PARTILHAR
© Giuseppe Cristiano

Se não fosse a angústia, não daria conta de que estou vivo. Não percebo bem o que ela me quer dizer. Se é a ansiedade do dia seguinte a todas as vésperas. Se ela me comunica o presente inane, a terra de ninguém entre ontem e hoje. Contudo, sem a travessia de ontem para amanhã. Não sei se ela me quer dizer que a partir de agora tudo será assim: sem véspera, nem dia, nem amanhã.

A angústia anula o ritmo, o volume. Anula, sobretudo, a possibilidade de melancolia. É uma pausa, mas sem som antes ou depois. Nem é bem silêncio. É uma mudez. Ou então é só volume sonoro que estoira os ouvidos.

Às vezes, tenho de correr o mais veloz que conseguir e gritar debaixo da ponte, quando passa o comboio.

Quando ela aí está comigo, não se ouve música, não se lê um livro, não se vai passear. Deixo-me estar quieto, porque o mais leve gesto do corpo pode acordá-la.

A angústia acorda como um cão a dormir que é pontapeado. E não rosna. Morde. Morde do lado de dentro. Acelera a batida cardíaca e respira-se ofegantemente como se não houvesse ar.

Não importa que haja outros que estejam ao pé de ti. Estão muitas vezes outros ao pé de ti. Ela não sucumbe por haver gente ao pé de ti. Ela amplifica-se. Cresce dentro de ti. O outro nem sabe como estás e onde andas. E ela cresce do lado de dentro com o seu corpo alienígena e toma conta de ti. Explode e pulveriza-nos.

Mas não te faz perder pelos seus fragmentos estilhaçados. Vai busca-los onde quer que tenham ido: dias felizes da infância, um rosto da juventude, alguém que morreu, um futuro que certamente não virá, todas as pessoas que conheceste, todas as angústias e ansiedades, todo o tempo passado que viveste e todo o tempo da eternidade que não viverás.

A angústia recolhe todos os estilhaços que és tu próprio explodido por todo o lado, todo tu, e num ápice contraí-te com ela em ti. E faz recomeçar tudo de novo.

O ritmo da angústia é o da febre da infância que te faz corpo com o quarto dos teus pais jovens: expande-se e contrai-se e o teu corpo é a tua cabeça a explodir e a implodir.

A tua angústia não te permite consolo. Torna o teu corpo exangue, não sem que te debatas para poderes respirar. Às vezes, permite-te uma lágrima de consolação. Arrepias-te. Achas que vais poder dormir. E adormeces. Mas só por uns breves instantes. Quando acordas, os cães da angústia mordem-te por dentro. Cegam-te. Deixam-te surdo. O teu corpo é uma chaga refrescada com o álcool que te abrasa como te encharca.

Mas se não fosse a angústia, não conseguiria ter uma percepção da vida. Melhor, não conseguiria ter a percepção da vida ou da forma da vida, uma vida vazia, porque todos os seus sonhos e expectativas, todas as suas esperanças ou, pelo menos, até só uma pequena antecipação— tudo foi anulado da existência: varrido sem saber bem como. Mas sem saber-se perfeitamente quando.

Não. Não foi um único acaso, nem uma sucessão de acasos. Foram acasos. Sim. Mas se a vida fosse diferente, os acasos seriam episódios que seriam esquecidos e não regressariam para nos atormentar ou então eram apenas para fazerem o próprio corpo da vida.

Tenho um cortejo de mortos comigo. Ou, se calhar, sou eu o próprio cortejo feito unicamente de mim quem acompanha os mortos. E não morreram todos, de facto. Muitos continuam vivos, mas ficam vida fora ou não aparecem durante muito tempo.

O tempo que passa oblitera a sua presença, talvez mútua, e não mata a saudade, também talvez recíproca.

Hoje, sou o cortejo fúnebre de vivos e mortos. Hoje, sou eu o cortejo complexo de mim a assistir-me na via sacra. Mas é sem fim. É uma fila contínua que nunca mais acaba. Se ao menos pudesse cochilar um instante. E se pudesse ser, poderia ser sem sonhar? Poderia ser como aquelas noites em que antigamente dormíamos sem sonhos? Só o vazio, só o sossego ou também o alívio?

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here