Se não fosse a angústia

[dropcap style≠’circle’]S[/dropcap]e não fosse a angústia, não daria conta de que estou vivo. Não percebo bem o que ela me quer dizer. Se é a ansiedade do dia seguinte a todas as vésperas. Se ela me comunica o presente inane, a terra de ninguém entre ontem e hoje. Contudo, sem a travessia de ontem para amanhã. Não sei se ela me quer dizer que a partir de agora tudo será assim: sem véspera, nem dia, nem amanhã.

A angústia anula o ritmo, o volume. Anula, sobretudo, a possibilidade de melancolia. É uma pausa, mas sem som antes ou depois. Nem é bem silêncio. É uma mudez. Ou então é só volume sonoro que estoira os ouvidos.

Às vezes, tenho de correr o mais veloz que conseguir e gritar debaixo da ponte, quando passa o comboio.

Quando ela aí está comigo, não se ouve música, não se lê um livro, não se vai passear. Deixo-me estar quieto, porque o mais leve gesto do corpo pode acordá-la.

A angústia acorda como um cão a dormir que é pontapeado. E não rosna. Morde. Morde do lado de dentro. Acelera a batida cardíaca e respira-se ofegantemente como se não houvesse ar.

Não importa que haja outros que estejam ao pé de ti. Estão muitas vezes outros ao pé de ti. Ela não sucumbe por haver gente ao pé de ti. Ela amplifica-se. Cresce dentro de ti. O outro nem sabe como estás e onde andas. E ela cresce do lado de dentro com o seu corpo alienígena e toma conta de ti. Explode e pulveriza-nos.

Mas não te faz perder pelos seus fragmentos estilhaçados. Vai busca-los onde quer que tenham ido: dias felizes da infância, um rosto da juventude, alguém que morreu, um futuro que certamente não virá, todas as pessoas que conheceste, todas as angústias e ansiedades, todo o tempo passado que viveste e todo o tempo da eternidade que não viverás.

A angústia recolhe todos os estilhaços que és tu próprio explodido por todo o lado, todo tu, e num ápice contraí-te com ela em ti. E faz recomeçar tudo de novo.

O ritmo da angústia é o da febre da infância que te faz corpo com o quarto dos teus pais jovens: expande-se e contrai-se e o teu corpo é a tua cabeça a explodir e a implodir.

A tua angústia não te permite consolo. Torna o teu corpo exangue, não sem que te debatas para poderes respirar. Às vezes, permite-te uma lágrima de consolação. Arrepias-te. Achas que vais poder dormir. E adormeces. Mas só por uns breves instantes. Quando acordas, os cães da angústia mordem-te por dentro. Cegam-te. Deixam-te surdo. O teu corpo é uma chaga refrescada com o álcool que te abrasa como te encharca.

Mas se não fosse a angústia, não conseguiria ter uma percepção da vida. Melhor, não conseguiria ter a percepção da vida ou da forma da vida, uma vida vazia, porque todos os seus sonhos e expectativas, todas as suas esperanças ou, pelo menos, até só uma pequena antecipação— tudo foi anulado da existência: varrido sem saber bem como. Mas sem saber-se perfeitamente quando.

Não. Não foi um único acaso, nem uma sucessão de acasos. Foram acasos. Sim. Mas se a vida fosse diferente, os acasos seriam episódios que seriam esquecidos e não regressariam para nos atormentar ou então eram apenas para fazerem o próprio corpo da vida.

Tenho um cortejo de mortos comigo. Ou, se calhar, sou eu o próprio cortejo feito unicamente de mim quem acompanha os mortos. E não morreram todos, de facto. Muitos continuam vivos, mas ficam vida fora ou não aparecem durante muito tempo.

O tempo que passa oblitera a sua presença, talvez mútua, e não mata a saudade, também talvez recíproca.

Hoje, sou o cortejo fúnebre de vivos e mortos. Hoje, sou eu o cortejo complexo de mim a assistir-me na via sacra. Mas é sem fim. É uma fila contínua que nunca mais acaba. Se ao menos pudesse cochilar um instante. E se pudesse ser, poderia ser sem sonhar? Poderia ser como aquelas noites em que antigamente dormíamos sem sonhos? Só o vazio, só o sossego ou também o alívio?

