Igreja | Papa fecha 2025 com críticas ao consumismo e xenofobia

O Papa Leão XIV encerrou ontem o Ano Santo de 2025 no Vaticano condenando o consumismo e a xenofobia e convocou os cardeais para iniciarem na quarta-feira dois dias de reuniões sobre a governação da Igreja Católica.

O discurso serviu para fechar o Jubileu – um Ano Santo que acontece geralmente a cada 25 anos, proclamado pelo Papa como um tempo especial de perdão, reconciliação e renovação espiritual -, que levou cerca de 33 milhões de peregrinos a Roma e incluiu uma transição histórica de um pontífice americano para outro.

Na presença de cardeais e diplomatas de todo o mundo, Leão XIV ajoelhou-se em oração no chão de pedra no limiar da Porta Santa da Basílica de São Pedro, tendo depois fechado as duas portas, para completar simbolicamente o mais raro dos Jubileus, já que foi aberto pelo Papa Francisco, em Dezembro de 2024, e encerrado pelo sucessor, um ano depois.

Esta situação só se tinha verificado uma vez, em 1700. A cerimónia de ontem, no início da missa que celebra a festa da Epifania (quando os três Reis Magos ofereceram presentes ao recém nascido Jesus) terminou um ano vertiginoso de audiências especiais, missas e reuniões que dominaram os primeiros meses de Leão XIV como pontífice e colocaram a sua própria agenda em suspenso.

Para sinalizar que o seu pontificado pode agora começar de facto, o Papa convocou os cardeais de todo o mundo para o Vaticano, para reuniões na quarta e quinta-feira que visam debater a governação da Igreja Católica, com os seus 1,4 mil milhões de fiéis.

Para reflectir

Na homilia de ontem, Leão XIV disse que o ano jubilar convidou todos os cristãos a reflectirem sobre os ensinamentos bíblicos de acolher o estrangeiro e de resistir à “bajulação e sedução daqueles que detêm o poder”. “À nossa volta, uma economia distorcida tenta lucrar com tudo”, criticou, adiantando esperar que este ano seja possível reconhecer “um peregrino no visitante, um buscador no estrangeiro, um próximo no forasteiro e um companheiro de viagem naquele que é diferentes”.

Os Anos Santos abrangem habitualmente grandes projectos de obras públicas, como foi o caso da construção da Capela Sistina (encomendada pelo Papa Sisto IV para o Jubileu de 1475) e da grande garagem do Vaticano, onde estão estacionados os papamóveis e outros veículos (encomendada por João Paulo II para o Jubileu de 2000).

Algumas obras foram polémicas, como a construção da Via della Conciliazione, em 1950, que conduz à Praça de São Pedro e que implicou a demolição de um bairro inteiro. Leão XIV anunciou também que o próximo Jubileu será em 2033, para comemorar os 2000 anos do que as Escrituras assinalam como a morte e ressurreição de Jesus Cristo, em 33 d.C.

7 Jan 2026

Medalhas | Ho Iat Seng, Kou Hoi In e Raimundo do Rosário distinguidos

A lista de premiados fica marcada pela atribuição de duas Medalhas de Honra do Grande Lótus, a maior distinção da RAEM, a Ho Iat Seng e Kou Hoi In. Todas as individualidades agraciadas desempenharam funções no Governo ou na Assembleia Legislativa

O ex-Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, e o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Kou Hoi In, vão ser agraciados com a Medalha de Honra do Grande Lótus, a maior distinção da RAEM. A lista com as distinções do Executivo relativas a 2025 foi anunciada a 31 de Dezembro, através de um comunicado do Gabinete de Comunicação Social, e a cerimónia de entrega das distinções está agendada para 30 de Janeiro, no Centro Cultural de Macau.

As principais distinções atribuídas por Sam Hou Fai foram para ex-governantes, com o macaense e ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas Raimundo do Rosário a ser agraciado com a Medalha de Honra do Lótus de Ouro. Esta distinção será também atribuída a Ho Veng On, ex-Comissário de Auditoria, e Vong Man Chong, ex-director-geral dos Serviços de Alfândega. As medalhas de honra têm como objectivo distinguir indivíduos ou entidades que contribuíram para a imagem e o bom nome da RAEM.

Após ter sido anunciada a lista das medalhas, Ho Iat Seng considerou o título “uma profunda honra”. O ex-líder do Governo afirmou ainda, através de um comunicado, que “mantém, desde sempre, um profundo carinho por Macau” e que ao longo dos anos se “dedicou” a “servir a nação e Macau”.

O ex-Chefe do Executivo elogiou os resultados da sua governação e considerou que dependeram “não só da dedicação e do trabalho árduo da equipa da acção governativa e de todos os funcionários da Administração Pública, mas também do forte apoio, dos esforços conjuntos da comunidade e de todos os residentes”. “Esta honra é uma vitória colectiva, que demonstra o compromisso de toda a sociedade em impulsionar um desenvolvimento maior e melhor para a RAEM”, afirmou.

No texto de atribuição da Medalha de Honra do Grande Lótus a Ho Iat Seng surge destacado o período em que o ex-governante teve de lidar com a pandemia da covid-19. “Durante o seu mandato como o quinto Chefe do Executivo, uniu o Governo da RAEM e todos os sectores sociais, ultrapassou com sucesso os desafios e dificuldades severos da pandemia Covid-19 e envidou todos os esforços para promover a recuperação económica e o desenvolvimento social pós-pandemia”, foi indicado.

Além de Chefe do Executivo, Ho Iat Seng, empresário de profissão, foi presidente da Assembleia Legislativa, membro do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional e membro do Conselho Executivo. Esta é a terceira vez que Ho Iat Seng vai ser agraciados, depois de em 2001 ter recebido a Medalha de Mérito Industrial e Comercial e em 2009 ter sido distinguido com a Medalha de Honra Lótus de Ouro.

Mais um Lótus

Outro empresário e ex-presidente da Assembleia Legislativa distinguido é Kou Hoi In, destacado pela actividade como membro da Assembleia Popular Nacional, o principal órgão legislativo da República Popular da China, e pelos mais de 34 anos como deputado da Assembleia Legislativa.

“Nos trabalhos de legislação, supervisão da acção governativa e formulação de políticas públicas defendeu sempre os princípios de exercer funções em conformidade com a lei, de forma racional e pragmática, promoveu activamente o aperfeiçoamento dos regimes e a construção do Estado de Direito e empenhou-se na salvaguarda dos direitos e interesses dos residentes e na promoção da estabilidade social e do desenvolvimento a longo prazo”, foi considerado. “Durante o seu mandato como presidente da Assembleia Legislativa de Macau de 2019 a 2025, concentrou esforços na melhoria da eficiência do funcionamento parlamentar, na promoção da interacção positiva entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo, e deu contributos importantes para o reforço da construção do Estado de Direito, para a promoção da harmonia social e para a melhoria das políticas de bem-estar da população”, foi acrescentado.

Após deixar o hemiciclo, Kou foi nomeado para exercer as funções de presidente do Conselho de Administração da TDM, é ainda vice-presidente do Conselho de Administração e gerente-geral da Companhia de Produtos e Produções Especiais da China e vice-presidente da Associação Comercial de Macau.

No passado, o anterior presidente da AL tinha sido agraciado com em 2007 com a Medalha de Mérito Industrial e Comercial e em 2016 com a Medalha de Honra Lótus de Prata.

Em português

Raimundo do Rosário, secretário para Transportes e Obras Públicas, entre 2014 e 2024, é o único representante da comunidade macaense nas distinções de 2025, tendo em conta as individualidades e associações distinguidas.

No texto sobre o ex-governante são indicados vários cargos assumidos em instituições públicas e privadas. “Ingressou na Função Pública em 1979 e trabalhou até 1990 sucessivamente como técnico superior, chefe de departamento, subdirector e director dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes”, pode ler-se. No currículo consta também que foi membro da delegação portuguesa do Grupo de Terras Luso-Chinês, adjunto do Conselho de Administração da CAM-Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau e chefe da Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa tendo também a seu cargo as Delegações Económicas e Comerciais junto da União Europeia, em Bruxelas e da Organização Mundial do Comércio, em Genebra.

Raimundo foi ainda membro da Comissão de Redacção da Lei Básica e da Comissão Preparatória para o Estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, deputado e membro do Conselho Fiscal do Banco Comercial de Macau.

Em termos das medalhas de honra, a Associação de Bancos de Macau vai ser agraciada com o Lótus de Prata, devido ao “papel fundamental na promoção da colaboração do sector e no desenvolvimento sólido da indústria”.

Medalhas de Mérito

No capítulo damedalha de mérito profissional este ano surge apenas uma distinção, para Chan Iok Lin, que desde 2000 integrou o Gabinete do Presidente do Tribunal de Última Instância, tendo chegado a chefe, em 2016. “Demonstrou sempre uma atitude rigorosa e dedicada no exercício das suas funções, possuindo excelentes capacidades de liderança e organização, além de um elevado profissionalismo e espírito de entrega”, foi justificado.

Na área industrial e comercial, as distinções foram para a empresa estatal Companhia de Logística Nam Kwong, do grupo Nam Kwong, pelos contributos para a diversificação da economia e para a empresária Amber Li Jiaming que é presidente do Grupo HN e membro do 14.º Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), vice-presidente da Comissão de Assuntos Externos da CCPPC e membro do Conselho para o Desenvolvimento Económico de Macau.

A nível turístico, a única distinção foi atribuída à Equipa do Espectáculo House of Dancing Water, da Melco Resorts & Entertainment. O espectáculo foi suspenso durante a pandemia, mas regressou após o fim das restrições fronteiriças impostas durante os anos de combate à covid-19.

Em termos da educação, foram distinguidas a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, Escola Keang Peng e Escola Kao Yip. Na cultura, as distinções foram para a Associação de Ópera Chinesa dos Moradores Marítimos e Terrestres da Barra de Macau, para o deputado Lam Fat Iam e o artista Chan Iu Pui, que desenha caricaturas para o jornal Ou Mun.

Finalmente, vai ser atribuída uma Medalha de Mérito Altruístico à Equipa Internacional de Emergência Médica da China (RAEM) e medalhas de Mérito Desportivo para a Equipa de Karaté da RAEM que participou nos Jogos Nacionais. A atleta Zhu Yuling, que defendeu as cores do Interior até 2024, altura em que se mudou para Macau, também será agraciada. A atleta passou a representar a RAEM ao abrigo dos programas de promoção de quadros profissionais e conquistou o título individual feminino no WTT de United States Smash de Ténis de Mesa, a primeira atleta de Macau a conseguir tal feito. Actualmente, é professora na Universidade de Tianjin.

Medalhados

Medalhas de Honra

Grande Lótus

Ho Iat Seng

Kou Hoi In

Lótus de Ouro

Raimundo Arrais do Rosário

Ho Veng On

Vong Man Chong

Lótus de Prata

Associação de Bancos de Macau

Medalhas de Mérito Profissional

Chan Iok Lin

Medalha de Mérito Industrial e Comercial

Companhia de Logística Nam Kwong, Limitada

Li Amber Jiaming

Medalha de Mérito Turístico

Equipa do Espectáculo «House of Dancing Water» — Melco Resorts & Entertainment

Medalha de Mérito Educativo

Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau

Escola Keang Peng

Escola Kao Yip

Medalha de Mérito Cultural

Associação de Ópera Chinesa dos Moradores Marítimos e Terrestres da Barra de Macau

Lam Fat Iam

Chan Iu Pui

Medalha de Mérito Altruístico

Equipa Internacional de Emergência Médica da China (RAEM)

Medalha de Mérito Desportivo

Equipa de Karaté da Delegação Desportiva da RAEM à 15.ª Edição dos Jogos Nacionais

Zhu Yuling

Medalha de Dedicação

Tai Kam Un

Medalha de Serviços Comunitários

Centro de Serviços de Tele-Assistência Peng On Tung de Macau

Títulos Honoríficos

Título Honorífico de Valor

Equipa do Instituto Salesiano da Imaculada Conceição

Equipa da Escola Secundária Pui Ching

Equipa da Escola Secundária Lou Hau

Equipa de Macau na Competição Asiática de Dança de Elite 2024-2025

Selecção feminina das escolas secundárias de Macau participantes no 2.º Campeonato Asiático de Basquetebol 3×3 para Escolas Secundárias

Equipa de Macau participante na Taça Mundial de Bowling de 2025

Li In Iat

5 Jan 2026

Economia | Deputados alertam para falta de confiança e desigualdades

Apesar do crescimento económico ao longo deste ano, Chan Lai Kei e Leong Sun Iok alertaram o Governo para os problemas nos bairros comunitários e para a necessidade de distribuir recursos financeiros de forma mais equitativa

O deputado Chan Lai Kei apelou ao Governo para se focar na promoção do optimismo económico e no consumo, por considerar que em vários bairros de Macau a situação económica é preocupante, apesar do crescimento macroeconómico. O assunto foi trazido para a Assembleia Legislativa ontem, uma intervenção antes da ordem do dia no Plenário.

Segundo o deputado ligado à comunidade de Fujian, a economia apresenta uma “recuperação estável”. Entre Janeiro e Setembro “o valor inicial do PIB cresceu 4,2 por cento face ao período homólogo do ano passado”. Também indicou que a taxa de desemprego foi de 2,3 por cento, entre Agosto e Outubro.

No entanto, Chan alertou que “os dados macroeconómicos positivos não eliminaram completamente os indicadores negativos”, principalmente no que diz respeito à vida da população.

Citando um “estudo recente”, o legislador indicou que existe fraca vontade de consumo, porque “a confiança dos residentes no aumento dos rendimentos e a sua satisfação com a situação financeira ainda estão entre um nível baixo e médio”.

Chan Lai Kei explicou que para esta onda de pessimismo contribui o maior consumo no exterior, mas também os vários encerramentos de pequenas e médias empresas (PME): “Face ao stress do consumo no exterior, o ambiente de negócio das PME nas zonas ligadas à vida da população (como nos NAPE, Iao Hon e Fai Chi Kei) continua a piorar e o risco de encerramento mantém-se”, avisou. “Estas empresas enfrentam, geralmente, o desafio crítico da instabilidade das fontes de clientes, dos elevados custos e do consumo transfronteiriço”, vincou.

Perante o cenário traçado, o deputado pediu ao Executivo para criar um mecanismo de incentivo ao consumo semelhante aos vales de desconto, mas com uma natureza permanente, enquanto durar a “fase de transformação do modelo económico de Macau”, que “reforce a confiança nos negócios”.

Melhorar a distribuição

Também o deputado Leong Sun Iok abordou a situação da economia e apontou a necessidade de fazer uma melhor distribuição dos recursos provenientes do jogo, a principal indústria do território.

O legislador ligado à Federação das Associações dos Operários de Macau elogiou as concessionárias do jogo pelo maior papel que têm vindo a assumir ao nível do investimento para o “desenvolvimento urbano, promoção turística e segurança social”, principalmente desde 2023.

Contudo, lamentou que os recursos estejam a ser canalizados de forma desigual: “Verifica-se que, actualmente, tanto as receitas provenientes do jogo como as próprias empresas concessionárias do jogo investiram muitos recursos no desenvolvimento social. Mas, de forma geral, esses recursos estão dispersos e carecem de um sistema e interligação, logo, não conseguem realizar o máximo benefício social”, apontou.

Leong defendeu assim que uma proporção maior das receitas arrecadadas pelo Administração com o jogo seja canalizada para o Fundo de Segurança Social, para o pagamento de pensões para os idosos.

O deputado pediu ainda a criação de um fundo com o dinheiro das concessionárias para desenvolver a RAEM e para assegurar que estas cumprem “melhor” as obrigações da lei do jogo, como as “garantias dos trabalhadores”, o “apoio aos portadores de deficiência ou reabilitados”, o apoio às PME e às “actividades educativas, de investigação científica, de protecção ambiental, culturais e desportivas e de interesse público”.

Leong Sun Iok pediu ainda um novo portal com a informação pública sobre os gastos das concessionárias com actividades não-jogo previstas das obrigações das concessões e terminou a intervenção com um pedido de cautela dirigido ao Executivo. “Os recursos da sociedade não vêm de forma fácil e são fruto dos esforços conjuntos do Governo, das empresas, dos diversos sectores sociais e da população em geral”, indicou. “A situação nem sempre é boa. Espero que o Governo aproveite bem os recursos oriundos das responsabilidades sociais das empresas de jogo, para melhorar a vida da população”, realçou.

