um itinerário óptico. O olhar vai no seu caminho e a meio é interrompido. Um biombo.

Uma espécie de véu, portanto: esse impedimento de ver é o início de um erotismo evidente. O biombo como aquilo que eu posso desviar com as mãos, tal como o véu por cima do corpo da mulher ou à frente do seu rosto.

O biombo como uma armadura, não para balas ou lâmina, mas para a simples ansiedade. Uma armadura elegantíssima, leve, transportada facilmente por donzelas de braços alvíssimos e frágeis.

O biombo num espaço obriga também a uma nova circulação, a desvios permanentes; e três biombos num espaço constroem uma micro-cidade com cruzamentos e opções sucessivas exigidas ao caminhante de pequena escala que é o ocupante de uma casa.

A leveza que tapa, a leveza que tapando diz: atrás de mim está o importante. O biombo.

2.

O monte Fuji ali está como repto atirado, desde há muito, aos pintores: estou parado, vê se me consegues captar. O monte Fuji como aquilo que foge ao pintor e à máquina fotográfica ou de filmar.

Não é como um objecto: uma montanha é instável como uma nuvem que tivesse ganhado peso. E, subitamente, o que parece estável torna-se resistência ao movimento.

Uma montanha não está parada, está constantemente nesse movimento de resistência ao movimento explícito que muda a posição das coisas. Diga-se, desde já: a força que é necessária para ter a imobilidade do Monte Fuji. Quem consegue estar assim parado? Uma força atirada para o tempo e não para o espaço; uma intensidade: uma acumulação. O Monte Fuji.

3 Jul 2020

Um grande falhanço

Eram os chamados APAGADORES, um grupo de sujeitos perigosos que acreditava que se um homem andasse cem metros para a frente e depois cem metros para trás tudo ficaria igual. O homem acabaria no sítio onde estava inicialmente e, por isso, acreditavam eles, nada teria acontecido.

Mas claro que tal não é verdadeiro. Um homem que anda cem metros para trás e cem metros para a frente, caminha, no total, pelas contas antigas, duzentos metros; e duzentos metros não são o mesmo que zero metros. Ninguém pode apagar aquilo que se fez. Mesmo que ande para trás.

Mas esse tal grupo, os APAGADORES, queria apagar o espaço. E por vezes até sonhavam em conseguir apagar o tempo.

Pegavam na borracha, atiravam-se contra o solo, e tentavam, vigorosamente, raspar a borracha contra o atrito do solo do mundo apagando indícios, pegadas, vestígios e até objectos concretos: mas nada. O solo não se apagava, o chão não desaparecia debaixo dos pés, a cadeira ficava no mesmo sítio; e, com a borracha na mão, ali terminava, derrotado, o grupo dos APAGADORES: não dá para apagar o mundo, exclamavam, desiludidos.

Mas, de facto, era o tempo que verdadeiramente obcecava esse conjunto de homens.

Olhemos para eles. Ali estão, agora, em redor de um relógio. Tentaram primeiro, simbolicamente, usar a borracha para apagar o ponteiro dos segundos, dos minutos e das horas. Mas a borracha não conseguiu fazer isso. Depois usaram a força bruta e destruíram os ponteiros à mão, com raiva; e usaram ainda um martelo para destruir o próprio mecanismo do relógio. E sim, haviam derrotado, dizimado, apagado aquele relógio. Aquele relógio, especificamente, jamais assinalaria de novo o tempo. Porém, algo continuava ali, em redor dos ouvidos. Isso mesmo: o som do tempo a passar: um outro relógio e um outro e outro e outro. O número de relógios era infinito; eles, os APAGADORES, nunca conseguiriam destruir todos os relógios e, mesmo que o conseguissem, o tempo continuaria, algures por aí, afastado dos mecanismos que o medem.

Se destruíres todos os relógios, o tempo não irá desaparecer.

Se destruíres todas as réguas e fitas métricas, o espaço não irá desaparecer.

