Poesia – Georg Trakl

Na folhagem encarnada cheia de guitarras

 

Na folhagem encarnada cheia de guitarras

Das raparigas os cabelos amarelos flutuam

Junto à cerca, onde estão os girassóis.

Uma carruagem dourada atravessa as nuvens.

 

Nas castanhas sombras, calam o silêncio

Os velhos, que estupidamente se abraçam.

Os órfãos cantam as vésperas com doçura.

No vapor amarelo, zumbem moscas.

 

No ribeiro, as mulheres lavam ainda a roupa.

Ondulam estendidos os lençóis de linho.

A pequena que há muito me agrada

Vem de novo através da noite cinzenta.

 

Do céu ameno, os pardais precipitam-se

Na direcção de buracos verdes cheios de podridão.

Iludem o faminto ante a convalescença

O aroma do pão e ervas secas.

 

Im roten Laubwerk voll Guitarren

 

Im roten Laubwerk voll Guitarren

Der Mädchen gelbe Haare wehen

Am Zaun, wo Sonnenblumen stehen.

Durch Wolken fährt ein goldner Karren.

In brauner Schatten Ruh verstummen

Die Alten, die sich blöd umschlingen.

Die Waisen süß zur Vesper singen.

In gelben Dünsten Fliegen summen.

Am Bache waschen noch die Frauen.

Die aufgehängten Linnen wallen.

Die Kleine, die mir lang gefallen,

Kommt wieder durch das Abendgrauen.

 

 

Romance à noite

 

O solitário, sob a tenda de estrelas,

Caminha através da meia noite silenciosa,

O menino acorda perturbado dos seus sonhos,

O seu semblante decai cinzento ao luar.

 

A louca chora com o seu cabelo desgrenhado

À janela que está inflexivelmente gradeada.

Ao largo do pequeno lago, num doce passeio,

Andam à deriva os amantes tão maravilhosos.

 

O assassino sorri pálido no vinho,

O horror da morte agarra os doentes.

A noviça reza ferida e nua

À frente do sofrimento na cruz do salvador.

 

A mãe canta baixinho a dormir.

Muito tranquilo a criança olha para a noite

Com olhos que são completamente verdadeiros.

Na casa de putas, soltam-se gargalhadas.

 

À luz da vela no buraco da adega

O morto pinta com mão branca

Um silêncio sorridente na parede.

O adormecido sussurra ainda.

 

 

 

Romanze zur Nacht

 

 

Einsamer unterm Sternenzelt

Geht durch die stille Mitternacht.

Der Knab aus Träumen wirr erwacht,

Sein Antlitz grau im Mond verfällt.

Die Närrin weint mit offnem Haar

Am Fenster, das vergittert starrt.

Im Teich vorbei auf süßer Fahrt

Ziehn Liebende sehr wunderbar.

Der Mörder lächelt bleich im Wein,

Die Kranken Todesgrausen packt.

Die Nonne betet wund und nackt

Vor des Heilands Kreuzespein.

Die Mutter leis’ im Schlafe singt.

Sehr friedlich schaut zur Nacht das Kind

Mit Augen, die ganz wahrhaft sind.

Im Hurenhaus Gelächter klingt.

Beim Talglicht drunt’ im Kellerloch

Der Tote malt mit weißer Hand

Ein grinsend Schweigen an die Wand.

Der Schläfer flüstert immer noch.

 

(Traduções de António de Castro Caeiro)

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