Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteJosé Drummond, artista, estreia novo trabalho em Lisboa: “A ideia foi criar um espaço de meditação” “O néon é um material que me interessa muito”. Quem o diz é o artista plástico José Drummond, ex-residente de Macau actualmente a viver em Portugal, e que acaba de ver inaugurada no recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, em Lisboa, uma nova peça. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, inspirada no I Ching – Livro das Mutações, é um convite à reflexão sobre a vida e os caminhos que se podem percorrer Como surgiu a oportunidade de ter um trabalho teu no MACAM [Museu de Arte Contemporânea Armando Martins] e de que forma ele se enquadra nas restantes obras? Antes de mais quero falar sobre o valioso trabalho do coleccionador Armando Martins na promoção da Arte Contemporânea em Portugal. É um trabalho notável e incontornável. Quero também referir o interesse e visão sobre o meu trabalho e todo o apoio de modo a tornar possível um projecto tão complicado de chegar a uma fase final. O convite foi feito no final de 2020, pela directora do Museu, Adelaide Ginga, e pela curadora Carolina Quintela, que me lançaram o desafio de criar uma obra “site-specific” para o espaço do túnel que liga a garagem ao Museu. Quando começámos a trabalhar, o que sabíamos é que seria um espaço de passagem, que nos interessava manter o aspecto do túnel com as paredes em cimento e que seria uma peça com luz. O trabalho resultante prossegue a minha investigação do espaço intermédio entre culturas – chinesa e ocidental – prolonga as questões de transiência presentes no taoismo e budismo, e continua a explorar os aspectos de, praticamente, todos os meus trabalhos serem sempre uma transferência seja conceptual, cultural ou física. “Between heaven and earth [Entre o Céu e a Terra]”, nome da obra, é de 2025. Como foi o processo criativo? A sua colocação num corredor obedece a alguma mensagem específica, ou pretende transmitir algumas ideias em concreto. Este foi um trabalho que teve várias fases e que implicou uma larga cooperação com os engenheiros da obra de recuperação do edifício. A nível de projecto foi complicado chegar a este formato final e cumprir a minha visão. Houve a necessidade de se criar uma estrutura eléctrica de propósito para a peça, de se fazer um tecto falso que mantivesse a expressão das paredes originais e por aí em diante. Mesmo depois de finalizar o projecto no papel, tivemos de esperar que as obras de recuperação do edifício ficassem prontas para que fosse possível avançar, pois o túnel era usado como passagem para todos os materiais usados dentro do Museu. Quando, em conjunto com a Adelaide e a Carolina, cheguei a uma versão conceptual final sobre o que apresentar, levantaram-se outros problemas técnicos de manufactura dos néons e de montagem. Foi um processo muito desgastante para todos porque, infelizmente, tanto o custo dos materiais como a falta de rigor da mão de obra em Portugal – para trabalhar com néon a este nível de alta exigência para uma obra com a dimensão que tem – é deficiente. Basicamente a empresa responsável pela manufactura e montagem teve um comportamento absolutamente grosseiro, de falta de profissionalismo, tendo falhado em praticamente tudo o que foi pedido. Foi necessário desmontar tudo e voltar a montar com a montagem final a ser feita por mim e pelo meu assistente, Rafael Lopes, sem o qual não teria sido possível. Quanto ao processo criativo, apesar de parecer complicado, acabou por ser mais simples. Quis fazer uma obra com inspiração no I Ching [Livro das Mutações], e a partir daí tudo apareceu. Que ideias concretas trouxe para o projecto? A minha ideia foi criar um espaço de meditação, de contemplação, uma pausa, um portal que permita uma reflexão sobre a humanidade, sobre cada um de nós, um caminho ou uma passagem que junte a sabedoria milenar ao tempo contemporâneo; e que seja capaz de estabelecer um diálogo intercultural que não se esgote numa só ideia de cultura. Ao combinar elementos como o I Ching, talvez o primeiro registo de cultura em livro do mundo, com uma escolha de materiais como luzes néon, componentes arduíno, sequências por algoritmo de computador e com uma componente de som, o trabalho promove uma fusão entre tradição e tecnologia, entre passado e presente. O gesto de incorporar sequências completamente aleatórias, decididas pela programação e sem que permita ao humano saber o que vai acontecer de seguida, levanta as questões da tecnologia que se começa a automatizar por si própria. A programação irá criar sequências virtualmente infinitas. Este gesto de não se saber se o néon que vai acender de seguida é o hexagrama x ou y, prolonga a ideia do I Ching. De que forma? Traz uma dimensão de imprevisibilidade e indeterminação que pode ser interpretado como uma metáfora sobre a complexidade e incerteza da vida contemporânea. As sequências aleatórias são em si um registo de transitoriedade e impermanência, que também podem sugerir a ideia de que cada experiência é singular e cada momento em si, único. A presença de luzes néon e som cria uma atmosfera imersiva e sensorial, convidando os visitantes a uma experiência contemplativa, estimulando estados emocionais e mentais, e incentivando a introspeção. O trabalho poderá parecer inicialmente místico e enigmático, mas os elementos visuais e a sua coreografia – com cadências e mudanças suaves, e a composição de sons – subtis e envolventes, direccionam o sentir e o estar para o momento presente, podendo criar uma sensação de tranquilidade e calma, favorecendo um espaço mental propício à meditação. Oferece ainda um espaço fora do ritmo acelerado da vida contemporânea, onde cada um possa estar com as suas emoções, com os seus pensamentos, naquele momento, ali. Existem duas cores, azul para o céu e vermelho para a terra, ou também noite e dia, ou positivo e negativo – o Céu com seis linhas contínuas e a Terra com seis linhas interrompidas são hexagramas fundamentais que vão de encontro ao processo dos opostos, yin e yang. Tive a felicidade de trabalhar com o programador João Cabral para toda a programação e montagem do sistema arduíno que comanda a peça, e do músico David Maranha que entendeu na perfeição o que eu queria. Uma experiência enriquecedora para todos. Há muito que trabalha em torno dos neóns. De que forma este trabalho se relaciona com outras coisas que tenha feito, se é que se relaciona de alguma forma… Ao nível expressivo o néon é um material que me interessa muito. Na montagem final desta peça há resquícios expressivos das memórias que tenho dos néons no antigo Hotel Lisboa e no Hotel Fortuna, que tristemente já foram substituídos por LEDs, ou dos primeiros néons que vi nas minhas viagens na China. Por outro lado, continua o meu trabalho sobre o espaço cultural intermédio, onde as culturas se misturam e se mantêm em suspenso, sobre o deslocamento da pertença de onde somos e para onde vamos. Que outros novos projectos tem em mãos? Voltei a pintar. Se conceptualmente é mais do mesmo, o processo está a ser gratificante. Estou a trabalhar num grupo de pinturas luminosas e mais não posso revelar.
Andreia Sofia Silva PolíticaSecretário diz que “mercado em baixa” afecta renovação urbana O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, afirmou ontem que o “mercado [imobiliário] está em baixa”, o que faz com que muitos proprietários não queiram arriscar reconstruir as suas casas nas zonas mais antigas. “Creio que concordam comigo, é difícil promover esse trabalho [de reconstrução]. As pessoas não estão optimistas e não investem na reconstrução. A dificuldade [está] no ambiente do nosso mercado e vamos ter de pensar em como podemos promover esse trabalho de reconstrução”, disse o governante, admitindo que se pode recorrer a “reduções fiscais” ou mesmo “prémios”. No âmbito das 1.700 fracções existentes para troca, e 2.800 de alojamento temporária, utilizadas em processos de renovação de prédios antigos, o secretário disse que o Governo “não vai excluir a hipótese de adquirir estas fracções através da Macau Renovação Urbana”, mediante a situação financeira da empresa. “Através de um processo de troca podemos resolver estas questões. Caso haja uma propriedade em sucessão, com cinco ou seis herdeiros, e que não queiram a habitação para troca nem viver na casa temporariamente, aí é provável que queiram receber dinheiro. Vamos ponderar caso a caso no âmbito da renovação urbana.” O secretário explicou ainda que “se a natureza [da fracção] continuar a ser a de habitação para troca, teremos de a alterar, e aí será mais fácil”. “Estamos a discutir com a Macau Renovação Urbana para ver se há mais sujeitos que podem fazer habitação para troca”, destacou. Na resposta à interpelação oral da deputada Wong Kit Cheng, Raymond Tam esclareceu que “está em estudo a forma de utilização das habitações para troca e das habitações para alojamento temporário, com vista a melhor promover a renovação urbana”. Incentivos precisam-se O deputado Lei Leong Wong pediu ao Governo para “relaxar as restrições em termos de políticas”. “Muitos projectos de renovação urbana têm enfrentado dificuldades recentemente. O projecto em Toi San [sete prédios] decorre sem sobressaltos, havia 50 fogos, agora vão construir 107 fracções comerciais, e os proprietários não têm de assumir grandes despesas de construção mas, além disso, há outros projectos que não estão nesta situação.” Já a deputada Loi I Weng pediu “mais incentivos e apoios” para os proprietários das casas. “A renovação urbana implica muitas vertentes, avultados encargos e isso afecta a vontade dos proprietários [em reconstruir], porque têm de assumir muitas despesas.” O secretário lembrou que, quem investe, tem retorno. “Claro que os proprietários saem beneficiados, porque o valor do seu imóvel vai ser mais elevado, os custos vão ter um retorno”.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaPlano director | Revisão vai incluir novo cenário demográfico Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, anunciou ontem que será lançada, no segundo semestre, a consulta pública para a revisão do Plano Director. Este processo terá em conta o novo cenário demográfico, com menos nascimentos e mais idosos, admitiu O Governo vai rever o Plano Director de Macau tendo em conta a nova situação demográfica do território, que tem uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo e um elevado envelhecimento populacional. A consulta pública sobre a revisão vai acontecer no segundo semestre, afirmou ontem o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, no segundo dia de sessão plenária dedicada a responder a interpelações orais dos deputados. “A alteração do Plano Director está a avançar de forma ordenada e há que seguir certos procedimentos legais. O Chefe do Executivo já autorizou a sua alteração e no segundo semestre podemos avançar com a consulta pública”, disse. O Plano Director foi implementado em 2024 e, conforme a lei, é necessário aguardar cinco anos para uma nova revisão, mas esse processo já está em marcha. “Segundo a lei do planeamento urbanístico a alteração do Plano Director só pode acontecer cinco anos depois, mas nada impede que avancemos com os trabalhos preparatórios.” Raymond Tam, em resposta à interpelação oral do deputado Lam Fat Iam, disse que “vamos ter em conta as necessidades actuais para planear a zona Este-2”, ou seja, a Zona A dos Novos Aterros em Macau, pensada para ter 96 mil fracções. “De facto é necessária uma ponderação global sobre a política demográfica, e temos de ter uma coordenação interdepartamental para estes trabalhos. O Governo vai ter grande prudência”, admitiu. O secretário disse mesmo que “na zona A, ou Este-2, sabemos que as alterações populacionais e de mercado fazem com que se altere [o nível de] procura pela habitação, e a ideia que tínhamos antes tem de ser ajustada.” Na resposta a Lam Fat Iam, o governante disse mesmo que “o Plano Director não é imutável”, tendo em conta também “a utilização de terrenos” para as novas actividades económicas no âmbito da política “1+4”. Muitas questões numa só A questão demográfica levou muitos deputados a colocaram questões sobre o que aí vem. Che Sai Wang lembrou que “temos uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo”, segundo o último Relatório do Estudo sobre a Política Demográfica de Macau data de 2015. “Passaram dez anos e o Governo tem de implementar um mecanismo para alterar a política demográfica”, destacando que menos bebés e mais idosos leva a mudanças a nível dos serviços de saúde, habitação ou ensino. “Temos de delinear o desenvolvimento da cidade em função da baixa taxa de natalidade e do envelhecimento da população, tendo em conta os transportes e saúde.” Kou Ngon Seng considerou que “enfrentamos desafios quanto ao aproveitamento dos terrenos”, dado que “vai haver um ajustamento da população”. “Será que vai haver um ajustamento nas 96 mil fracções na zona A?”, questionou. Leong Hong Sai questionou se o Governo pondera “captar mais quadros qualificados para optimizar o planeamento”. “O último relatório sobre política demográfica é de 2015 e nos últimos anos a situação sofreu alterações, estando em causa os recursos de solos, mercado de arrendamento, transportes, serviços de saúde e de apoio a idosos”, rematou.