E se riscares uma frase para a esconder, essa frase – podes ter a certeza – irá aparecer noutro lado; e com letras grandes.

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26 Jun 2020

Aquilo que levas ao pescoço

 

Contos da cidade-berço

Parece uma história inventada, mas esta primeira parte é mesmo verdade. Num país que esteve em tempos em guerra, há um campo de golfe gigante rodeado de minas. Por vezes explode uma, accionada por uma simples bola ou por um pé muito azarado. Quem decide ir ali jogar golfe assina,primeiro, uma certidão de responsabilidade.

E sim, conta-se (mas isto talvez já seja ficção) que, todos os que vão jogar golfe nesse campo perigoso, levam ao pescoço um medalhão com um fio e uma foto. Mas conta-se que as fotos que esses jogadores de golfe levam não são do que se pensa, não são de familiares. Esses homens levam no medalhão fotografias de aviões, de vários tipos de aviões bombardeiros; outros levam fotografias de tanques, outros de peças de artilharia, outros ainda levam fotografias de alguns tipos de minas. Porquê? Para dar sorte? Porque são loucos? Ninguém sabe.

Há ainda, noutro local do mundo, quem leve ao pescoço um medalhão com um fio e uma foto do inimigo, do homem ou da mulher que odeia. Nesse local do mundo, de quando em quando, lá se vêem as pessoas a fazerem aquele gesto, bem conhecido, de abrir o medalhão e fixar os olhos na fotografia – no caso – fixando longamente os olhos naqueles que odeiam.

Há ainda quem leve nesse medalhão, não a fotografia de uma pessoa, mas de uma casa, de um sítio, de um objecto importante do seu percurso, etc.

E há ainda homens e mulheres que levam no medalhão uma fotografia vazia, um espaço em branco que querem preencher. E por isso mesmo essas pessoas vagueiam pela cidade, tentando encontrar alguém ou algo que possa ocupar aquele espaço. Uma pessoa, uma ideia, um objecto, uma utopia qualquer. São os que se querem enamorar, mas acima de tudo: os que ainda têm expectativas. No entanto, o branco que se mantém a cada dia rapidamente se transforma num sinal de desespero sem consolo.

Há muita gente no mundo que teve demasiadas expectativas.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

19 Jun 2020

O Maestro

 

Contos da cidade-berço





É preciso orientar o mundo e Jeremias tem uma batuta para o fazer. Não é maestro porque não há música no Reino – a música foi proibida assim como todos os sons. É um reino de mudos por via legal. Nem voz, nem instrumentos, nem sequer choques entre seres humanos e entre seres humanos e o mundo. Porque um choque entre dois corpos, diga-se, voluntário ou involuntário, provoca sempre um som, um nefasto som naquele reino legal do silêncio. De um choque, por exemplo, entre a simples perna de um humano e uma mesa, resulta um estalido – e talvez até um imprudente murmúrio de dor. Barulho, portanto. Inaceitável.

E por isso, aquele não é apenas um Reino de impressionante mudez, é também um mundo de lentidão e tranquilidade – tudo anda lentamente, cuidadosamente. É um Reino mudo e de velocidade média baixíssima.

Todos os que foram viver para aquele reino, diga-se, estavam cansados da música, das palavras e do som em geral. Queriam silêncio. Gritaram uma única vez: quero silêncio! – e assim lhes foi concedido (como num conto de fadas meio perverso – o que pedes uma vez, furioso, ser-te-á concedido para sempre, e sem retorno). Estão, pois, esses homens e essas mulheres, na terra do silêncio. Proibido o som.

E é nesse Reino, então, que Jeremias avança com a sua bela batuta de maestro sem orquestra. A batuta serve agora para orientar os corpos – para a esquerda, para a direita – dos elementos da orquestra sem instrumentos. Jeremias, com a sua batuta, manda levantar, baixar, deitar, avançar dois passos, recuar quatro, etc., etc.

Diante dele, o grupo torna-se obediente.

