Andreia Sofia Silva EventosExpressões artísticas da Rota Marítima da Seda em exposição Pode ser visitada até ao dia 8 de Março, na zona da Barra, a mostra “Talent Training on the Cultural and Creative Design of Maritime Silk Road” [Formação de Talentos em Design Cultural e Criativo da Rota Marítima da Seda”, que nasce de um projecto com o mesmo nome levado a cabo pelo Poly MGM Museum. Este projecto foi financiado pelo Fundo Nacional para as Artes da China. A mostra revela as obras criativas de 30 participantes no referido programa, que decorreu no museu ao longo de um ano e, segundo um comunicado oficial, está dividida em seis capítulos temáticos, revelando “diversas explorações da Rota Marítima da Seda através da interpretação cultural, tradução de design e expressão artística contemporânea”. O público pode ver “30 obras originais que abrangem produtos culturais e criativos, design de moda, pintura, escultura e instalações multimédia”, demonstrando “a transformação criativa da tradição para a contemporaneidade, ao mesmo tempo que injectam uma renovada vitalidade artística no historicamente rico distrito de Barra”. O programa desenvolvido no Poly MGM Museum contou com a colaboração da equipa docente do Museu do Palácio e do Instituto de Tecnologia da Moda de Pequim. Tratou-se de um programa que juntou “teoria cultural, estudos de campo e prática do design”, trazendo “um novo impulso na formação de talentos culturais e criativos” locais. Um certo espírito Citada pela mesma nota, Pansy Ho, presidente e directora-executiva da MGM China Holdings, disse que “os participantes [deste projecto] abraçaram o espírito da Rota Marítima da Seda, traduzindo a história e a cultura em obras de valor estético contemporâneo e confiança cultural”. O que aconteceu nesta mostra, na sua visão, foi uma fusão do “património tradicional” com a “expressão moderna”, sendo que Pansy Ho garantiu que a operadora de jogo “vai continuar a aproveitar Macau como uma ponte para promover a cultura chinesa, não apenas como uma encantadora ‘visão do Oriente’, mas como um estilo de vida e uma escolha estética que realmente entra nos corações, permitindo que a civilização chinesa irradie um novo brilho na nossa era moderna”. Jia Ronglin, vice-presidente do Instituto de Tecnologia da Moda de Pequim, declarou que Macau “exemplifica o encontro e a coexistência das civilizações oriental e ocidental”. “Com base no seu papel como encruzilhada cultural, este programa aprofunda o entendimento mútuo ao longo da Rota Marítima da Seda, promove a inovação em design e a formação de talentos e revitaliza a sabedoria e a estética antigas num contexto contemporâneo”, adiantou.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteDiáspora | Defendida maior ligação entre Casa de Macau e Casa de Goa Decorreu ontem em Lisboa a conferência “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que analisou o papel de ligação que as entidades podem ter na diáspora goesa e macaense. Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau, destaca a importância de criar pontes com a Casa de Goa pelo “paralelo de representatividade de luso-descendentes” Que papel podem ter a Casa de Macau e a Casa de Goa, em Lisboa, tendo em conta o desfilar do tempo e os desenvolvimentos trazidos pelas novas gerações das comunidades macaense e goesa? É certo que Macau e Goa há muito deixaram de fazer parte do antigo império português, mas os laços socioculturais permanecem. A pensar nisso, decorreu ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a palestra “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que procurou traçar respostas para os desafios do futuro. Ao HM, Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau em Lisboa, declarou que “seria interessante que as pontes entre a Casa de Macau e a Casa de Goa pudessem também ser equacionadas num paralelo da sua representatividade dos luso-descendentes e das culturas mestiçadas”, tendo em conta que as duas entidades “são pilares fundamentais para a representatividade dessas comunidades”. O responsável, ele próprio macaense, destaca “as similitudes da sua