Salário Mínimo | Aprovada subida de uma pataca por hora

O aumento de uma pataca por hora do salário mínimo, de 34 para 35 patacas, foi ontem aprovado na especialidade na Assembleia Legislativa. Com as alterações, a partir do próximo ano, em termos semanais, o salário passa de 1.632 patacas para 1.680 patacas.

Quando as contas são feitas ao mês, o ordenado sobe de 7.072 patacas para 7.280 patacas, um aumento de 2,9 por cento que vão abranger 4,4 por cento dos trabalhadores da RAEM. Os trabalhadores domésticos são excluídos, embora a aprovação da quota de contratação, no caso dos não-residentes, esteja normalmente associada à exigência de um salário entre as 3.500 e 4.000 patacas.

Orçamento 2026 | Deputados aprovam na especialidade

A Assembleia Legislativa aprovou ontem na especialidade o orçamento para o próximo ano, que prevê uma subida das receitas do jogo de 3,5 por cento, para 236 mil milhões de patacas. O documento, que reflecte as escolhas económicas do Executivo, estima receitas de 118,8 mil milhões de patacas, enquanto as despesas estão estimadas em 113,5 mil milhões de patacas.

Com base nestas perspectivas, o saldo final do orçamento ordinário deverá ser positivo em 5,3 mil milhões de patacas. No entanto, existe a possibilidade de o cenário ser efectivamente melhor, dado que o Governo tende a fazer estimativas por defeito, no que diz respeito às receitas e despesas. O orçamento volta também a prever a isenção de pagamento de imposto profissional, até 30 por cento do valor anual, limitado a 144 mil patacas.

19 Dez 2025

UCM | Livro Branco sugere métodos para acelerar diversificação económica

O “Livro Branco sobre a Cooperação Científica e Tecnológica entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, produzido na Universidade Cidade de Macau, refere desigualdades no relacionamento entre países e conclui que “a diversificação económica tem avançado a um ritmo lento”. Bárbara Morais, redactora principal do documento, explica as principais conclusões da análise

Foi lançado, no passado dia 3 de Dezembro, um Livro Branco que traça um olhar e análise à forma como a cooperação nas áreas científicas e tecnológica entre a China, Macau e os países de língua portuguesa tem decorrido, traçando algumas críticas, não apenas neste tema, mas também no rumo económico que a RAEM está a tomar.

O documento, intitulado “Livro Branco sobre a Cooperação Científica e Tecnológica entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, foi produzido pela Universidade Cidade de Macau (UCM) e teve Bárbara Morais, aluna de doutoramento da instituição, como redactora principal.

Esta descreve, em entrevista ao HM, que, em Macau, “a diversificação económica tem avançado a um ritmo mais lento do que o desejado, mantendo a economia estruturalmente dependente do jogo e do turismo”.

“A mensagem central do Livro Branco é clara: Macau precisa de acelerar a transição para funções de maior valor acrescentado. No entanto, o contexto actual oferece uma janela de oportunidade renovada. Com o apoio da Grande Baía e, muito especificamente, da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin, Macau dispõe agora de novas oportunidades estruturais para recuperar o ritmo perdido e reposicionar-se, não apenas como uma ponte cultural, mas como uma verdadeira plataforma de inovação”, é referido.

Ainda sobre o território, mas a propósito do Fórum Macau, é referido o “sucesso na institucionalização do diálogo político”, mas o Livro Branco “aponta o dedo à insuficiência dos mecanismos de execução”. “Para agilizar o papel do Fórum e transformá-lo numa ferramenta de resultados tangíveis, o Livro Branco preconiza uma mudança de paradigma: é necessário passar das declarações de intenções para a tecnicidade”, descreve Bárbara Morais. A doutoranda sugere “a criação de grupos técnicos de trabalho especializados, sobretudo na esfera tecnológica, e a definição rigorosa de indicadores de desempenho, como o número de patentes registadas, startups criadas ou projectos de investigação conjuntos”.

“Paralelamente, sugere-se o estabelecimento de uma agenda comum focada em áreas de futuro, como a energia verde, a saúde, a economia do mar e a inteligência artificial, sujeita a uma avaliação periódica de progressos”, disse ainda.

O lugar da arbitragem

Tendo em conta estes parcos desenvolvimentos, o Livro Branco sugere que Macau se afirme “como centro de arbitragem tecnológica e governação de propriedade intelectual”.

O HM questionou Bárbara Morais sobre o que deve ser feito em termos efectivos, tendo em conta a existência, há vários anos, de um centro de arbitragem, e de ser um tópico na agenda política do território há muito tempo. A aluna de doutoramento destaca que “para que estas ideias, debatidas há anos, deixem de ser retórica e passem a realidade, a RAEM necessita de criar um quadro legal especializado em litígios tecnológicos alinhado com os padrões internacionais mais exigentes”.

“É fundamental atrair peritos e árbitros internacionais através de incentivos competitivos e estabelecer um centro de arbitragem que goze de reconhecimento tanto nos países lusófonos como na Grande Baía. O objectivo é desenvolver serviços de mediação, certificação e gestão de activos de propriedade intelectual, posicionando Macau como um ‘porto seguro’, neutro e eficiente, para a resolução de disputas tecnológicas internacionais”, acrescentou.

Cooperação desigual

Em termos globais, e no que diz respeito à cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP), o Livro Branco refere o “planeamento de topo” por parte de Pequim para a cooperação nas universidades e em investigação científica. Porém, o planeamento “não se traduz, linearmente, em mecanismos de execução igualmente eficazes no terreno, nem garante resultados homogéneos entre os nove países lusófonos”.

O planeamento implica “directrizes claras, prioridades definidas e instrumentos diplomáticos mobilizados para orientar esta cooperação”, com políticas como “Made in China 2025” ou a “Rota Digital da Seda”, que “integram a cooperação tecnológica com os PLP na própria medula da política externa e de inovação nacional chinesa”, destaca a autora.

Porém, verificam-se “desigualdades, que são, porventura, o traço mais marcante desta relação”, conforme explica Bárbara Morais. “O cenário actual revela uma profunda assimetria, caracterizada por uma ‘bicefalia’ na cooperação. (…) As principais capacidades científicas, a infra-estrutura tecnológica robusta e o volume de cooperação efectiva estão esmagadoramente concentrados em Portugal e no Brasil”. Pelo contrário, “os países africanos de língua portuguesa (PALOP) e Timor-Leste apresentam uma participação significativamente menor”.

Segundo Bárbara Morais, a “disparidade não decorre de falta de vontade política, mas sim de limitações estruturais de financiamento, escassez de recursos humanos qualificados e fragilidade das instituições de investigação locais”. Verifica-se, assim, “uma cooperação a duas velocidades, muito assimétrica dentro da própria comunidade lusófona”.

O Livro Branco realça a “encruzilhada histórica” em relação à cooperação entre a China e os PLP, o que significa “a urgente necessidade de passar do potencial à concretização” nesta matéria.

“Existem visões ambiciosas e planos estratégicos, mas os resultados práticos permanecem aquém do possível. Para resolver esta encruzilhada, o caminho proposto passa por fortalecer mecanismos de execução, investir massivamente em talento e educação técnico-científica, criar ecossistemas de inovação colaborativa genuína entre a China, Macau e os PLP, e, acima de tudo, ter a coragem de medir resultados e reformular estratégias com base na evidência empírica, abandonando o discurso de circunstância em favor do pragmatismo económico e científico.”

Lacunas em África

Outra das conclusões do Livro Branco é a “tenuidade” das ligações académicas com o continente africano, que Bárbara Morais descreve como “cenário de fragilidade”. “Há uma tríade de factores: a escassez de capacidade científica instalada, a falta crónica de financiamento e programas de mobilidade consistentes”, sem esquecer “a ausência de estruturas estáveis de investigação conjunta”.

“Para colmatar este fosso e criar uma massa crítica duradoura, o Livro Branco não se limita ao diagnóstico, sugerindo medidas concretas como o reforço robusto de bolsas de investigação, a criação de programas de doutoramento conjunto, a implementação de laboratórios colaborativos e o desenho de mecanismos de mobilidade académica especificamente orientados para a realidade africana”, acrescenta.

O documento fala ainda do impacto negativo das “assimetrias geopolíticas”, tal como as “restrições tecnológicas da União Europeia e NATO a Portugal”. Segundo referiu Bárbara Morais, estão em causa “impactos reais e restritivos”. “Estas limitações condicionam a participação de Portugal e, por extensão, de outros actores lusófonos que cooperam em rede com Lisboa, em projectos de alta tecnologia que envolvam a China. O impacto é particularmente sensível em áreas nevrálgicas como as telecomunicações 5G, a defesa, a inteligência artificial e a ciber-segurança, criando barreiras que exigem uma navegação diplomática complexa.”

Novas estratégias

O Livro Branco foi desenvolvido no Instituto de Investigação sobre os Países de Língua Portuguesa da UCM, e redigido por Bárbara Morais com a participação do académico João Simões. O projecto baseia-se na revisão de literatura académica sobre o tema e ainda nos resultados do “Seminário do Lançamento da Cooperação Tecnológica”, realizado a 22 de Julho de 2025 na UCM.

A obra analisa áreas como a “evolução estratégica”, “mecanismos institucionais”, “marcos tecnológicos” e “desafios estruturais”, pretendendo “fornecer estratégias baseadas em evidências para transformar o potencial da parceria China-PLP numa realidade concreta, criando um novo modelo de cooperação tecnológica para o Sul Global”, refere um comunicado da UCM.

18 Dez 2025

Austrália | Doze mortos em ataque durante festa judaica

Pelo menos doze pessoas morreram e muitos feridos foram ontem transportados para os hospitais de Sydney, depois de um ataque com tiros na praia australiana de Bondi, quando se realizava uma festa judaica. “Há duas pessoas sob custódia policial na praia de Bondi”, informou a Polícia do estado de Nova Gales do Sul na sua conta no X, que pede “à população que evite a área”.

Citando fontes policiais, a agência de notícias AFP refere que o ataque causou dez mortos. O serviço de ambulâncias de Nova Gales do Sul confirmou à televisão ABC que, pelo menos 16 pessoas foram transportadas para seis centros hospitalares da região.

Várias testemunhas referem que se trata de um ataque a tiros protagonizado por um número ainda indeterminado de pessoas armadas, mas as autoridades também não confirmaram essa informação. Um turista britânico disse à agência francesa de notícias AFP que viu “dois atiradores vestidos de preto e armados com espingardas semiautomáticas”.

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, já emitiu um comunicado lamentando as “cenas chocantes e angustiantes” que estão a chegar de Bondi e confirmou a existência de feridos.

Parte da praia era palco de uma celebração da festa judaica de Hanukkah, que começou ontem e, embora as autoridades australianas ainda não tenham feito qualquer conexão com o incidente, o Presidente de Israel, Isaac Herzog, denunciou o que classificou como “vil ataque terrorista contra os judeus que estavam a acender as primeiras velas” da festa religiosa.

“O nosso coração está com eles. O coração de toda a nação de Israel bate forte neste preciso momento, enquanto rezamos pela recuperação dos feridos, rezamos por eles e rezamos por aqueles que perderam a vida”, afirmou num comunicado oficial.

15 Dez 2025

Crime | Governo não divulga dados sobre suicídios e tentativas

Depois de os Serviços de Saúde, também a tutela da Segurança deixou de divulgar os dados de suicídio e tentativas, ao fim de dez anos de publicação. A ausência foi notada na divulgação dos dados da criminalidade relativos aos meses de Janeiro a Setembro deste ano, que mostram o aumento de abusos sexuais de menores para quase o dobro

 

O Governo deixou de divulgar os dados sobre os casos de suicídio ocorridos em Macau, assim como as tentativas. A ausência destes números foi notada pelo jornal Cheng Pou aquando da divulgação na sexta-feira dos dados da criminalidade entre os meses de Janeiro e Setembro deste ano.

A publicação questiona mesmo se “os dados sobre o suicídio se tornaram ‘no segredo que não se pode dizer’ das autoridades, empenhadas em construir uma Macau feliz”, lembrando ainda que estes dados começaram a ser divulgados em 2015. Destaque para o facto de os Serviços de Saúde também terem deixado de divulgar a estatística, algo que era feito a cada três meses. No caso da secretaria para a Segurança, os dados eram mensais e era feita a discriminação por sexo, grupo etária e métodos utilizados.

A ausência de números surge depois de Macau ter batido os recordes em termos de casos de suicídio em 2024, registando 90 mortes, mais 2,27 por cento em relação aos casos de 2023. Face a 2022, o aumento foi de 12,5 por cento. Dos 90 casos, 48 diziam respeito a vítimas do sexo masculino e 42 feminino, com idades compreendidas entre 12 e 76 anos. Os dados mais recentes, relativos ao primeiro semestre deste ano, revelam 41 mortes por suicídio e 101 tentativas.

Na divulgação das estatísticas de crime, na sexta-feira, surge apenas um caso de morte por suicídio em relação a um episódio de homicídio entre irmãos, ocorrido em Agosto deste ano, na zona norte. Aqui, o irmão mais velho terá saltado da varanda, sendo suspeito de ter morto o irmão mais novo devido a disputas financeiras.

Quebra no crime

Olhando para o panorama da criminalidade em termos gerais, regista-se uma queda de 7,1 por cento nos meses em análise, em comparação com o mesmo período do ano passado. As autoridades do território sublinharam a queda acentuada dos delitos informáticos. O secretário para a Segurança, Chan Tsz King, disse que a quebra se deve à “tendência de diminuição” dos “crimes que despertam mais atenção da sociedade”, incluindo criminalidade violenta grave, furto, roubo, burla e crimes informáticos.

Nos primeiros nove meses do ano, foram contabilizados 187 crimes violentos, o que traduz uma queda de 11 por cento face ao período homólogo de 2024 (210). Já os furtos, roubos, burlas caíram 7,7, 5,9 e 23,6 por cento, respectivamente. A criminalidade informática, que contou nos nove primeiros meses de 2024 com 770 casos, apresentou no período em análise uma descida de 52,1 por cento, com 369 casos.

A descida nos casos das burlas com recurso às telecomunicações, burlas cibernéticas e burlas informática, referiu Chan Tsz King, “reflecte a eficácia dos trabalhos de prevenção e combate desenvolvidos pela polícia, e o aumento significativo da consciência do público sobre a prevenção de burla”, disse.

O Governo sinalizou também que a criminalidade relacionada com jogo ilícito disparou entre Janeiro e Setembro deste ano 985 por cento, com mais 394 casos em relação ao mesmo período de 2024. A subida deve-se à entrada em vigor, em Outubro do ano passado, da lei de combate aos crimes de jogo ilícito, que introduziu “o novo crime de ‘exploração de câmbio ilícito para jogo’ e alargou o âmbito de cobertura de alguns crimes conexos com o jogo ilícito”.

Pela mesma razão, disse o secretário, dispararam nos três primeiros trimestres de 2025 os crimes relacionados com o jogo – 1.737 casos, mais 70,1 por cento do que no período homólogo. No passado, referiu o responsável, burlas cometidas por pessoas que trocam ilegalmente dinheiro fora dos casinos “não podiam ser identificadas como relacionadas com o jogo”. “No entanto, com a criminalização da ‘troca ilegal de dinheiro’ e o aperfeiçoamento das disposições legais”, estes casos “são agora incluídos nas estatísticas de crimes de jogo, aumentando assim o número de crimes”, indicou.

Mais abusos de menores

Chan Tsz King, que entrou em funções em Outubro e apresentou na sexta-feira pela primeira vez o balanço da criminalidade, referiu ainda uma subida de 6,1 por cento dos crimes contra a pessoa, com o abuso sexual de crianças a aumentar 86,7 por cento, de 15 casos nos primeiros nove meses de 2024 para 28 casos no mesmo período deste ano.

O secretário explicou que se tratam, essencialmente, de “actos sexuais voluntários entre pessoas da mesma idade”, ocorrendo ainda a “transmissão de fotografias e imagens pornográficas”, sem esquecer casos de “importunações sexuais de gravidade menor”.