É uma orquestra de posições; e também de gestos, de movimentos. O maestro Jeremias e a sua batuta apontam para um sujeito e, logo depois, um movimento decidido da batuta mostra, sem equívocos, que o maestro quer que o sujeito se levante e se mova para a direita até que Stop. A batuta imobiliza-se aí com firmeza mostrando ao elemento – desta orquestra de posições – que ele deve parar naquele exacto sítio. E assim passam aquelas pessoas as tardes. É um emprego, este, para aquelas trinta pessoas, que recebem generosamente da fortuna de Jeremias.

Todos os dias, todas as tardes, Jeremias ali tem a sua orquestra muda, disponível até que o dinheiro termine. Jeremias imagina-se a dominar uma parte do mundo. Não é o universo, mas são trinta pessoas. É um começo, pensa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

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12 Jun 2020

O segredo

 

Contos da cidade-berço

É evidente que Deus está nos doces, nenhuma dúvida sobre isso.

Conta-se isto, e claro que é uma invenção, uma ficção elevada ao quadrado, ao cubo.

A história é esta. Havia um segredo de culinária, um tão grande segredo que a mãe só o passava à filha, a uma única filha; e essa filha, mais tarde, passaria também o segredo a uma única filha, e assim por diante. E dizem que o segredo não foi transmitido em voz baixa, de boca para orelha, em distâncias mínimas. O segredo foi escrito, mas não num qualquer papel – e se alguém o rouba ou se ele desaparece? O segredo foi escrito nas costas; foi tatuado, melhor dizendo. Isso mesmo.

Era assim então que se passava. A receita culinária secreta de um alucinante doce era tatuada nas costas da filha preferida. Essa filha jurava não mostrar as costas a ninguém, nem ao marido (quando o tivesse). E sim, o segredo ali estava bem guardado, passando de geração para geração. Ninguém segredava, insistimos – a mãe passava o segredo à filha num dia decisivo. A mãe dizia: Vou mostrar-te algo que nunca mostrei a ninguém, nem ao teu pai: as minhas costas.

E a sós tirava a camisa e mostrava a tatuagem – a receita mais secreta do doce mais alucinante.

Quando a filha fazia dezoito anos, a mãe tatuava-lhe nas costas a receita e dizia-lhe: não mostres as tuas costas a ninguém. E dizia ainda: escolhe uma única pessoa a quem passarás a receita.

E assim se guarda, conta esta história ficcional, desde há muitos anos, um importante segredo de culinária.
Eis o que a mãe dizia:

Se mostrares as costas a muita gente, o segredo deixará de ser segredo. Se não mostrares as costas a ninguém, o segredo também deixará de ser segredo. O segredo só continuará a ser segredo se mostrares as costas a uma única pessoa, a uma única, a uma única pessoa.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

5 Jun 2020

O primeiro avião

 

Contos da cidade-berço

Em certos mundos mais primitivos, a santidade era avaliada pela capacidade de voo. Quem subisse mais alto seria considerado mais santo. Diz-se mesmo que a história da aviação começou assim. Não por vontade de chegar ao outro lado do mundo rapidamente, não por vontade bélica ou económica, de subir para atirar bomba ou publicidade lá para baixo, mas que terá começado simplesmente devido à vontade subir assim mesmo – na vertical. O objectivo da aviação era, pois, inicialmente, o céu – e não o resto da terra.

É, neste particular, bem conhecida a história de Ícaro, que talvez tenha subido de mais -mas há ainda a história de Rodolfo, homem que construiu um avião porque queria ver Deus de perto. Isso mesmo. Ele era um mecânico do final do século XIX que acreditava que Deus estava num certo espaço concreto do universo; e que esse espaço estaria localizado num ponto acima das nuvens.

Rodolfo era crente, mas também um técnico. Tinha fé em Deus e nos motores. Construiu, assim, um avião antes de todos os outros para se aproximar de Deus. Um avião crente; um motor crente. Uma tecnologia que avança porque tem fé.

Rodolfo fez, então, sozinho, nas traseiras da casa, essa primeira engenhoca para ver Deus de perto; o primeiro avião crente.