Andreia Sofia Silva PolíticaSegurança social | Governo prevê estabilidade até 2075 com actuais valores de reforma O Executivo considera que há condições para assegurar a estabilidade financeira do Fundo de Segurança Social (FSS) até o ano de 2075 caso o valor da reforma se mantenha nos montantes actuais, 3.900 patacas por mês, estando a ser estudados possíveis ajustes. A garantia foi ontem dada pela secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, em resposta a uma interpelação oral do deputado Leong Sun Iok, que questionou, precisamente, a situação financeira do FSS a longo prazo, tendo em conta o envelhecimento populacional. “De acordo com a análise dos resultados actuais encomendada pelo FSS a uma instituição académica em 2025, se a pensão para idosos se mantiver ao nível actual de atribuição (3.900 patacas por mês) e for ajustada posteriormente de acordo com o Mecanismo de ajustamento regular das prestações do regime da segurança social, o valor patrimonial do FSS continuará a ser estável até o ano 2075.” Desta forma, “face às incertezas externas e da economia local no futuro, juntamente com os desafios resultantes da mudança da estrutura demográfica, o Governo deve ponderar prudentemente sobre o ajustamento estável do nível de prestações da pensão para idosos”. Ainda assim, O Lam referiu que o Executivo “vai empenhar-se no aperfeiçoamento do regime de segurança social de dois níveis”, continuando a “promover, de forma gradual e ordenada, o andamento da obrigatoriedade do regime de previdência central”. Ficou também a promessa de “estudar, em tempo oportuno, a viabilidade do ajustamento do montante das contribuições do regime de segurança social” por parte dos trabalhadores. Para isso, “realizará uma consulta junto da sociedade para auscultar amplamente as opiniões” sobre esse assunto. Contas estáveis O Lam apresentou ainda dados na AL sobre a situação financeira do FSS, tendo em conta que o Governo tem vindo, desde 2013, “a aumentar as fontes de receita financeira e a consolidar a sua estabilidade financeira a longo prazo”, nomeadamente através do “aumento de percentagem da dotação regular das contribuições do jogo ao FSS”. Fez-se ainda “a injecção extraordinária com o valor total de 37 mil milhões de patacas durante quatro anos consecutivos”, além de se ter criado “o mecanismo de atribuição de dotação do saldo financeiro mediante legislação”, que resultou na atribuição anual de 3 por cento do saldo da execução do orçamento central da RAEM ao FSS. Segundo a secretária, essas dotações “consubstanciam-se como uma das mais proeminentes fontes de receitas do FSS, actuando em sinergia com as comparticipações das receitas correntes da RAEM, as contribuições para o regime da segurança social, a taxa de contratação de trabalhadores não residentes, os rendimentos dos investimentos e demais proveniências”. Desde a injecção extraordinária de capital ao FSS em 2013 e até 2025, “o valor total dos activos sob a gestão do FSS acumulado [passou] de 15,7 mil milhões de patacas para mais de 108,4 mil milhões de patacas”, com um aumento de 92,7 mil milhões de patacas. Deu-se também um retorno global do investimento de 41,3 mil milhões de patacas, “correspondendo a uma taxa média de rentabilidade de 4,1 por cento ao ano”, disse a secretária. O Lam acrescentou, assim, que “a estratégia de investimento do FSS tem uma boa capacidade de combate à inflação e, ao mesmo tempo, consegue preservar e valorizar os activos”.
Andreia Sofia Silva EventosConcerto | Stacey Long Ting, cantora de Hong Kong, no Galaxy em Maio Quase que pode ser chamado um caso de resiliência no mundo da música, e a prova de que lutar pelos sonhos vale a pena. Stacey Long Ting, cantora de Hong Kong com 44 anos, vem a Macau a 23 de Maio para o espectáculo “Stacey Story Live Concert in Macau”, no G-Box do Galaxy Macau. Eis a oportunidade de o público ouvir a cantora que ficou famosa a cantar nas ruas de Hong Kong Sempre cantou, mas só a partir dos 30 anos, e sobretudo quando se mudou para Hong Kong, em 2017, é que a Stacey Long Ting conseguiu construir uma carreira no mundo da música. Hoje, a cantora natural de Shenyang, província de Liaoning, consegue dar cartas no mundo da música e nem a covid a parou. Tendo iniciado a digressão “Journey” no ano passado, a cantora prepara agora a sua vinda a Macau para um espectáculo no próximo dia 23 de Maio, no espaço “G-Box”, do Galaxy Macau, com início às 20h. O primeiro concerto de Stacey Long deu-se a 18 de Agosto em West Kowloon, tendo dado três espectáculos na região vizinha que tiveram “um sucesso retumbante”, aponta o Galaxy. Depois de concertos em Guangzhou em Novembro, e em Qingyuan e Dongguan, em Janeiro deste ano, é a vez da RAEM ouvir a sua voz. Neste espectáculo, Stacey Long irá “reflectir sobre a sua jornada”, partilhando “uma gratidão sincera pela oportunidade de viajar por várias cidades e de estabelecer ligações com novos públicos ao longo do caminho”. Segundo a organização, “além do palco ela abraçou cada destino, explorando a cultura e gastronomia locais e enriquecendo tanto a sua jornada musical como pessoal”. A artista de cantopop, de 44 anos, vem agora “agradecer aos fãs o apoio incondicional”, trazendo sempre novos elementos para cada actuação. No caso de Macau, o factor novidade também deverá acontecer. “A minha jornada musical espelha a própria vida — repleta de altos e baixos. De Hong Kong a Macau, cada paragem torna-se parte da minha história. Estou grata por percorrer esta jornada com todos, criando memórias e histórias que pertencem a todos nós”, disse a artista, segundo a organização. Mudança de sucesso Stacey Long sempre cantou, mas só recentemente, ao participar num concurso de talentos de seis meses da TVB, o “Midlife, Sing & Shine”, pensado para maiores de 35 anos, é que teve verdadeiramente a sua oportunidade. Quando se mudou para Hong Kong, em 2017, vinda da China, procurou logo um palco para cantar e mostrar o seu talento. Em entrevista ao jornal South China Morning Post, concedida em 2023, Stacey Long disse ter “trabalhado muito na China continental”, embora “sentisse que não estava a chegar a lado nenhum”. “Por isso, queria mudar de ares”, declarou. Conseguiu trabalho num clube de dança social em Shun Lee Estate, um complexo de habitação social em Kwun Tong, na zona de Kowloon. “Actuava com esta banda e a idade média dos músicos era de 65 anos ou mais, por isso eu era a pessoa mais nova no palco. Afinal, não era assim tão velha para este negócio”, revelou na mesma entrevista. Depois a sua carreira começou a crescer, e foi quando Stacey Long passou a fazer parte do grupo “Mong Kok Roman Tam Song and Dance Troupe”, cantando na rua, nomeadamente na zona pedonal da Rua Sai Yeung Choi South. “Perguntei-me se estas trupes ainda existiam, por isso fui até lá e, como era de esperar, lá estavam elas. Pensei: ‘já que estou aqui, mais vale aproveitar ao máximo’, por isso cantei três canções, o público aplaudiu e aplaudiu e nada de mal aconteceu… por isso voltei para actuar novamente”, lembrou. Seis meses depois o sucesso era tanto que conseguiu trazer os pais para Hong Kong, actuando depois na zona de Central. Estas actuações de rua acabaram com a covid, mas a carreira não terminou, tendo Stacey recebido um convite da CCTV para uma audição, para o programa “Avenue of Stars”. A verdade é que a cantora já fazia sucesso nas redes sociais, nomeadamente no Weibo. “Achei que a minha voz não era forte o suficiente para actuar num grande palco. O meu pai desencorajou-me, dizendo que a competição provavelmente não me daria uma oportunidade. Mas como adoro cantar, teria sido uma pena não aceitar”, lembrou na mesma entrevista. Parece ter valido a pena. Prova disso é a digressão “Journey” e o espectáculo que traz a Macau.
Andreia Sofia Silva SociedadeDigital | Pagamentos no retalho aumentam quase 50 por cento Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), relativos a Fevereiro deste ano, mostram que o volume de transacções com pagamento electrónico no ramo do retalho aumentou 46,4 por cento em termos anuais, enquanto que o crescimento em termos mensais foi de 19,6 por cento. Já o volume de pagamentos digitais no sector da restauração aumentou, entre Fevereiro deste ano e de 2025, 14,7 por cento, enquanto que em termos mensais o aumento foi de 5,9 por cento. O volume de transacções nos restaurantes foi, em Fevereiro deste ano, de 1,28 mil milhões de patacas, sendo que nos dois primeiros meses deste ano foi de 2,48 mil milhões de patacas, mais 3,2 por cento em termos anuais. No comércio a retalho, as transacções foram de 6,48 milhões de patacas em Fevereiro, enquanto que nos meses de Janeiro e Fevereiro o volume de compras atingiu as 11,91 mil milhões de patacas, registando-se um acréscimo homólogo de 23,3 por cento. Destaca-se, aqui, o aumento de 95,3 por cento no volume de transacções do calçado, sendo “o mais notável” segundo a DSEC. Ainda em Fevereiro, o volume de transacções dos relógios e joalharia e o do calçado subiram 50,7 e 32,6 por cento, respectivamente, em relação a Janeiro deste ano.
Andreia Sofia Silva PolíticaPME | Estendido prazo de bonificação de juros O Governo decidiu alargar, até ao final deste ano, o prazo para apresentação das candidaturas ao Plano de Bonificação de Juros de Créditos Bancários para as Pequenas e Médias Empresas (PME), relativo ao ano de 2025, e que foi lançado em Abril. A ideia, segundo uma nota da Direcção dos Serviços de Economia e Desenvolvimento Tecnológico (DSEDT), é que mais empresas possam beneficiar desta medida. Desde Abril e até à data, foram recebidas “aproximadamente 2.100 candidaturas”, tendo sido aprovadas 2.000, “envolvendo empréstimos bancários no valor total de cerca de 4,5 mil milhões de patacas”. São elegíveis empresas comerciais que tenham declarado junto da Direcção dos Serviços de Finanças o início da actividade até 30 de Março de 2026. O montante máximo dos créditos a conceder a cada empresário é de cinco milhões de patacas, sendo o prazo máximo de bonificação de três anos e o limite máximo da taxa anual de bonificação até 4 por cento. O limite máximo do montante total de créditos bancários é de 10 mil milhões de patacas.
Andreia Sofia Silva PolíticaDeficiência | Alunos mantêm estudos após secundário O Lam, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, declarou ontem no hemiciclo que “mais de 90 por cento dos alunos sujeitos à educação inclusiva prosseguiram os seus estudos após concluírem o ensino secundário complementar”, isto mediante “os mesmos critérios de admissão que os alunos gerais”. Os dados dizem respeito ao ano lectivo de 2024/2025 e foram referidos em resposta a uma interpelação oral da deputada Loi I Weng, que questionou os apoios dados e medidas aplicadas na área da educação inclusiva.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaNatalidade | Governo alarga subsídios e cria novos apoios às escolas A secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, O Lam, anunciou ontem algumas medidas para ajudar as escolas a lidar com o decréscimo do número de alunos, como a extensão do subsídio às turmas do segundo ano do ensino infantil e apoios na reconversão de escolas ou requalificação da carreira docente O Governo anunciou que vai apoiar as escolas que se queiram reestruturar ou fundir, tendo em conta a redução da taxa de natalidade, e indicou que o financiamento será sempre uma medida de curto prazo para dar tempo às instituições para se adaptarem à redução do número de alunos. Na sessão plenária de ontem, na Assembleia Legislativa (AL), e em resposta a uma interpelação oral da deputada Ella Lei, O Lam, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, referiu a extensão, às turmas do 2.º ano do ensino infantil, do “subsídio de apoio ao ensino infantil”, sendo que este apoio financeiro entra no âmbito do “Subsídio para promoção do desenvolvimento da escola”. Esta medida integra-se no “Plano de financiamento para o desenvolvimento das escolas”, que foi criado no ano lectivo de 2024/2025, sendo pensado para “apoiar escolas cujo número de alunos no 1.º ano do ensino infantil seja insuficiente”. A medida é suportada financeiramente pelo Fundo Educativo (FE). Este subsídio dado aos dois primeiros anos do ensino infantil, visa “optimizar o limite máximo do número de dispensas da componente lectiva semanal do pessoal docente das unidades escolares”. Este plano de financiamento das escolas “tem a duração de dois anos e visa proporcionar tempo suficiente para as escolas desenvolverem estratégias pedagógicas diversificadas”, adiantou a secretária. A instituição de ensino pode, com este dinheiro, fazer “planeamentos na sua transformação ou fusão”, além de ponderar sobre “projectos individuais de desenvolvimento” ou apostar no “planeamento do corpo docente”. Na resposta à deputada Ella Lei, a secretária afirmou também que “os montantes dos subsídios [no âmbito do FE] para o ano lectivo de 2025/2026 foram aumentados”, pelo que “as escolas dispõem de recursos suficientes para recrutar pessoal docente e optimizar as suas condições pedagógicas”. Actualmente, disse a governante, “a média de professores por turma, no ensino infantil, foi melhorado [do rácio] 1-1,6 [um professor por uma média de 1,6 alunos], no ano lectivo de 2011/2012, para 1-2,3 no ano lectivo de 2025/2026”, sendo esta média “favorável para as escolas cuidarem e educarem melhor as crianças”. Uma “postura activa” A reconversão das escolas pode passar pela sua transformação em “instituições de educação contínua” com cursos de aperfeiçoamento contínuo ou “formação profissional e aprendizagem para idosos”, entre outros, disse a secretária. O Governo promete também, com recurso ao FE, apoiar os docentes na protecção da sua carreira. O Lam prometeu “alargar a ‘2ª pista’ da carreira dos docentes e construir uma plataforma de partilha de recursos”, incentivando-os a “participar em cursos de formação suplementar, para que recebam formação noutros níveis de ensino”. Desta forma, as escolas podem “organizar-se de forma mais flexível e com mais condições”, colocando docentes noutros níveis de ensino com mais alunos. O Lam adiantou outras conclusões de um estudo “que está quase a ser finalizado” sobre o panorama do ensino, referindo que existe a intenção de “aumentar a flexibilidade do regime do subsídio”, ainda que “o financiamento [seja algo] transitório e de curto prazo”. A intenção é mesmo “conquistar mais tempo para que as escolas se reconvertam”. Atribuir subsídios é, portanto, uma “medida residual”, para que as escolas possam “tentar estabilizar o corpo docente”. Do lado da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude, o seu director garantiu que poderá ser pedido às escolas uma lista de docentes que tenham interesse em entrar num processo de reconversão ou em participar em acções de formação. “Neste momento, temos duas ou três escolas que estão de acordo sobre uma eventual fusão entre elas”, adiantou Kong Chi Meng. “Vamos adoptar uma postura activa” nesta matéria, disse a secretária. “Queremos criar um sistema de reconversão [das escolas], alargar o âmbito do desenvolvimento do ensino, inserir a inteligência artificial e montar uma plataforma para recursos destinados a docentes, o que já estamos a fazer”, rematou O Lam. O deputado Leong Sun Iok disse ainda que é importante que sejam criados outros apoios sociais, nomeadamente na gravidez e cuidados infantis, a fim de potenciar a natalidade. “Esses serviços sociais são uma necessidade para a população e isso pode levar a que as pessoas tenham mais vontade de ter filhos”, disse.
