Máquina e identidade – Luz e fogo (3)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins
 
1.
A máquina apoderou-se da memória – e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia.
A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia.
Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. 
O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros.
É evidente que te podes comover até com a arte abstracta, ponto linha e plano de Kandinsky, o senhor estético que chora uma lágrima qualquer por causa de uma qualquer linha azul. Mas tais sujeitos delicados são raros. Mesmo a pintura figurativa ou a descrição detalhada de um familiar, por via da escrita, jamais chegam a esse punctum em forma de poço ou queda que existe na fotografia de um nosso familiar que já morreu ou na nossa própria fotografia anos atrás – esta nossa fotografia que retrata, diga-se, um familiar nosso que já morreu. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracção ou pudor. Agora e na hora da nossa morte.
 
2.
A nossa fotografia, de há trinta anos é também, então, a fotografia de um familiar que morreu – um familiar bem próximo, o mais próximo que existe, aliás. Mas como designar este familiar que está na fotografia e que sou eu, afinal, anos atrás? Não é o meu irmão mais velho ou mais novo, não é o meu pai nem o meu filho, sou eu, mas claro que não sou eu. Eu já não sou o que fui – e as formas verbais da linguagem ensinam o possível ao portador afectivo dessa linguagem – e tenho aquilo que fui nas minhas mãos quando pego numa fotografia. E sim, é urgente encontrar um nome para este estranho familiar que a fotografia coloca à minha frente. É aquilo que eu já não sou, é o meu não, o meu negativo, o meu antes.
 

30 Jul 2021

Memória e Fotografia – Luz e fogo (2)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

4.
As fotografias são memória em película.
Quando pegas na tua memória com as mãos podes queimar-te.
As fotografias são feitas em parte de fogo, isso é evidente.
Cuidado com as mãos.

5.
O século vinte ficou técnico dos pés à cabeça e o que, em muitos séculos, era memória em desenho e escrita bateu de frente com essa revolução. Há muito que as mãos produziam artefactos para o humano não esquecer a família ou a cidade, mas a invenção da fotografia e do cinema colocaram a tecnologia ao serviço de uma nova memória, mais meticulosa e exacta e mais democrática. Não precisas de saber desenhar ou escrever, accionar um botão basta.
A matéria da memória deixou de ser feita com as mãos hábeis, deixou de ser arte de artesão. Até ao final do século XIX, as mãos faziam objectos e memória – quando escreviam e desenhavam; mas agora parece bastar um dedo fazer o gesto mais simples e uma pequena pressão.
As mãos tornaram-se secundárias e acima de tudo a aptidão artística foi colocada no armazém ou no museu. Já não precisas de ser escritor ou pintor para fixar um rosto ou uma montanha que não queres esquecer.
Carregar num botão não tem a mesma dificuldade, apesar de tudo, do detalhe que o quadro exige das mãos e de um pincel.
Podes, se for caso disso, accionar a máquina fotográfica com o cabo do pincel de um pintor antigo – mas tal é uma performance, não uma necessidade.
Só um completo desastrado de dedos não consegue, no século XXI, tirar uma fotografia ao seu pai ou ao seu filho. Se a fotografia é boa, de luz e intensidade, isso é outro assunto. A família, a memória e a tecnologia, eis três palavras que se aproximaram muitos – talvez demasiado – nos últimos anos.

23 Jul 2021

Memória e Infância – Luz e fogo (1)

A partir da exposição Natureza fantasma, de Marco Martins

 

1.

A memória é uma forma de o cérebro colocar imagens na cabeça que não existem cá fora – e perder a memória é um incêndio algures no nosso sótão mais privado – e as imagens, já sabemos, são bem inflamáveis. As palavras ardem a uma temperatura, as imagens a uma outra – talvez mais baixa, talvez mais alta, não sabemos. Estudemos, pois, quem perde a memória; o que perde primeiro: palavras ou imagens?
Sabemos que as canções ficam quase sempre para último, como a definitiva resistência – mas as canções não são palavras, são palavras com certo ritmo; são palavras elevadas a um qualquer estado aéreo que as faz aproximar mais do céu que da terra. As canções ficam na nossa memória e não sairão tão cedo, isso é evidente e é apenas um exemplo.
A música é talvez o que fica, mesmo em bailarinos: como num incêndio onde tudo o que é material é destruído, mas das cinzas vem um som, uma canção.
É isso perder a memória, das cinzas vem um som. E muitas vezes esse som é uma canção de infância.
E assim definimos rapidamente aqui uma regra: são as canções de infância que melhor resistem aos incêndios.
O fogo não destrói o som. E isso tem de ser repetido: o fogo não destrói o som.

2.
A infância é evidentemente um sítio onde o nosso corpo estava como quem está no estrangeiro. Pode ser um feliz país estrangeiro ou um infeliz país estrangeiro, mas sim, nenhuma criança conhece as palavras dessa língua – e um adulto ainda menos.
Talvez a velhice seja o estrangeiro mais agreste e menos compreendido a que o corpo tem acesso. De qualquer maneira, mas para alguns a infância não foi essa maravilha que os contos de fadas contam.