Voltemos atrás e olhemos para toda a cena: ali está ele pronto: Rodolfo entra na máquina. Estudou tudo e não tem medo. Liga o motor e, sim, o engenho sobe. Rodolfo está, então, no ar com a sua fé e o motor que ele próprio montou. É o primeiro avião da História. Rodolfo tem um objectivo: subir o máximo possível até conseguir ver Deus de frente.

Rodolfo sobe, então, ultrapassa as nuvens, e sobe ainda. Está atento; não pára de olhar em todas as direcções. Onde está Deus? Ninguém sabe o que aconteceu a Rodolfo, mas ele nunca mais desceu.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

29 Mai 2020

Um pesadelo com uma cor

 

O Outro

Um menino mexe na terra para ver se há um submarino para ali enterrado; alguém falou disso. Um submarino amarelo como na canção dos Beatles.

Começa a escavar e chama os seus amigos. Todos ajudam. E sim, a ponta amarela metálica aparece. Um submarino amarelo, diz Jonathan.

São quatro meninos amigos e escavam durante semanas um submarino amarelo gigante, setenta metros de comprimento. Decidem ir para lá viver, fogem da casa dos pais, roubam comida da aldeia e sobrevivem ali escondidos no submarino amarelo. Chamam muitos amigos e eles vêm.

Quando têm dezoito anos decidem sair para matar.

Já são muitos, uma tribo inteira. Começam a matar todos os pais que ficaram na aldeia. Os meninos do submarino amarelo cresceram.

 

Poemas do Oriente e do Ocidente

Kafka

1Kafka no oriente transforma
os caminhos vermelhos e sagrados
em assunto político. Tudo deve ser discutido,
até a linha recta.

2Uma cerimónia do chá,
só o último a beber a última gota
será salvo. Em todos os outros
jamais se poderá
eliminar 
a sede.
Mas aquele que ficou sem sede,
ficou
 também só, para sempre.
E para esse mal não há ainda
 cerimónia.

Mulheres, poder e pés no chão

Uma notícia: num certo país, muitas mulheres amamentam os seus bebés em público, em protesto contra uma lei que o proíbe.

1Helicóptero vigia mulher que amamenta ao ar livre.
Nenhuma lei dispara – mas a arma legal, sim.
Amamentam em protesto público,
mulheres zangadas com a lei.

2Estamos no mundo para obedecer ao justo, atirar pedra ao inaceitável,
tornar lúdica a perda de tempo, transformar lixo em jogo.
Mas no Estado forte que se instala aos poucos,
a banalidade não existe, e a força exige a mudança abrupta
da velha constituição.

3Antes da brutalidade inventam-se argumentos,
método antigo de novo colocado em circulação.
Democracia. Leis justas e direito aos pés na terra.
Mas de um lado do mundo, levantam-se à força homens do solo
para que estes não tenham apoio.
Sem lei, sem pés, sem chão: tudo é frágil,
capaz de num segundo desaparecer da paisagem.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

22 Mai 2020

Roupa de turista

Pensemos numa personagem que quer guardar todos os caminhos que faz. Guardar mesmo, fisicamente (não é guardar na memória).

E para isso deixa atrás de si, não migalhas de pão como no famoso conto de Hansel & Grettel, mas um fio, uma linha – como outras personagens clássicas fizeram.

No fundo, ele quer guardar um tempo, materializar o tempo do percurso.

Essa personagem, diga-se, tem linhas de várias cores.

Uma linha de fio azul, uma linha de fio vermelho, uma linha de fio preto, outra de fio verde, etc.

Quando está triste e percorre um certo caminho vai desenrolando um fio preto. Quando está ansioso e excitado desenrola o fio vermelho; quando está indiferente, o fio cinzento, quando está tranquilo, o fio branco.