Foram ainda “identificados casos que envolveram pessoas com relações familiares, o que merece a atenção da sociedade”, referiu Chan Tsz King, que divulgou os dados das acções de sensibilização para este problema: mais de 70 actividades realizadas pela polícia, que contaram com a participação de mais de 12.000 pessoas, incluindo alunos, encarregados de educação e pessoal docente.

O tráfico e venda de drogas e o consumo de estupefacientes registaram, por sua vez, um aumento de 37,1 por cento, com mais 13 casos, e 72,7 por cento, mais oito casos, respectivamente. Segundo a apresentação do secretário, os 48 casos registados nos três trimestres e o respectivo aumento deve-se “à descoberta de vários casos de tráfico transfronteiriço de droga através do reforço da cooperação policial interna e externa”, destacando-se um caso ocorrido em Setembro, quando foram apreendidos 31 quilos de flor de canábis no valor de 31,77 milhões de patacas. Chan Tsz King referiu que este foi “o maior caso de contrabando de canábis apreendido na história de Macau”.

Entre paredes

No caso do crime de violação, assistiu-se a um recuo do número crimes de violação, para um total de 24 casos, menos 40 por cento do que no mesmo período do ano anterior.

O secretário para a Segurança adiantou que “mais de 70 por cento das vítimas não eram residentes de Macau”, sendo que “a maioria destes crimes ocorreu em quartos de hotel”, enquanto “uma parte destes envolveram conflitos pecuniários entre as vítimas e os suspeitos, não sendo de afastar a hipótese de que alguns dos casos tenham ocorrido num contexto de transacção sexual”.

Neste contexto, o secretário esclareceu que as autoridades policiais têm estado “em comunicação estreita com o sector hoteleiro”, tendo sido reforçados “os dispositivos policiais e inspecções nas zonas periféricas de hotéis e casinos”. Entre Janeiro e Setembro foram realizadas mais de 160 acções policiais de combate à prostituição, tendo sido interceptadas 192 pessoas suspeitas da prática de actividade de prostituição.

Além disso, no período em causa foram resolvidos 17 casos da prática dos crimes de lenocínio ou de exploração de prostituição, com a detenção de 26 suspeitos.

Silêncio de sempre

Questionado pela Lusa durante a conferência de imprensa sobre o primeiro caso a ser investigado em Macau no âmbito da segurança nacional, o secretário não fez comentários. “O caso (…) está a ser tratado pelas entidades judiciais e, devido ao sigilo, não seria adequado ao secretário da Segurança comentar”, completou Chan Tsz King, que era Procurador do Ministério Público quando o ex-deputado Au Kam San foi detido.

A polícia do território anunciou, no final de Julho, a detenção de Au Kam San, a primeira ao abrigo da lei de defesa da segurança do Estado, que entrou em vigor em 2009, tendo o âmbito sido alargado 14 anos depois. Ainda não é conhecida a acusação e não há informações sobre quem vai defender o ex-deputado. Com Lusa

15 Dez 2025

UE | Nova meta para reduzir 90% de poluentes até 2040

Os eurodeputados e países da União Europeia (UE) chegaram ontem a um acordo sobre uma meta para reduzir 90 por cento das emissões poluentes até 2040, com vista à neutralidade carbónica em 2050, prevendo-se, porém, novas formas de flexibilidade.

“Os colegisladores acordaram numa meta de redução de 90 por cento das emissões de gases com efeito de estufa até 2040, face aos níveis de 1990, com o objectivo de alcançar a neutralidade climática da UE até 2050”, é anunciado em comunicado divulgado em Bruxelas.

Depois de várias horas de negociações, o Parlamento Europeu e o Conselho chegaram assim, esta madrugada, a um acordo político provisório (que terá de ser confirmado por ambos) sobre uma emenda à Lei do Clima da UE, estabelecendo uma nova meta intermédia e vinculativa para 2040, a de reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em 90 por cento em comparação com os níveis de 1990.

Ainda assim, eurodeputados e países concordaram em introduzir novas formas de flexibilidade para cumprir a meta de 2040, “acreditando que a transição verde e a competitividade europeia devem avançar lado a lado”, segundo refere a nota.

Em análise

Em concreto, a partir de 2036, até cinco pontos percentuais da redução de emissões (mais dois do que a proposta inicial da Comissão) poderão advir de créditos internacionais de carbono de elevada qualidade, compatíveis com o Acordo de Paris. No caso de Portugal, por exemplo, isto significa que projectos sustentáveis em países como os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) possam contar para a meta portuguesa.

“Graças à insistência do Parlamento, foram integradas salvaguardas adicionais, incluindo a proibição de financiar projectos em países parceiros que contrariem os interesses estratégicos da União”, assinala a assembleia europeia. Cabe à Comissão Europeia analisar diferentes opções para o papel dos créditos internacionais na futura legislação climática da UE para alcançar a meta de 2040.

Além disso, o executivo comunitário avaliará os progressos a cada dois anos, considerando os dados científicos mais recentes, os avanços tecnológicos e a competitividade internacional da UE.

“A revisão analisará a situação das remoções líquidas a nível europeu, comparando-a com o necessário para cumprir a meta de 2040, bem como eventuais dificuldades de implementação e o potencial para reforçar a competitividade industrial da UE. Serão também consideradas as tendências nos preços da energia e respectivos impactos em empresas e famílias”, de acordo com o Parlamento Europeu.

Tal permitirá a Bruxelas modificar a meta de 2040 ou adoptar medidas adicionais para reforçar o quadro de apoio, por exemplo para proteger a competitividade, a prosperidade e a estabilidade social da UE.

O Parlamento votará agora o acordo informal e o Conselho terá igualmente de o aprovar, com o texto a entrar em vigor 20 dias após a sua publicação no Jornal Oficial da União Europeia. A Lei Europeia do Clima torna juridicamente vinculativo o esforço de cada país para reduzir as suas emissões poluentes.

11 Dez 2025

Europa | Merz considera inaceitáveis pontos da geostratégia de Trump

O chefe do governo federal alemão, Friedrich Merz, declarou ontem que há certos pontos inaceitáveis no documento sobre Defesa e geostratégia da Administração norte-americana liderada por Donald Trump, na perspectiva europeia. “Não vejo qualquer necessidade de os americanos quererem salvar a Democracia na Europa”, disse, em visita à Renânia-Palatinado (estado a sudoeste), que alberga várias bases militares dos Estados Unidos da América (EUA).

Num documento estratégico sobre segurança nacional dos EUA, divulgado na passada semana, lê-se um alerta para o perigo de “extinção civilizacional” da Europa, caso se mantenham as “tendências actuais”, “Se as tendências actuais continuarem, o continente [Europa] vai ficar irreconhecível dentro de 20 anos ou menos”, lê-se no documento de 33 páginas, no qual é defendida a “restauração da supremacia” dos EUA na América Latina.

Trump, no prefácio, resume: “pomos a América em primeiro lugar em tudo o que fazemos”. “É mais do que plausível que, em poucas décadas, no máximo, os membros da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte, na sigla inglesa) se tornem predominantemente não europeus”, escreveu, acrescentando que “é legítimo questionar se eles perceberão o seu lugar no Mundo ou sua aliança com os EUA, da mesma forma que aqueles que assinaram a carta da organização”.

A Casa Branca lamenta decisões europeias que “minam a liberdade política e a soberania, as políticas migratórias que estão a transformar o continente [Europa] e a criar tensões, assim como a censura à liberdade de expressão e a repressão à oposição política, a queda nas taxas de natalidade e a perda de identidades nacionais (…)”.

Washington manifesta desejo de que “a Europa permaneça europeia, recupere sua autoconfiança civilizacional e abandone sua obsessão infrutífera com o sufoco regulatório”.

10 Dez 2025

Timor-Leste | Recordações da vida de um homem reflectem a resistência de um povo

O livro “Regresso a Uaidora, a infância e juventude de Domingos Gusmão” relata os testemunhos do timorense sobre os anos da resistência de Timor-Leste à ocupação indonésia. O testemunho foi escrito em Macau pelo ex-residente e professor universitário Duarte Trigueiros. 50 anos depois da ocupação, o autor recordou ao HM a obra lançada em 2022

Este ano tem sido marcado pelas celebrações de aniversários dos 50 anos de independências de muitas antigas colónias portuguesas. Timor-Leste foi a um desses territórios. Porém, logo a seguir à proclamação unilateral da independência, em 28 de Novembro de 1975, seguiu-se um período de confronto que culminou com a ocupação indonésia, a 7 de Dezembro do mesmo ano.

Este domingo passaram 50 anos da invasão que marcou o destino do jovem país. A propósito dessa data, saiu, em 2022, o livro “Regresso a Uaidora, a infância e juventude de Domingos Gusmão”, que revela a história do timorense, que foi estudante em Macau e aluno do autor Duarte Trigueiros, ex-economista e professor na Universidade de São José. O HM falou com o autor sobre o reflexo da dor e luta pela autodeterminação de um povo que se vislumbra na vida de um homem e da sua família.

“Quando ensinava em Macau recolhi o testemunho desse timorense de Baucau. Domingos Gusmão, sabendo que tinha ensinado na Universidade Nacional de Timor-Leste durante vários anos, contou-me como ele e a sua família viveram todos esses terríveis acontecimentos”.

Nasceu assim o livro, sendo que Trigueiros foi meramente relator do testemunho, depois corrigido em parceria com Domingos Gusmão. A obra tem apenas versão online, mas na altura do lançamento contou com o apoio da Fundação Oriente na impressão de alguns exemplares.

Matebian, Timor-Leste

O contacto de Duarte Trigueiros, que viveu vários anos em Macau, com Domingos Gusmão deu-se na Festa da Lusofonia, em 2015. “Fui à barraca de Timor-Leste e ele disse-me que tinha coisas interessantes para me contar, mas que não conseguia falar bem português, e que gostava de deixar o seu testemunho escrito. A dada altura propus fazer-lhe perguntas a partir da sua infância, como era a vida na aldeia, e assim nasceu o livro, com nove capítulos.”

O início da obra descreve, “pelos olhos de uma criança, o dia-a-dia dos agricultores das montanhas de Baucau em Timor-Leste, a determinação como reagiram à invasão do seu país em 1975 e a brutal repressão que se seguiu”. “O livro acompanha não apenas a vida dele, mas também da família e dos poucos que restaram. Acabou por não restar praticamente ninguém”, descreve Duarte Trigueiros.

Segundo a obra, Domingos Gusmão terá nascido a 1 de Novembro de 1969 na aldeia de Uaidora, pertencente ao município de Baucau, filho de Julião, agricultor, e Juliana, doméstica. “Mas só o local onde nasci está correcto. A data de nascimento não passa de uma conjectura e os nomes que aparecem na certidão como sendo os meus pais, Julião e Juliana, também não são os de meu verdadeiro pai e mãe, mas de parentes que me adoptaram quando fiquei órfão. Na verdade, sou filho de Martinho Gusmão, cujo nome de código foi ‘Maunoco’ e era o chefe da aldeia Uaidora até à sua morte em 1983; e a minha mãe foi Ricardina, a segunda mulher de Martinho Gusmão, aquela que lhe deu descendência.” Assim começa a história de Domingos.

A ida para Baucau

A obra relata anos muito difíceis, de fugas de milhares de timorenses para o mato para escapar aos indonésios, organizando a luta armada. Um dos capítulos, destaca Duarte Trigueiros, relata como Domingos e familiares “foram deportados e ficaram sem qualquer tipo de apoio, sem médico ou comida. “Morreu uma quantidade enorme de gente nessa altura, até inícios dos anos 80, e eles [a família de Domingos Gusmão], já no sítio onde estavam a cultivar a terra, começaram a ter frutos da terra, e a enviar crianças para a escola. Este rapaz [Domingos Gusmão], durante esse tempo, começou a preparar-se para ir para Baucau estudar, algo que não era fácil, pois era preciso arranjar um lugar, e havia muitas crianças.”

Domingos e Xanana Gusmão

É aí que a família decide sair da aldeia e ir para Baucau, encontrando empregos “ao serviço da tropa, dos juízes, enfermeiros e médicos”, que lhes valeram os primeiros contactos com a resistência timorense.

“Ele [Domingos Gusmão] começou a organizar aquilo a que chamam uma frente clandestina com os colegas. O livro relata todas essas peripécias que revelam, claramente, como funcionava a resistência. Este rapaz sentiu depois vontade de continuar os estudos e fez uma candidatura a um seminário católico”, lembrou Duarte Trigueiros.

A ligação à religião católica não era um acaso. “O propósito era ir para fora, porque a única coisa que os indonésios respeitavam realmente era a Igreja Católica, não respeitavam mais nada. E ele foi-se embora, esteve uma quantidade de anos a formar-se. Esteve nas Filipinas, onde também participou em actividades da resistência, e voltou já feito padre, em 2012.”

Escrever este livro importava para Domingos Gusmão pois ele “queria referir os nomes dos comandantes [timorenses] da primeira fase, quando a tropa indonésia entrou por Baucau, para o interior, e houve uma quantidade grande de comandantes da resistência que se opuseram, quase sem armas, e foram mortos”. “Quando me falou desse assunto, insistiu muito, disse-me ‘Escreve aí o nome do comandante tal’. Tudo para os nomes não caírem no esquecimento”, recordou.

“O que ele me disse é que hoje em dia, em Timor-Leste, as pessoas estão a compensar os membros da resistência que estão vivos, mas há muitos mortos que deram a vida por isso e estão a ser esquecidos. Mas este livro fala também de tudo a nível pessoal, do que aconteceu ao tio, de como o pai morreu nessa fase, atirado ao chão, com uma coronhada, com pontapés, porque se recusou a aceitar uma ordem e atiraram-no ao chão. Ele era chefe da aldeia e tinha de aceitar a ordem [dos indonésios], mas recusou”, frisou Duarte Trigueiros.

Para o autor, a obra conta “uma versão mais verdadeira” daquilo que foi a ocupação indonésia, e muito concretamente sobre as experiências da povoação de Uaidora e do interior do país.

No livro, lê-se o testemunho de Domingos sobre esta fase de resistência em Baucau, a partir de 1986. “Eu devo o meu alistamento na resistência às frentes clandestinas e também ao meu colega Domingos de Oliveira. (…) Poucas semanas depois, a 16 ou 17 de Setembro de 1991, celebrava-se o centenário da catedral de Díli e os jovens foram convidados a participar. De Baucau partiram 14 camionetas cheias de adolescentes e eu era um deles. No dia seguinte, durante o regresso, apareceram bandeiras da FRETILIN e todos nós cantámos hinos à independência.

Ao passarmos em Manatuto a tropa mandou-nos parar, mas depois disseram-nos para seguirmos; e já à entrada de Baucau, antes do aeroporto, a estrada encontrava-se bloqueada e fomos cercados por um forte dispositivo militar. Só carros de assalto eram três!”

Gusmão prossegue o relato deste momento tenso. “Depois de nos terem assim encurralado, a tropa, com os carros de assalto do lado direito, ocupou o lado esquerdo. As 14 camionetas ficaram alinhadas com o dispositivo militar, o qual tinha as armas em posição, prontas a disparar. Eram como um pelotão de fuzilamento muito comprido. Ali ficámos, com todas aquelas armas apontadas para nós, em silêncio enquanto o tempo decorria e nada acontecia.”

Apoio de portugueses

Duarte Trigueiros e Domingos Gusmão foram mantendo contacto, mas um AVC tirou qualidade de vida ao timorense. “Quase não me responde aos emails. Talvez tenha outra visão da vida”, confessa o autor.

Outra perspectiva que a obra dá, segundo Trigueiros, é o posicionamento das autoridades portuguesas nos anos da ocupação indonésia, afastando a ideia de que tenha havido abandono depois da independência. “Limito-me a mostrar aquilo que o Domingos me disse, e ele disse-me que muitos dos comandantes da resistência tinham sido militares portugueses e que, por isso, sabiam manejar armas. Disse-me, além disso, que eram extremamente patriotas. Há o relato de que nos anos 90 tentaram conseguir de Portugal um telefone satélite para entregar à resistência, e há referências ao apoio da Embaixada de Portugal em Manila. Acho que ficámos bem na fotografia”, conclui.