3.
Perder a memória como quem está diante do último incêndio no sótão dos pais.
E diga-se rapidamente: a morte dos pais é isso: o incêndio principal. Com a morte dos pais, vai esse armazém afectivo para o céu ou para a terra ou directamente para um local, no corpo do filho, onde a vida choca de frente com os seus limites.

16 Jul 2021

Jacaré e bomba

Os haikus modernos vigiam a guerra como um avião moderno, quase silencioso, que só leva olhos e atenção; nenhum explosivo.

1.
ansioso
o jacaré
(permanece) imóvel

2.
delirante
o balão
não volta

3.
um bisonte parado
vê passar a bicicleta
– não entende a roda

4.
os sinos não distinguem
um morto de outro
– as famílias sim

5.
cautela, não te aproximes
um homem está infectado
e é teu amigo

6.
galo despedido
os meninos acordam sem ele
– música electrónica

7.
dinamite ocupa o ar da sala
– o perfume desapareceu
do vestido enamorado

8.
a primeira investida da viúva
é contra o sol
– morte num dia lindo

9.
escreveu poesia
– agora é responsável
por uma explosão

10.
engenheiro assina o papel
mas o vento leva
documento e lixo

11.
as cadeiras parecem vazias
e cheias
– cinema bombardeado

12.
bombardeiro parado
no porta-aviões
– uma cana de pesca

2 Jul 2021

Torre e Caminhos

Entender um pormenor é começar a entender tudo. Mas é preciso continuar, claro.

1.
o míssil inteligente
não entende
a letra A

2.
a gargalhada impede a linguagem
– os dois amigos
estão felizes

3.
– na torre
vigia distraído
observa o insecto

4.
sistema binário
amigo ou inimigo
– humano demasiado ansioso

5.
na igreja
os meninos beliscam
o devoto distraído

6.
som distorce mensagem
– recebida com sorriso
declaração de ódio

7.
não encontra as músicas
a infância passou
– desmonta o rádio velho

8.
não havia aqui uma fogueira?
o computador
no centro da sala

9.
a aldeia da infância cresceu
– procuro mas não encontro
os meus pais vivos

10.
os maxilares ouvem-se
ensonados
– dorme mas pensa nela

11
só eles sabem o caminho
– os cegos, os loucos
os mudos

25 Jun 2021

Tempestade, céu e avião

1.
tempestade
– os ventos procuram 
o norte
 
2.
descarrilamento 
– a vida fica 
onde a deixou o desastre
 
3.
de noite 
na alfândega 
dançam canções livres
 
4.
os degraus 
só têm um sentido
– ela está lá em cima
 
5.
com o anel rapa
do sapato
o excremento da vaca
 
6.
homem corajoso 
imobilizado 
– carro sem gasolina
 
 
 
7.
o homem imoral 
ajuda o velho a levantar-se
– vida confusa
 
8.
no museu 
o quadro entedia-se 
– demasiados visitantes
 
9.
mão do torto 
coração
– mas direito o traço
 
10.
na montanha alta
– é uma altura efémera
tens de descer
 
11.
o atleta  
não entende 
a meta…
 
12.
na meta 
ganha balanço
– parte quando devia dormir…
 
13.
na meta 
começa
o dia seguinte
 
14.
luzes fechadas
mas a casa não dorme
– ansiedade
 

18 Jun 2021

Madeira podre, pó, fotografia a cores

De que forma vemos os indícios? Como se faz zoom com a linguagem e sem tecnologia? Como é que de uma peça pequena se vai para um grande plano? A linguagem como forma de observar. E também: o acto de ver como uma forma de pensar. 

Estás a pensar ou a ver? Pergunta absurda, pergunta inaceitável.
 
1.
no estaleiro 
madeira podre no canto
– já viajou muito
 
2.
os hospedeiros adormecem
ao lado do visitante
– vinho
 
3.
coliseu de Roma
– o ciclista passa 
com pressa
 
4.
não há caminho 
quando o homem 
está com sono
 
5.
também sacode o pó
do objecto
menos valioso
 
6.
a alta torre Eiffel atingida
por uma gota 
– início da chuva tímida
 
7.
um banquete 
talheres de prata
– falta a alegria
 
8.
três irmãs 
uma não casou
– a televisão ligada
 
9.
traços do jogo no chão
o avião sobrevoa
– os meninos fugiram
 
10.
sabe para onde ir 
mas diminui o passo
– piso escorregadio
 
11.
alimento apodrece 
ao lado 
de uma fotografia a cores

11 Jun 2021

Discurso, Ferro, Oração

O olhar passa pelas coisas como se estas falassem ou pelo menos a sua mudez fosse desesperada. Os objectos não são assim tão passivos.
 
