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A musa da noite

 

À janela, em flores, regressam as sombras do campanário

E do ouro. A testa quente abrasa em repouso e silêncio.

Do ramo do castanheiro, uma fonte cai na escuridão-

E então tu sentes: É bom!, no esgotamento doloroso.

 

O mercado está vazio de fruta de verão e de grinaldas.

Em uníssono concorda a pompa negra dos portões.

Num jardim, ecoam os sons de um suave jogo,

onde amigos se encontram depois de uma refeição.

 

Os contos do mágico branco escuta com enlevo a alma.

Em redor, escuta-se o barulho do vento no trigo que o ceifeiro colheu à tarde.

Paciente calam-se duras as vidas em cabanas;

ilumina o suave sono das vacas a lanterna do estábulo.

 

Inebriadas pelos ares logo cerram as pálpebras

E abrem-se, sem barulho, para os sinais estranhos das estrelas.

Endimião emerge da escuridão entre carvalhos velhos

E curva-se sobre a tristeza profunda da águas.

 

Abendmuse [1]

 

Ans Blumenfenster wieder kehrt des Kirchturms Schatten

Und Goldnes. Die heiße Stirn verglüht in Ruh und Schweigen.

Ein Brunnen fällt im Dunkel von Kastanienzweigen –

Da fühlst du: es ist gut! in schmerzlichem Ermatten.

 

Der Markt ist leer von Sommerfrüchten und Gewinden.

Einträchtig stimmt der Tore schwärzliches Gepränge.

In einem Garten tönen sanften Spieles Klänge,

Wo Freunde nach dem Mahle sich zusammenfinden.

 

Des weißen Magiers Märchen lauscht die Seele gerne.

Rund saust das Korn, das Mäher nachmittags geschnitten.

Geduldig schweigt das harte Leben in den Hütten;

Der Kühe linden Schlaf bescheint die Stallaterne.

 

Von Lüften trunken sinken balde ein die Lider

Und öffnen leise sich zu fremden Sternenzeichen.

Endymion taucht aus dem Dunkel alter Eichen

Und beugt sich über trauervolle Wasser nieder.

[1] TRAKL, GEORG. (2008). Das dichterische Werk: Auf Grund der historisch-kritischen Ausgabe. Editores: Walther Killy e Hans Szklenar. Munique. Deutscher Taschenbuch Verlag, p. 18.

 

Ao menino Elis

 

Elis, quando na negra floresta canta o melro,

Esta é a tua decadência.

Os teus lábios bebem a frescura da fonte azul na falésia.

 

Deixa que a tua fronte sangre levemente

Lendas muito antigas

E a interpretação obscura do voo das aves.

 

Mas tu caminhas com suaves passos em direcção à noite,

Que pende cheia de uvas cor de púrpura

E tu agitas de forma mais bela os braços no azul.

 

Ecoa um arbusto,

Onde se encontram os teus olhos lunares.

Oh!, há quanto tempo, Elis, morreste tu.

 

Teu corpo é um jacinto,

No qual um monge mergulha os seus dedos de cera.

O nosso silêncio é uma caverna negra,

 

De lá sai, às vezes, um animal meigo

E lentamente fecha pesadas as pálpebras.

Sobre as tuas têmporas goteja orvalho negro,

O último ouro das estrelas caídas.

 

An den Knaben Elis[1]

Elis, wenn die Amsel im schwarzen Wald ruft,

Dieses ist dein Untergang.

Deine Lippen trinken die Kühle des blauen Felsenquells.

Laß, wenn deine Stirne leise blutet

Uralte Legenden

Und dunkle Deutung des Vogelflugs.

Du aber gehst mit weichen Schritten in die Nacht,

Die voll purpurner Trauben hängt

Und du regst die Arme schöner im Blau.

Ein Dornenbusch tönt,

Wo deine mondenen Augen sind.

O, wie lange bist, Elis, du verstorben.

Dein Leib ist eine Hyazinthe,

In die ein Mönch die wächsernen Finger taucht.

Eine schwarze Höhle ist unser Schweigen,

Daraus bisweilen ein sanftes Tier tritt

Und langsam die schweren Lider senkt.