Depois, quando regressa a casa, deposita os fios, que têm o tamanho do seu itinerário, numa caixa.
Mais tarde, meses mais tarde, no final de cada ano, esse homem pode fazer um balanço da sua vida e dos seus percursos. Pode olhar para a caixa e ver se há mais fios azuis ou vermelhos, pretos ou brancos. Que ano infeliz eu tive, pode ele dizer se a sua caixa for dominada pelos fios pretos. Que ano tranquilo eu tive, pode ele dizer se a caixa for dominada pelos fios brancos. Que ano agitado eu tive, pode ele dizer se o vermelho for a predominante.

Uma síntese do ano em cores, eis o que se conseguiria.

E pensemos num turista que guarda, de cada viagem, os fios que vai desenrolando nos caminhos; e que, com eles, com esses fios, com cores resultantes do estado anímico em que estava em cada momento, cose uma roupa. Essa roupa, feita a partir dos fios que resultaram da sua viagem, terá assim cores sentimentais, cores afectivas – e será, portanto, uma síntese da sua viagem.

Mais tarde, esse turista poderá dizer, mostrando a roupa que ele próprio fabricou:
– Eis como foram as minhas férias! A minha roupa é a minha memória em forma de tecido.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

15 Mai 2020

Almas da Estrada

Nas cidades o ser humano vai perdendo a vida diante desses animais modernos, animais de velocidade bem acima do que é humanamente suportável. Esse animal que mata pelo peso e pela velocidade, é o carro. Os perigosos animais de quatro patas deram lugar ao perigoso animal de quatro rodas.

Uma evolução, dizem (de patas para rodas).

E há também esta história que agora se inventa: Roberto, um navegante sonhador, construiu um balão para voar, um balão de ar quente; e com ele quer fazer uma viagem vertical e não horizontal; quer subir o mais acima possível e não regressar, quer abrir uma fenda no limite do céu com o seu balão de ar quente (como quem parte o telhado de uma casa com a própria cabeça). O balão é a cabeça; o céu, o telhado. 

Conta-se que Roberto teve um desgosto: alguém que amava morreu, alguém que amava foi destruído pelos dentes da velocidade desse animal de quatro rodas (a velocidade tem dentes, tem boca, tem fome, tem raiva!).

E ele quer, então, esquecer o solo e avançar para o céu. Ali está ele, então, Roberto a tripular um balão de ar quente.

Roberto leu, em tempos, que a raiz de uma figueira-brava chegava a ter, em certos locais bem hospitaleiros, cem metros de profundidade. Pois então Roberto fez isto: foi até junto dessa árvore de fundíssimas raízes, escavou e escavou e agora ali vai ele com o seu troféu enrolado: cem metros da raiz de uma árvore estão já no interior do seu balão de ar quente! Que peso tem essa raiz gigante!

Mas como quer Roberto que o seu balão suba até ao céu com essa raiz tão pesada como carga?

Roberto, no entanto, insiste, quer esquecer quem morreu, quer chegar ao céu com a maior raiz de árvore do mundo. Uma espécie de dádiva: levar ao mais alto o que está mais fundo.

Mas, claro, já era previsível, o balão não levanta voo. A raiz pesa demais.

Como não pode homenagear os mortos, subindo, Roberto decidiu deixar uma mensagem no chão, na estrada: uma alminha – um pequeno retrato que tem ao lado um bilhete onde está escrito:

Apesar de tudo, não é possível afastar as raízes do solo.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

8 Mai 2020

Corpo e caminho

 

(regresso à meada de ouro – ao fio, ao itinerário dourado)

1O corpo humano, de cima para baixo não termina nos pés, mas no solo, no caminho que está por baixo. A anatomia humana é, pois, isto: em cima não termina na cabeça, mas sim no céu. Em baixo, não termina nos pés, mas sim no solo.

Um novo caminho é assim uma forma de cada homem mudar de anatomia. Muda de vida, muda de caminho.

2Todo o caminho existe enquanto chão que serve de suporte e se mantém por ali. Mas como mostrar o caminho que se fez num determinado momento?

Como transformar numa forma concreta e material o esforço de uma caminhada?