Andreia Sofia Silva Manchete SociedadeSaúde mental | Governo anuncia plano concertado Foi apresentado ontem, através de diversos organismos públicos, um novo plano de acção conjunta pensado para a área da saúde mental, que visa juntar a parte educativa com a cultura, sem esquecer os idosos. O referido plano intitula-se “Construir uma rede de resiliência psicológica: da cognição à acção”, e, segundo noticiou o canal chinês da Rádio Macau, consiste numa plataforma operada entre os Serviços de Saúde (SS), Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) e Instituto de Acção Social (IAS), bem como o Instituto do Desporto (ID). Na conferência de imprensa de ontem, o director interino do Centro Hospitalar Conde de São Januário, Tai Wa Hou, disse que será estabelecido “um mecanismo interdepartamental” entre estes serviços, com a promessa de uma “cooperação estreita e sem barreiras, promovendo-se a articulação de recursos e partilha de casos”. O objectivo é também “formar uma rede de apoio que abranja todas as faixas etárias”, sendo que os SS já dispõem “de um mecanismo de intervenção por fases para problemas de saúde mental”, apontou. Este passa pela “prevenção precoce, apoio ao nível comunitário, psicoterapia ao nível dos centros de saúde, e, ao nível especializado, tratamento medicamentoso e internamento”, sem esquecer a ajuda “na reintegração social dos pacientes em recuperação”. Numa nota oficial divulgada em língua portuguesa depois do fecho da edição, foi referido que, “no apoio a grávidas e puérperas”, os SS e o IAS adoptam o modelo de “cooperação médico-social”, sendo que, desde Novembro do ano passado, trabalharam com 12 centros de saúde e 13 centros de serviços integrados familiares “para prestar serviços de encaminhamento e globais, promovendo actividades de aprendizagem de ciclo completo e planos de incentivo”. Foram ainda criadas seis “creches de capacitação” para “reforçar o apoio na criação dos filhos”. No que se refere aos serviços de apoio a pessoas em reabilitação psicossocial e famílias, o Governo disse que “são facultadas cerca de 1.600 vagas em 11 instalações de reabilitação, que incluem alojamento e reabilitação diurna”. Citada pela Lusa, Choi Ka Man, assessora principal de psicoterapia dos SS, disse que se alguém “se sentir em baixo há mais de duas semanas e não conseguir comer ou dormir, deve procurar ajuda”. Tai Wa Hou explicou também que muitos residentes ainda receiam procurar cuidados psiquiátricos com medo de “ser estigmatizados”, enquanto outros desconhecem que condições como “ansiedade, insónia ou humor persistentemente baixo” podem melhorar com intervenção profissional. “Estes conceitos errados criam barreiras invisíveis que impedem as pessoas de procurar ajuda”, sublinhou Tam, na mesma conferência. “É importante compreender que os problemas de saúde mental não são defeitos de carácter nem um sinal de fraqueza”, disse. Segundo Tai Wa Hou, existem em Macau nove centros de saúde e três organizações comunitárias que oferecem serviços de aconselhamento psicológico e cuidados de saúde aos residentes. Mais livros e informações Choi Man Chi, chefe do Departamento de Educação Não Superior da DSEDJ, apresentou o que já foi feito nesta área, nomeadamente a publicação de “materiais didácticos de educação para a saúde mental” e “recursos educativos sobre saúde mental dos jovens”, que já estão a ser aplicados nas escolas do ensino pré-escolar, primário e no ensino secundário inferior. O responsável indicou que no segundo trimestre deste ano “serão lançados materiais também para o ensino secundário superior”, e referiu que serão formados professores “para a utilização destes materiais”, além de se “promover a realização regular de aulas de educação para a saúde mental nas escolas”. No que diz respeito à preservação da saúde mental ao nível dos idosos, Iu Ka Wai, do IAS, afirmou que “está em curso a coordenação de avaliações domiciliárias e acompanhamento de casos identificados como sendo de risco”, tendo por base o inquérito realizado a idosos que vivem sozinhos, ou em famílias pequenas. Segundo noticiou a rádio, está também a ser preparado o “Pacote Informativo de Serviços de Cuidados a Idosos”. Apesar de questionados pela Lusa, os SS não deram números concretos de quantos residentes receberam ou procuraram tratamento psicológico ou psiquiátrico. Em 2025, foram registados 91 casos de suicídio no território, que conta com apenas 689 mil habitantes, segundo dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), um dos números mais elevados de sempre na cidade. Com Lusa
Andreia Sofia Silva EventosCultura | Macau participa no programa “Saracoteio – Dança no Ecrã” Macau, Portugal e Cabo Verde unem-se num programa que celebra a dança em conjunto. O SARACOTEIO – Dança no Ecrã acontece em Macau em Dezembro, no ROLLOUT Dance Film Biennale 2026, com apresentações prévias em Cabo Verde e Portugal nos meses de Setembro e Outubro. Nesta fase, decorrem as convocatórias de artistas Acontece este ano um programa que celebra a dança e visa também a união entre países e territórios de língua portuguesa. O SARACOTEIO – Dança no Ecrã, reúne dança e vídeo num só evento, estando nesta fase a decorrer a selecção das participações de artistas e grupos não apenas de Portugal, mas também de Macau e Cabo Verde. As parcerias fizeram-se com o Festival Uabá de Cabo Verde e o ROLLOUT Dance Film Biennale 2026-2027 de Macau. Segundo uma nota oficial da organização, o SARACOTEIO visa “promover a videodança e o filme dedicado ao corpo performático na comunidade de países de língua oficial portuguesa”, sendo que os projectos seleccionados serão apresentados na RAEM em Dezembro, no ROLLOUT Dance Film Biennale 2026-2027. Mas antes, decorrem apresentações no Festival Uabá, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, entre os dias 21 e 25 de Setembro; e depois na 34.ª Quinzena de Dança de Almada – International Dance Festival, em Portugal, entre os dias 25 de Setembro e 11 de Outubro. A convocatória pede “autores e produtores de filme e vídeo de dança”, que sejam naturais ou residentes de Portugal, Macau e Cabo Verde, e que têm até ao dia 30 de Abril para submeter os projectos. No caso de Macau, os projectos podem ser submetidos à organização do festival ROLLOUT. Uma das regras para a submissão de propostas é que estas devem ser “apresentadas por realizadores, coreógrafos, companhias de dança ou outras instituições afins que detenham direitos de apresentação de som e imagem”. Serão tidos em conta elementos como a “qualidade técnica e artística do vídeo”, o “desenvolvimento do conceito” e a “qualidade performativa apresentada”. Eventos de celebração No caso do festival ROLLOUT, nasceu em Macau e teve a sua primeira edição há exactamente dez anos, descrevendo-se como “um festival bienal de cinema de dança”. A programação inclui, habitualmente, concursos internacionais, exibições de filmes seleccionados, partilhas de artistas, workshops, digressões de exibição e produções encomendadas, entre outras actividades. O objectivo é, segundo o website do festival, “construir uma plataforma de cinema de dança em Macau que promova possibilidades criativas multifacetadas e redes de intercâmbio”. Por sua vez, a Quinzena de Dança de Almada – International Dance Festival realiza-se todos os anos e oferece “ao público um conjunto de actividades bem representativas da dança nacional e internacional”. Constitui-se, segundo a organização, como “um espaço de partilha, dedicado à apresentação e promoção da Dança Contemporânea”. O festival foi criado em 1992 pela Companhia de Dança de Almada, e oferece, além de espectáculos de dança, actividades como workshops, encontros, acções de formação e partilha, exposições, performances digitais ou videodança. O evento tem ainda ligação à Plataforma Coreográfica Internacional, permitindo-se a participação de companhias e criadores independentes de Dança Contemporânea de todo o mundo.
Andreia Sofia Silva EventosCasa de Portugal conquista “Prémio de Melhor Criatividade” em Desfile A Casa de Portugal em Macau (CPM) sagrou-se vencedora do “Prémio Melhor Criatividade” atribuído no contexto da participação no Desfile Internacional de Macau 2026. A Associação Casa do Brasil recebeu o “Prémio de Melhor Actuação”, tendo sido ainda distinguidas outras associações locais. O desfile decorreu este domingo pelas ruas do centro histórico e visou “transmitir a cultura da Rota Marítima da Seda”, tendo sido apresentadas “diversas actuações artísticas na construção da imagem de uma Macau Cultural vibrante”, destaca uma nota do Instituto Cultural (IC). A parada, que contou com apoios de diversas operadoras de jogo, terminou na Praça do Lago Sai Van e teve como tema “A Rota Marítima da Seda como uma ponte para o intercâmbio cultural”. No desfile estiveram presentes elementos da cultura chinesa como as folhas de chá, a porcelana e a seda, apresentando-se o “VIVA”, a mascote que, “através de sonhos e viagens”, foi demonstrando aos presentes algumas das características da cultura chinesa e da Rota Marítima da Seda. História nas ruas Segundo a mesma nota, “a história [contada através do desfile] começou numa misteriosa noite em que VIVA recebeu uma revelação do Deus do Mar”, e a mascote descobriu depois que tinha de “empreender uma missão de transmissão cultural com três embaixadores culturais, em representação do chá, da porcelana e da seda”. Desta forma, o público e os grupos artísticos participantes “foram levados numa viagem imersiva” em que “paisagens e arte se fundiram e a antiguidade e modernidade coexistiram”. Pelas ruas de Macau o VIVA e seus “amigos embaixadores” encontraram uma exploração de “Jóias do Oceano”, “Cerimónia do Chá Aromática”, “Cavalgando as Ondas”, “Paisagem da Europa Continental” e “Galáxias Entrelaçadas”, e que “cumpriram finalmente a sua missão”. Depois, na Praça do Lago Sai Van, aconteceu o espectáculo final “apresentado por grupos artísticos estrangeiros e locais”, onde se exibiu “uma diversidade de formas de artes, incluindo dança, acrobacia, andas, actuações em monociclos, instalações gigantescas de balões e percussão”. Para o IC, “este espectáculo exibiu o encanto único de Macau como um importante nó na Rota Marítima da Seda através de diversas actuações culturais e artísticas”. Mas o Desfile continua com mais actividades de extensão, nomeadamente três actuações agendadas para o dia 4 de Abril e que se integram na iniciativa “Onde a cultura floresce, a felicidade acontece”. Estas são apresentadas na Área de Lazer do Edifício Lok Yeung Fa Yuen, no bairro do Fai Chi Kei e no Jardim do Mercado do Iao Hon. Participam diversos grupos artísticos, incluindo a Associação Cultural Indiana e Saúde de Macau, a Associação do Santo Ninõ de Cebu em Macau, a Associação Bisdak de Macau, a Associação Internacional de Dança Oriental de Macau e a Macau Youth Street Dance Association. Desta forma, fica demonstrado, segundo o IC, “as culturas da Índia, Filipinas e a dança de rua de Macau, trazendo-se vibrações multiculturais à comunidade”.