1.
discurso solene
interrompido 
por uma folha branca
 
2.
ecrã saltitante 
à frente do corpo morto
– ataque cardíaco
 
3.
criança resgatada 
fala língua ininteligível
– o horror amputa a sintaxe
 
4.
todos os rostos 
iguais 
– a nuca 
 
5.
o cego toca 
com a mão 
no tecto
 
6.
câmara de filmar 
desligada 
– dança o ministro
 
7.
bombeiros chegam tarde 
nenhum fogo
– uma carta
 
8.
moldura sem quadro
quando ela sai
– espelho solitário
 
9
o rei está sentado 
e fala
– a cadeira está trémula
 
10.
pai morto, mãe desaparecida
menina de seis anos
canta na rua
 
11.
o ferreiro é forte
o metal dobra-se
– o dia não
 
12.
– candeeiros iluminam 
o caminho está livre
não queres ir por aí
 
13.
ajoelha-se para rezar 
corta-se
– vidro
 
14.
o barco no mar 
o medo na terra 
o trovão no ar

5 Jun 2021

Sul, Norte, Braço, Lixo

1.

chegaste ao Sul

– não te esqueças

do Norte

2.

o mestre tem só

uma flecha

– uma vontade

3.

a altura

das botas

não te pertence

4.

– as minhas mãos

no escuro

encontrei-as

5.

– quem é?

a dúvida

entrou no quarto

6.

o submarino assusta os peixes

mas os arbustos estão

felizes

7.

a bomba encolheu

os ombros

– não se pode culpar quem caiu

8.

o soldado pesa menos

que o seu peso

– transporte do ferido

9.

animais perdidos

a solução vem de cima

– helicópteros salvam

10.

números no papel

muitos zeros

– despensa vazia

11.

no meio do lixo

procura

compaixão

12.

o relógio velho

faz companhia

ao solitário

13.

o imperador adormeceu

à frente

dos meninos

14.

um segundo depois da explosão

– um braço

procura um homem

28 Mai 2021

Aviões e bolhas de sabão – Mulheres de Itália (26)

Jeanette está a fazer um teste de QI que saiu numa revista.

Jada está a pensar que Heidi tem um nariz torto.

Jeanne está a aprender a apertar os atacadores e o avô está a gritar.

Jael abre a boca para mostrar a matéria frágil dos dentes.

Jaquelina diz que só há uma divindade que é o tempo, o espaço não.

Jenara está a limpar uma lousa do túmulo do pai.

Jaione está a apertar um parafuso numa mesa de mármore.

Jasone assobia uma música pop para não ouvir a namorada.

Jenifer desabotoa a bata, senta-se, pousa a radiografia na mesa, e começa a chorar.

Jaira limpa obsessivamente os sapatos ao tapete como se o tapete fosse um medicamento estranho que transforma sapatos doentes em sapatos saudáveis.

Javiera bebe água quente porque leu que faz bem ao estômago e à cabeça.

Jeniffer está a pilotar um pequeno barco e as mãos tremem mais do que o mar exige

Jakinda faz bolhas de sabão com uma palhinha, mas a mãe, que é a única pessoa que importa, está a olhar para outro lado.

Jawila pega no martelo para corrigir uma pauta musical e depois ri-se muito e diz à sua amiga Ilaria que corrigir uma pauta musical com um martelo é um gesto à Beethoven contemporâneo e ela é no fundo uma Beethoveniana do século XXI.

Jenna conta o número de furacões que existiram na América do Sul na última década andando no tempo como quem anda num mapa.

Jala põe doce no pão enquanto não está ninguém em casa.

Jayde está diante de uma máquina de venda automática de comida e bebida e, como está com fome, aquilo parece-lhe a montra mais bem feita da cidade.

Jennifer arrota involuntariamente e fico muito envergonhada.

Jenny está a aprender a escrever rápido ao computador, mas o seu dedo mindinho parece resistir aos ensinamentos e estar quase sempre de fora, como se estivesse a vigiar o resto dos dedos.

Joann está a ver um livro de aviões para escolher em qual preferia ter um desastre. São todos bonitos, diz.

21 Mai 2021

Guerra, Cidades e Campo

As três linhas de haiku transformam-se num zoom via linguagem. A linguagem aproxima-se da realidade e vê detalhes. Mas, sim, há também o grande plano.
 
 
1.
uma granada 
em pleno voo
perdeu o sentido
 
2.
a cavalaria não usa 
cavalos 
– velocidade e elegância
 
3.
em paris
um pássaro 
é novidade
 
4.
buzinas e tráfego 
– onde estão os limões 
e o tempo?
 
5.
tecido macio 
cores perfeitas
– ninguém para ocupar o vestido
 
6.
o século XIX 
está na sala
– biombo do bisavô
 
7.
os meninos correm 
a lua ao fundo 
– lições de perspectiva
 
8.
o som do sino 
assinala 
a moda atrasada
 
9.
janelas fechadas 
silêncio
– mosteiro cheio 
 
10.
ecrã desligado 
continuas a fixá-lo
– espelho negro
 
11.
o dinheiro 
causa atrito 
– mão de escultor
 
12.
rua vazia
o vagabundo 
entra 

14 Mai 2021

Mundo e aldeia

Como ler um haiku contemporâneo? 