7 Jul 2017

Uma praça cheia de gente

[dropcap style≠’circle’]H[/dropcap]á uma desproporção entre a configuração anatómica do ser humano e o que somos. Despertamos sensações uns nos outros pela nossa aparência. Podemos nem sempre percebê-lo. Podemos passar despercebidos uns pelos outros. Mas não me estou a referir a impressões que causamos uns aos outros. Estados em que nos deixamos uns aos outros. Estou a referir-me a uma outra forma de desproporção.

Numa praça cheia de gente, a praça é o local onde as pessoas se encontram. É um sítio que alberga todas elas. Mas ali há tantas praças quantas as pessoas que lá se encontram. No mínimo. Mas é muito difícil de perceber porque fazemos caber cada pessoa: bebé, criança, jovem, adulto, velho, homem ou mulher nas fronteiras compactas do seu corpo, no interior da sua anatomia. Há tantos seres humanos quantos os corpos que lá estiverem.

Sim. É verdade. É inegável. Mas a lotação pode estar esgotada e tocamos uns nos outros, desviamo-nos uns dos outros, deixamo-nos passar uns aos outros. Estamos a ir à casa de banho ou ao bar, a entrar ou a sair e não apenas de sítios mas vamos às nossas vidas, como viemos das nossas vidas.

Como poderíamos nós vir de outro tempo e ir para outro tempo que não os das nossas vidas? Não estamos nas nossas anatomias apenas espacialmente. Estamos sempre fora: de casa para o trabalho, a ir para onde vamos e a regressar. Estamos sempre a ir, como se ser fosse ir e com efeito a ter de ir. Mas estamos sempre distendidos entre o quando saímos de casa para vir até aqui ou ir onde vamos e o quando regressarmos. Sair e chegar, partir e regressar não são fronteiras estanques. Desde sempre estamos a sair: quando foi a primeira vez de todas as primeiras vezes e havermos de ter uma última vez de todas as vezes. E podemos já nem sair, nem partir, podemos só estar.

Quando partimos só já estamos, e talvez nem seja assim. Nos sonhos dos moribundos tal como nos sonhos das crianças estão a ser inventadas vidas já vividas ou por viver.

A vida distende-se e faz-se mesmo no interior estanque de onde não vem já sorriso nem queixume. Às vezes uma lágrima mas que pode ser do sebo da carne no quarto de hospital.

Na praça apinhada de gente, estão troços de vidas, uns mais longos do que outros, uns com rumo e tempo outros sem rumo nem tempo. Mas nada do que está ali está ali. O trânsito humano numa praça: um aeroporto, um igreja, uma praia, uma esplanada ou a Praça do Comércio não existem primeiramente geograficamente, mas como encruzilhada onde nada está parado e tudo é escoado e se precipita para não se sabe bem onde.

Há uma desproporção entre o que achamos ser uma vida humana e o seu corpo. E sim: o corpo é o órgão do tempo. Mas o corpo não é estanque e aponta também para o tempo. E vibra em nós o tempo no corpo, quando o forma e definha. Mas não é só assim que a vida e o tempo fazem corpo com a sua anatomia. Não somos sem pai nem mãe, nem antepassados nem descendentes, nem sem amigos, namoradas.

Encontramo-nos no corpo uns dos outros e desencontramo-nos de nós por não nos encontramos no corpo uns dos outros. E encontramo-nos sem ser só no toque. Pode ser no olhar, no cheiro e quando nos escutamos. É difícil conhecermos o tom de cada pessoa, quando não a conhecemos. Mas cada um forma essa possibilidade. Eu, por exemplo, sou lá uma multidão de gente. Não apenas os meus que até posso esquecer, mas os outros mais ou menos afastados. Pode ser uma nação, quando vivemos nesse país, pode ser uma única pessoa que está a dar o mote à cadência vibrante da chegada ou da partida. Numa praça de gente estão muitos destinos, muitas cadências vibrantes, cada pessoa entroncada com os seus destinos, o tempo que houve e o que há-de haver, com e sem esperança. Não está nunca simplesmente onde está. Não está primariamente onde está. Está onde não está. Coisa estranha.