Andreia Sofia Silva EventosConcerto | Wu Bai & China Blue, banda de Taiwan na Galaxy Arena em Junho São chamados os reis do rock em chinês e a sua longa experiência nos palcos, desde 1992, parece comprovar isso mesmo. Os Wu Bai & China Blue actuam em Macau nos dias 6 e 7 de Junho no âmbito da digressão “Rock Star 2 World Tour”, na Galaxy Arena. Oportunidade para voltar a ouvir clássicos, ou então descobri-los pela primeira vez Macau prepara-se para receber um dos maiores grupos de rock chinês criado nos anos 90. Trata-se dos Wu Bai & China Blue, banda de Taiwan liderada por Wu Bai, nome artístico de Wu Chun-lin, e formada pelos músicos Dean Zavolta na bateria, Yu Ta-hao nos teclados e Chu Chien-hui no baixo. Estes três elementos compõem os China Blue. Com preços que variam entre as 480 e 1.580 patacas, os bilhetes já estão à venda para os dois espectáculos na Galaxy Arena, no Cotai. Wu Bai é considerado o “Rei dos Espectáculos ao Vivo”, ou do rock chinês. Segundo informação disponibilizada pela Galaxy, “Wu Bai e a sua banda, formada em 1992, são celebrados pelo seu estilo rock distinto, letras cheias de paixão e performances com muita energia”. Os dois concertos de Junho marcam o regresso de Wu Bai a Macau depois “de um hiato de dois anos”, destaca a organização. O público pode “testemunhar a sua influência intemporal e a energia incomparável dos espectáculos ao vivo”, da banda. De destacar que a digressão mundial “Rock Star 2 World Tour”, onde se integram estes dois espectáculos, já passou por vários palcos, “recebendo aclamação generalizada e esgotando salas”, é descrito. Nome marcante Segundo o website oficial da banda, “Wu Bai é uma das maiores estrelas de rock do universo da música em mandarim”, sendo que esta aventura pelos palcos começou nos idos anos 90. Além de criar a sua própria música, também compõe para outros artistas, como é o caso de Andy Lau ou Jacky Cheung, só para enumerar alguns. As primeiras músicas de Wu Bai chegaram ao mercado em 1990, com o álbum de compilação “Totally Untuned”, e depois com “Feast”, editado em 1991. “A cena musical taiwanesa notou imediatamente este cantor-compositor único”, lê-se no mesmo website. O público depressa percebeu que Wu Bai “conseguia escrever música e letras tanto em mandarim como no dialecto taiwanês, além de produzir e arranjar a sua própria música”, o que era “algo inédito para um artista taiwanês na época”. Destacavam-se ainda “a habilidade com a guitarra e sonoridades blues e rock, o que impressionou críticos e o público em toda a região”. O primeiro álbum a solo surgiu em 1992, com “To Love Somebody is the Happiest Thing”, sendo que, nesse ano, o China Times Express considerou o disco “o álbum mais inovador do ano”. Depressa percebeu que não podia continuar sozinho em palco e formou os China Blue, “fazendo digressões por várias cidades de Taiwan e trabalhando em bandas sonoras”. Depois, surgiu, em 1994, o segundo álbum, “Wanderer’s Love Song”, com mais de 600 mil cópias vendidas até aos dias de hoje não só em Taiwan como também em Hong Kong, Singapura ou Malásia. Desde 2011, até hoje, Wu Bai continua a subir aos palcos com a mesma energia de sempre e acompanhado pelos China Blue. Os 20 anos de carreira foram celebrados com a digressão “Big Thanks”, enquanto que os 25 anos foram marcados com “South Wind”. Em 2018, chegou a digressão “Rock Star”. Em 2023, Wu Bai lançou um novo disco, que em inglês se pode chamar “The Pure White Starting Point”, não se tratando de um “novo Wu Bai, mas sim de um novo começo”, na vida e como artista. No ano seguinte seria lançada uma colectânea de dois discos intitulada “How To Be a Rock Star – Wu Bai and China Blue”, com canções gravadas ao vivo.
Andreia Sofia Silva Eventos“Verdes Anos” exibido hoje na Cinemateca A programação da Cinemateca Paixão passa hoje pelo cinema português, exibindo um clássico a preto e branco. Trata-se de “Verdes Anos”, de Paulo Rocha, 91 minutos filmado em 1963 e um dos exemplos do chamado “Cinema Novo” feito em Portugal. O filme, exibido a partir das 19h30, conta as histórias de Júlio e Ilda, dois jovens da classe operária a tentar vingar em Lisboa, capital portuguesa onde a vida pode ser desafiante. Ele tem 19 anos e procura emprego, e um acidente leva-o a conhecer Ilda, que trabalha como empregada doméstica. Na cidade, a sua relação será marcada pela tragédia. Destaque para o facto de a banda sonora do filme ter sido composta por Carlos Paredes, grande mestre de guitarra portuguesa. “Verdes Anos” tornou-se uma das suas composições mais conhecidas. A exibição de “Verdes Anos” acontece no contexto da secção especial da Cinemateca “Amor, Amor, Amor: Uma série de romance apaixonado”, que pretende revelar diferentes histórias de paixão no cinema. Amanhã exibe-se, por exemplo, outro clássico do cinema alemão, “O medo come a alma”, de Rainer Werner Fassbinder, onde o preconceito se junta ao amor. Nesta história revela-se a história de Emmi, uma mulher viúva e solitária de 60 anos, que trabalha como empregada de limpeza, que um dia decide combater a solidão e entrar num bar essencialmente frequentado por emigrantes. Lá conhece Ali, que ousa convidá-la para dançar. Depressa a relação entre eles se torna incómoda aos olhos da sociedade. “O medo come a alma” pode ser visto a partir das 21h30 deste sábado, 28. Prata da casa Também amanhã, pode ser revisto o novo filme de Tracy Choi, “Girlfriends”, que teve a sua estreia mundial na secção “Vision Asia” do Festival Internacional de Cinema de Busan, na Coreia do Sul. Também amanhã se exibe, a partir das 16h30, “Iniciantes”, de Mike Mills, revelando-se a história de Oliver, um designer gráfico que se sente atraído por Anna, uma mulher livre e imprevisível. Só as recordações do pai vão dar espaço a Oliver para se permitir estar numa relação longa e com um compromisso sério. Este domingo exibe-se outro clássico do cinema, mas desta vez francês, “Jules e Jim”, já com sessão esgotada. Também a sessão “Os Encontros em Paris”, de 1995, agendada para este domingo, já está esgotada.
Andreia Sofia Silva EventosKa-Hó | Botânica e expressões artísticas pelas mãos de Kris Wong A Galeria H2H (Hold On To Hope), da Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau, acolhe a partir da próxima semana, 4 de Abril, uma nova exposição. Trata-se de “Botanique Cabinet: Life, Memory and Meaning”, de Kris Wong, onde a artista revela a conjugação da botânica com a expressão artística Há uma nova mostra para ver, a partir do próximo dia 4 de Abril na pacata vila de Ka-Hó, Coloane. E se a natureza abunda na ilha, também é de natureza que se faz a nova exposição patente na Galeria H2H (Hold On To Hope), um projecto da Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM) que visa conjugar a recuperação de comportamentos aditivos com expressões artísticas e realização de projectos pessoais. A galeria tem dado palco a diversas iniciativas de apoio à ARTM ou de divulgação de artistas locais, e desta vez é Kris Wong que apresenta o seu trabalho, na mostra “Botanique Cabinet: Life, Memory and Meaning”. Aqui, a artista procura conjugar o universo da botânica e da preservação de plantas com o mundo da arte. Nesta exposição em nome próprio, Kris Wong “justapõe espécies de plantas preservadas e arte botânica”, a fim de “interrogar a dupla natureza do meio”. Isto porque, segundo descreve a nota sobre a exposição, “embora as flores mantenham a sua identidade orgânica original, a sua reorganização em objectos estruturados e funcionais cria uma tensão deliberada entre o vivo e o inerte”. Desta forma, neste projecto o que Kris Wong procura fazer é “examinar a interacção entre a forma orgânica e a construção artificial, utilizando materiais botânicos preservados para explorar os limites do mundo natural”. O que se faz é uma revelação das plantas “como artefactos bioculturais que ligam a diversidade biológica à identidade cultural e actuam como testemunhas materiais de histórias pessoais e colectivas”. Exploram-se, nesta mostra, ideias ou conceitos como a etnobotânica, convidando-se o público a reflectir também sobre os estudos críticos sobre plantas e a forma como estas “moldam e são moldadas pela experiência humana, actuando como pontes entre a natureza, a cultura e o significado”. Segundo a ARTM, “cada espécime e obra de arte oferece uma perspectiva única sobre a resiliência, a perda e o significado duradouro da vida vegetal na definição de quem somos”. “Esta exposição questiona como preservamos a memória e a identidade através de objectos naturais, e como as plantas moldam – e são moldadas por – as emoções, a cultura e o significado humanos”, descreve a organização. Arte e ensino Kris Wong não só é artista como também tem desenvolvido um intenso trabalho em torno do universo das plantas e da sua preservação. É também educadora, trabalhando, portanto, “na intersecção entre a preservação de espécimes vegetais, a colagem de flores prensadas e a arte botânica em técnica mista”. É formada em preparação e conservação de espécimes, com o curso feito no Reino Unido, e pertence também à World Press Flower Guild, tendo seis anos de experiência na criação de espécimes botânicos e zoológicos. No território, ministra workshops e cursos “que ensinam todo o fluxo de trabalho — desde a secagem e prensagem até ao tingimento, montagem e emolduramento a vácuo —, orientando os alunos a transformar espécimes feitos por eles próprios em designs que tratam as plantas tanto como objectos científicos quanto como linguagem visual táctil”, explica a ARTM. Desta forma, Kris Wong procura sempre fazer uma ponte “entre a criação de espécimes e a investigação psicológica sobre memória, stress e resiliência”, tratando as plantas como um “património biocultural”. Para ela, são “testemunhas materiais de histórias pessoais e colectivas que transportam significados através de rituais, festivais e da vida quotidiana”.
Andreia Sofia Silva PolíticaMIECF | Secretário afirma que Macau tem plano de redução de carbono Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, disse ontem no Fórum de Desenvolvimento do Mercado Global de Crédito de Carbono que o Executivo tem “como plano orientador a estratégia de redução de carbono a longo prazo em Macau”. No evento, inserido no Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (na sigla inglesa, MIECF), que termina no domingo, o secretário destacou que “Macau tem considerado o desenvolvimento de baixo carbono como uma via fundamental para equilibrar o desenvolvimento social, económico e a protecção ecológica”, em conjugação com “a realização nacional da ‘Dupla Meta de Carbono'”. O governante destacou que o Governo tem realizado “uma variedade de trabalhos” em prol do ambiente, nomeadamente “a conservação energética e redução de emissões, a gestão de resíduos, a melhoria da qualidade do ar e a optimização das infra-estruturas relativas à protecção ambiental”. Ficou ainda a promessa, no mesmo discurso, de “continuar a aperfeiçoar políticas de apoio ao mercado de carbono, incentivar as instituições locais a nele participar e reforçar a comunicação com intenção de cooperação com os mercados internacionais”.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteIA | Frederico Luz cria plataforma que ajuda a comunicar em mandarim Aluno de mandarim, programador e estudante na área da inteligência artificial, Frederico Luz criou uma plataforma que permite comunicar em mandarim, indo além da tradução ou do reconhecimento de caracteres. O projecto foi apresentado no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, e faz parte de um programa piloto do Instituto Confúcio Foi com a apresentação “Interação Sintética: Concepção e Avaliação de um Interlocutor ‘Large Language Model’ para Aprendentes de Mandarim” que Frederico Luz apresentou a plataforma de inteligência artificial (IA) que pretende facilitar a comunicação em chinês. A sessão decorreu em Lisboa no âmbito das Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e, ao HM, Frederico Luz explicou o que está por detrás de um projecto que “dá ao utilizador vários cenários, ou missões, como pedir uma refeição num restaurante, comprar bilhetes de comboio, ou marcar planos com um amigo”. Na prática, “o aluno fala em mandarim e o sistema avalia o desempenho em tempo real”, ao nível da “pronúncia, gramática, vocabulário”, descreve Frederico Luz, que começou a estudar mandarim com 18 anos e que, actualmente, faz programação e estudos na área da IA no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. “A grande diferença em relação a um tutor humano é a fluidez. Quando estamos a falar com um professor e erramos, o professor tem de parar a conversa, explicar o erro, e depois retomar. Com a plataforma, as correções acontecem em paralelo e a conversa não para. Cada tipo de correção, na gramática, pronúncia ou vocabulário, é tratada separadamente e aparece sem interromper o diálogo. Além disso, quando através da conversa aprendemos uma palavra nova, podemos guardá-la directamente nos ‘flashcards’ [cartões de memória] e ela entra logo na nossa rotina de estudo”, explicou. Frederico Luz acredita que a plataforma que está a desenvolver “pode ajudar tangencialmente na tradução, por exemplo, na verificação de gramática”, embora o objectivo fulcral seja “ajudar as pessoas a aprender, para não precisarem da tradução”. “Da mesma forma que o Pleco [software de cartões de memória e dicionário para alunos de chinês] e o Anki [software de cartões de memória para aprendizagem de língua] mudaram a aprendizagem de chinês para milhões de pessoas, acho que ferramentas como esta podem tornar o mundo um bocadinho mais pequeno. Se mais portugueses conseguirem ter conversas reais em mandarim, sem depender de intermediários, isso muda a relação entre as duas comunidades de forma muito mais profunda do que qualquer tradutor automático”, descreveu. Na sessão apresentada no CCCM, Frederico Luz descreveu três componentes que permitem uma melhor comunicação na língua chinesa. O reconhecimento da fala, em que “o aprendente fala livremente em mandarim e o sistema transcreve e segmenta por carácter”, bem como a “avaliação tonal por carácter”, onde cada carácter “é avaliado individualmente”. O que o sistema criado por Frederico Luz vai fazer é “identificar o tom produzido e comparar com o tom esperado”. Uma terceira componente é a “interacção conversacional adaptativa”, já que o modelo de linguagem criado pelo programador “gera respostas contextuais adaptadas ao nível do aprendente, mantendo uma conversa natural”. Além da memória Frederico Luz conta que está a desenvolver “um sistema que vai além dos flashcards [cartões de memória] tradicionais, onde simplesmente reconhecemos um carácter e dizemos sim ou não”. “O que estou a construir pede ao aprendente para realmente ler os caracteres com base nos componentes que os constituem”, acrescenta, lembrando que nos Estados Unidos “houve uma grande controvérsia quando as escolas mudaram de um sistema de fónica (ler todas as sílabas) para um sistema de memorização da palavra inteira”, com “resultados desastrosos”. Segundo Frederico Luz, “a forma como a maioria das pessoas aprende caracteres chineses é exactamente essa memorização da palavra inteira”, pelo que esta nova plataforma de IA “é o equivalente da fónica para o chinês: decompor cada carácter nos seus componentes e realmente lê-lo, em vez de apenas reconhecê-lo como uma imagem”. O aluno de mandarim confessa que a plataforma o ajuda nos estudos, procurando, por exemplo, melhorar o reconhecimento da pronúncia “para aprendentes de nível mais baixo”, sendo uma das ferramentas onde está a trabalhar actualmente. O projecto piloto Frederico Luz começou a desenvolver esta plataforma para si próprio, mas a verdade é que está em curso a sua aplicação, em formato de programa piloto, com o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. “Curiosamente, o director Wang do Instituto Confúcio de Lisboa, tinha tido uma ideia muito semelhante há algum tempo e tentou desenvolvê-la com outro programador, mas o projecto não avançou. Quando propus a ferramenta e o programa piloto ao instituto, não estava a tentar convencê-los em acreditar numa coisa nova: estava simplesmente a dizer que já tinha feito o que eles queriam, sem sequer terem pedido”, salientou. Este programa piloto, assegura, vai permitir ter dados reais quanto ao lado prático desta plataforma. “Construí esta ferramenta primeiro para mim, mas não vou privar as pessoas de a utilizar só para poder aprender chinês melhor do que elas. Se virmos que a ferramenta é útil não vejo razão para não a comercializar. É por isso que o programa piloto no Instituto Confúcio é tão importante: vamos ter dados reais.” O próximo mundo Frederico Luz acredita que os riscos do uso da IA nesta área são mais visíveis “do lado da tradução automática”, pois existe “uma dependência excessiva de ferramentas que nos impede de realmente desenvolver competências”. “Tenho dificuldade em pensar numa forma em que a IA seja mal utilizada para aprender línguas”, assegura. “Há pessoas que me perguntam porque estou a aprender chinês se daqui a uns anos vai haver um tradutor universal. Acho que essa tecnologia vai existir em breve, sem questão nenhuma. Estamos no início da singularidade tecnológica e os avanços vão ser verdadeiramente espantosos. Mas aprender uma língua não é só sobre conseguir comunicar. Para mim, e para milhões de outros aprendentes, é uma questão de crescimento pessoal. Quando a IA torna tudo fácil, acho que é importante para o espírito humano conseguir fazer coisas difíceis”, descreveu. A “relevância crescente” da China A relação de Frederico Luz com o mandarim começou cedo, sendo actualmente aluno no Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. A programação “surgiu mais recentemente”, começando “a programar a sério há cerca de um ano, quando a IA, no caso do ‘Claude’ [modelos de linguagem] da Anthropic tornaram possível construir coisas reais”. Criar uma nova plataforma para ajudar a comunicar em mandarim “surgiu da forma mais natural possível”, já que o aluno “já estava a usar a IA para praticar chinês”, nomeadamente ao nível da correcção de gramática e ao nível das conversações. “Pensei que seria muito melhor se houvesse uma aplicação com uma interface dedicada a este uso, com avaliação de pronúncia e correcção em tempo real. Como esta aplicação não existia, criei-a. Foi uma ferramenta que construí primeiro para mim, porque precisava dela para aprender”, descreve. Frederico Luz estuda mandarim dada “a relevância crescente da China”, destacando que, num futuro próximo, “falar chinês vai ser tão importante como falar inglês”. “Trabalho em IA e os chineses estão muito à frente, não apenas no desenvolvimento técnico, mas sobretudo na aplicação real: estão a usar IA em hospitais, em escolas, administração pública, coisas que no Ocidente simplesmente não se vê”, remata.