Os olhos modernos ao ritmo da lentidão antiga.
A cada haiku o leitor suspende o olhar sobre a folha, levanta-se e dá alguns passos em redor da sala ou mesmo da própria casa.
Depois regressa. E lê um outro haiku. E procede, a seguir, da mesma maneira: suspensão da leitura e breve caminhada.
 
 
1.
até a eternidade 
precisa de atenção
– pó em cima da mesa 
 
2.
a base dez no cálculo
não faz tropeçar
– centopeias
 
3.
os pirilampos 
à luz do dia
são luz do dia
 
4.
enquanto cai 
a folha aprende a nadar
– árvore junto ao rio
 
5.
uma folha cai de um prédio alto
não é uma folha
– o outono deprime
 
6.
mulher diante de homem
difícil código secreto
– as pálpebras dela
 
7.
um relâmpago 
ilumina a luz elétrica
– duelo estranho
 
8.
o mármore 
acalma a cólera
– o grito parece sussurro
 
9.
bafio 
e aranha no canto
– o coração está só
 
10.
escreveu na madeira 
o nome dele
– o alfabeto treme
 
11.
no escuro
perde-se 
quem vê
 
12.
leio o livro 
“a história do mundo”
– da aldeia não saio

7 Mai 2021

Os cegos e o globo

As tradições literárias do Oriente não são apenas tradições de escrita, são tradições de velocidade e lentidão e são, muitas vezes, consequência de uma forma tradicional e específica de olhar.

A escrita não está só no mundo. Nem inicia o mundo. Olhas e depois escreves, andas e depois escreves, sentas-te e depois escreves.

A forma como olhas, andas e te sentas determina, claro, a forma como escreves. A forma como olhas, andas ou te sentas, em parte vem da forma como olhavam, se sentavam e andavam os teus avós.
Por isso mesmo, cada vez me interessa mais o haiku como forma de abrir uma fenda rápida que rapidamente se fecha.

1.
globo
mapa e mão
– a mesma escala

2.
a mesa
onde cabe o mundo
é pequena

3
num piano Tchaikovsky
no outro, calado,
um afinador

4
– vendem-se armas
publicidade
interrompe a batalha

5
a mãe sobreviveu
– curada
começa a curar

6
às de espadas
a mesa treme
o jogo acaba

7
o tripulante do avião
desmaia ao pisar
o chão

8
em terra esqueceram
os dados que dão sorte
– tempestade

9.
a guerra
aprendeu sons
com o relâmpago

10.
um soco
não acerta
na multidão

11.
o louco ao ar livre
desenha
a tempestade

12.
os cegos
falam por cima
da muralha

———–

30 Abr 2021

Doze haiku para Abril  

Haiku na cidade moderna.
Abril, doze sínteses. O olho tenta ver.
 
1.
o copo vazio 
dá sede
– viajante
 
2.
gentileza 
com pressa
– grosseria
 
 
3.
pesa demasiado 
na mochila
– o oráculo 
 
4.
o estrondo
não chega 
ao ouvido concentrado
 
4b
estrondo 
é silêncio 
– ouvido concentrado
 
5.
engenheiros desenham 
uma mulher nua
– pausa nos números
 
6.
os imortais 
inventam 
um jogo lento
 
7.
o ébrio acorda
– encontra sapatos
mas não os pés
 
8.
o comboio chega
à estação
– os corações partem
 
9.
estica os lábios 
e cala-se
– beijo
 
10.
mãos com vinho 
tocam 
na árvore verde-clara
 
11.
aprendeu a assobiar
para ter companhia 
do cavalo
 
12.
um cego 
encontra
um amigo

23 Abr 2021

Flores e ninguém no quarto – Mulheres de Itália (25)  