Este foi o caminho que eu fiz, diria alguém se conseguisse pegar na estrada que percorreu. Mas é difícil pôr na mão o chão inteiro.

3E a imagem é esta (numa ficção, num sonho): levas ao colo, transportas nos braços, não uma criança ou um objecto, mas o itinerário que acabaste de fazer.

Este é o caminho que fiz, aqui to deixo, ofereço-to.

E quando se faz um percurso, os pés traçam algo de novo no chão; avançar é uma forma física de iluminar; avançar é iluminar o exterior com os músculos. Um corpo que atravessa um caminho é uma luz temporária que ali vai. Respeitemos essa luz; uma forma modesta de ouro.

4Uma outra história que se conta é que num certo lugar sagrado da antiguidade, alguns caminhos, pelo meio da floresta, eram tão fortes que quem avançava por eles, durante dias, desaparecia literalmente aos poucos: desfazia-se de cima para baixo no próprio caminho; era um corpo humano que se transformava em estrada. E aquilo que assustava alguns, aqueles que pensavam em raptos e em tragédias semelhantes – os homens desaparecerem naquela estrada! – alimentava a imaginação de outros. É uma forma de oração amorosa, pensavam os segundos: transforma-se o caminhante no seu caminho¸ transforma-se o amante na coisa amada.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

24 Abr 2020

Carros, Monumentos e Procissões

 

Carros, Monumentos e Procissões

1Todo o carro é a manifestação – nadamodesta – desse velho, e novo, instintonómada.
O mundo divide-se a partir de dois tipos de cadeiras
1 – a cadeira que não se move – cadeira que quer manter-se no território (ou no metro quadrado) onde está
e
2 – a cadeira que se move – cadeira que está dentro de um recipiente com rodas que avança
(O que é um carro? É um recipiente com rodas que avança e que tem lá dentro cadeiras.
O que é uma cadeira? É o modo de a matéria se colocar a jeito para receber um corpo que não quer fazer esforço).

2Quando se constrói um pesado monumento diz-se: quero ficar aqui.
Quando se faz um carro – com motor, sem motor, o que for – diz-se: não quero ficar aqui.
Podemos, claro, ser nómadas durante anos ou meses ou apenas durante um dia ou trinta minutos, mas o humano é isto: inventa o que aí vem para não estar quieto.
(eu vou ali e já venho – eis o nómada rápido, o nómada que poupa nos pés e no trajecto)

É evidente ainda que há uma forma nómada bem antiga que é a de ser nómada em linha recta. Este é o nómada que sai e se afasta cada vez mais do ponto de partida.

3A procissão, o cortejo e o desfile são, por seu turno, formas antigas e modernas de ser nómada num itinerário de circunferência: avança-se lentamente até ao ponto de onde se partiu.
Um carro de um cortejo é um carronómada-de-circunferência.
E em certos cortejos, os animais vão à frente porque é deles a sabedoria que reconhece os indícios não-verbais. E vão também atrás, os animais, porque os homens sentem-se bem assim, entre dois limites iguais. Se recuares, encontrarás o animal; se avançares encontrarás o animal. Onde está o homem, a mulher, o sacerdote, o guerreiro, o camponês? Estão ali, no meio, entre um animal e outro – e assim está bem. Eis a procissão.

É preciso, também, claro, uma certa encenação. Somos consumidores de actos e quem ali vai, no carro da procissão, não quer apenas fazer algo, quer também que alguém veja (que todos vejam) o que se vai fazer. Não há cerimónias de sacrifícios sem espectador, mesmo que o espectador seja essa entidade calada e quieta, sem forma nem cor, transparente, sem cheiro ou paladar, essa entidade a que se chama Deus.
Monumentos, carros e procissões.

Nota final – Nestes tempos de calamidade, ficar em casa é muitas vezes não apenas ser salvo, mas salvar. Em certas partes do mundo, por isso mesmo, ficar em casa é urgente.


ILUSTRAÇÃO: ANA JACINTO NUNES

 

17 Abr 2020