Andreia Sofia Silva EventosPanchões | Sands Gallery acolhe mostra com curadoria de Ung Vai Meng O ex-presidente do Instituto Cultural faz a curadoria de uma nova mostra sobre a história da produção de panchões em Macau. Até Agosto estará patente “Um Século da Fábrica de Pólvora Iec Long em Esplendor – Uma Exposição sobre a História Ressonante e a Memória Estética dos Panchões de Macau”, na Sands Gallery no Cotai A história da produção de panchões em Macau volta a contar-se, com outros contornos, numa nova exposição organizada pela Sands China em parceria com a Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST). Patente na Sands Gallery, que fica no hotel Four Seasons no Cotai, até ao dia 31 de Agosto, “Um Século da Fábrica de Pólvora Iec Long em Esplendor – Uma Exposição sobre a História Ressonante e a Memória Estética dos Panchões de Macau” tem curadoria de Ung Vai Meng e promete revelar muitas histórias ao público. A iniciativa nasce de uma parceria com o meio universitário a fim de “preservar o património dos panchões de Macau”, destaca a organização numa nota. Além disso, as mais de 400 peças expostas celebram o centenário da Fábrica de Panchões Iec Long, hoje transformada em espaço de lazer e cultura na Taipa Velha. As peças expostas incluem “manuscritos originais, ferramentas de fabrico de foguetes e rótulos de embalagens”, oferecendo aos visitantes “uma narrativa rica e multifacetada sobre a história centenária e a importância cultural da indústria de foguetes de Macau, outrora uma das quatro principais indústrias da cidade”. Nesta mostra colaboram a Biblioteca e a Faculdade de Humanidades e Artes da MUST. Segundo um comunicado divulgado pela Sands China, a exposição “assenta em bases históricas e científicas sólidas”, uma vez que o antigo presidente do Instituto Cultural, e um dos mais reconhecidos artistas de Macau, “dedicou três décadas ao estudo” da indústria de panchões. O que se mostra na Sands Gallery é fruto da “consolidação sistemática de investigação académica e de raros materiais de arquivo”, considerada pela organização como a “primeira exposição a traçar, investigar e apresentar de forma abrangente o desenvolvimento da indústria”, o que permite ampliar “o impacto da revitalização da Fábrica de Panchões Iec Long”. Uma “experiência imersiva” A exposição está dividida em seis partes. A primeira apresenta “uma experiência imersiva introdutória, desenvolvendo-se através das histórias da indústria, do saber artesanal, de arquivos históricos, experiências interactivas e da estética do design de embalagens”. Destacam-se, depois, “o valor estético” dos panchões e as “realidades práticas da produção, operação, transporte e exportação”. Na parte dois, intitulada “Traçando a história da indústria”, são explicadas “as origens, o crescimento, a transformação e a adaptação da indústria de panchões de Macau através de um conjunto diversificado de materiais de arquivo, incluindo registos oficiais do Governo, relatórios de comércio externo, mapas, fotografias e notícias”. Podem, assim, verificar-se “mudanças demográficas, políticas governamentais e forças de mercado” da época, revelando-se “a trajectória de desenvolvimento desta indústria tradicional”. Na parte três da exposição, com o nome “Manifestação – O coração do artesão” pode saber-se mais sobre “os processos complexos e o ambiente de trabalho do fabrico de panchões”, com a presença de “tubos, ferramentas, ilustrações e imagens históricas que sobreviveram ao tempo, revivendo-se o espírito concentrado e meticuloso dos artesãos”. Importância nos anos 50 e 60 Citado pela mesma nota, Ung Vai Meng referiu que “o fabrico de panchões foi uma das indústrias tradicionais mais importantes de Macau”, sendo que, “para muitos residentes mais velhos, representa uma memória colectiva partilhada no último século”. Ung Vai Meng adiantou alguns dados sobre este sector, já que, nas décadas de 50 e 60, “os panchões produzidos em Macau representavam entre 30 por cento e mais de metade da produção mundial, ocupando uma posição crucial no mercado internacional”. “Tendo em conta o centenário da Fábrica Iec Long, é com grande satisfação que colaboro com a Sands China para apresentar esta exposição, permitindo ao público conhecer melhor esta história e apreciar a arte dos rótulos de embalagens. Espero que a exposição transporte os visitantes no tempo, fazendo ecoar um século que pertence unicamente a Macau”, acrescentou. Destaque para o facto de a operadora de jogo ter colaborado nos últimos anos na revitalização da antiga fábrica de panchões na Taipa, antigamente ao abandono. Segundo Wilfred Wong, vice-presidente executivo da Sands China, essa revitalização foi assumida em 2023 e, desde então, a empresa tem investido “activamente recursos para dar uma nova vida a este importante período da história industrial de Macau, reimaginando-o como um símbolo cultural onde o património é renovado através da inovação”. Nesta mostra, Wilfred Wong entende que se uniram “empresa e academia”, sem esquecer que também colaboram entidades como o Museu de Macau e o Arquivo de Macau. Presença na Art Central Destaque ainda para o facto de esta temática e exposição estarem presentes na Art Central de Hong Kong, evento cultural que decorre este fim-de-semana, até domingo, e que teve início ontem. A Sands China chama a atenção para o facto de ser “a primeira empresa do sector a participar na Art Central de Hong Kong como parceira associada”, apresentando no evento “a história e estética dos panchões de Macau ao público internacional, juntamente com obras de jovens artistas contemporâneos locais”. Este domingo, às 15h30, no Art Central Theatre, Ung Vai Meng protagoniza a palestra “Aesthetics in a Square-Inch: A Century of Visual Culture Change Through Macao’s Firecracker Packaging” [Estética num centímetro quadrado: um século de transformação da cultura visual através das embalagens dos panchões de Macau]. Também na Art Central foi inaugurada um espaço de exposições da Sands China com mais de 40 obras de arte, incluindo trabalhos de três “jovens artistas promissores e visionários de Macau”, nomeadamente Lei Ieng Wai, Leong Chi Mou e Dor Lio Hak Man. Apresenta-se também “uma colecção histórica” proveniente da mostra patente na Sands Gallery, em Macau. A história dos panchões revela-se em duas actividades de extensão presentes na MUST. Uma delas é a mostra “Timeless Treasures: Archival Materials of Macao’s Firecracker Industry” [Tesouros intemporais: Materiais de arquivo da indústria de fogos de artifício de Macau], patente entre 10 de Abril e 31 de Maio na biblioteca da MUST. Além disso, desde o dia 10 de Março que pode ser vista a mostra “Historical Resonance: Firecracker Label Art From Eastern Guangdong” [Ressonância histórica: a arte dos rótulos de fogos de artifício do leste de Guangdong], no terceiro piso do bloco R da MUST. Esta parte da exposição está disponível para visitas até ao fim deste mês.
Andreia Sofia Silva SociedadeSaúde mental | DSEDJ diz ter aumentado equipas nas escolas A Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) diz que, no actual ano lectivo, “o número de membros das equipas de aconselhamento estudantil aumentou”, para um total de 413. Em resposta a uma interpelação escrita do deputado Ngan Iek Hang, a subdirectora da DSEDJ, Iun Pui Iun, afirmou também que o Governo pretende “reforçar ainda mais os recursos disponíveis e aliviar a carga de trabalho dos elementos destas equipas fora das horas de expediente”, pelo que criou, também este ano, uma linha de apoio na área do aconselhamento juvenil e plataforma de consulta online. A ideia é “proporcionar serviços de aconselhamento especializados de 24 horas, a fim de dar seguimento às necessidades dos estudantes, tanto em formato presencial como online”. A responsável disse ainda que, para este ano lectivo, foi aumentado “o investimento em recursos destinados a cobrir as despesas com serviços de equipas de aconselhamento”. A DSEDJ criou também “um quadro de formação direccionado às instituições de aconselhamento, contendo indicações para as horas de formação”. O objectivo é realizar mais cursos para “construir sistemas de desenvolvimento profissional e de apoio de competências profissionais mais aperfeiçoados”.