2 Jul 2017

Das tonalidades

Francis Bacon – “Oedipus”

[dropcap style≠’circle’]U[/dropcap]ma tonalidade é uma tradução para o que Heidegger escrutina como formas radicais de acesso ao mundo. São maneiras de ser. A palavra alemã é “Stimmung”. Traz à colação o fenómeno do estado-de-ânimo. É uma disposição. A palavra equivale, de certo modo, à inglesa mood. No étimo, está a palavra “Stimme” (voz). Uma tonalidade é uma cadência acústica, uma melodia, um modo. É assim que na nossa vida estamos dispostos.

Vibram em nós disposições, cadências musicais rítmicas. Heidegger usa tanto metáforas acústicas: “uma tonalidade é um modo de ser no sentido em que é uma melodia, a qual não paira sobre o ser humano que existe aí, mas indica o som do seu ser, é o jeito e a maneira que determina e tonaliza o seu do ser humano (GBM, 101)” ou como metáforas meteorológicas: “Parece que a tonalidade está desde sempre aí, como uma atmosfera na qual nós já imergimos e ela ressoa em nós completamente” (GBM, 100).

Nós temos em português expressões como “estar um ambiente de cortar à faca” ou “de cortar a respiração”, apontando assim para uma densidade extraordinária, uma atmosfera que não só paira em suspenso sobre as coisas, vibra sobre elas, mas perpassa tudo. Isto é o que dá disposição de ir ou de não apetecer ir. Não é uma coloração que pode ser detectada nas coisas (alegria rosa, melancolia negra), que acompanha o estarmos aí. É o que abre ou fecha, de todo em todo, atmosferas.

Nós existimos entre possibilidades extremas de disposições vibrarem. O mais das vezes não estamos nem bem nem mal. Aparentemente neutraliza-se a disposição. Fecha-se o olhar, para dar conta dessa mesma presença. Isto serve para situar o acontecimento do esvaziamento de sentido, no nada da angústia ou do tédio. O nada dá ritmo à vida, dá-lhe uma melodia peculiar, desde sempre, desde a primeira vez das primeiras vezes. A sua cadência é a da asfixia, do estrangulamento do próprio sentido do tempo.

Encontrarmo-nos no meio das coisas no seu todo não significa que o meio seja determinado por uma qualidade espacial (a equidistância). Por estarmos dentro de um determinado sítio não estamos dentro desse sítio: na praia, na esplanada, no mundo. Não é por estarmos entre quatro paredes que estamos na sala.

Estar na sala de jantar a comer e a jogar às cartas é diferente. Se não captamos a totalidade da natureza e história.

A disposição não apenas qualifica o sítio específico em que estamos (só esta sala). Ela faz-nos explodir para fora da sala, do edifício, para fora da cidade, tinge o céu, contamina tudo no seu todo. É centrífuga e claustrofóbica.

O meio das coisas refere a cadência, o ritmo, a atmosfera e o clima em que nos encontramos. Fazemos a experiência de como cada um se encontra ou acha fora do âmbito perceptivo ou cognitivo. Cada pessoa é uma onda ou uma vibração. Cada pessoa encerra em si um espectro de modulações e tonalidades que metamorfoseiam o tempo, circunstâncias e situações. Cada pessoa é uma onda que modula o tempo e atinge a totalidade dos entes.

A priori eu sei que quando me encontro com tonalidades diferentes: azul, rosa ou negro. Não apenas como um fenómeno cromático, mas como atmosferas que antecipam todos e quaisquer conteúdos.

Há disposições a priori que podem não ser anuláveis. Podemos anular a chatice de um filme, saindo da sala do cinema para nos expormos a outros estímulos. Mas só manipulamos as disposições até certo ponto (com um copo de whisky sexta-feira à noite, por exemplo). Os estados de espírito são calculados. Rejeitamos convites porque sabemos que nos vamos aborrecer. Mas há disposições incontroláveis.

Independentemente de onde estamos – no pátio, mar do sul, outra galáxia – estaremos sempre numa cadência com o mesmo tom.

Não é necessário percorrer todos os compartimentos, todas as regiões de ser para interrogar sobre o que ainda escapa.

À partida está ganho o horizonte e a confiança para nele estarmos: o horizonte onde vibram tonalidades. Há um tom para cada um de nós? Qual é? Conseguimos escutar-nos uns aos outros? Como?

GPM: “Grundprobleme der Metaphysik” (Problemas fundamentais da Metafísica)

23 Jun 2017