Duarte Trigueiros deu aulas em Timor entre 2004 e 2009, onde encontrou um ensino superior muito fraco. “Os alunos praticamente não sabiam português e nós tínhamos de ensinar em português. Só isso já era um grande esforço. Em geral, os alunos eram fracos, estavam muito mal preparados. A preparação [educativa] dos indonésios tinha sido de baixo nível, pois havia discriminação dos alunos por serem timorenses. O livro descreve isso, como só os bons alunos tinham direito a subir, digamos assim, e isso nem sequer significava ir para a universidade.”

Ainda assim, Duarte Trigueiros destaca a formação “de uma boa quantidade de pessoas, engenheiros, licenciados em Direito, economistas”. “Deu muito trabalho e esse foi o grande apoio que Portugal conseguiu dar”, acrescentou.

Hoje, o ex-economista diz que os timorenses olham para os portugueses com imensa gratidão. “É espantoso, pois quando vamos numa rua com um australiano, eles desprezam o australiano e não falam com ele, mas com o português cobrem-no com todo o tipo de carinho. Isso acontece muitíssimo em Timor-Leste”, rematou.

9 Dez 2025

Evolução | Genomas africanos apontam origens da espécie humana

O Homo sapiens existe há pelo menos 300 mil anos, mas a sua origem exacta permanece desconhecida e um novo estudo afastou a hipótese de que este evoluiu na África Oriental e se expandiu para sul. O estudo, baseado na análise de genomas antigos de pessoas que viveram desde a Idade da Pedra – há 10.200 anos – até há 150 anos no sul de África, defende que um grupo de indivíduos viveu em isolamento parcial durante várias centenas de milhares de anos.

Ao analisar os seus genomas, os investigadores encontraram adaptações genéticas que provavelmente moldaram o H. sapiens enquanto espécie. Os detalhes do estudo – o mais abrangente até à data sobre o ADN africano antigo – conduzido por investigadores da Universidade de Uppsala (Suécia) e da Universidade de Joanesburgo, foram publicados na quarta-feira na revista “Nature”, noticiou a agência Efe.

“Há muito que sabemos que a África Austral era habitada (…). Podemos agora demonstrar que o Homo sapiens existiu e evoluiu na África Austral durante um longo período e que esta região desempenhou um papel significativo na evolução humana, talvez o mais importante de todos”, realçou Mattias Jakobsson, geneticista da Universidade de Uppsala e principal autor do estudo.

A equipa analisou os genomas antigos de 28 indivíduos da África Austral e comparou-os com os dos seus contemporâneos de outras partes do mundo. Descobriram que os habitantes da Idade da Pedra da África Austral viveram isolados durante um longo período.

“Este grupo parece ter permanecido geneticamente isolado durante pelo menos 200 mil anos, e só há cerca de 1.400 anos começam a surgir vestígios claros de fluxo genético dentro deste grupo, quando o ADN de indivíduos da África Oriental e Ocidental começa a aparecer em indivíduos da África Austral”, explicou Jakobsson.

Embora nenhum novo grupo tenha migrado para a África Austral antes de há cerca de 1.400 anos, os dados genéticos sugerem que os membros da população do sul migraram para norte durante determinados períodos climáticos. De facto, material genético — datado de há cerca de 8.000 anos — desta população do sul foi encontrado em indivíduos do actual Malawi, sendo possível que as migrações do sul também tenham ocorrido anteriormente.

Técnicas e variações

Uma grande parte dos restos humanos analisados foi encontrada no Abrigo Rochoso do Rio Matjes (África do Sul), um sítio arqueológico com vestígios datados de há aproximadamente 10.000 a 1.500 anos. Este sítio revelou ainda ferramentas distintas de cada período histórico, confeccionadas com diferentes técnicas.

No entanto, os indivíduos são geneticamente praticamente idênticos ao longo de todo o período, ou seja, não há evidências de imigração ou de troca populacional, “exactamente o oposto do que aconteceu na Europa, onde as mudanças culturais tendem a coincidir com as migrações populacionais”, analisou Jakobsson.

No estudo, os investigadores identificaram 79 variantes de ADN exclusivas do Homo sapiens, distintas das que se encontram nos neandertais, denisovanos, chimpanzés e gorilas. Sete destas variantes, relacionadas com a função renal, estavam “claramente sobre-representadas”.

Os autores acreditam que estas variantes estão ligadas à capacidade humana única de arrefecer o corpo através do suor, o que requer uma boa capacidade de regular o equilíbrio hídrico do organismo. Encontraram também variantes envolvidas no sistema imunitário e no crescimento neuronal. Mais de 40 por cento destas variantes estão associadas a neurónios e ao crescimento cerebral, sugerindo um papel na evolução cognitiva.

Além disso, vários genes foram ligados à atenção, uma capacidade mental que pode ter evoluído de forma diferente no Homo sapiens em comparação com os neandertais e os denisovanos.

5 Dez 2025

Incêndio em Hong Kong | Equacionado futuro dos andaimes de bambu

O incêndio em Tai Po gerou um debate em torno dos andaimes em bambu, uma tradição que já corria riscos de extinção devido à falta de novos trabalhadores especializados. O arquitecto Nuno Soares acredita que, antes de se questionar a segurança do bambu, é preciso reforçar a fiscalização do uso ilegal de materiais inflamáveis

Pode uma indústria já de si em risco de extinção desaparecer mais rapidamente do que se julgava, devido ao trágico incêndio de Hong Kong? A questão tem-se levantado desde que, na passada semana, um grande incêndio num complexo residencial em obras, na zona de Tai Po, resultou em, pelo menos, 159 mortos, segundo o balanço mais recente.

Os arranha-céus tinham andaimes em bambu e outros materiais inflamáveis usados no processo de construção. Na sexta-feira, as autoridades de Hong Kong concluíram que o incêndio foi agravado devido aos andaimes de bambu e painéis de isolamento de espuma inflamáveis. Além disso, o chefe dos bombeiros de Hong Kong, Andy Yeung, corroborou o que muitos testemunhos entrevistados pela AFP afirmaram. “Constatámos que os sistemas de alarme nos oito edifícios não estavam a funcionar correctamente”, afirmou.

Segundo noticiou a agência Lusa, o relatório, ainda de peritagem preliminar, concluiu que os materiais utilizados em obras contribuíram para que as temperaturas fossem mais elevadas.

“Com base nas informações iniciais que temos, acreditamos que o fogo começou na tela de protecção (material de plástico para proteger contra propagação de pós e queda de objectos) localizada na parte externa dos andares inferiores (…), e subiu rapidamente devido aos painéis”, que protegiam as janelas, disse o chefe de segurança da região administrativa especial vizinha, Chris Tang.

Ao HM, o arquitecto Nuno Soares, ligado ao estudo da construção em bambu, e que tem lutado pela sua preservação, considera que antes de se apontarem culpas ao material, é preciso reforçar a fiscalização dos estaleiros.

“Sabemos que o bambu é de difícil ignição. Ou seja, o bambu arde, mas é difícil de arder e, quando o faz, a combustão é lenta, e é fácil combater [um eventual incêndio]. Agora quando existe uma rede à volta, que não é à prova de incêndios, tudo incendeia muito rapidamente, não é? Já há dados conhecidos [do incidente], e sabemos que os andaimes eram, efectivamente, de bambu, mas existia uma rede de plástico à volta que não era à prova de incêndios, além do uso de esferovite para tapar as janelas, que é um material altamente inflamável”, destacou.

Nuno Soares referiu ainda a ocorrência, em Tai Po, “de problemas com o sistema de detecção e combate aos incêndios no próprio edifício, feito nos anos 80, e que já estava desactualizado”. “Também são conhecidos vários problemas na fiscalização, e com os dados que temos não conseguimos concluir, de forma sumária, que o bambu foi o fio condutor desta situação, e temos de ser rigorosos nesse tipo de análise”, acrescentou.

Desta forma, Nuno Soares considera que é preciso cautela e não entrar em análises simplistas ou precipitados. “Não podemos, com os dados que temos neste momento, dizer que o bambu não tem responsabilidade nenhuma”. “Se existisse aquela rede de nylon em volta de andaimes de metal teria acontecido uma situação muito semelhante, porque a propagação do incêndio se faria por essa rede e depois através da esferovite das janelas. Os regulamentos de segurança contra incêndios já são bastante rigorosos em Macau e Hong Kong, mas onde acho que há campo para melhorar, é na fiscalização”, disse.

Uma questão material

O jornal Global Times escreveu na segunda-feira sobre as dificuldades que existem em acabar, em pouco tempo, com a construção de andaimes em bambu. Num artigo intitulado “Tradição sob fogo”, lê-se que “alguns defensores argumentam que os andaimes em bambu, como técnica tradicional de construção, são de baixo custo, flexíveis de montar e desmontar, e especialmente adequados aos espaços apertados dos bairros urbanos antigos”, existindo “vozes contrárias que se focam nos riscos de segurança”.

Citado pelo mesmo jornal, Lee Kwong-sing, presidente do Instituto de Profissionais de Segurança de Hong Kong, referiu que, dado as informações disponíveis, “os materiais inflamáveis nas paredes externas incendiaram as redes de segurança, e não o bambu em si”. Demonstrando uma posição semelhante a Nuno Soares, o responsável adiantou que “mesmo que tivessem sido usados andaimes metálicos, as redes de segurança seriam necessárias, e se os materiais inflamáveis não fossem removidos, o risco de incêndio não mudaria muito”.

Zhao Shixing, engenheiro-chefe do Instituto Provincial de Design e Pesquisa Arquitectónica de Sichuan, disse ao Global Times que as fraquezas do bambu residem na sua segurança e estabilidade, pois o bambu cru e não tratado tem classificação de combustibilidade B2 segundo os padrões da China, e pode incendiar facilmente quando exposto a outros materiais inflamáveis. Zhao disse, portanto, que “essa vulnerabilidade ficou totalmente exposta nesse incêndio”.

Segundo o jornal estatal, já em 1994 as autoridades da vizinha cidade de Shenzhen tinham proibido o uso de bambu, sendo que em Janeiro de 2022 o Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural do país proibiu o uso de “andaimes de bambu (ou madeira)” em obras de construção e engenharia municipal em todo o país.

Difícil apagar a tradição

Nas regiões administrativas especiais, a construção de andaimes em bambu continua a ser uma realidade, apesar da alegada falta de pessoal mais jovem interessado em aprender a técnica.

Nuno Soares destaca que a técnica “está muito enraizada”, por “existir há décadas em Macau e Hong Kong”, sobrevivendo devido à versatilidade e por ser adaptável às condições climatéricas locais. O arquitecto realça também entre os factores decisivos para o uso do bambu a “mão-de-obra e tipo de construções em elevada altura que se fazem em Macau e Hong Kong”.

Logo nas horas a seguir ao acidente, as autoridades de Macau realizaram uma série de inspecções a estaleiros de obras, além de terem organizado dezenas de palestras a alertar para os riscos de incêndios.

Tal postura foi “sábia e preventiva”. “Não se retiraram os andaimes em bambu, mas sim as redes que são inflamáveis e que estavam em vários prédios em Macau. O que temos de fazer é mais testes, ou seja, não basta termos o certificado do fabricante a dizer que aquele material é à prova de incêndio. A fiscalização tem de ser mais rigorosa.”

“Um dos motivos pelos quais acho que os andaimes de bambu tiveram tanto sucesso ao longo da história recente de Macau e Hong Kong é por serem seguros, no sentido de resistirem bem a ventos e tufões, e protegerem os trabalhadores que usam elementos de protecção”, frisou o arquitecto.

De modo geral, Nuno Soares diz que “não faz sentido” uma proibição súbita, e total, do uso do bambu na construção de andaimes. “Tendo em conta os dados que temos, essa medida de impedir a construção em bambu não faz sentido.”

Quando o fogo ainda estava longe de ser extinto, a polícia já tinha anunciado a detenção de três suspeitos de “negligência grosseira” após a descoberta de materiais inflamáveis abandonados durante os trabalhos, que permitiram ao fogo “propagar-se rapidamente” devido ao vento forte. As investigações prosseguem.

Citado pela CNN, Xinyan Huang, professor associado da Universidade de Hong Kong, declarou que o bambu é “definitivamente um material inflamável”. “Esta época é muito seca em Hong Kong, então a possibilidade de combustão do bambu é muito elevada. Uma vez a combustão feita, o fogo propaga-se muito rapidamente”, rematou.

Numa nota conjunta do Corpo de Bombeiros, Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana, Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais e Instituto para os Assuntos Municipais, de sexta-feira, o Executivo da RAEM disse estar “extremamente atento ao grave incêndio que ocorreu recentemente na região vizinha”, mas não revelou se vai ou não proibir o uso de bambu.

“Após verificação dos equipamentos de combate a incêndios, gestão do armazenamento de substâncias perigosas e vias de evacuação de emergência, todos cumpram os requisitos de segurança aplicáveis.”

Além disso, e mencionando dados estatísticos mais recentes, lê-se que “existem actualmente cerca de 566 estaleiros de obras em Macau, dos quais, mais de 60 envolvem obras com andaimes”, ficando a promessa de realização de “inspecções intensivas a todas as obras com andaimes, exigindo-se aos empreiteiros o cumprimento rigoroso das suas responsabilidades de prevenção de incêndios”.

Porém, o Executivo admitiu ontem poder vir a substituir os andaimes em bambu pelos de metal, mas apenas se houver “consenso social” entre a população e as construtoras, disse Mak Tat Io, subdirector dos Serviços de Solos e Construção Urbana.

4 Dez 2025

OCDE | Economia mundial deve abrandar para 2,9% em 2026

A OCDE prevê que o crescimento da economia mundial abrande em 2026, ao passar de 3,2 por cento este ano para 2,9 por cento no próximo, com a actividade económica a enfrentar “perspectivas frágeis”, associadas ao impacto das tarifas no comércio global.

No relatório Perspectivas Económicas, divulgado ontem, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) aponta para uma moderação na trajectória do Produto Interno Bruto (PIB) a nível mundial, com o crescimento a abrandar dos 3,3 por cento registados em 2024 para 3,2 por cento em 2025 e para 2,9 por cento em 2026, seguido de uma “pequena recuperação” para 3,1 por cento em 2027.

“O crescimento deverá abrandar durante o segundo semestre deste ano [de 2025], à medida que a antecipação da actividade se desenrola e as taxas alfandegárias efectivas mais elevadas sobre as importações para os Estados Unidos e para a China se reflectem nos custos das empresas e nos preços finais dos produtos, prejudicando o investimento e o crescimento do comércio”, descreve a organização.

“As projecções baseiam-se no pressuposto técnico de que as tarifas bilaterais anunciadas em meados de Novembro se manterão durante o resto do período de projecção, apesar dos desafios jurídicos em curso nos Estados Unidos”, ressalva.

Na introdução do relatório, o secretário-geral da OCDE, Mathias Cormann, sublinha que “a economia global tem-se mostrado resiliente este ano, apesar das preocupações com uma desaceleração mais acentuada na sequência do aumento das barreiras comerciais e da significativa incerteza política”.

No entanto, avisa que o aumento dos direitos aduaneiros deverá conduzir “gradualmente a preços mais altos, reduzindo o crescimento do consumo das famílias e do investimento das empresas”.

“Essas perspectivas continuam frágeis”, avisa o responsável máximo da organização, vincando que se se verificar um aumento das tarifas, é expectável que esse movimento cause “danos significativos às cadeias de abastecimento e à produção global” e exista o risco de as elevadas avaliações de ativos, feitas “com base em expectativas otimistas de lucros empresariais” impulsionados pela Inteligência Artificial (IA), levarem a “correções de preços potencialmente abruptas”.

Ásia em alta

No documento, a OCDE nota que “a elevada incerteza geopolítica e política também continuará a pesar sobre a procura interna em muitas economias”, prevendo-se que as economias emergentes da Ásia continuem a ser as “responsáveis pela maior parte do crescimento global”.

Para os Estados Unidos da América, a OCDE prevê que o crescimento do PIB seja de “2,0 por cento em 2025, 1,7 por cento em 2026 e 1,9 por cento em 2027”.

A China deverá crescer 5,0 por cento em 2025, 4,4 por cento em 2026 e 4,3 por cento em 2027. Na segunda economia mundial, diz a organização, “o fim da antecipação das exportações, a imposição de taxas aduaneiras mais elevadas às exportações para os Estados Unidos, o ajustamento contínuo no sector imobiliário e o enfraquecimento do apoio orçamental deverão reduzir o crescimento”.