Andreia Sofia Silva Grande PlanoFórum Boao | Entre o crescimento interno, o digital e energias limpas Chamam-lhe o “Davos asiático” e termina na sexta-feira. Em Hainão, China, decorre a Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia e são muitos os temas em agenda: o crescimento económico chinês, apontado para 4,5 a 5 por cento, o crescente papel da inteligência artificial na economia, a aposta em energias limpas e o lugar da Ásia como motor de crescimento Por estes dias os olhares focam-se na zona mais tropical da China: Hainão. É nesta província insular do país que acontece, até sexta-feira, mais uma Conferência Anual do Fórum Boao para a Ásia, que reúne cerca de dois mil participantes de 60 países e regiões, com uma agenda pautada por temas como o papel da tecnologia e do digital na economia, com foco na inteligência artificial, a aposta em energias renováveis ou o lugar da Ásia na economia mundial. Claro que os olhos estão também colocados na economia chinesa, isto numa altura em que acaba de ser divulgado o 15.º Plano Quinquenal do país. Na terça-feira, dia de abertura do Fórum, foi divulgado um relatório que prevê que a economia asiática cresça entre 4,5 e 5 por cento este ano, com a região a continuar a ser o “motor do crescimento mundial”, juntamente com os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que inclui Timor-Leste. Ainda que haja “incertezas globais”, escreveu a Lusa. Este mesmo documento descreve que a Ásia no Produto Interno Bruto (PIB) global deve avançar de 49,2 por cento em 2025 para 49,7 por cento este ano, considerando a paridade de poder de compra. Entretanto, e segundo noticiou o China Daily, Justin Yifu Lin, um antigo economista-chefe do Banco Mundial, considerou, ao discursar numa das conferências do Fórum, que “apesar das dificuldades causadas pelas ondas de desglobalização e pelas tensões geopolíticas, a China está bem posicionada para atingir a sua meta de crescimento do PIB para 2026, entre 4,5 e 5 por cento, o que contribuiria com cerca de 30 por cento para o crescimento global”. Justin Yifu Lin acrescentou que “o crescimento pode até ultrapassar os 5 por cento (este ano), com uma melhor execução das políticas, desde que não ocorram grandes choques imprevistos no ambiente internacional”. Já Zheng Yongnian, director da Escola de Políticas Públicas da Universidade Chinesa de Hong Kong, em Shenzhen, falou da “previsibilidade das políticas” da China espelhada no 15.º Plano Quinquenal, sendo que o país tem, no seu entender, um “papel estabilizador na economia global”. O 15.º Plano Quinquenal diz que a China pretende alcançar o estatuto de “país de desenvolvimento intermédio” até 2035, sendo que, para Zheng, “o país está no caminho para manter um crescimento anual de cerca de 4,5 a 5 por cento até 2035, oferecendo um motor previsível para o crescimento global na próxima década”, lê-se no diário. Planos de Shenzhen O Fórum Boao tem apresentado também algumas metas que o país quer desenvolver, a nível interno e do continente, na área das novas tecnologias e inteligência artificial (IA), isto numa altura em que Shenzhen acaba de divulgar um plano a três anos para construir um “hub” nas áreas dos semicondutores e IA. Segundo o South China Morning Post, “a cidade pretende alcançar um aumento” e dar “um salto” na “capacidade de produção e no volume de envios de toda a cadeia de fornecimento de servidores de IA até 2028”. O plano foi publicado esta segunda-feira pelo departamento municipal da indústria e tecnologia da informação de Shenzhen. Outro relatório divulgado esta terça-feira no evento de Hainão, aponta que o “epicentro global do desenvolvimento da IA está a deslocar-se progressivamente da Europa e dos Estados Unidos para a Ásia”, lê-se na Xinhua. “Aproveitando as suas vastas populações digitais, ecossistemas de aplicação diversificados e estruturas políticas coerentes, as economias asiáticas estão a evoluir rapidamente de seguidoras em IA para líderes”, descreve o documento “Perspectivas Económicas da Ásia e Progresso da Integração – Relatório Anual 2026”. Aqui, lê-se também que a China “alcançou maturidade industrial em toda a cadeia e demonstrou fortes capacidades na implementação em larga escala, enquanto o Japão e a República da Coreia concentram os seus esforços na manufactura avançada e na automação industrial”. No caso da Cidade-Estado de Singapura, “serve como modelo de desenvolvimento orientado para aplicações, desempenha um papel fundamental na inovação em governança e funciona como um centro de plataforma”. Verifica-se, portanto, uma “ascensão inteligente” do continente asiático de forma “multifacetada”, existindo “apoio institucional essencial ao nível nacional, um poderoso ciclo de retroalimentação entre ‘escala de aplicação, geração de dados e aperfeiçoamento interactivo’ que acelerou a industrialização, bem como uma profunda integração com as indústrias centrais”, segundo o relatório”. Desta forma, a Ásia encontra-se “numa posição única para liderar a criação de uma rede regional de inovação em IA”, considerada pelo relatório como “multinodal, interligada e colaborativa”. “Tal rede ampliaria significativamente a influência colectiva da região na cadeia de valor global da IA, no ecossistema de inovação e no debate internacional sobre governança”, conclui o documento. O que é digital é bom Outro relatório divulgado no contexto do Fórum Boao, chama a atenção para a presença do digital na economia asiática. “Ásia e o Mundo – Relatório Anual 2026 — Desenvolvimento Sustentável na Ásia em Meio à Transformação Global” descreve, segundo a Xinhua, como as tecnologias digitais têm uma presença crescente na economia, atingindo, até ao ano passado, “uma dimensão de 27 mil milhões de dólares, representando 46 por cento” do PIB. “A Ásia tem assumido a liderança na exploração de modelos de desenvolvimento orientados para o futuro através das tecnologias digitais, procurando transformar as suas diversas estruturas económicas em competitividade global e resiliência regional”, lê-se. Neste caso, a IA volta a marcar presença, por se ter tornado “um impulsionador vital do progresso social e económico” no continente. O documento dá conta que “a adopção generalizada e a implementação transversal de aplicações de IA na região Ásia-Pacífico estão a remodelar as estruturas de produtividade”, além de “aumentar a produtividade das pequenas e médias empresas”. Esta área está também a contribuir para o “impulsionar a criação de emprego e reforço da resiliência social no sector dos serviços públicos, entre outros efeitos”. Uma questão de energia Numa altura em que o mundo se depara novamente com uma crise energética potenciada pelo conflito no Médio Oriente, com o disparar dos preços dos combustíveis, o Fórum Boao também tem olhado para estas questões. O mesmo relatório acima referido destaca como a Ásia “está a emergir como uma força central na transição global para uma energia mais verde e de baixo carbono, passando de ‘maior centro de consumo de energia tradicional’ para ‘um líder no desenvolvimento de energia limpa'”. A conclusão, citada pela Xinhua, dá conta de como a “digitalização e transições verdes estão a lançar as bases para um novo ‘Milagre Asiático'”. “Em toda a região, China, Índia, Japão, República da Coreia, ASEAN e os países do Golfo estão a desenvolver energias renováveis, como a solar e eólica, de acordo com as condições locais, ao mesmo tempo que avançam em tecnologias como o hidrogénio, a modernização das redes eléctricas e a captura, utilização e armazenamento de carbono, com a economia verde a demonstrar um forte dinamismo de crescimento”, é descrito. O documento dá conta que a “a capacidade instalada de geração de energia na Ásia ultrapassou os 5,3 terawatts, sendo que as energias renováveis representam 2,67 terawatts, ou cerca de metade do total”. Desta forma, “a região representa actualmente 58 por cento da capacidade global instalada de energia renovável”. Li Baosen, vice-secretário-geral da Organização para o Desenvolvimento e Cooperação da Interligação Global de Energia (GEIDCO), descreveu que “a transição verde da Ásia, particularmente a transição energética, está a aprofundar-se e a posicionar a região como uma força global de liderança”, em declarações citadas pela Xinhua. O responsável disse ainda que a China se tem destacado como um “motor-chave”, já que, no ano passado, “a capacidade total instalada de energia limpa da China atingiu 2,4 mil milhões de quilowatts, representando cerca de 45 por cento do total global.” “Notavelmente, a capacidade combinada de energia eólica e solar da China ultrapassou, pela primeira vez, a da energia térmica, um avanço que evidencia a crescente contribuição do país para a transformação energética tanto na Ásia como no mundo”, acrescentou. O documento apresenta, contudo, as limitações que a Ásia ainda tem neste domínio, nomeadamente “a dependência enraizada de combustíveis fósseis, infraestruturas de redes eléctricas subdesenvolvidas e lacunas no financiamento verde”. O Fórum Boao foi criado em 2001 e dedica-se a “promover a integração económica regional e a aproximar os países asiáticos dos seus objectivos de desenvolvimento”. O tema da edição deste ano é “Construindo um Futuro Partilhado: Novas Dinâmicas, Novas Oportunidades, Nova Cooperação”, sendo que o evento conta com a presença dos chefes executivos das duas regiões administrativas especiais chinesas: Sam Hou Fai de Macau e John Lee, de Hong Kong. Com agências
Andreia Sofia Silva EventosCheong Kin Man e Marta Sala, artistas: “As nossas obras expandem-se no tempo; vivem connosco” Ele é natural de Macau e formado em antropologia. Ela é artista visual, natural da Polónia. Com um projecto artístico conjunto, Cheong Kin Man e Marta Sala estão de regresso ao Oriente para participar na mostra colectiva “Between Image and Index”, na Universidade Baptista de Hong Kong, e para dar uma palestra no domingo, integrada na programação da Art Basel de Hong Kong. Mas há também projectos programados para Macau Até ao dia 12 de Abril está patente na galeria da Academia de Artes Visuais da Universidade Baptista de Hong Kong a exposição colectiva “Between Image and Index”, onde trazem o vosso projecto “Apocalipses”, com novidades. Que conteúdos pode o público ver? Após uma decisão conjunta com uma das duas curadoras do evento, Tong Yang, que nos convidou a participar [na mostra de Hong Kong], decidimos trazer a nossa instalação em expansão, “Apocalipses”, e que foi originalmente encomendada para a Bienal de Macau de 2023. Trazemos a peça têxtil original, de dois por dois metros de comprimento, e um vídeo experimental original de 19 minutos. Também foi expandido o livro do artista, que originalmente tinha 60 páginas e que agora, graças ao patrocínio da Fundação Oriente, foi alargado para 720 páginas [edição de 2025]. Acrescentámos também mais três peças têxteis, de 70 por 70 centímetros, que ressoam o conceito original de auto-etnografia da nossa história familiar. De que forma? Mais concretamente, um século de migração familiar de Vilnius para a Sibéria, perto da Mongólia, antes do fim da I Guerra Mundial; depois de volta à Polónia durante as deslocações em massa no final da II Guerra Mundial até à vida pós-guerra no sul da Polónia, nomeadamente na região da Silésia, em Katowice. Também foram adicionadas, como um complemento conceptual, duas das 12 bandeiras que criámos para a nossa mais recente série de “happenings” em Berlim, intitulada “Neukölln Trans-Lingual”, e que consistiu numa série de acções artísticas ao ar livre de invenção de línguas para as comunidades multilingues de Berlim, com o intuito de quebrar o gelo entre estas, realizada em Outubro passado. Teve também lugar uma exposição pop-up. Qual o tema desta mostra colectiva, e de que forma o vosso trabalho se conjuga com os restantes? Marta Stanisława Sala (MSS): A exposição “Between Image and Index” explora como as imagens contemporâneas podem ser traços significativos que moldam a nossa percepção e compreensão do mundo material e imaterial. O nosso trabalho pode assemelhar-se a uma espécie de altar, inspirado na tradição polaca do “canto sagrado”, que é criado a partir de diferentes têxteis e camadas de narrações, mas movendo-se também com o movimento do ar no espaço. O trabalho pretende ser um convite à interacção como um corpo no espaço da exposição, onde se podem explorar posteriormente diferentes histórias de outras obras. Existem alguns pontos comuns, como diferentes línguas, motivos cosmológicos, jogos com diferentes formas e significados ou também arquivos de memória têxtil familiar. Na palestra deste domingo na Universidade Baptista de Hong Kong [Pictoriality as Mediator], integrada na programação da Art Basel de Hong Kong, o que vão abordar, concretamente? Como se sentem por fazer parte desta importante feira de cariz mundial? Cheong Kin Man (CKM): Esta palestra faz parte do programa directo da Art Basel Hong Kong denominado “Exchange Circle”. Claro que é uma grande honra fazermos parte deste programa e conectar, ou mesmo reconectar, o círculo artístico de Macau e Hong Kong, [algo que] tem sido o nosso principal objectivo nesta viagem a Hong Kong e Macau. A curadora principal da exposição, Janet Fong, bem como a curadora Tong Yang, têm a visão de ligar Hong Kong, Macau e Shenzhen a Berlim e Francoforte; sendo, portanto, uma honra juntarmo-nos como dupla que liga também Cracóvia e Katowice e, claro, Lisboa. Somos uma dupla [de artistas] que se baseia na investigação, pelo que participar na Art Basel Hong Kong significa também um envolvimento directo no cruzamento entre a academia, a arte e, se assim o categorizar, o mundo comercial, o que é algo novo para mim. Em relação ao tema da palestra é desafiante para mim, mas, como sempre, irei desconstruí-lo etimologicamente. Enquanto dupla dizemos sempre que trabalhamos sobre a linguagem e a sua ficcionalização como uma ferramenta crítica de pensamento, tanto através da arte como da antropologia. Mas, na verdade, trabalhamos na maioria sobre o visual ou a ficcionalização de sistemas de escrita. Portanto, basicamente, do meu lado, partilharei a minha reflexão sobre simbolismos abstractos com o público internacional presente. MSS – Da minha parte irei discutir [o conceito de] “pictorialidade” através da vida física dos têxteis. Trabalho com restos de têxteis usados, como retalhos de algodão ou seda, que carregam histórias de produção, exploração e trabalho, mas também traços familiares íntimos. Alguns tecidos no nosso trabalho provêm do meu arquivo familiar; foram cosidos pela minha bisavó, pela minha avó ou pela minha mãe em diferentes épocas e nos vários locais onde viveram. A seda veio da China? Foi comprada noutro lugar? Estes materiais encerram múltiplas possibilidades e histórias orais. Nas nossas instalações, reunimos diferentes tempos e contextos. Procuro os vestígios de uso, como buracos, farrapos, as partes que se desmoronam. Para mim, a pictorialidade não é uma imagem perfeita e acabada, é uma sinfonia de memórias fragmentadas. Encontro beleza no toque imperfeito do trabalho feito à mão, mostrando pontos e remendos visíveis. Aliás, a nossa peça principal e o livro de artista ostentam uma dedicatória numa língua fictícia a “todos os seres que cometem erros”. A minha mediação foca-se na sustentabilidade e na impermanência, na imperfeição e na vulnerabilidade, mas também na força encontrada na pluralidade. “Apocalipses” já foi mostrada na edição de 2023 da Bienal de Macau. Como se sentem por apresentá-la novamente a Oriente? CKM – Tem sido uma surpresa ver como tanto Hong Kong como Macau são diferentes da minha imaginação diaspórica, sobretudo Macau, que tem sido totalmente bilingue na minha cabeça [português e chinês], sendo também falante de alemão e francês. O regresso com “Apocalipses” trouxe-me a oportunidade de perscrutar a passagem intermédia entre o que imagino de Macau entre Berlim e Lisboa, bem como aquilo em que Macau se tornou. Isto é algo essencial para a minha investigação de doutoramento sobre o cruzamento entre translingualismo, memória afectiva, arte e diáspora. MSS – “Apocalipses” também cresceu física e conceptualmente. Esta peça é uma parte viva da nossa prática auto-etnográfica conjunta. Acreditamos na “reciclagem artística”, adicionando constantemente novos elementos das nossas diferentes actividades e viagens. As nossas obras expandem-se no tempo; vivem connosco. Esta apresentação em Hong Kong já é diferente das anteriores, e também devido aos novos diálogos que temos tido com o público. Por exemplo, um artista de Hong Kong que nos visitou, Ken Kan, apresentou-nos recentemente a tradição chinesa do “pak ka pei”, ou seja, “poupão das cem famílias” ou “manta da memória”. Esta ligação entre a minha tradição têxtil polaca e esta tradição local de preservação da memória é exactamente o tipo de “criação de significado” que o nosso trabalho pretende. CKM – O Consulado Polaco, bem como o Instituto Goethe, ambos sediados em Hong Kong, mostraram entusiasmo pela nossa participação na exposição colectiva, bem como pelas nossas próximas iniciativas em Macau. Isso tem um significado muito especial para nós, pois queremos realmente partilhar a nossa experiência europeia com Macau, uma vez que agora partilhamos a vida entre Berlim, Lisboa, Cracóvia, Katowice e Macau, juntamente com algumas línguas de trabalho (português, alemão, inglês, cantonense, polaco, francês e mandarim). Um Berlim e uma Europa multilingues e translingues como formas de viver têm sido algo muito querido para mim. Isto não só moldou a minha identidade como alguém de Macau que passa um terço da sua vida no velho continente, mas também inspirou a minha prática de criar línguas ficcionais. “As Espantosas e Curiosas Viagens”, mostra que já fizeram em Lisboa, apresenta-se em Macau em Julho, na Fundação Rui Cunha (FRC). O que trazem de novo? CKM – Será, na FRC, a nossa primeira exposição em dupla na Ásia e será ajustada com as obras passadas, sendo também expandida com novas obras. Iremos explorar a forma como podemos transformar a nossa exposição e prática comunitária, especialmente a invenção colectiva de línguas, em algo teoricamente útil tanto para a antropologia como para os estudos de Macau. Planeamos alguns “happenings” [acontecimentos ou eventos], que esperamos muito conseguir organizar com participantes de grupos. MSS – A exposição em Macau será bastante diferente da nossa recente mostra no CCCM [Centro Científico e Cultural de Macau] em Lisboa, feita no Verão passado. Estamos a produzir uma instalação central completamente nova baseada na nossa investigação mais recente. Sinto-me honrada por ter o patrocínio do Consulado Geral da Polónia em Hong Kong e Macau para a nossa participação na exposição “Between Image and Index” e o entusiasmo no apoio da nossa exposição em Macau. Para nós, tal significa mais do que um apoio formal, mas sim um intercâmbio de investigação significativo. As nossas discussões com o Consulado revelaram quão pouca presença cultural polaca existe actualmente em Macau, e sentimos uma forte missão de mudar isso. Ao tecer histórias e materiais polacos no nosso trabalho, estamos a estabelecer um novo caminho artístico entre a Polónia e Macau. Trabalhando intensamente com a nossa curadora, Sara Neves, e recolhendo roupas descartadas e histórias locais durante a nossa estadia, estamos a integrar todas estas novas experiências na mostra. A exposição já está montada, mas está a crescer para se tornar num ambiente artístico e antropológico imersivo.