Hesperia põe água nas flores e diz que elas só quando são afogadas é que respiram.
Honesta fala nos ventos fortes que só destapam as saias das mulheres que têm amantes.
Hugolina diz com o seu modo atabalhoada de falar que vem aí um bombardeiro americano para destruir à bomba o vírus de que toda a gente fala.
Higinia está a secar a roupa e a queixar-se da falta de sol.
Honor tem aerofobia e cada vez que escuta o som de avião grita como se a tivesse a pisar.
Humbalda embirra com o namorado da irmã.
Hilaria está constantemente a abrir a janela e a fechá-la como se a casa precisasse de respirar a um certo ritmo, e a abertura e o fecho das janelas fossem essenciais para isso.
Honorata diz que se pusermos muita água no sangue, o sangue ganha uma cor sem interesse nenhum.
Humildad reclama na lavandaria do bairro porque uma das suas camisas brancas está agora completamente rosa.
Hilda diz que é a paciência que faz os escravos. Sem paciência, não havia escravatura, diz – e é muito aplaudida.
Honoratas faz uma careta ao espelho a imitar o lábio descaído da sogra.
Hildeberta está a ver fotos de moinhos antigos e a estudar as muitas formas de o vento se tornar útil.
Honoria está com dores de barriga e diz que não é do período.
Jacaranda põe a mão no coração para contar as batidas provocadas pela sua ansiedade.
Jamila não conhece aquele caminho e por isso está, ao mesmo tempo, a olhar para a frente e para trás para ver se ninguém a segue.
Jazlyn terminou agora mesmo um discurso na faculdade e é muito aplaudida por algumas pessoas que sabe que a detestam.
Jacinta é cega desde nascença e por isso já se habituou àquelas pancadas do joelho nas mesas.
Jane interpreta um texto de grego antigo e tem um lápis de bico grosso na mão.
Jazmín escreve um e-mail que termina com a frase: vai à merda!
Jacqueline diz em voz baixo, estou grávida. Mas não há mais ninguém no quarto.

16 Abr 2021

Os filmes, as moscas, o vento – Mulheres de Itália (24)  

Hermilda elogia o filme que não teve paciência para ver.
Helen limpa os dedos dos pés com vinho do porto e canta o hino de Itália de uma maneira que nenhum amigo percebe.
Henedina limpa com um pano o pó por cima da fotografia dos pais.
Herminia diz que a virgindade é um centímetro quadrado e ri-se muito.
Hermione desenha um pénis no quadro sem ninguém ver.
Hildegarda está no hospital com tubos no nariz e na boca e de repente pensa que ela própria é um sistema de canalização autónomo e que, por uns tubos, passa a morte, e por outros passa a vida.
Horacia aperta mais o casaco porque está cheia de frio.
Hermisenda põe sapatos altos e empina o rabo para o espelho.
Hildegunda tem um termómetro na mão e está assustada com o número que viu.
Hortencia tenta perceber quanto valem mil dólares modernos em antigas liras italianas.
Hermogia está de braços cruzados à espera de que os médicos lhe digam que o pai morreu.
Hipodamia está inerte, mas a enfermeira diz que não está morta.
Hortensia acaba de matar uma mosca com a fotografia do casamento dos pais.
Hermosa quer mudar de vida depois de a tempestade passar, mas pensa que, se a tempestade passar rápido, ela não vai ter tempo para mudar de vida.
Hipólita está na rua e pensa que se ficar mais três noites fora de casa entra de certeza na estatística italiana dos vagabundos.
Hospicia tranca-se dentro do quarto e grita que vai engolir a chave para que a mãe nunca mais entre ali para lhe espiar o diário.
Hersilia estuda a órbita de um planeta e diz que, quando a pandemia passar, o céu vai ficar mais claro e certamente os telescópios vão encontrar mais um outro planeta qualquer que estava escondido.
Holda perdeu o telemóvel e está aos gritos por ele como se o telemóvel tivesse ouvidos ou fosse uma criança pequena.
Huberta partiu a bacia numa queda estúpida, mas está bem mais preocupado com os seus pulmões.
 

9 Abr 2021

Pestanas, Caramelos, Nuvens – Mulheres de Itália (23)

Haidée diz que a única coisa interessante que tem no rosto são as pestanas longas.
Helena fala da lei da oferta e da procura e diz que quando tudo isto passar vai encontrar um namorado barato. 
Henoch está a ouvir Jimmy Hendrix e a tocar guitarra com as mãos na barriga.
Hélene olha para a unha do dedo mindinho e pensa que tem de cortá-la antes de a mãe chegar.
Henriqua toca no piano uma música infantil, mas as mãos de setenta anos já tremem.
Hannah começou a escrever um diário e na primeira página escreveu: quero morrer. 
Helga está com dores de barriga.
Heráclida diz que é preciso manter o futuro fora das conversas de família.
Haydée dá nome aos caracóis do jardim antes de os pisar.
Helia tem sangue na urina pelo terceiro mês consecutivo.
Herendiaria está a olhar para os pés e a pensar que não tem para onde ir.
Hebe bebe uma cerveja e finge gostar.
Heliana dá aulas de música e diz aos alunos que têm de transformar os sons desagraveis em sons agradáveis e que isso inclui as palavras.
Herlinda está a chorar porque o pai lhe tirou os caramelos.
Hedda está a pensar em Carlo enquanto Januario diz que a ama.
Heliodora começa aos berros em frente ao espelho para perder energia até ao marido chegar.
Hermelinda olha para a radiografia e diz que aquele osso largo da bacia não é o seu.
Hedy está a treinar salto em altura, mas o que ela queria era que o pai não tivesse morrido.
Heloisa tem uma voz estridente que até irrita os pais.
Hermenegilda tem algo escondido nas mãos.
Heidi está a inventar novas palavras com Jeanette. Uma delas é: cabrahumana, tudo junto.
Helvecia não sabe mexer nos comandos da televisão.
Hermia diz que a imundície está agora até nas nuvens.
Heladia está a correr para chegar a tempo ao almoço gratuito dos sem-abrigo.
Helvia está à janela a chamar nomes a uma pessoa que não conhece.