O crescimento da zona euro “deverá abrandar ligeiramente, passando de 1,3 por cento em 2025 para 1,2 por cento em 2026, antes de aumentar para 1,4 por cento em 2027, com o aumento das fricções comerciais a ser compensado pela melhoria das condições financeiras, pelos gastos de capital contínuos dos fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência, e pela resiliência dos mercados de trabalho”, refere a OCDE.

3 Dez 2025

Plano Quinquenal | Economista destaca foco na resolução de problemas internos

A economista Maria Fernanda Ilhéu entende que o 15º Plano Quinquenal do Governo Central visa consolidar aspectos económicos regionais e resolver “aspectos da economia chinesa que ainda são problemáticos”, como a “fraca procura interna”. A posição foi assumida num seminário promovido pela Embaixada da China em Lisboa

Quais os objectivos propostos no 15º Plano Quinquenal da China, cuja consulta pública terminou no passado dia 14 de Novembro? Para a economista Maria Fernanda Ilhéu, ex-residente de Macau e presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS), o plano poderá dar resposta “a alguns aspectos da economia chinesa que ainda são problemáticos, como uma procura interna fraca”.

A posição foi assumida num seminário, decorrido recentemente em Lisboa e promovido pela Embaixada da China em Portugal, intitulado “Interpretação do 15°Plano Quinquenal de Desenvolvimento Económico e Social Nacional da China. Perspectivas para a Futura Cooperação China-Portugal”. O discurso de Maria Fernanda Ilhéu, consultado pelo HM, foi divulgado pela própria nas redes sociais.

Para Maria Fernanda Ilhéu, “apesar dos estímulos governamentais, o consumo interno continua baixo na sua contribuição para o PIB [Produto Interno Bruto]”, sendo que “alguns estrangulamentos e obstáculos estão a impedir os fluxos económicos, como o atraso na modernização agrícola e rural e a pressão sobre o emprego”.

Neste ponto, a economista destacou os “licenciados que não encontram empregos à altura das qualificações”, além de que o país espera ainda concretizar “o crescimento do rendimento per capita, que se pretende mais acelerado e equilibrado em regiões ainda muito pobres”. Por sua vez, verificam-se ainda “algumas dificuldades nos serviços públicos e apoios sociais”, enquanto “o envelhecimento da população apresenta desafios ao desenvolvimento económico e à oferta de serviços próprios para o bem-estar da população com mais de 65 anos”.

Maria Fernanda Ilhéu citou dados quanto a este aspecto, relativos a 2024, quando os idosos representavam 14,1 por cento da população, mais 4,7 por cento face a 2014.

Com base no documento apresentado por Pequim, a economista referiu que o 15º Plano Quinquenal pretende também “projectar a economia chinesa para a autossustentabilidade e a competição global”, sendo que, na sua visão, o país enfrenta “três desafios”.

São eles a “grande volubilidade” que é descrita pelas autoridades chinesas como “oportunidades estratégicas que existem ao lado de riscos e desafios, enquanto as incertezas e fatores imprevisíveis estão a crescer”.

Um modelo em mudança

Maria Fernanda Ilhéu destaca também que “o modelo de crescimento da China está a mudar, com mudanças populacionais, correções no sector imobiliário e a diminuição de retornos no investimento em infra-estruturas, sendo necessários novos factores para manter o ritmo de crescimento”. Além disso, “a tecnologia tornou-se fundamental no palco da competição global”, algo que “requer e pressiona a China para uma inovação autossuficiente e para a resiliência industrial”.

A economista não esquece as questões regionais, onde Macau se integra, nomeadamente quanto ao “objectivo para algumas cidades e super regiões” e o “papel dinamizador do delta do rio Yangtze e a área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong – Macau”.

Pretende-se, neste contexto, “conseguir progressos na industrialização, informatização, urbanização e modernização agrícola através de novas formas produtivas, e fomentando novos padrões de desenvolvimento”. A ideia é que haja uma “modernização da indústria”, em que os “sectores da linha da frente” serão a “inteligência artificial (IA), robótica avançada, computação quântica, semicondutores, biotecnologias e nova geração de tecnologia de informação e aeroespacial”.

Para Maria Fernanda Ilhéu, estas áreas são “fundacionais numa estratégia de competitividade internacional, resiliência e efeitos multiplicadores de crescimento”.

A importância da lusofonia

A economista defendeu também que as linhas traçadas no 15º Plano Quinquenal aponta para o fomento do delta do rio Yangtze, incluindo-se a província de Zhejiang, “terra natal da maioria dos chineses ultramarinos que escolheram Portugal para viver e trabalhar”, ou ainda, na Grande Baía, que inclui Macau, “um dos vértices centrais, onde a presença centenária portuguesa é um activo estratégico na cooperação entre Portugal e China”.

Para a responsável, as áreas “prioritárias de cooperação” devem centrar-se na energia verde, nomeadamente com a produção de baterias, hidrogénio verde e mobilidade, “sectores onde a China lidera”. A digitalização e IA, nomeadamente na construção de ferramentas de “saúde digital” e “cidades inteligentes”, ao nível da logística e portos. Outros pontos estratégicos são ainda infra-estruturas, saúde, biotecnologia e cooperação na investigação científica e produção industrial em IA, apontou.

Aposta no consumo

Segundo a análise do portal China Briefing, ligado à consultora Dezan Shira & Associates, a China está hoje em “condições muito diferentes” face ao último Plano Quinquenal. Hoje a pior fase e consequentes impactos da covid-19 parecem ter passado, existindo, porém, “pressão sobre indústrias domésticas” que vai continuar “a moldar a política económica nos próximos anos”. Além disso, é destacado o facto de Donald Trump estar novamente na Casa Branca, referindo-se os Estados Unidos como “o maior parceiro comercial individual e principal rival económico”.

Desta forma, o Plano Quinquenal pensado para os anos de 2026 a 2030 “será elaborado com essas questões em mente”, sendo que “as prioridades provavelmente irão concentrar-se na melhoria da resiliência económica, incluindo a diversificação de parceiros comerciais e a redução da dependência das importações” de produtos e materiais considerados “críticos”.

Pretende-se ainda “estimular o consumo doméstico e melhorar as capacidades internas em tecnologias-chave”.

A mesma análise dá conta de um discurso proferido pelo Presidente Xi Jinping, em Abril deste ano, em que aponta que o 15º Plano Quinquenal deve “avaliar de forma practiva como as mudanças no cenário internacional afectam a China”, devendo ser feito um ajuste, “optimizando a estrutura económica do país”.

A propósito do fomento do consumo interno, destaque para o anúncio, a 26 de Novembro, de um plano de acção apresentado pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China, e que visa, segundo a agência estatal Xinhua, “a formação de sectores de consumo multimilionários nos próximos anos”.

O recurso à inteligência artificial (IA) parece ser a norma, como frigoríficos inteligentes “que podem recomendar uma lista de compras e óculos que podem responder a vários comandos dos utilizadores”.

Escreve a Xinhua sobre o referido plano que “a China pretende formar três sectores de consumo massivo, nomeadamente produtos para cuidados a idosos, veículos inteligentes conectados e electrónica de consumo, com uma escala de mercado que atingirá triliões de yuans até 2027”. Além disso, “serão promovidas dez categorias de bens de consumo de grande procura, no valor de 100 mil milhões de yuans (cerca de 14 mil milhões de dólares americanos), incluindo produtos para crianças e bebés, dispositivos vestíveis inteligentes, cosméticos, equipamentos de fitness e alimentos e produtos para animais de estimação”.

Duplas novidades

A quarta sessão plenária do 20º Comité Central do Partido Comunista Chinês, realizada em Outubro, adoptou recomendações para o Plano Quinquenal, que incidiram na manutenção da “estratégia de expansão da procura interna” com esforços “para garantir que a nova procura impulsione a nova oferta”, promovendo também “interacções positivas entre consumo e investimento e entre oferta e procura”.

Nem de propósito, o portal China Briefing acrescenta que o 15º Plano Quinquenal “deverá dedicar um espaço significativo ao desenvolvimento da iniciativa ‘AI Plus’ e de sectores de suporte, com políticas voltadas para a promoção de investimentos, apoio fiscal, formação de talentos e colaborações público-privadas”.

O 15º Plano Quinquenal deverá ainda “definir metas de emissão de carbono e realinhamento da estratégia de descarbonização”, sendo que o país “está a mudar a estratégia principal de descarbonização”, saindo “do foco na redução do consumo total de energia para concentrar-se na redução das emissões totais de carbono”.

Destaque para o facto de a versão final do 15º Plano Quinquenal só ser apresentada durante as chamadas Duas Sessões de Março do próximo ano, da Assembleia Popular Nacional e Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, quando será adoptada e implementada pelas autoridades, em Pequim.

3 Dez 2025

O que se sabe sobre o incêndio que matou 151 pessoas em Hong Kong

Hong Kong continuava hoje a contar as vítimas do incêndio que devastou um complexo residencial na quarta-feira, o mais grave em décadas, com pelo menos 151 mortos. As autoridades da região administrativa especial chinesa vizinha de Macau detiveram 11 pessoas por suspeita de negligência, mas as causas do incêndio ainda não foram determinadas.

Eis o que se sabe sobre a tragédia, segundo a agência de notícias France-Presse (AFP):

O que aconteceu?

O alarme para o incêndio foi dado pelas 14:50 de quarta-feira. O fogo atingiu um complexo imobiliário de 1.984 habitações e oito torres de 31 andares cada, chamado Wang Fuk Court, localizado em Tai Po, nos Novos Territórios, no norte de Hong Kong. O complexo, inaugurado em 1983, estava a ser alvo de obras de renovação, mas continuava ocupado por cerca de quatro mil pessoas que ali viviam.

Chamas imensas propagaram-se com extrema rapidez entre os edifícios, que estavam rodeados por andaimes de bambu e redes de proteção. Centenas de bombeiros foram mobilizados para prestar socorro e extinguir o incêndio. Os bombeiros só declararam o fim das operações contra o fogo hoje de manhã (sexta-feira).

Quantas vítimas?

O balanço provisório mais recente era hoje à tarde de 128 mortos [151 é o número mais recente], dos quais 89 ainda não tinham sido identificados, segundo o chefe de segurança de Hong Kong, Chris Tang. Mais de cem pessoas continuavam desaparecidas na mesma altura. Também havia 79 feridos, 11 dos quais em estado considerado crítico. Os familiares percorreram hospitais e morgues à procura de vítimas.

Trata-se do incêndio em edifícios mais mortífero a nível mundial desde 1980, excluindo incêndios ocorridos em discotecas, prisões ou centros comerciais, de acordo com pesquisas na base de dados de catástrofes da Universidade de Lovaina (Bélgica). É também o mais grave em Hong Kong desde 1948.

Ainda se ignora em que medida o balanço poderá aumentar devido ao número de pessoas sobre as quais ainda não há notícias. Entre as pessoas desaparecidas, há 19 empregadas domésticas filipinas e 11 indonésias, segundo dados da organização Mission for Migrant Workers citados pelo jornal local South China Morning Post (SCMP). Os bombeiros terminaram hoje, sexta-feira, a inspeção a todas as habitações.

O que causou a tragédia?

As causas iniciais do incêndio não foram estabelecidas com rigor. O chefe de segurança admitiu que a investigação poderá demorar três ou quatro semanas. Com base em constatações preliminares, Tang disse que o fogo terá começado nas partes baixas das redes do estaleiro que protegiam contra o pó e a queda de objetos.

A propagação das chamas, segundo Tang, terá sido favorecida pela utilização de bambu para os andaimes, comum em Hong Kong, e de materiais inflamáveis como painéis de espuma que protegiam as janelas. O chefe dos bombeiros de Hong Kong, Andy Yeung, corroborou também o que muitos testemunhos entrevistados pela AFP afirmaram. “Constatámos que os sistemas de alarme nos oito edifícios não estavam a funcionar corretamente”, afirmou.

Quem é o responsável?

A comissão de luta contra a corrupção anunciou hoje a detenção de sete homens e uma mulher, com idades entre 40 e 63 anos. Trata-se de dois responsáveis pelo gabinete de projetos que preparou a renovação, dois chefes de obras, três subcontratados de andaimes e um intermediário.

A polícia já tinha anunciado a detenção de três suspeitos de “negligência grosseira” após a descoberta de materiais inflamáveis abandonados durante os trabalhos, que permitiram ao fogo “propagar-se rapidamente” devido ao vento forte. O nível exato do envolvimento dos suspeitos no início do fogo não é claro. As autoridades ordenaram a inspeção de todos os conjuntos habitacionais públicos em fase de grandes reformas, segundo o jornal SCMP.

Qual o risco de incêndio em Hong Kong?

Hong Kong, região administrativa especial da China com 7,5 milhões de habitantes, é um dos locais mais densamente povoados do mundo, o que amplifica os riscos de catástrofes urbanas. A densidade média da população é de mais de 7.100 habitantes por quilómetro quadrado, com vastas zonas íngremes e não edificáveis.

Nas áreas urbanizadas, a densidade populacional é até três vezes superior, um recorde mundial. Este centro financeiro, onde o espaço é limitado e os preços imobiliários estão entre os mais altos do mundo, é famoso pelos arranha-céus em redor da baía. As últimas décadas foram marcadas pela construção de uma profusão de torres residenciais que podem ter mais de 50 andares.

A maioria dos novos projetos de construção ocorreu na parte continental da região verdejante dos Novos Territórios, onde se situa o bairro de Tai Po. Hong Kong conta com 569 edifícios com mais de 150 metros de altura, sendo o maior número a nível mundial, de acordo com dados da ONG internacional especializada CTBUH (Conselho sobre Edifícios Altos e Habitat Urbano).

29 Nov 2025

Hong Kong | Fogo mais mortífero desde 1918 origina investigação

Já se contabilizam 128 mortos e 200 pessoas desaparecidas naquele que foi o maior incêndio da história de Hong Kong, nos Novos Territórios. As autoridades avançaram, entretanto, para uma investigação anti-corrupção dada a dimensão do incidente em Tai Po. A agência Lusa noticia o desespero de muitas famílias

A tragédia está longe de abrandar em Hong Kong. O incêndio ocorrido esta quarta-feira na zona de Tai Po, nos Novos Territórios, num complexo de edifícios em construção, já é considerado um dos maiores da história do território e as vítimas ainda estão a ser contabilizadas – à hora do fecho desta edição contavam-se 55 mortos e 250 pessoas desaparecidas. Já hoje, sexta-feira, os números subiram para 128 mortos e 200 desaparecidos. Ontem, ao final do dia, o incêndio estava, gradualmente, a ficar controlado, com mais 55 sobreviventes a serem resgatados.

Segundo uma reportagem da agência Lusa, os familiares desses desaparecidos permaneciam ontem num sentimento de desespero, dada a ausência de respostas. “Viu esta menina?” pergunta uma mãe, em cantonês, ao jornalista da Lusa, antes de mudar para inglês. “Viu a minha filha ou a ‘ajudante’?”, diz, usando a expressão usada em Hong Kong para as empregadas domésticas.

A mulher, de apelido Cheng, acena com um papel onde imprimiu uma fotografia da filha de cinco anos, Hannah Cheng, e uma cópia da autorização de trabalho da empregada, a indonésia Maryan. A família vivia em Wang Tai House, parte do complexo residencial Wang Fuk Court que incendiou.

Uma porta-voz do consulado da Indonésia em Hong Kong confirmou ao jornal South China Morning Post que entre as vítimas mortais estão duas empregadas domésticas indonésias.

“Não as vejo desde que o incêndio começou. Por favor, viram-nas?”, suplica Cheng a todas as pessoas que encontra à entrada do Alice Ho Miu Ling Nethersole, o hospital situado mais perto do complexo de habitação social, em Tai Po.

O corpo de bombeiros disse que já tinha conseguido entrar em contacto com várias das 279 pessoas que estavam inicialmente listadas como desaparecidas. A temperatura “está muito elevada e há pisos onde não conseguimos contactar as pessoas que ligaram a pedir ajuda, mas vamos continuar a tentar”, assegurou o vice-director do corpo de bombeiros, Derek Armstrong Chan.

Nas redes sociais circulava uma publicação de uma outra mãe, desesperada por não conseguir contactar os sogros, que estavam a tomar conta da filha de seis meses, em Wang Fuk Court.