Andreia Sofia Silva Grande PlanoMédio Oriente | Analista considera que China vai ser “mais assertiva” O investigador da Universidade Lusíada Tiago André Lopes defendeu no Centro Científico e Cultural de Macau que a China vai assumir uma “postura mais assertiva” no Médio Oriente. Para cumprir objectivos no âmbito da Rota da Seda, Pequim vai lutar pela paz na região, defende o analista Foi na sessão “O Médio Oriente nas Garras do Dragão – do Acordo de Pequim à Comissão Tripartida Conjunta” que o investigador e especialista em ciência política, Tiago André Lopes analisou o papel que a China tem tido no Médio Oriente nos últimos anos, ainda antes da guerra do Irão, e os objectivos que pretende para o futuro no relacionamento com os países da região. A palestra, apresentada no âmbito das Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), serviu sobretudo para analisar a Comissão Tripartida Conjunta China-Irão-Arábia Saudita, cuja terceira sessão decorreu em Dezembro de 2025. Para Tiago André Lopes, “enquanto instrumento de diplomacia [a Comissão Tripartida Conjunta] é das coisas mais interessantes que a China fez nos últimos cinco a seis anos”, pelo “objectivo ambicioso, mas, acima de tudo, pelo desafio directo a Washington que representa”. Uma das novidades saídas deste terceiro encontro, realizado a 9 de Dezembro de 2025 em Teerão, foi a discussão em torno do Acordo de Pequim. Segundo um comunicado oficial divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, aquando da conclusão da reunião, “o Irão e a Arábia Saudita reafirmaram o seu compromisso com todas as disposições do Acordo de Pequim”, comprometendo-se “a envidar esforços para consolidar relações de boa vizinhança e amizade entre os dois países, com base no respeito pela soberania nacional, integridade territorial, independência e segurança”. Na mesma nota, lê-se que “o Irão e a Arábia Saudita saudaram o papel positivo contínuo da China”, sendo que a China “salientou a disponibilidade para continuar a apoiar e a incentivar as medidas tomadas pelo Irão e Arábia Saudita no sentido de desenvolver as suas relações em vários domínios”. “A actual escalada das tensões regionais representa uma ameaça tanto para a segurança regional como para a segurança global. Neste contexto, é muito importante que altos funcionários do Irão e da Arábia Saudita se envolvam em contactos, reuniões e visitas mútuas”, pode ainda ler-se. Mudança de postura Para Tiago André Lopes, a China vai mudar de atitude diplomática nos próximos tempos, tendo em conta os seus objectivos para o Médio Oriente. “Vamos começar a ver uma China mais assertiva, porque percebe que, se não for assertiva, corre o risco de perder coisas. E uma das coisas que a China não quer perder é o Médio Oriente. Há dias a China relembrou a todos os países do Médio Oriente que é um parceiro confiável e relembrou à Arábia Saudita e ao Irão que esta comissão existe”, destacou. O analista, ligado à Universidade Lusíada, lembrou também a posição chinesa aquando do início do conflito EUA-Israel-Irão, no sentido em que “este seria o momento em que os países árabes poderiam recuperar uma independência plena”. Para o académico, isso significa que a China quer lançar “o desafio” ao Médio Oriente para “largar aquilo que entendemos como o braço norte-americano e propagar-se a outros parceiros”, sendo que estes “são, obviamente, Pequim e não, eventualmente, a Turquia ou outros parceiros na região”. Trata-se “de um reflexo desta política da China de ter uma pegada muito activa no Médio Oriente, porque lhe interessa, e que a Arábia Saudita e o Irão não estejam permanentemente em conflito”. Tudo para que, “depois, os EUA e o Reino Unido sejam permanentemente mediadores de um conflito do qual eles beneficiam, mas onde a China tende a perder. E é por isso que a Comissão [Tripartida Conjunta] existe”, acrescentou. Tiago André Lopes lembrou que actualmente existe no país um grande debate sobre a política do não intervencionismo chinês. “Há uma grande discussão na China, que é muito interessante e que tenho tentado acompanhar o mais possível, que é a discussão que foi lançada e que é agora pública, sobre o não intervencionismo chinês”, que, segundo o analista, o país mantém desde meados dos anos 50. Outro conceito na política externa do país é o do princípio da coexistência pacífica entre países. “A China, grosso modo, não se envolve em conflitos que não sejam directamente seus. Dá apoio logístico, ao nível de informações, mas não coloca operacionais e, teoricamente, não coloca equipamento”, disse Tiago André Lopes, que considerou o facto de haver este debate público em torno do não-intervencionismo constitui um sinal de que “vamos ter uma transformação” em termos de postura diplomática do país, no sentido de maior assertividade. Acordo que funciona Porque o Médio Oriente, grosso modo, é tão importante para a China? Tiago André Lopes enumerou algumas razões: “a Rota da Seda passa substancialmente pelo Médio Oriente. Portanto, as estradas, quer a rota física da rede viária, a rede marítima, quer também a rede digital, passam todas pelo Médio Oriente. E, portanto, ter o Médio Oriente em tensão bélica não interessa à China”. Além disso há a questão energética, pois “o Médio Oriente permite à China não ser dependente excessivamente da energia vinda da Rússia”. “A China não gosta de dependências, gosta de ter múltiplos parceiros, por isso, a relação que tinha, já não tem, com a Venezuela; há a relação que tem ainda com o Irão, e a procura de outros parceiros para a questão da energia. E, por isso, é importante que o Médio Oriente seja estabilizado.” O analista entende que a região do Médio Oriente foi alvo de algum “abandono” por parte dos EUA aquando dos acontecimentos da Primavera Árabe, em 2011. Entretanto, a China está a tentar reforçar a sua posição neste campo, para o qual a Comissão Tripartida Conjunta é importante. Pequim pretende “tomar diplomaticamente uma região que os EUA abandonaram durante a Primavera Árabe”, já que “a opção de Obama foi largar o Médio Oriente”. “Nessa altura, quer o Irão, a Turquia e a Rússia entraram na região diplomaticamente, ganharam pé na região. A própria discussão sobre se a Rússia perdeu ou não um aliado na região com a questão da Síria é uma falsa discussão. A Síria manteve as bases que queria, e, portanto, não perdeu coisa nenhuma. Não há propriamente uma relação de paixão e amor entre Assad e Vladimir Putin. Há uma relação de interesse. O interesse da Rússia é ter bases. Portanto, não há, inapropriadamente, uma derrota de maior. Pelo menos, a assinalar nesta fase”, disse. A questão do Iémen Desta reunião da Comissão Tripartida Conjunta saíram também conclusões em torno da questão do Iémen, que para Tiago André Lopes “é o caso mais peculiar disto tudo” e o “efeito colateral positivo desta comissão tripartida”. Na nota difundida pelo MNE chinês, lê-se que “os três países reafirmaram o apoio a uma solução política abrangente para a questão do Iémen, em conformidade com os princípios internacionalmente reconhecidos, sob os auspícios das Nações Unidas”. “O Iémen tinha um acordo de cessar fogo que terminou em Setembro de 2023 e que continuou a valer até os dias de hoje, sem renovação. Grosso modo, o acordo não tem sido violado”, explicou. “De facto, outros envolveram-se e empenharam-se no conflito com Israel, mas não com o resto do Iémen, pelo que a dinâmica de guerra civil que estava no Iémen [estancou]. O acordo de cessar fogo tem-se, grosso modo, mantido com pouquíssimas renovações. Têm sido raros os episódios e aí há, claramente, influência da China.” Neste sentido, Pequim “percebeu que só vai resolver a crise política do Iémen quando a Arábia Saudita e Irão assim o entenderem e tiverem um plano político comum, o que esta comissão [Comissão Tripartida Conjunta] pretende fazer”, destacou Tiago André Lopes. Nas conclusões da terceira reunião da Comissão Tripartida Conjunta foram discutidos “os progressos alcançados na cooperação consular entre o Irão e a Arábia Saudita, que permitiram que mais de 85.000 peregrinos iranianos realizassem o Hajj [peregrinação a Meca] e que mais de 210.000 peregrinos iranianos realizassem os rituais da Umrah com facilidade e segurança em 2025”. Houve ainda “diálogo entre instituições e indivíduos iranianos e sauditas sobre a cooperação em áreas como a investigação conjunta, a educação, os meios de comunicação social, a cultura e os grupos de reflexão”. Além disso, Irão, China e Arábia Saudita “apelaram ao fim imediato das acções de Israel que infringem a Palestina, o Líbano e a Síria, e condenaram a violação da soberania nacional e da integridade territorial do Irão”, sendo que, neste contexto, “a parte iraniana agradeceu à China e à Arábia Saudita por assumirem uma posição clara sobre os referidos actos de agressão”.