26 Mar 2021

Cartas e Empurrões – Mulheres de Itália (22)  

Giuliana está a pensar que é genial mas tem três anos.
Giulitta está a raspar, com uma espátula, o nome do marido no anel de ouro. 
Giuseppa está a subornar o pai fingindo que se ri muito com as anedotas dele.
Giuseppina acerta o tom de voz para não denunciar o seu desprezo por aquela menina pobre que entrou na sala. 
Giusta usa pela primeira vez saltos altos e fica com uma bolha enorme no pé-direito e não percebe porque é que o pé direito é diferente do esquerdo.
Glenda está pela primeira vez a pôr a língua na boca de Giulio.
Gloria chama à mãe burra burra burra, três vezes seguidas para ela não esquecer.
Godeberta está a pensar que o que leva debaixo da camiseta é mesmo dela e não é algodão para encher o sutiã como algumas colegas usam.
Godiva está a olhar para uma carta que recebeu quando tinha dezoito anos, carta que só repetia como ela era bela e por isso começa a chorar porque já não tem dezoito anos, tem oitenta.
Grazia caía muitas vezes ao chão porque a sua colega Diletta a empurrava por pura maldade.
Graziana diz que é necessário encontrar a dose certa de disciplina para acalmar aquela menina “que não se sabe comportar com o fracasso”.
Graziella diz que a morte naqueles meses parece monocórdica e má e não sabe dizer porquê.
Greta diz a enfermeira-chefe que foi abandonada pelo marido pela segunda e última vez.
Griselda diz logo que sim àquele rapaz e fica muito excitada.
Guenda repreende a jovem Fiorella e diz que há ali velhos mais inteligentes do que ela e que os velhos nem sempre vão ficando mais parvos com a idade.
Guendalina tem uma pele que brilha de forma intensa e que a envergonha porque ela quer passar despercebida.
Gundelinda aproxima o nariz de um pêssego bem maduro e respira-o como se o pêssego fosse uma droga.
Hada cai da cadeira diz: foda-se.

19 Mar 2021

A tribo mínima

1.
Uma estação de caminho de ferro abandonada.
O comboio não se esqueceu do caminho nem explodiu com uma bomba qualquer, simplesmente desapareceu com a simples modernidade. Ou com a mudança de direcção do comboio.
Já não passa aqui, as linhas rectas conduzem-no para outro lado.
Um casal come no chão, entretanto. Nesse chão estranho.
Um piquenique no chão porque sabem que ali não vai passar o comboio. É seguro.
Cada um, de cada lado, como se os carris fossem o lençol metálico colocado na terra para este piquenique triste.
Mas este lençol jamais será de novo levantado, a não ser pelos ladrões que já não querem saber que aquele ferro antes foi estrada – e como a memória tem valor baixo no mercado, o ferro, por onde passava o comboio, passa a ser simples ferro e a ter o seuvalor em peso.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
 
2.
Não importa a função daquilo que não funciona, mas o peso.
O peso dos mortos, o mais terrível peso daquilo que já não funciona, daquilo que já não tem funções – espaço, corpo do morto onde os órgãos se calaram e ficaram imóveis.
É a memória humana que faz, do peso dos mortos, o grande peso afectivo. O mais valioso dos pesos puros.
O ferro também pesa, sim, mas não da mesma maneira.
 
3.
Sempre se soube isto. Um forte humano sozinho vale por uma vasta tribo fraca.
Leio que há um movimento cultural sul-coreno, chamado honjok, que “elogia a vida solitária”.
Honkoj significa “tribos de um homem só”.
A ideia é que o prazer da existência seja canalizado para o isolamento. 
Criar “solitários de sucesso”, diz um especialista em honjok.
Prioridade “para uma vida interior” em detrimento de uma vida virada para fora. E o fora são os outros.
Quando três destes humanos se juntam, estão ali, em pouco espaço, três tribos de um homem só.
A grande tribo mínima: um.

12 Mar 2021

Notícias do céu e da terra (intervalo)

1.

Uma notícia terrível: “Falta de comida leva ursos a atacar túmulos na Rússia.”

2.

Os ursos são animais que parecem quase peluches para meninos ingénuos quando estão deitados ou sentados em modo paxá de preguiça, mas subitamente assustam, e muito, quando se levantam mesmo que em modo meio desastrado e trôpego como quem acabou de dormir seis meses seguidos devido ao cansaço ou à pura indiferença em relação ao mundo.
São, então, nessa altura, quando se levantam, os bípedes – mesmo que temporários – mais largos que existem; pelo menos na psicologia humana, porque transformam todo o seu peso de quilos em peso que ameaça dar o abraço de que tanto se sente falta nestes dias, mas não assim –  um abraço de urso de onde não se regressa, quase semelhante a um abraço de despedida entre dois humanos que sabem que jamais se irão ver de novo.
Com o urso a síntese é esta: ele dá um abraço a um moribundo e o moribundo és tu.