“Já passaram quase 24 horas [desde o último contacto] (…) A minha filha precisa de ser amamentada senão vai morrer. Alguém me consegue dizer se ela foi salva ou não?”, escreveu Winnie Hui.

Este é já o incêndio mais mortífero desde 1918, quando Hong Kong ainda era uma colónia britânica. Nesse ano, um incêndio causou o colapso da bancada principal do hipódromo de Happy Valley, causando mais de 600 mortos. Mais de 700 bombeiros estão envolvidos no combate às chamas, além de equipas de socorro e polícia.

População ajuda

Com o passar das horas começaram a chegar apoios da população, tanto ao nível da presença física como financeira, a diversos abrigos para desalojados. Serena, de 16 anos, carregava uma caixa com garrafas de água para entregar numa escola secundária de Tai Po, convertida num dos abrigos temporários para os afectados pelo incêndio.

Além dos 900 residentes do complexo residencial Wang Fuk Court, as autoridades ordenaram aos habitantes do vizinho Kwong Fuk Estate que abandonassem as casas por precaução.

“Esta é a minha escola, mas hoje não temos aulas por causa do incêndio”, explica à Lusa a jovem, que se juntou a vários colegas para comprar e doar mantimentos, incluindo bolachas e massa instantânea. A escola fica a pouco mais de dois quilómetros do complexo residencial que se incendiou.

No segundo dia, colunas de fumo continuavam a subir aos céus, com o cheiro a queimado a sentir-se no ar. “Toda a gente conhece alguém que vivia em Wang Fuk”, sublinha Serena. “Nunca pensámos que isto pudesse acontecer aqui”, acrescenta.

Mas não é só em Tai Po, situado mais perto da fronteira com a metrópole de Shenzhen do que do centro de Hong Kong, que a população se tem mobilizado para ajudar. Uma idosa veio de Tuen Mun, a 30 quilómetros de distância, com cobertores e roupa. “É pouco para quem perdeu tudo o que tinha”, lamenta a residente, de apelido Fong.

O bairro social, construído nos anos 80, é composto por oito torres com perto de 30 andares e um total de 1.984 apartamentos, onde viviam cerca de quatro mil pessoas. De acordo com a imprensa local, o incêndio levou também muitas pessoas a tentar doar sangue, esgotando ontem as marcações no centro de Causeway Bay.

Entretanto, o Governo de Hong Kong criou esta quinta-feira um fundo com 300 milhões de dólares de Hong Kong para as vítimas. Numa conferência de imprensa, adiada por duas vezes, o chefe do Executivo, John Lee Ka-chiu, disse que o fundo, criado no banco estatal Banco da China, começou a aceitar donativos a partir das 19h.

John Lee anunciou ainda que o Governo iria distribuir ontem, em todo o dia, 10 mil dólares de Hong Kong a cada família afectada pelo incêndio no complexo de habitação social Wang Fuk Court.

Investigações em curso

A dimensão da tragédia já levou as autoridades de Hong Kong a avançar com uma investigação anti-corrupção. A Comissão Independente Contra a Corrupção de Hong Kong criou “um grupo de trabalho para iniciar uma investigação completa sobre a possível corrupção no grande projecto de renovação do Wang Fuk Court em Tai Po”.

Num comunicado, a comissão justificou a decisão com “o imenso interesse público envolvido”. Há, agora, três grupos de trabalho: um para investigar o incêndio, outro para lidar com os recursos de emergência de doações e mais um para o realojamento das famílias afectadas.

A polícia deteve, entretanto, três homens por suspeita de homicídio involuntário, após a descoberta de materiais inflamáveis deixados durante trabalhos de manutenção que levaram o fogo a propagar-se rapidamente pelos andares de bambu.

John Lee, Chefe do Executivo da RAEHK, disse que o Departamento de Assuntos Internos e da Juventude reservou mil apartamentos em pousadas da juventude e hotéis para que os residentes afectados fiquem, por um período máximo de duas semanas. Em seguida, serão transferidos para 1.800 apartamentos subsidiados reservados para que se instalem temporariamente, acrescentou.

O governante indicou também que o Governo está a elaborar uma lista de bens que Hong Kong irá pedir ao Governo central da China, incluindo aeronaves não tripuladas (‘drones’) para inspecções e materiais para testes laboratoriais.

Entretanto, estão também a ser feitas inspecções a todos os complexos imobiliários que estão a ser alvo de obras de grande dimensão. “O Governo mandou inspeccionar todos os complexos imobiliários da cidade que estão a passar por grandes reformas, para verificar a segurança dos andaimes e dos materiais de construção”, disse John Lee Ka-chiu numa mensagem publicada na rede social Facebook. O complexo de oito edifícios de 31 andares encontrava-se a ser alvo de reformas na fachada.

Campanha suspensa

O líder do Governo de Hong Kong admitiu ontem que as eleições para o Conselho Legislativo de Hong Kong, marcadas para 7 de Dezembro, poderão ser adiadas. “Faremos uma análise completa e tomaremos uma decisão dentro de alguns dias, com base nos interesses gerais de Hong Kong”, disse John Lee Ka-chiu, após uma reunião de emergência com dirigentes de vários departmentos governamentais. O Chefe do Executivo acrescentou que os debates entre candidatos ao Conselho Legislativo de Hong Kong que estavam marcados para quinta-feira e hoje foram adiados, sem previsão de nova data. As restantes actividades da campanha eleitoral foram também suspensas, disse John Lee aos jornalistas. “O Governo está empenhado em lidar com este grande desastre. A nossa prioridade agora é combater o incêndio”, sublinhou o dirigente. “A prioridade máxima é extinguir o incêndio e resgatar os residentes presos. A segunda tarefa é tratar dos feridos, a terceira é lidar com as consequências e depois realizaremos uma investigação completa”, acrescentou Lee. “Quanto aos outros assuntos, decidiremos o que fazer daqui a uns dias, depois de coordenarmos o nosso trabalho”, referiu o líder do Governo.

Líderes reagem

Xi Jinping, Presidente chinês, expressou ontem condolências pelas vítimas do incêndio, pedindo “esforços intensos no resgate para minimizar as perdas”, noticiou a agência Xinhua. O Presidente declarou ainda dar grande importância ao acidente, tendo solicitado de imediato actualizações permanentes sobre os trabalhos da equipa de resgate. Xi Jinping deu instruções ao director do Gabinete de Ligação do Governo Central em Hong Kong para a transmissão de condolências. Outro líder político que também se pronunciou sobre a tragédia foi o primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão. Este referiu-se à morte das 128 pessoas como “trágica” e “profundamente dolorosa”. “Os nossos corações estão com as famílias e amigos de todos quantos perderam a vida, bem como com aqueles que permanecem desaparecidos”, salientou, num comunicado à imprensa. Xanana Gusmão prestou também homenagem à “extraordinária coragem dos bombeiros, dos primeiros socorros e de todos os que trabalham incansavelmente nas operações de resgate e recuperação”.

28 Nov 2025

Timor-Leste | Revolução de Abril deixou “memórias difíceis”

Marisa Ramos Gonçalves, investigadora da Universidade de Coimbra, aborda, em estudo, as vivências e experiências dos timorenses no período do 25 de Abril

A investigadora do Centro de Ciências Sociais da Universidade de Coimbra Marisa Ramos Gonçalves considerou que a revolução de Abril em Timor-Leste deixou “memórias difíceis “e que a reconciliação é fundamental para a “coesão nacional”.

“Quando falamos do 25 de Abril em Timor sabemos que estamos a falar sobre memórias difíceis que deixaram marcas até hoje devido ao conflito interno e da violação dos direitos humanos durante a ocupação”, afirmou à Lusa Marisa Ramos Gonçalves, que se encontra actualmente a fazer um estudo sobre aquele período no país.

Marisa Ramos Gonçalves é também membro do Conselho Consultivo Internacional do Centro Nacional Chega (em Timor-Leste), que, entre outras actividades, documenta a história do conflito de Timor-Leste entre 1974 e 1999.

A investigadora explicou à Lusa que o objectivo é perceber o outro lado da história a “partir das experiências e vivências dos timorenses do 25 de Abril e deste período de transição, que dá origem a uma proclamação da independência, mas que é muito curta relativamente à ocupação”.

“Esta memória colectiva dos timorenses é indissociável, quer do conflito interno, quer da tragédia humana que é a invasão e ocupação indonésia”, salientou Marisa Ramos Gonçalves.

A proclamação unilateral da independência de Timor-Leste, em 28 de novembro de 1975, aconteceu após um período marcado por confrontos entre os timorenses e já sob a sombra da possibilidade da ocupação do território pela Indonésia, o que se concretizou em 7 de Dezembro de 1975. Questionada sobre a reconciliação entre timorenses, a investigadora disse que o “assunto tem estado em cima da mesa”.

“É preciso fazer a reconciliação entre timorenses que estiveram em lados opostos durante o conflito civil com opções diferentes para o futuro de Timor. Na altura, a UDT queria uma associação a Portugal durante mais alguns anos antes da independência, a Fretilin queria uma independência imediata, e a Apodeti, que queria uma integração na indonésia e todos são timorenses”, afirmou.

Segundo Marisa Gonçalves, o Centro Nacional Chega quer que “isso comece a estar em cima da mesa, porque não foi fácil até agora para os timorenses que sofreram torturas ou que foram perseguidos durante o período do conflito interno falar abertamente”.

“Mas já se começa a ver essa possibilidade a falar da violência e da tortura, que existiu num período muito curto em 1975, mas que deixou marcas fortes. Existe também uma reconciliação ao nível da liderança política que está por fazer e penso que essa também é complicada. É uma reconciliação de toda a sociedade”, afirmou Marisa Ramos Gonçalves.

Maior abertura

Considerando a reconciliação entre timorenses como fundamental para a coesão social, a investigadora destaca, por outro lado, que as novas gerações formadas no período indonésio e as mais jovens “estão completamente preparadas para essa reconciliação”.

“Não estão tão presas a conflitos anteriores e eles querem mesmo reconciliar-se e, portanto, acho que já estão a olhar para esse futuro, já pensam que todas as pessoas fazem parte da Nação timorense, inclusivamente os timorenses que estão em Timor Ocidental”, onde há uma comunidade de cerca de 80.000 pessoas, salientou.

“É importante também que a geração mais velha se reconcilie, até porque continua a ser uma geração, a chamada geração de 75, que continua no poder. Seria também interessante que eles tomassem a iniciativa de se aproximar”, acrescentou.

Sobre o estudo que está a realizar, Marisa Ramos Gonçalves disse que há falta de investigação histórica em Timor-Leste e que é bom perceber as expectativas que as pessoas tinham não só em relação ao 25 de Abril, mas como também em relação à transição política.

“É conhecer as narrativas, as experiências, as memórias dos timorenses de várias origens geográficas, ocupações profissionais e filiações partidárias sobre o mesmo momento histórico”, explicou, salientando que a reconciliação também se faz via escrita da história.

27 Nov 2025

25 de Novembro | Manuel Geraldes recorda “momento de traição”

Portugal assinalou ontem os 50 anos do 25 de Novembro de 1975 com uma parada militar e uma sessão solene na Assembleia da República, entre polémicas e leituras políticas da direita à esquerda. Manuel Geraldes, ex-militar radicado em Macau, recorda o momento em que esteve preso na RTP

Para Manuel Geraldes, se a felicidade tivesse uma data seria 25 de Abril de 1974, juntamento com o dia do nascimento da sua filha. Mas foi a propósito da passagem dos 50 anos do 25 de Novembro de 1975, tentativa de golpe de Estado e uma das etapas do processo revolucionário iniciado com o derrube da ditadura em Portugal a 25 de Abril de 1974, que conversámos com o ex-militar.

Radicado em Macau desde os anos 80, Manuel Geraldes esteve preso na RTP no dia 25 de Novembro de 1975, mas, na qualidade de um dos mais jovens capitães de Abril, esteve envolvido na revolução desde o seu início, iniciado com o chamado movimento dos capitães, em 1973.

Ao HM, recorda o dia 25 de Novembro como “um momento tristíssimo, de traição dos camaradas, revolta, um momento horrível, sobretudo comparando com um dos dias mais alegres da minha vida, juntamente com o nascimento da minha filha, que foi o 25 de Abril”, tendo em conta os planos militares planeados para esse dia, que tomaram outro rumo. Manuel Geraldes trabalhava na RTP quando a estação foi controlada por uma das facções militares que fizeram o 25 de Novembro. O controlo da RTP, nos estúdios do Lumiar em Lisboa, contou com intervenção de figuras como Manuel Duran Clemente, então ligado à extrema-esquerda militar da 5ª Divisão.

“Quando falamos do dia 25 de Novembro temos de falar de um dia de traição. Quem foram traídos foram os militares que se mantiveram fiéis ao seu ideário do 25 de Abril e que juraram cumprir por ele, e que estávamos a cumprir. Houve um grupo de militares que, esquecendo a sua condição, e falo mais de oficiais do quadro permanente, tornaram esse dia de vergonha para qualquer oficial que se preze.”

Manuel Geraldes estava há cerca de um ano na RTP e foi “apanhado naquela armadilha”. Fui ter com os meus camaradas ao gabinete da direcção do telejornal e foi aí que fomos apanhados pelo capitão Duran Clemente”, conta ao HM.

“Posso falar daqueles que estiveram mais próximos de mim, e que estiveram na RTP nesse dia”, começou por dizer. “Os que estiveram no 25 de Abril e me prenderam, como prenderam mais seis oficiais, todos eles ‘perigosos fascistas, reaccionários’. Esteve preso nesse dia também um homem que foi um grande revolucionário, e que ainda como aluno da academia militar, a estudar no Técnico, cometeu o gesto nobre de deixar as forças armadas do regime fascista para emigrar para o norte da Europa. O ‘poderoso’ Marques, que tinha estado no golpe de Beja, e que esteve preso, e conseguiu exilar-se no Brasil. O capitão Canavilhas, um ‘perigoso’ que tinha estado no 25 de Abril e que estava ali a prestar um serviço à República na RTP como engenheiro electrotécnico.”

Duran Clemente apareceu nas instalações da RTP para controlar as emissões, proibir a divulgação de informação da Presidência da República, sendo que, à época, era Costa Gomes Presidente, e deixar passar as mensagens dos revoltosos ligados a uma facção do movimento. O conselho de administração da estação esteve retido durante várias horas. São conhecidas as suas imagens em directo na RTP, a ler um comunicado, quando foi subitamente interrompido e substituído na emissão pelo filme “O Homem do Diner’s Club”. Isto porque a facção vencedora do movimento do 25 de Novembro tinha assumido o controlo dos acontecimentos a partir dos estúdios da RTP do Porto.

Em declarações ao jornal Público, Duran Clemente também fala do dia 25 de Novembro como “uma traição do 25 de Abril, na maneira como ele tem sido interpretado e foi interpretado, na medida em que interrompeu o percurso natural de uma revolução que nunca é um percurso natural”.

Duran Clemente fala ainda, na mesma entrevista, da “história da fantasia de uma guerra civil” que muitos acreditam que esteve prestes a acontecer em Portugal nessa data. Diz ainda “não ter cometido crime nenhum”.

Para Manuel Geraldes, esses momentos de detenção “foram indescritíveis, inacreditáveis, para esquecer”. Quando saiu dos estúdios da RTP, Manuel Geraldes foi para casa ter com a esposa, “tentar descansar e tentar esquecer aquela tristeza enorme que foi aquela cena”, com “os soldados que tinha comandado no 25 de Abril de 1974 a observarem aquela prisão absurda que o Duran Clemente fez de nós”.

O culminar de tensões

O 25 de Novembro foi uma tentativa de golpe de Estado em que militares ligados à extrema esquerda tomaram vários pontos estratégicos, sobretudo em Lisboa, que levou o país a entrar em estado de sítio. Mas os moderados venceram e o país entrou numa fase mais tranquila, sobretudo a partir da nova Constituição de 1976. Tratou-se de um culminar do chamado “Verão quente”, ou os meses do PREC – Período Revolucionário em Curso, marcado por nacionalizações de bancos e empresas, o processo de Reforma Agrária, organização de comissões de trabalhadores, ataques a sedes do Partido Comunista Português e diversas acções conotadas tanto com a extrema-esquerda como com a extrema-direita.