gastronomia, crioulo e festividades” entre as duas comunidades. Seria, assim, “interessante aliar as pequenas representações dos gigantes do mundo asiático, representadas pela simbologia do Dragão e do Elefante, como elementos estruturantes para um diálogo entre Portugal e a Ásia, queiram as vontades políticas e institucionais”. Na visão de Carlos Piteira, as duas casas “reforçam a herança legitimada do diálogo entre o Ocidente e o Oriente, e as relações seculares de Portugal com estes países, muitas vezes ignorada e esquecida pelos poderes oficiais e institucionais”. Já Pedro Colaço, da direcção da Casa de Goa, destaca a importância de preservar a memória da presença portuguesa tanto em Goa como nos restantes territórios de Damão e Diu. “Foram 450 anos de história, no caso de Macau foram mais umas décadas, e procuramos acompanhar a actual cultura goesa. Uma das partes mais importantes do nosso trabalho é fazer uma ponte entre Goa e Lisboa, e diariamente contactamos com artistas, músicos e membros da comunidade, é esse o nosso papel”, descreveu ao HM. Pedro Colaço deu o exemplo do concerto que vai decorrer a 8 de Março na Fundação Oriente, em Lisboa, intitulado “Oscar Castellino – Voz de Ópera de Goa e Piano com Rodrigo Ayala”. De resto, a Casa de Goa, actualmente sem sede própria, procura, tal como a Casa de Macau, atrair novos sócios, sobretudo das novas gerações, a fim de dar continuidade ao projecto, para que a Casa se mantenha “como um polo de união dos goeses e, cada vez mais, dos amigos de Goa”. Acompanhar a história A Casa de Macau foi fundada em Lisboa em 1966 e tem acompanhado diversas fases não só da história de Portugal como do relacionamento do país com Macau e a China. “A existência da Casa de Macau marca, sem dúvida, um paralelo com a própria história de Portugal por mais de 70 anos. Macau foi a ‘pérola do Oriente’ para o Estado Novo e viveu as turbulências do período revolucionário de Abril 1974, adaptando-se e consagrando-se como a ‘ponte entre o Ocidente e Oriente'”. Por fim, depois da transição para a República Popular da China, tem-se assistido à reorganização [de Macau] como território central na ligação, a partir da China, com os países da língua portuguesa.” Carlos Piteira descreveu ainda que a Casa de Macau tem acompanhado “a história dos tempos, alargando a visão da presença portuguesa neste território”. Além disso, teve uma tarefa “não menos importante”, por ter “cristalizado, protegido e perpetuado a comunidade macaense em Portugal e no mundo”. Actualmente, a Casa de Macau tem desenvolvido diversas actividades que levam mais sócios à Avenida Gago Coutinho, onde está situada, e cujo edifício foi recentemente alvo de obras de restauro. Todas as quartas-feiras há almoços de comida macaense com a Chef Tina, natural de Macau, decorrendo também sessões de cinema e palestras. A missão da Casa é, actualmente, “realizar actividades de divulgação de Macau e da cultura macaense”, dando-se “apoio e dinamização de estudos e trabalhos de teor científico sobre Macau, macaenses” e fazendo-se também a “interligação institucional com as demais entidades ligadas a Macau, Portugal e Casas de Macau na diáspora”. Quem é de Goa e quem não é Pedro Colaço explicou que a comunidade goesa em Lisboa “tem mais facilidade em falar com a restante diáspora indiana” em Portugal, tendo em conta que, por exemplo, “a ligação é muito antiga” com a comunidade hindu. “Temos pena que às vezes não se fale mais [da comunidade], ao nível dos meios de comunicação, porque é uma parte importante da história portuguesa”, lamenta o responsável, lembrando figuras bem destacadas no país, como António Costa, que foi primeiro-ministro português, ou Narana Coissoró, antigo presidente da Casa de Goa e ex-deputado do CDS-PP. “Há figuras mais notórias, mas no geral a comunidade goesa inseriu-se muito bem e é conhecida por ser uma comunidade bastante instruída”, lembrou ainda, lamentando que em Portugal não se consiga fazer uma distinção entre comunidades de origem indiana. “Uma coisa que é preocupante é o desconhecimento que existe em relação às comunidades. Hoje em dia há