3.
A largura e o comprimento não são apenas uma questão métrica e quantitativa.
A largura de um urso é dez vezes maior do que a sua largura medida por fita amarela e métrica.
Um urso aumento de potência e envergadura pelo susto que provoca em ti o puro pensamento nele.
O tamanho da ameaça do mundo depende do teu medo, claro.
O susto aumenta, portanto, a largura, o comprimento e a altura do mundo que nos amedronta.

4.
Há muitas notícias, no céu e na terra. Uma do céu, para compensar:
“Uma equipa de cientistas usou um pequeno foguete lançado pela NASA para estudar a natureza de um tipo indescritível de nuvens que brilham no escuro, criando uma artificialmente.”
Nuvens que iluminam a noite, “nuvens mesosféricas polares” que “se formam no final da primavera e no verão nos polos norte e sul”.
A natureza faz o que alguns poemas românticos anunciavam séculos atrás.
Imagino uma noite em que uma nuvem ilumina os passos de alguém, luz natural e nómada que não deixa os meninos, nem os humanos desesperados, demasiadamente no escuro. De noite, as nuvens salvam.

5 Mar 2021

Um intervalo para notícias do mundo

1.

Um amigo, Jonathan, disse, com o seu sarcasmo habitual, que se deveria fazer o seguinte: nos países em que os mais velhos ficam para mais tarde, em vez de os vacinar, uma simples proposta – um programa de televisão lindíssimo, com muito décor azul e muitos vermelhos distribuídos por um néon saltitante e um concurso, claro; e aí colocar braços, bem jovens e politicamente belos, a serem vacinados em directo, entre chamadas telefónicas que atribuam por sorteio uma vacina por cada 10.000 velhotes, e talvez assim a morte diária destes cidadãos praticamente obsoletos seja suavizada pelo belíssimo entretenimento público. Morrer em plena festança efusiva, como aconselhavam antigas escolas gregas, disse Jonathan. Fica a proposta.
E os mais velhos, entretanto, perguntam, a cada manhã que passa: e hoje a vacina dá a que horas, na televisão?

2.

Há países com 78 excepções ao confinamento. Uma pergunta filosófico-contabilística: a partir de que número de excepções uma coisa deixa de ser a coisa que é?

Em termos concretos, diz o meu amigo Jonathan, a partir de que número de excepções – quinhentas? seiscentas? – e, passando pelo meio-confinamento, pelo oitavo de confinamento, pelos cinquenta e dois avos de confinamento, etc. – a partir, então, de que número de excepções, dizia, um confinamento deixa de ser confinamento e passa ser o seu exacto oposto, o convite para uma saída, o convite para a rebaldaria completa?

3.

Numa notícia recente, fala-se de um italiano de oitenta e um anos que não foi autorizado a visitar a sua mulher no hospital e por isso trouxe um banco de madeira e colocou-se na rua em frente ao hospital a tocar um acordeão/concertina e a cantar uma serenata.

Não há voz mais triste no mundo, nem voz mais forte no mundo, do que a voz de um italiano de oitenta e um anos que não foi autorizado a visitar a sua mulher no hospital e por isso trouxe um banco de madeira e colocou-se na rua em frente ao hospital a tocar um acordeão/concertina e a cantar uma serenata.
Canção circular. Voltar a repetir como um mantra.
Não há voz mais triste no mundo, nem voz mais forte no mundo.

26 Fev 2021

Mulheres de Itália (21) – Insectos, cocaína, música

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

 

Galatea coleciona insectos há muitos anos, mas a cada sirene de ambulância que passa fica com vontade de atirar toda a colecçãopela janela.
Gaudenzia ouve a sua ginecologista a fazer uns sons estranhos com a boca.
Gelsomina tem um cancro e está a sorrir para o filho de cinco anos que acabou de entrar no quarto.
Geltrude está a fazer ginástica.
Gemma tenta fazer sons excitantes, mas está entediada e imagina que o marido foi transformado num material que só tem peso.
Generosa está a sublinhar um livro com um lápis staedler B 1.
Genesia diz a uma cliente gorda que ela está muito elegante.
Genoveffa revolta-se com o que ouve na televisão.
Germana diz à mãe que não fala com ela até ela ser inteligente.
Gertrude está a treinar ballet no quarto porque a escola está fechada.
Ghita está a enviar uma fotografia sua nua para um rapaz do Brasil.
Giacinta está a gritar com o pai para as colegas verem.
Giada está a correr sozinha no parque e tem um fato de treino preto bem apertado no rabo.
Gigliola está nas urgências a gritar que uma velha passou à frente do filho.
Gilda estuda a forma de locomoção dos cavalos quando estão a ficar velhos.
Giliola veste cuecas azuis, mas depois arrepende-se.
Ginevra pega no estetoscópio mas percebe que o homem jámorreu.
Gioacchina tem quarenta anos e não encontra um namorado em lado nenhum.
Gioconda mexe nos papéis antigos de uma gaveta do pai e encontra lá uma fotografia que lhe mete nojo.
Gioia está cada vez a gostar mais de Jesus.
Giorgia consome cocaína e assim, pensa ela, ficará até ao fim, aandar em círculos até ser uma velha demente com o nariz bem vermelho.
Giovanna quer que o namorado se cale e segure no saco que ela trouxe para vomitar.
Gisella sente que comer se tornou há muito secundário.
Giuditta pensa que deveria ter dito ao pai que não interferisse na sua vida.
E Giulia está a dançar ao som da música Dance Monkey.