Auf deine Schläfen tropft schwarzer Tau,

Das letzte Gold verfallener Sterne.

[1] TRAKL, GEORG. (2008). Das dichterische Werk: Auf Grund der historisch-kritischen Ausgabe. Editores: Walther Killy e Hans Szklenar. Munique. Deutscher Taschenbuch Verlag, p. 17.

 

Noite de trovoada

Oh!, as horas encarnadas da noite!

Cintilante vacila na janela aberta,

Confusa a folhagem para o azul

Lá dentro os fantasmas da Angústia fazem o seu ninho

 

O pó dança no fedor das sargetas

O vento crepitante bate nos vidros das janelas.

[como] Um esquadrão de cavalos selvagens,

nuvens deslumbrantes atiçam relâmpagos.

 

Com estrondo estilhaça o espelho de água.

Gaivotas gritam no encaixe das janelas.

Um cavaleiro de fogo salta da colina

E desfaz-se no abeto em chamas.

 

Gemem doentes no hospital.

Azuladamente freme a plumagem da noite.

Cintilante troveja a chuva,

de súbito, sobre os telhados.

 

Der Gewitterabend[1]

 

O die roten Abendstunden!

Flimmernd schwankt am offenen Fenster

Weinlaub wirr ins Blau gewunden,

Drinnen nisten Angstgespenster.

Staub tanzt im Gestank der Gossen.

Klirrend stößt der Wind in Scheiben.

Einen Zug von wilden Rossen

Blitze grelle Wolken treiben,

Laut zerspringt der Weiherspiegel.

Möven schrein am Fensterrahmen.

Feuerreiter sprengt vom Hügel

Und zerschellt im Tann zu Flammen.

Kranke kreischen im Spitale.

Bläulich schwirrt der Nacht Gefieder.

Glitzernd braust mit einem Male

Regen auf die Dächer nieder.

[1] TRAKL, GEORG. (2008). Das dichterische Werk: Auf Grund der historisch-kritischen Ausgabe. Editores: Walther Killy e Hans Szklenar. Munique. Deutscher Taschenbuch Verlag, pp. 17-18.

 

Gospel

Sinais, um raro bordado,

Pinta um ondulante canteiro de flores.

Sopra a brisa dourada de Deus

Para dentro da sala no jardim

Serena.

Ergue-se uma cruz na vinha selvagem.

 

Escuta na aldeia como tantos se alegram,

O jardineiro apara a relva junto ao muro.

Suave o órgão soa.

Mistura som e aparição dourada,

Som e aparição.

O amor abençoa o pão e o vinho.

 

Meninas pequeninas entram também,

E, por fim, o galo canta.

Devagar abre-se uma cerca podre.

E nas coroas de rosas e fileiras,

Nas fileiras de rosas,

Descansa Maria, branca e fina.

 

O mendigo, ali na pedra antiga,

Parece ter morrido em oração.

Suave desce a colina o pastor,

E um anjo canta no bosque,

Próximo do bosque,

Onde crianças adormecem.

 

Geistliches Lied[1]

 

Zeichen, seltne Stickerein

Malt ein flatternd Blumenbeet.

Gottes blauer Odem weht

In den Gartensaal herein,

Heiter ein.

Ragt ein Kreuz im wilden Wein.

Hör’ im Dorf sich viele freun,

Gärtner an der Mauer mäht,

Leise eine Orgel geht,

Mischet Klang und goldenen Schein,

Klang und Schein.

Liebe segnet Brot und Wein.

Mädchen kommen auch herein

Und der Hahn zum letzten kräht.

Sacht ein morsches Gitter geht

Und in Rosen Kranz und Reihn,

Rosenreihn

Ruht Maria weiß und fein.

Bettler dort am alten Stein

Scheint verstorben im Gebet,

Sanft ein Hirt vom Hügel geht

Und ein Engel singt im Hain,

Nah im Hain

Kinder in den Schlaf hinein.

[1] TRAKL, GEORG. (2008). Das dichterische Werk: Auf Grund der historisch-kritischen Ausgabe. Editores: Walther Killy e Hans Szklenar. Munique. Deutscher Taschenbuch Verlag, p. 19.

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