uma grande pressão devido à imigração e depois mistura-se tudo”, destaca Pedro Colaço, lembrando que há um sentimento forte em ser-se goês, nomeadamente na ligação ao catolicismo e a uma cultura muito própria por oposição a comunidades do Indostão que, actualmente, estão muito presentes em Portugal. “A comunidade goesa é tão miscigenada que metade da minha família, ou mais, não aparenta ser goesa, mas eu, por acaso, aparento. Há um sentimento de ser goês, algo que nos une. As outras comunidades da diáspora indiana são, muitas vezes, confessionais, têm uma religião associada, enquanto que a comunidade goesa é, na sua maioria, católica, mas cada um vai à sua igreja, está muito espalhada”, apontou. O futuro é um desafio Pedro Colaço fala num “futuro desafiante” para a Casa de Goa. “Estou agora no segundo mandato, a direcção mudou de presidente, e uma das coisas que se tem tentado fazer é trazer jovens para os órgãos sociais. Agora temos três ou quatro membros mais novos, abaixo dos 40 anos. Também temos tentado alargar a Casa a não goeses.” Neste ponto, há semelhanças com a Casa de Macau, que também tem procurado alargar o leque de sócios a chineses ou portugueses que não pertençam à comunidade. Pedro Colaço adianta que, com o passar dos anos, as coisas mudaram. “Há 30 anos a comunidade era muito grande, mas neste momento, e tal como todas as instituições, temos de nos alargar. Há muitas pessoas que gostam muito de Goa e que sabem muito do território, talvez até mais do que eu, e são esses que têm de ser puxados”, assumiu. Actualmente, a Casa de Goa tem 500 associados e, mesmo sem sede, procura fazer actividades, nomeadamente em parceria com a Fundação Oriente. É publicado um boletim mensal. Deixaram de ter sede devido às obras do metro em Lisboa, o que tem dificultado a agenda da Casa. “Estamos no processo de arranjar uma nova sede, e é algo que tem constituído um constrangimento, mas procuramos fazer o máximo de actividades possível e, mensalmente, temos sempre actividades”, rematou Pedro Colaço.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteSegurança | Governantes da RAEM aplaudem Livro Branco sobre Hong Kong A China lançou um novo Livro Branco sobre a segurança nacional, sobre Hong Kong, que se intitula “Prática da Salvaguarda da Segurança Nacional em Hong Kong sob ‘Um País, Dois Sistemas’. Na RAEM, os secretários e dirigentes políticos reagiram de forma positiva, dizendo que o documento dá garantias de estabilidade e que é uma referência para Macau Dias depois da condenação, em Hong Kong, de Jimmy Lai, empresário dos media que fundou o extinto jornal Apple Daily, eis que a China lança um novo Livro Branco virado para a necessidade de salvaguarda da segurança nacional no território vizinho. A “Prática da Salvaguarda da Segurança Nacional em Hong Kong sob ‘Um País, Dois Sistemas'”, foi publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado da China na terça-feira. Segundo a agência noticiosa Xinhua, este Livro Branco é composto por cinco partes, detalhando “a persistente luta para salvaguardar a segurança nacional em Hong Kong e a responsabilidade fundamental do Governo Central em questões de segurança nacional relacionadas a Hong Kong”. Na mesma nota, é explicado que o Livro Branco “expõe as conquistas da RAEHK no cumprimento da responsabilidade constitucional de salvaguardar a segurança nacional” e ainda “a transição de Hong Kong do caos para a estabilidade e prosperidade”. Não são esquecidos “os esforços para criar [um panorama de] segurança de alto padrão a fim de promover o desenvolvimento de alta qualidade da política de ‘Um País, Dois Sistemas'”, além de ser explicado que “o Governo Central aplicou uma abordagem holística à segurança nacional”. Neste contexto, “exerceu efectivamente a jurisdição geral sobre a RAEHK, de acordo com a Constituição do país e a Lei Básica da RAEHK”, sendo que a Lei sobre a Salvaguarda da Segurança Nacional “tem sido aplicada na região” e veio garantir “que Hong Kong seja administrada por patriotas”. Do lado da RAEM, o aparelho governativo reagiu de forma positiva a este Livro Branco, isto depois