Manuel Geraldes recorda que “a situação era complexa e não era propriamente o que tínhamos imaginado” com o 25 de Abril. “Tínhamos desenhado outros cenários que não aquele, mas sim de uma grande camaradagem.” Ainda assim, o antigo militar realça a “estabilidade e credibilidade” que Portugal ganhou após o 25 de Novembro de 1975. Contudo, não concorda com o facto de as autoridades portuguesas estarem, actualmente, a celebrar esta data.

“Há com certeza uma componente política e, para mim, não tem absolutamente nenhum sentido. Não devemos esquecer o passado para corrigir qualquer erro que tenha sido cometido, mas celebrar um dia triste não faz sentido nenhum. Devemos lembrar.”

Sobre as figuras importantes e decisivas para resolver o 25 de Novembro, Manuel Geraldes destaca “o general Costa Gomes, que viveu tão vasta violência, Sousa e Castro e outros que tiveram consenso e conseguiram trazer para a razão a grande maioria das forças armadas”. Mário Soares, como líder do Partido Socialista, “também teve [importância]” para estancar o movimento, sobretudo porque “tinha posições próximas do chamado ‘Grupo dos Nove’, os membros moderados da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas”.

Manuel Geraldes recorda ainda um dia em que as facções eram pautadas por “militares contra militares”, e quando se pôs “em risco a pátria”, num cenário “muito, muito perto da guerra civil”. Ontem decorreu, de manhã, uma cerimónia militar promovida pelas Forças Armadas, na Praça do Comércio, em Lisboa, presidida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Houve ainda uma sessão solene na Assembleia da República.

Vasco Lourenço: “Não estava em terreno um golpe de Estado”

Além das cerimónias oficiais do 25 de Novembro de 1975, têm decorrido diversas exposições, palestras e conferências que celebram todas as etapas da revolução do 25 de Abril de 1974. Uma delas decorreu na terça-feira, o seminário “25 de Novembro – 50 anos depois”, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde uma das figuras centrais do 25 de Novembro e toda a revolução de Abril, Vasco Lourenço, recordou o dia.

“É evidente que, passado todo este tempo, não podemos dizer que estava no terreno um golpe de Estado. Mas desafio alguém que seja capaz de dizer que, naquela altura, face ao que estava a acontecer, que não olhássemos para aquilo como se estivesse, efectivamente, a acontecer um golpe de Estado.”

Depois de várias movimentações militares, em que se dá um recuo das forças paraquedistas, os episódios do 25 de Novembro geraram três mortos, todos militares, “no início do dia 27 de Novembro”, lembrou Vasco Lourenço.

O papel das mulheres

Outra figura que participou no debate foi a médica Isabel do Carmo, que na altura do 25 de Novembro estava ligada ao grupo do COPCON – Comando Operacional do Continente, liderado pelo já falecido Otelo Saraiva de Carvalho.

Isabel do Carmo defendeu que “o que se passou depois do 25 de Abril foi a existência de um espaço das pessoas, organizações e protagonistas políticos, em que havia claramente duas tendências”, marcadas por “aqueles que queriam levar um movimento revolucionário ao socialismo de facto, e aqueles que queriam uma democracia liberal com uma economia regulada por um mercado”.

“O 25 de Abril foi, e para muitas pessoas da minha geração, os melhores tempos da minha vida. Oiço muitas pessoas dizerem isto, particularmente as mulheres, que até aí eram discretas. O que se passou a seguir [ao 25 de Abril] foram as sessões públicas, a liberdade de imprensa, a modificação total do ambiente nas escolas, houve uma grande transformação no país”, rematou Isabel do Carmo.

26 Nov 2025

Mulheres timorenses vítimas de violência sexual da guerra exigem fim da discriminação

Reportagem de Domingos Freitas, da agência Lusa

A associação Pirilampo, que representa mulheres vítimas de violência sexual entre 1974 e 1999, exige que o Estado timorense as apoie, depois de anos de discriminação por parte da sociedade e das suas famílias.

“Continuamos a lutar sozinhas porque fomos vítimas no passado, não por vontade própria. Sofremos as consequências da política deste país desde 1974, por querermos a autodeterminação. Por causa dessas decisões políticas, nós, mulheres, fomos alvo de muitas violações sexuais”, disse à Lusa Maria Isabel da Silva, presidente da Pirilampo, no âmbito dos 50 anos da declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia.

Maria Isabel da Silva acusou o Estado timorense de não lhes ter concedido reconhecimento que possa ajudar a recuperar a sua coragem e dignidade.

“Criámos a Pirilampo porque sabemos que não somos sobreviventes de pouca importância. Somos sobreviventes de violência sexual ocorrida durante a guerra, entre 1974 e 1999. Queremos recuperar a dignidade, porque muitas enfrentam estigmas nas suas comunidades e até dentro das próprias famílias”, explicou Maria Isabel da Silva.

A presidente da Pirilampo explicou que a organização tem como missão apoiar mulheres sobreviventes de violência sexual através da assistência social, legal e económica para que se tornem cidadãos fortes e independentes. A associação defende também os direitos das vítimas e sobreviventes que continuam sem voz, para que possam obter reconhecimento e atenção do Estado ou do Governo.

Maria Isabel da Silva esclareceu que a visão da Pirilampo é contribuir para que a sociedade timorense nunca mais permita que ninguém seja vítima de graves violações dos direitos humanos, sobretudo de violência sexual, incluindo assédio, abuso, violação ou casamento forçado.

A presidente da Pirilampo lamentou também que os aspetos culturais discriminem mulheres que engravidaram ou tiveram filhos de homens não identificados. “Por vezes são consideradas prostitutas, restos dos militares indonésios. Estes são insultos que nos foram dirigidos durante muito tempo”, disse.

Com apoio da Associação Chega Ba Ita (ACBIT) e da Asia Justice and Rights (AJAR), várias vítimas participaram em atividades diversas e, em 22 de outubro de 2022, estas organizações ajudaram-nas a criar o Klibur Sobrevivente Feto Pirilampo 1974-1999, para aliviar o sofrimento e as dificuldades enfrentadas.

A Pirilampo já registou 455 mulheres sobreviventes de violência sexual, das quais 87 deram à luz crianças resultantes dessas violações. Até hoje aquelas crianças, muitas vezes apelidadas “crianças da guerra”, enfrentam uma vida muito difícil, devido à discriminação por parte da família, da sociedade e, sobretudo, na administração pública.

“Chamam-lhes filhos de pais desconhecidos, filhos de homens do mato, de milícia. Isso afeta muito a sua autoestima e muitos recusam ir à escola”, alertou a presidente. Maria Isabel Silva explica que muitos destes jovens também não conseguem obter documentos básicos, como certidões de batismo da Igreja ou documentos do Estado. Vivem em zonas remotas, dependem da agricultura e não têm acesso adequado à saúde e à educação.

A presidente apelou ao Governo para prestar atenção e reconhecer estas pessoas como qualquer outro cidadão, para que também os seus filhos possam viver em liberdade e igualdade. “Estamos vivas. Não pedimos nada, não pedimos dinheiro. O dinheiro do Estado não chega para pagar a nossa dignidade. Perdemos o corpo, carregamos dor e o trauma. Só queremos recuperar o nosso ser completo. Não pedimos dinheiro”, disse, emocionada, Maria Isabel Silva.

Ainda há discriminação

Fernanda Guterres e Maria Gusmão nasceram depois de as suas mães terem sido violadas por soldados indonésios, durante a ocupação de Timor-Leste, e até hoje continuam a enfrentar discriminação no seu país. As duas carregam o estigma de serem “crianças da guerra”, nome que é atribuído a pessoas que nasceram de mulheres violadas entre 1974 e 1999, durante o conflito entre várias fações timorenses e durante a ocupação indonésia.

“Eu não me sinto livre, porque continuo a enfrentar discriminação da sociedade. Os colegas dizem-me palavras que me magoam, e eu própria tenho receio de fazer amizades devido às palavras duras que me dizem”, afirmou à Lusa Fernanda Guterres, que trabalha na organização não-governamental ACBIT, que apoia, com a Asia Justice and Rights (AJAR), as “crianças da guerra” e as mulheres vítimas de violência sexual durante a ocupação a ultrapassarem as dificuldades e traumas que marcaram as suas vidas.

“Sinto um pouco de liberdade apenas quando participo em sessões de oratória ou em formações dadas pelas irmãs, que encorajam os jovens a enfrentar a realidade”, salientou. O relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), divulgado há 20 anos, e que recolheu testemunhos de centenas de vítimas de violência sexual, refere que a maioria foi cometida pelas forças de ocupação da Indonésia.

“Somos Crianças da Guerra porque as nossas mães foram forçadas e engravidadas por outros homens durante a ocupação. Caso contrário, os invasores teriam matado toda a família. Para salvar a própria vida, muitas mulheres timorenses sofreram violência sexual”, explicou Fernanda Guterres. Como consequência dessa violação forçada, as “crianças da guerra” continuam a ser alvo de insultos e estigmas. “Não tens pai”, “és filho do inimigo” ou “filho de milícia”, são alguns dos insultos que aquelas mulheres continuam a ouvir.

Quando era pequena, a mãe de Fernanda Guterres dizia-lhe que o pai estava vivo, mas ela nunca o conheceu. Mais tarde, descobriu que ele não existia, mas a mãe nunca o admitiu explicitamente. “Perguntei muitas vezes pela minha mãe e pelo meu pai. A minha mãe dizia sempre ‘o teu pai está aí’, e dizia para não acreditar se alguém dissesse o contrário. Mas nunca o conheci. No fim, percebi que não tinha pai”, disse.

Fernanda Guterres recorda também, com mágoa, as tentativas de violência sexual de membros da comunidade, unicamente devido ao passado da sua mãe. “A família e também alguns vizinhos tentaram abusar de mim. Quando já era adulta, deixei de ficar calada e pedi à minha família para enfrentarmos quem tentasse fazer-me mal”, contou a jovem de 28 anos.

Hoje, Fernanda tem a sua própria família, com três filhos, e disse ter encontrado um companheiro que a apoia plenamente. “Conheci o meu marido graças ao plano de Deus. Ele soube do passado da minha mãe e toda a sua família soube também, mas nunca me discriminaram. Sempre me acolheram bem. O meu marido apoia-me, dá-me coragem. O passado ficou para trás. Agora olhamos para o futuro e para os nossos filhos. É isso que me dá força”, afirmou.

“Vivemos uma vida simples. Não temos empregos formais, mas mantemos sempre respeito e entendimento mútuo. Quando surge algum problema em casa, conversamos e procuramos solução juntos”, disse. Fernanda Guterres conseguiu obter documentos da Igreja ou do Estado, graças ao apoio de pessoas que a ajudaram a regularizar tudo.

Maria Gusmão também reconheceu que a sua mãe foi vítima de violência sexual por militares indonésios. “Quando era pequena, na escola primária e no pré-secundário, sofri discriminação devido ao conflito que a minha mãe enfrentou. Diziam que eu era filha de milícia, filha do inimigo. Ouvia isso com os meus próprios ouvidos”, afirmou a jovem de Covalima.

Recorda igualmente que alguns elementos da sua comunidade chegaram a proibir as crianças de brincar consigo. Mais tarde, na universidade e até dentro da família, continuou a enfrentar discriminação. Apesar disso, Maria Robinson apelou às outras jovens para não perderem a vontade de lutar, nem a esperança, mesmo perante a discriminação, salientando que o Estado deve dignificar as mulheres que foram vítimas de violência sexual e também os seus filhos.

Maria Robinson conseguiu obter documentos porque o seu padrasto aceitou colocar o seu nome nas certidões de nascimento. Questionada sobre o sentimento de liberdade, respondeu que apenas se sente “um pouco livre”, sublinhando que ainda hoje enfrenta discriminação, estigma e injustiça. “Desde a família, à sociedade, à comunidade e até ao nosso próprio Estado”, afirmou a jovem de 25 anos. Maria Robinson completou recentemente a licenciatura na Universidade da Paz (UNPAZ) e trabalha também na organização não-governamental ACBIT.

Timor-Leste assinala em 28 de novembro os 50 anos de declaração unilateral da independência e da ocupação indonésia, em 7 de dezembro de 1975. A restauração da independência aconteceu em 20 de maio de 2002, depois da realização de um referendo pela autodeterminação em 30 de agosto de 1999.

24 Nov 2025

LAG | Governo restringe uso de aparelhos “ocidentais” por representarem um “risco”

O Governo está a apostar em dispositivos electrónicos chineses, para evitar riscos associados a equipamentos vindos de países com “postura hostil” em relação à China. Wong Sio Chak revelou que todos os funcionários públicos, incluindo portugueses, vão prestar juramento de lealdade à China e RAEM até ao fim do ano

O Governo revelou na sexta-feira que a Administração Pública está a dar prioridade a dispositivos electrónicos chineses, porque aqueles vindos de países ocidentais “com uma postura hostil em relação à China” representam “um risco”.

“Foram já emitidas instruções pela DSAFP [Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública], sobretudo para as infra-estruturas críticas”, disse o secretário para a Administração e Justiça de Macau. “Ponderámos, prioritariamente, o recurso aos aparelhos do nosso país” nos serviços e departamentos governamentais da RAM, sublinhou Wong Sio Chak.

O dirigente admitiu na Assembleia Legislativa que “existe um risco” no fornecimento de dispositivos electrónicos de telecomunicações. “É uma questão muito sensível e em que também se verifica uma fragilidade”, referiu Wong, apontando o dedo aos “países do Ocidente, sobretudo alguns com uma postura hostil em relação à China”.

No entanto, o secretário sublinhou, durante a apresentação das Linhas de Acção Governativa para 2026 na área da Administração e Justiça, que as limitações apenas se aplicam à administração pública de Macau. “Temos um mercado aberto e não iremos restringir o sector privado para utilizar os dispositivos estrangeiros. As entidades e o privado têm a liberdade de escolher esses aparelhos”, explicou Wong.

Em 19 de Outubro, o Governo Central acusou os Estados Unidos de realizarem um ciber-ataque contra o Centro Nacional de Serviço de Horário (NTSC, na sigla em inglês), responsável por manter a precisão da hora oficial do país.

O Ministério da Segurança do Estado chinês disse que o ataque “sistemático e planeado há muito tempo” começou em 2022, através de uma vulnerabilidade no serviço de SMS (mensagens curtas) de uma “marca estrangeira” de telemóveis. A vulnerabilidade permitiu “atacar secretamente e obter o controlo dos telemóveis de vários funcionários do NTSC e roubar dados confidenciais armazenados nos mesmos”, referiu o ministério.

Fiéis e leais

Outro dos pontos de destaque da apresentação de Wong Sio Chak prendeu-se com o juramento de lealdade à China e à RAEM que todos os funcionários públicos, incluindo os de nacionalidade portuguesa, terão de prestar até ao fim do ano. O juramento faz parte de uma revisão dos estatutos do pessoal de direcção e chefia e dos trabalhadores da Administração Pública, que entrou em vigor a 1 de Novembro.

As duas leis revistas determinam que os trabalhadores já em funções têm 90 dias para fazer o juramento, sendo que a recusa implica automaticamente a anulação da nomeação para o cargo ou a demissão. Mas o secretário para a Administração e Justiça disse acreditar que o processo esteja concluído mais cedo e que “todos os trabalhadores dos serviços públicos prestem juramento até ao final do corrente ano”.

Wong Sio Chak, que tomou posse em 16 de Outubro, defendeu durante a apresentação das Linhas de Açcão Governativa para 2026 que a revisão “aperfeiçoou a gestão e o regime de responsabilização do pessoal de direcção e chefia”. Logo em 1 de Novembro, 264 dirigentes de entidades e serviços públicos prestaram juramento numa cerimónia, declarando que “se dedicarão com toda a lealdade à Região Administrativa Especial de Macau [RAEM] da República Popular da China”.

Num discurso proferido durante a cerimónia, o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, pediu aos dirigentes da função pública que “salvaguardem com firmeza o poder pleno de governação do Governo Central” chinês.

Em Dezembro de 2024, a Assembleia Legislativa aprovou, por unanimidade e sem qualquer debate, a lei que prevê que os funcionários públicos de Macau podem ser demitidos caso pratiquem “actos contrários” ao juramento. Um mês antes, ao apresentar a proposta, o então porta-voz do Conselho Executivo, André Cheong, alertou que os funcionários públicos podem ser despedidos devido a conversas privadas ou comentários publicados em redes sociais.