19 Fev 2021

Hino de Itália, os avós, as anedotas

Mulheres de Itália (20)

Filippa está no quarto de Esterina a olhar para a bandeira vermelha que ocupa toda a parede.
Filomena está a chorar, mas o pai diz-lhe que chorar não corrige os erros de ortografia, mas estudar sim.
Fiordalisa abre o envelope que tem as análises.
Fiore está a pensar que não tem nada a ver com os problemas de Edvige.
Fiorella fala com os seus velhos do lar como se fossem todos surdos e dementes.
Fiorenza põe o hino de Itália a tocar na vitrola antiga.
Flaminia está rouca por tanto gritar o nome da mãe, mas não é isso que a vai fazer ressuscitar.
Flavia lava os dentes na casa de banho enquanto imagina o que Claudio estará a fazer na outra casa de banho.
Flaviana promete atravessar de joelhos todo o passeio do bairro caso o seu marido se salve.
Flora arrotou, mas o namorado não ouviu.
Floriana escolhe a máscara mais cara da loja e diz que nem na guerra a vão obrigar a vestir mal.
Floridia olha atentamente para o mapa de Paris, mas está completamente perdida.
Florina está tão excitada que não quer parar de pensar na sua mão e na vagina de Degna mas ao mesmo tempo tem vergonha porque no ecrã agora estão a mostrar um homem tão magro e tão maltratado que ela deveria estar a chorar e não estar excitada como está.
Foca está a acabar uma pintura que lhe encomendaram.
Fortunata está há meses na aplicação e só lhe aparecem homens velhos.
Fosca ri às gargalhadas com a anedota da amiga Loretta.
Franca diz que não tem avós e que os velhos devem deixar os mais novos passarem à frente na porta.
Francesca tem sapatos novos mas está com uma dor de barriga tão grande que nem se lembra que tem pés.
Fulvia diz a Franca que a lentidão é uma forma de poluição.
Gabriella gargareja e diz que está outra vez quase a morrer, mas já ninguém liga.
Gaia gosta da blusa branca que Leonia vestiu.

5 Fev 2021

Mulheres de Itália (19)  

Ester limpa o espelho mas sabe que isso não adianta.
Esterina tem um namorado americano e diz-lhe via skype que se ele não muda de nacionalidade ela começa a namorar com outro.
Eufemia está aos gritos ao telefone com o pai.
Eufrasia está a ouvir o som da urina a cair na sanita e está a acompanhar esse som com estalidos da boca.
Eugenia está a abrir um site pornográfico enquanto diz que já tem dezoito anos.
Eulalia dá um beliscão ao filho e diz-lhe ao ouvido como se fosse um segredo para ele nunca mais esquecer: és muito burro, tu és muito burro!
Euridice está entediada a ouvir música clássica ao lado do pai que está entediado a ouvir música clássica ao lado de Euridice.
Eusebia é enfermeira e diz que nas últimas manhãs têm sido assim, e que é preciso interná-la rapidamente.
Eutalia diz que está a ser perseguida na internet, mas isso não parece ser razão para se fechar à chave no quarto.
Eva não sabe onde termina a sua mão e começa a do namorado e está contente com isso.
Evangelina está no hospital a receber oxigénio.
Evelina é cega mas percebe que quem a conduz pela mão no passeio é um homem bonito.
Fabiana está a morder as costas do amante para a mulher dela reparar.
Fabiola diz que o filho só vai à escola se antes a professora de inglês for despedida.
Fatima diz ao marido que os últimos anos com ele têm sido melhores do que os primeiros.
Fausta começa a chorar ao ler uma reportagem no jornal.
Federica ajeita as cuecas enquanto ninguém vê.
Fedora está a tentar pôr um rádio antigo a funcionar e diverte-se com os sons de rato que saem dali.
Felicia estuda a página 456 do Direito administrativo.
Felicita acabou de abrir o frigorífico.
Fernanda estava com pressa, mas tropeçou e partiu o tornozelo.
Fiammetta acabou de morrer, mas no hospital estão a olhar para outro lado.

29 Jan 2021