Andreia Sofia Silva EventosAMAGAO | Nova exposição chega esta semana ao Artyzen Grand Lapa “ANO 4” é o nome que espelha a celebração: quatro anos de exposições na galeria AMAGAO, situada no Artyzen Grand Lapa, a apresentar arte em língua portuguesa e feita localmente. A partir das 18h30 desta quinta-feira, dia 26, o público pode ver uma exposição composta por trabalhos de Nuno Calçada Bastos e Ung Vai Meng, artistas locais, e também obras de Fátima Pena ou Álvaro Macieira Há quatro anos nasceu em Macau uma nova galeria pensada para mostrar alguma da arte contemporânea que se produz no território e também no universo da língua portuguesa. A AMAGAO, localizada no Artyzen Grand Lapa, é hoje gerida por Lina Ramadas e pelo designer e artista macaense Víctor Hugo Marreiros, e celebra esta semana mais um aniversário com a “ANO 4”, que a partir desta quinta-feira, 26, revela ao público 37 trabalhos de 26 artistas naturais não apenas de Macau, mas também de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal, Singapura e Timor-Leste. Os amantes de arte e demais interessados poderão reconhecer alguns deles: Ung Vai Meng, que presidiu ao Instituto Cultural (IC) e que é um dos nomes mais relevantes da arte local, tendo exposto o seu trabalho além-fronteiras; ou Nuno Calçada Bastos, artista português e residente de Macau. Na lista dos artistas constam ainda nomes como Abel Júpiter, Alexandre Frade Correia, Álvaro Macieira, Ben Ieong, David Allen, Raquel Gralheiro ou Susy Bila. Segundo uma nota enviada às redacções, a AMAGAO descreve este momento como sendo de celebração e partilha. “Desde a sua inauguração que a galeria se tem dedicado a promover artistas locais e internacionais, criando um ambiente vibrante para o intercâmbio cultural e a inspiração.” Em jeito de balanço, é dito que, neste percurso de quatro anos, “vivemos exposições que desafiaram o pensamento, estimularam a criatividade e fomentaram diálogos significativos sobre arte e sociedade”. Desta forma, a AMAGAO descreve-se não apenas “como um espaço de exposições”, mas como uma galeria que proporcionou “um ponto de encontro para artistas, coleccionadores e amantes de arte em busca de novas perspectivas e experiências enriquecedoras”. Os agradecimentos Na mesma nota são referidos os colaboradores que, neste período, ajudaram a construir a AMAGAO, nomeadamente Rutger Verschuren, vice-presidente para Macau do Artyzen Hospitality Group e “equipa de colaboradores”, sem esquecer “a comunidade que apoia, integralmente, a missão” a que a galeria se propôs. “Estamos entusiasmados com o que o futuro nos reserva e ansiosos por continuar a promover a arte como uma plataforma vital para a expressão e a conexão”, acrescenta a organização. Susy Bila, uma das artistas que traz agora a sua arte a esta “ANO 4”, não é um nome novo em Macau, tendo realizado uma exposição em nome próprio na AMAGAO em 2023, “Paisagens Interiores”. Na altura, em entrevista ao HM, a artista moçambicana declarou que a “pintura não tem territórios”. Nessa mostra trouxe na bagagem 40 trabalhos feitos com acrílico sobre tela e tinta-da-china onde se revelavam “poemas em diálogo”, como um “reflexo” da relação da artista com a vida, “e da arte como um campo que se abraça a esta vida”. Do mundo lusófono, chega ainda o trabalho de Álvaro Macieira, artista angolano que é também tantas outras coisas: jornalista, escritor e consultor cultural, nascido a 13 de Maio de 1958. Macieira foi ainda consultor e chefe do Departamento de Imprensa do Ministério da Cultura, sendo hoje membro da UEA – União dos Escritores Angolanos e da UNAP – União Nacional dos Artistas Plásticos. Com mais de 40 exposições individuais e mais de 40 colectivas, apresentou obras em Paris, Washington, Moscovo, Berlim, Bremen, Dubai, Macau e Luanda. Entre as exposições mais marcantes que fez encontram-se “África Mitológica” (2000), “Catanas da Paz” (2002), “Luanda, Kianda – Cores da Terra” (2009), “África Yetu Kwuia” (2010), “Sínteses” (2020) e “Inspiração e Sagrada Esperança” (2024). Relativamente a Macau, destaca-se ainda a presença de Alice Costa (Lili), que nasceu e estudou em Macau, tendo-se formado em Direito, e exercido na qualidade de juíza. Contudo, Alice Costa iniciou, desde cedo, uma relação profícua com a pintura, tendo participado num curso de pintura ministrado por Joaquim Franco na Casa de Portugal em Macau. Recentemente fez uma exposição em nome próprio na Creative Macau.
Andreia Sofia Silva Grande PlanoMúsica | Escritos de Camilo Pessanha conjugados com ritmos em patuá Ian Watts celebrou a poesia de Camilo Pessanha de uma forma singular, recorrendo à música e ao patuá, o crioulo macaense que está praticamente extinto. “Sunk Ships Sing Clepsydra” é o nome do álbum, disponível em formato digital, com 30 faixas produzidas pelo escritor e tradutor. Watts recorreu “ao conceito de uma banda macaense de Xangai nos anos 30” No mês em que se celebra o centenário da morte de Camilo Pessanha, vulto maior do chamado Simbolismo na poesia portuguesa e autor de “Clepsydra”, o autor e tradutor Ian Watts, com raízes portuguesas no Havai e na Califórnia, resolveu dedicar-lhe um projecto único: fez um álbum com 30 faixas, baseado na poesia de Pessanha, com ligações ao patuá e a sonoridades de jazz e música chinesa. O resultado é “Sunk Ships Sing Clepsydra”, álbum que pode ser ouvido gratuitamente, em formato digital, e que tem “letras novas em português” com ligação ao patuá. Em termos musicais, o que Ian Watts fez foi recorrer ao “conceito de produção de uma banda macaense de Xangai dos anos 30, com a gravação ao estilo Shidaiqu: harmonia de jazz ocidental, a sensibilidade melódica chinesa”, sem esquecer a presença de uma “cantora macaense cujo português desliza, naturalmente, para a sua língua materna”. Este foi o princípio de um projecto que musicou Clepsydra de uma forma que, segundo Ian Watts, nunca tinha sido tentada antes. Numa nota enviada às redacções, o autor explica que o álbum “foi realizado com ferramentas de inteligência artificial, o que permitiu que uma única pessoa tenha concretizado algo que, de outro modo, teria exigido um ‘ensemble’ de época, um estúdio e meios consideráveis”, adiantou. Ian Watts tem uma relação longa com Macau e conheceu o universo de Camilo Pessanha “quando fazia investigação sobre o comércio do ópio em Macau na Biblioteca Nacional de Lisboa, no final dos anos noventa”. Aí surgiu o acesso ao espólio de Camilo Pessanha, doado pela família de Ana Castro Osório, que mais contribuiu para a divulgação da escrita do poeta português. “O meu objectivo principal era procurar qualquer escrito seu sobre o uso de ópio, o que não encontrei de forma óbvia. Mas encontrei outra coisa: a qualidade sonora e profunda da sua poesia. Era estranha e bela. O que também me cativou foi a sua tradução das ‘Elegias Chinesas’ – era um homem verdadeiramente mergulhado em Macau, não um poeta europeu de passagem”, adiantou Ian Watts ao HM. A ideia de produção de “Sunk Ships Sing Clepsydra” surgiu depois da publicação da tradução de “Lin Tchi Fá: Flor de Lótus”, da autoria do próprio Ian Watts, sobretudo no momento em que ouviu a canção “Viola Chinesa”, do duo macaense “A Outra Banda”, onde é adaptado um poema de Pessanha com o mesmo nome. “Naquele momento decidi que pôr a sua poesia em música seria um projecto bonito em sua honra. Comecei de forma simples, e procurei inspiração em Satie e Debussy, que pareciam capturar o mesmo lirismo. Aquele som não me parecia quente, e voltei a pensar no mesmo lugar em que Pessanha viveu, nas pessoas à volta”, tendo ocorrido a Ian Watts as ideias de Macau, da mulher macaense e até do cante. Nesse momento, “todas as peças se encaixaram.” Para produzir o disco, Ian Watts recorreu “ao máximo de fontes em patuá” que conseguiu, nomeadamente os discos da Tuna Macaense e do poeta Adé. “Comecei aí o longo processo de decidir onde entrar o patuá numa canção, e onde a cantora poderia, conscientemente, manter o português. Numa canção queria usar o Nhum, em ‘O Tambor’, mas a melodia e a canção exigiam outra coisa. Tudo foi feito com intenção”, assegura. A escolha dos poemas para o disco não foi difícil, já que “em certo sentido já estavam escolhidos, por Ana de Castro Osório há mais de cem anos”. “Digo isto com algum humor”, salienta Ian Watts. A escolha da IA Usar inteligência artificial (IA) neste projecto tem tanto de inovador como de arriscado, e Ian Watts assume que “esteve reticente em contar ao mundo não-IA sobre este projecto”, já que, no seu entender, “a maioria das pessoas olha de forma negativa para a música e imagens produzidas por IA”. “Contactei os meios de comunicação em Macau não por [desejar] fama ou fortuna, mas para dar às pessoas a possibilidade de ouvir Pessanha no centenário da sua morte”, destaca. “Ao contar às pessoas de Macau sobre este projecto, espero que possa também inspirar alguns a compor canções e a cantar as suas histórias — em patuá, em cantonês, em português. A IA oferece a possibilidade de pessoas que, de outra forma, não teriam recursos para o fazer, na colaboração e a cantar.” Macau entrou na vida de Ian Watts “como uma ideia”, através do seu professor de português na universidade. “Estávamos em pleno debate pós-modernista e pós-colonial e Macau fascinava-me intelectualmente”, na qualidade de “entreposto português na costa sul da China, com uma identidade construída em cima de múltiplas pertenças e múltiplas ausências”. Ian Watts foi depois a Macau, onde “teve a oportunidade de falar com muitas pessoas sobre o que significava ser macaense”, e aí o território “deixou de ser um conceito” para se transformar “num lar para muitos, levando um pedaço no meu coração”. O autor traduziu escritos de Camilo Pessanha e de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, “por prazer”, tendo inclusivamente saído, no ano passado, a tradução de “Lin Tchi Fá – Flor de Lótus”, publicada originalmente em 1925, em português, chinês e inglês. Sobre este projecto, Ian Watts afirma que “Maria Anna Acciaioli Tamagnini escreveu na tradição orientalista e simbolista”, sendo que, em “Lin Tchi Fá”, “nunca escreve explicitamente sobre os macaenses”. Faz, isso sim, “referências veladas e, por vezes, explícitas à condição feminina e subtilmente insurge-se contra as estruturas patriarcais”, o que resulta”dos seus contactos locais”. “Convém recordar que ‘Lin Tchi Fá’ foi publicado quando ela estava em Lisboa, depois de o marido ter sido chamado de volta a Portugal após a sua primeira governação; os seus ensaios posteriores a 1926, durante a segunda governação, debruçam-se quase inteiramente sobre a comunidade chinesa em Macau e no sul da China.” Esta autora, destaca Ian Watts, escreveu um poema mais focado em Macau, intitulado “Santa Infância”, onde descreve a realidade das crianças órfãs, “na sua maioria raparigas que eram deixadas na roda dos expostos”, criadas dentro da comunidade cristã, por freiras. “Não incluí este nem outro poema existente na minha tradução, por não constarem do seu volume original de poemas”, explica. O lugar da língua Ian Watts sabe o que é viver entre idiomas. No que diz respeito ao patuá, já não encontrou Adé vivo para, com ele, aprender mais sobre o crioulo macaense, mas ainda trocou palavras com o Padre Manuel Teixeira, que lhe falou dos escritos de Adé e Maria Anna Acciaioli Tamagnini. “Mas a língua ganhou vida de outra forma. Uma tarde estava na Leitaria I Son, no Largo do Senado, com um grupo de macaenses jovens, na casa dos vinte anos. E eles iam deslizando entre o inglês, o cantonês, o português e o patuá — tudo dentro da mesma conversa, sem marcação, sem cerimónia. Nunca tinha ouvido a língua falada antes. O que me ficou foi a sua musicalidade. Nunca me esqueci”, recorda. Ian Watts diz não ser “linguista nem especialista em revitalização linguística”, e que as suas áreas de estudo são Etnografia, Literatura e Estudos Portugueses. Porém, diz ter a “perspectiva pessoal sobre o que acontece às línguas sob pressão”. “A minha família, de origem açoriana e madeirense, perdeu activamente o português no Havai sob a pressão da assimilação. Escolheram o inglês como língua de prestígio, e o português foi murchando até restar apenas em palavrões”, recorda, falando do progressivo desaparecimento do patuá. “Em Macau, entendo que o patuá não foi tão suprimido e considerado uma língua que não valia a pena conhecer”, com um sentimento de “vergonha de si próprio”. “A minha própria família olhava com desconforto para o seu inglês ‘partido’ e empurrava a língua correcta, o inglês da Metrópole. E assim o patuá foi-se esvanecendo. Felizmente, foi documentado, no [jornal] ‘Ta-ssi-yang-kuo’ na viragem do século, por Graciete Batalha a meio do século passado, e, mais recentemente, no léxico de Miguel de Senna Fernandes — que, em conjunto com o Dóci Papiaçam di Macau, tem feito um esforço genuíno para manter a língua viva.” Ian Watts refere também o trabalho de edição de textos antigos por parte do Instituto Cultural e Instituto Internacional de Macau. “Falo como alguém de fora, e reconheço que não conheço a realidade linguística actual de Macau. Mas a minha intuição é que as línguas mudam — e que o mesmo contacto intercultural que criou o patuá pode continuar a levá-lo para a frente. A língua, como os ‘Filhos da Terra’ que a falam, não é uma peça de museu. Aquele grupo de jovens macaenses que eu via deslizar entre o português padrão e o cantonês de rua — é assim que os crioulos se formam. Foi maravilhoso ouvir isso com os meus próprios ouvidos”, salienta.