O juramento será obrigatório para todos os funcionários públicos, incluindo os portugueses, mas poderá ser feito em português, uma das duas línguas oficiais de Macau, juntamente com o chinês.

De acordo com o mais recente Relatório de Recursos Humanos da Administração Pública, em 2023 a região tinha 34.311 funcionários públicos. O documento não refere quantos têm nacionalidade portuguesa, mencionando apenas que 257 nasceram em Portugal. As duas propostas obrigam ainda os funcionários públicos a prestar o juramento de forma “sincera e solene”. A sinceridade do juramento será avaliada pelo superior hierárquico e qualquer demissão poderá ser alvo de recurso para os tribunais.

Cada cabeça

O Governo quer lançar, já no início de 2026, negociações com Portugal sobre um acordo para o reconhecimento recíproco de sentenças civis e comerciais.

O secretário para a Administração e Justiça de Macau, Wong Sio Chak, disse que pretende “fortalecer a cooperação judiciária com o exterior e alargar ainda mais o intercâmbio jurídico”.

De acordo com o relatório das LAG, Macau quer, a partir do primeiro trimestre de 2026, começar a negociar um “acordo sobre a confirmação e execução recíprocas de decisões judiciais em matéria civil e comercial” com Portugal. No entanto, o documento não refere qualquer data para a conclusão das negociações e a eventual assinatura de um acordo final.

Macau e Portugal assinaram em 2019 um acordo relativo à entrega de infractores em fuga, cuja legalidade penal foi posta em causa pela Ordem dos Advogados portuguesa. O protocolo não está em vigor, uma vez que não foi a votos na Assembleia da República.

O relatório das LAG de Macau revela também planos para a celebração, até ao final de 2026, de três acordos com Angola para transferência de pessoas condenadas, entrega de infractores em fuga e auxílio judiciário mútuo em casos criminais. Estes três acordos com Angola têm sido mencionados nas LAG de Macau desde Novembro de 2023, e esse relatório apontava como meta para a conclusão das negociações o final de 2024.

Angola e a China continental assinaram em 2006 um tratado de extradição, que só foi aprovado pelo Parlamento angolano em 2011, tendo sido ratificado pelo Governo de Luanda dois anos mais tarde.

Durante a discussão no Parlamento angolano, o então vice-ministro angolano da Justiça, João Monteiro, defendeu a importância do acordo devido ao grande movimento migratório entre os dois países. Na altura, as autoridades estimavam que perto de 50 mil chineses viviam em Angola, trabalhando sobretudo na construção civil, em projectos de reconstrução financiados em grande parte por empréstimos concedidos pela China.

João Monteiro garantiu que os dois Estados concordaram que os pedidos de extradição não podem incluir crimes de natureza política ou militar.

Macau Simplex

Wong Sio Chak reiterou perante os deputados uma promessa antiga da pasta da Administração e Justiça: a simplificação administrativa. A prioridade governativa terá como meta acelerar os processos e licenças, por exemplo, para estabelecimentos comerciais. Em resposta a uma questão do deputado Si Ka Lon, o secretário para a Administração e Justiça referiu que, “desde que não haja obras de grande envergadura”, um estabelecimento de comidas e bebidas pode obter licença para operar em dois dias, mediante a apresentação de todos os documentos exigidos. O governante vincou que por trás da flexibilização da máquina administração estão os conceitos de “simplificar, descentralizar e optimizar”.

Mãos à obra

O secretário para a Administração e Justiça afirmou na Assembleia Legislativa que o Governo vai continuar os esforços para implementar o sistema de quotas para os trabalhadores da Função Pública e reorganizar algumas carreiras, eliminando as que estão desactualizadas e promovendo a mobilidade. Wong Sio Chak salientou que desde o lançamento do sistema de gestão de quotas na Administração, em 2020, o número de funcionários públicos aumentou, e que antes de alterar as regras de progressão ou acesso entre carreiras da máquina administrativa o Governo irá ouvir os trabalhadores.

24 Nov 2025

Descolonização em Timor-Leste deixou traumas profundos nos militares portugueses, defende investigadora

A investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova Zélia Pereira afirmou que o processo de descolonização em Timor-Leste deixou traumas profundos nos militares portugueses, levando muitos ao silêncio durante o período da ocupação indonésia.

“O processo de descolonização em Timor, para além do trauma da invasão indonésia para os próprios timorenses, deixou traumas profundos para os militares portugueses, traumas pessoais, psicológicos, consequências nas carreiras profissionais, a generalidade deles acabou por abandonar a vida militar, porque foram preteridos sucessivamente em promoções”, disse à Lusa a investigadora.

“Lemos Pires, quando foi promovido a general, teve uma campanha interna contra ele”, disse. O general Mário Lemos Pires foi o último governador do Timor português (entre 8 de novembro de 1974 e 27 de novembro de 1975).

Zélia Pereira está a coordenar, em conjunto com Pedro Aires de Oliveira, professor de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, a reedição do relatório elaborado pela comissão para a análise e esclarecimento do processo de descolonização de Timor-Leste, criada pelo antigo Presidente Ramalho Eanes, que vai incluir testemunhos desclassificados de militares e civis ouvidos em 1975 e 1976.

O projeto está a ser financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, com o apoio da comissão para a celebração do 50.º aniversário do 25 de Abril, no âmbito de um concurso para projetos exploratórios.

“É um trauma muito grande de tal maneira que durante todo o período de ocupação indonésia, tirando Lemos Pires, nenhum outro militar quis falar. Depois do referendo, começaram a ser publicadas algumas memórias e só agora mais recentemente é que começaram a aceder fazer algumas entrevistas”, explicou a investigadora.

Segundo Zélia Pereira, os testemunhos dados em 1976, com a “memória muito fresca” e com o “trauma muito vívido” vai permitir acesso a um conjunto de informações muito “pormenorizado, muito interessante”. A investigadora espera também que aqueles testemunhos ajudem os timorenses a “compreender melhor um período que para eles é muito traumático”.

“É preciso compreender o seguinte, ainda hoje se continuam a publicar livros, artigos que replicam todas as acusações feitas em 1975. Em teses de doutoramento, de mestrado, porque vão beber aos livros publicados nos 70, 80, 2000, até ao presente e que partem ainda hoje de ideias e pressupostos, que nem todos estão 100% errados, mas que precisam de ter outras interpretações”, salientou.

A história, disse Zélia Pereira, é colocar vários contextos em análise em simultâneo, porque ninguém é dono da verdade. “O que queremos é que isto venha abrir outras perspetivas, outras perspetivas de investigação, e sarar mágoas, reconciliar as pessoas com o seu passado, independentemente de terem tomado decisões que não se revelaram as mais acertadas”, acrescentou.

Timor-Leste tornou-se independente de Portugal em 28 de novembro de 1975, mas nove dias depois, em 07 de dezembro, foi ocupado pela Indonésia.

23 Nov 2025

Venezuela | Maduro declara que país jamais será derrotado

O Presidente da Venezuela declarou ontem que o país jamais será derrotado e que o povo venezuelano vai responder ao que considerou ser uma guerra psicológica orquestrada pelos Estados Unidos.

Em declarações à estação de televisão oficial venezuelana VTV, Nicolás Maduro afirmou que as autoridades e o povo da Venezuela vão responder com trabalho e conquistas à “guerra psicológica”, referindo-se à Administração norte-americana como “canalhas mediáticos” de Miami. “Como se diz ‘imbecil’ em inglês?” perguntou Maduro, alertando aqueles “que querem fazer mal” nunca vão conseguir derrotar a Venezuela.

Washington intensificou operações militares ao largo da Venezuela, nos últimos dias, reiterando acusações contra Maduro de que promove o tráfico de estupefacientes.

O chefe de Estado norte-americano, Donald Trump, autorizou também novos ataques contra embarcações, alegadamente, pertencentes a redes de tráfico de droga, perto da costa venezuelana. Maduro acrescentou que as forças de segurança venezuelanas apreenderam 63 toneladas de droga desde o início do ano.

Por outro lado, o líder venezuelano denunciou ainda a tentativa de entrada na Venezuela de dois aviões ligados ao narcotráfico. No mesmo discurso, Maduro declarou que a Venezuela e a Rússia estão a progredir na cooperação militar, que descreveu como tranquila e frutífera.

Contacto diário

Questionado sobre os contactos entre Caracas e Moscovo no âmbito “das ameaças” dos Estados Unidos, Maduro afirmou que o governo mantém uma comunicação diária com o Presidente russo, Vladimir Putin, sobre “várias questões em desenvolvimento”, incluindo assuntos militares.

No domingo, a Presidência da Rússia admitiu ter mantido contactos com a Venezuela sobre um possível pedido de ajuda de Maduro a Putin. Paralelamente, a República Popular da China afirmou que se verifica uma cooperação normal entre Pequim e Caracas.

O jornal norte-americano Washington Post noticiou que o Presidente venezuelano pediu ajuda à Rússia, à China e ao Irão para defender o país da pressão dos Estados Unidos. Para Pequim, trata-se de uma cooperação entre Estados soberanos e que não é dirigida contra terceiros.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Mao Ning disse, em conferência de imprensa, que a China apoia o reforço da cooperação internacional para combater o “crime transnacional” e opõe-se ao uso ou à ameaça de tal força nas relações internacionais.

5 Nov 2025

Pop Mart, fabricante de Labubu, cai 10,8% em Hong Kong entre dúvidas sobre crescimento

As ações da Pop Mart, empresa chinesa responsável pelo fenómeno global das figuras Labubu, afundaram esta quinta-feira 10,8%, na maior queda desde abril, num novo episódio de volatilidade que contrasta com os bons resultados de vendas divulgados na véspera.

A desvalorização reflete a crescente cautela dos investidores face à possibilidade de uma desaceleração do crescimento da empresa, após vários trimestres impulsionados pela popularidade dos seus produtos colecionáveis.

Na quarta-feira, os títulos da Pop Mart subiram 4,23% na bolsa de Hong Kong, apesar do tom negativo do mercado, na sequência do anúncio de que a faturação no terceiro trimestre aumentou entre 245% e 250%, impulsionada pela viralização de Labubu nas redes sociais e pela expansão internacional da empresa.

Segundo dados fornecidos pela companhia, as vendas domésticas cresceram 190%, enquanto as internacionais dispararam 370%, com destaque para subidas de 175% na região Ásia-Pacífico, mais de 740% na Europa e quase 1.270% nos Estados Unidos. A forte queda registada hoje é atribuída em grande parte à realização de lucros, após a valorização superior a 186% desde o início do ano, e à incerteza sobre a sustentabilidade do atual ritmo de crescimento.

A ação caiu 8,1% na terça-feira, o pior desempenho desde abril, penalizada pelos receios de um abrandamento nas vendas após meses de euforia. A divulgação preliminar de resultados ajudou a dissipar temporariamente essas preocupações, mas a ausência de uma data oficial para a apresentação das contas mantém a incerteza quanto à evolução futura da empresa. O presidente executivo e fundador, Wang Ning, mostrou-se confiante na resiliência de longo prazo do personagem Labubu, defendendo que ícones culturais continuam a gerar receitas mesmo após o pico de popularidade.

Segundo a agência Bloomberg, a explosão da procura obrigou a própria empresa a rever em alta as suas metas internas. Se no início de 2024 a Pop Mart previa uma faturação de 2.800 milhões de dólares (cerca de 2.400 milhões de euros), em agosto Wang elevou essa meta para 4.200 milhões de dólares (3.600 milhões de euros), apontando o impulso global da marca como fator-chave.

Fundada em Pequim em 2010, a Pop Mart consolidou-se como uma das principais referências asiáticas no setor de brinquedos e figuras de coleção, combinando design exclusivo, edições limitadas e colaborações com marcas, artistas e franquias internacionais.

O seu modelo de negócio assenta nas chamadas “caixas surpresa”, que incentivam compras repetidas e criaram uma comunidade de fãs dispostos a pagar elevados prémios por peças raras. Entre as suas principais linhas está Labubu, um monstro de orelhas pontiagudas e sorriso travesso inspirado na mitologia nórdica, criado pelo artista de Hong Kong Lung Ka-sing em 2015 e integrado no portefólio da empresa em 2019.

24 Out 2025

Louvre | França vai reforçar segurança de locais culturais após roubo

O ministro francês da Administração Interna, Laurent Nuñez, vai reforçar medidas de segurança em todos os estabelecimentos culturais, anunciou ontem a assessoria, após um roubo de jóias no Museu do Louvre, em Paris. A decisão foi tomada após reunião com a sua colega de governo com a pasta da Cultura, Rachida Dati, adiantou a mesma fonte ministerial, citada pela agência noticiosa francesa AFP.

A instituição, no centro da capital de França, manteve-se encerrada ontem, um dia após um grupo, ainda a monte, ter conseguido roubar múltiplas obras de arte de joalharia. “O Museu do Louvre vai permanecer fechado hoje (ontem) por razões excepcionais. Pedimos desculpa pelo incómodo”, pode ler-se numa mensagem publicada no sítio oficial da Internet daquele museu.

Um grupo de quatro homens roubou joias no domingo de manhã, em poucos minutos e quando o museu já estava aberto e com visitantes no interior, utilizando uma máquina empilhadora, estacionada na respectiva margem do rio Sena, e fazendo-a subir até à altura de uma janela do primeiro andar do edifício.

O grupo levou oito peças “de inestimável valor patrimonial”, entre as quais a tiara da imperatriz Eugénia (mulher de Napoleão III, imperador de 1852 a 1870) e dois colares, informou no domingo o Ministério da Cultura francês. Só aquela joia tem 212 pérolas e 1.998 diamantes, de acordo com a descrição do Louvre, enquanto as peças pertencentes à rainha Maria Amélia contam com múltiplas safiras e centenas de diamantes.

Este museu parisiense é o maior e mais visitado do Mundo, com nove milhões de pessoas a apreciarem parte das 35.000 obras que a instituição aloja, nos seus 73 mil metros quadrados de espaço.

21 Out 2025

Cortes levam 13,7 milhões de pessoas a correr risco de fome extrema

Os cortes no financiamento da ajuda humanitária podem expor até 13,7 milhões de pessoas à fome extrema em todo o mundo, alertou ontem o Programa Alimentar Mundial (PAM). “O sistema de ajuda humanitária está sob forte pressão com a retirada dos parceiros das áreas da linha da frente, criando um vazio”, afirmou a agência sediada em Roma num novo relatório intitulado “Uma bóia salva-vidas em perigo”.

A agência da ONU afirmou que seis das suas operações – no Afeganistão, na República Democrática do Congo, no Haiti, na Somália, no Sudão do Sul e no Sudão – estão “a enfrentar grandes perturbações, que só irão piorar”. O PAM alertou que o seu financiamento “nunca foi tão desafiante”, antecipando “uma queda de 40 por cento” em 2025, “o que se traduzirá num orçamento projectado de 6,4 mil milhões de dólares, em comparação com os 10 mil milhões de dólares em 2024”.

O relatório não cita nenhum país, mas aponta para um estudo publicado na revista médica The Lancet, que constatou que 14 milhões de mortes adicionais em todo o mundo por doenças, deficiências nutricionais e condições maternas e perinatais poderiam ocorrer até 2030, como resultado apenas dos cortes na ajuda humanitária norte-americana.

Regressos e recordes

Desde o regresso do Presidente norte-americano, Donald Trump, à Casa Branca, Washington anunciou cortes massivos na sua ajuda externa, desferindo um enorme golpe nas operações humanitárias em todo o mundo. “A cobertura do programa foi significativamente reduzida e as rações cortadas. A assistência vital às famílias em situações de catástrofe alimentar [Fase 5 da Classificação Integrada da Fase de Segurança Alimentar/IPC] está ameaçada, enquanto a preparação para impactos futuros diminuiu significativamente”, alerta o PAM.

Em termos mundiais, “o PAM estima que os seus défices de financiamento possam levar 10,5 a 13,7 milhões de pessoas atualmente em insegurança alimentar aguda (Fase 3 do IPC) para emergência humanitária (Fase 4 do IPC)”, acrescentou o organismo. A agência da ONU afirmou que a fome global já atingiu níveis recorde, com 319 milhões de pessoas a enfrentarem insegurança alimentar aguda — incluindo 44 milhões em níveis de emergência.

16 Out 2025