de ter sido aprovada na generalidade, na Assembleia Legislativa, a proposta de lei que apresenta um novo formato e composição da Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, criada em 2018. Chan Tsz King, secretário para a Segurança, foi uma das figuras políticas que reagiu ao documento, que considera “assegurar a implementação estável e duradoura” do princípio “Um País, Dois Sistemas”. Citado por uma nota oficial, o secretário entende que o Livro Branco vem “esclarecer a unidade intrínseca entre os princípios políticos e a lógica institucional, fazendo com que a sociedade de Hong Kong volte à normalidade e a ordem seja restaurada”. O documento, na visão do secretário, “serve como importante referência para a RAEM rever e melhorar a construção do seu sistema jurídico no âmbito de defesa da segurança do Estado e do respectivo mecanismo de execução”. Chan Tsz King destaca que a sua tutela dará “grande importância à garantia da segurança nas áreas não tradicionais sob nova conjuntura, estabelecendo como objectivo estratégico a estabilidade a longo prazo da RAEM”. Firme como uma rocha Ainda segundo a Xinhua, o Livro Branco descreve como Pequim “apoia a RAEHK no cumprimento de sua responsabilidade constitucional de salvaguardar a segurança nacional, prevenindo, interrompendo e punindo efectivamente quaisquer actividades que coloquem em risco a segurança nacional”. “Os esforços” da região vizinha na salvaguarda da segurança nacional visam, segundo o mesmo documento, “sustentar e desenvolver” o princípio criado por Pequim como sustentação de Taiwan e das duas regiões administrativas especiais, sem esquecer a protecção “dos direitos humanos fundamentais, a dignidade e o bem-estar dos 7,5 milhões de residentes de Hong Kong”. O Livro Branco divulgado pelo Conselho de Estado dá ainda conta que “no mundo actual, e com transformações globais sem precedentes ocorridas em um século, estão a acelerar, com o ambiente de desenvolvimento enfrentado pela China a passar por mudanças profundas e complexas”. Desta forma, “salvaguardar a segurança nacional é uma tarefa de longo prazo e permanente”, é referido. O Livro Branco dá conta que Hong Kong “desfruta de uma segurança de alto padrão”, estando a região “fadada a superar todos os riscos e desafios na futura jornada, permanecendo tão estável como uma rocha num mundo turbulento”. Outra figura política da RAEM que reagiu foi Adriano Marques Ho, director-geral dos Serviços de Alfândega, dizendo que o Livro Branco “tem um significado orientador importante e um impacto profundo para a implementação completa e precisa de ‘Um País, Dois Sistemas’ nas regiões de Hong Kong e Macau, para a realização da prosperidade e estabilidade a longo prazo, e para a sua progressão estável e sustentável”. Adriano Marques Ho acrescentou que “tanto Hong Kong como Macau são partes inalienáveis e sagradas da China”, sendo que Pequim “tem mantido, de forma firme e consistente, a soberania, segurança e interesses de desenvolvimento nacionais”. Na visão do responsável máximo da Alfândega, “as forças hostis externas e os elementos anti-China que perturbam Hong Kong incitaram e criaram os ‘tumultos da revisão legislativa’, que acabaram por evoluir para uma ‘revolução colorida’ versão Hong Kong, prejudicando gravemente a ordem constitucional e o Estado de Direito em Hong Kong, e colocando em risco a soberania, segurança e interesses do desenvolvimento nacionais”. Fim da “situação caótica” O Lam, secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, disse que o Livro Branco “analisa e delineia de forma abrangente o percurso de Hong Kong na defesa da segurança nacional, as grandes realizações e a experiência colhida”. Na visão da governante, “Hong Kong passou de uma situação caótica para a estabilidade e prosperidade”. No caso da RAEM, aplicam-se os princípios contidos no Livro Branco, prometendo a secretária “continuar a intensificar a educação, dando prioridade à formação de uma base social que sustenta os valores de amor pela pátria e por Macau”. Neste contexto, pretende-se “desenvolver um sistema educativo abrangente para aumentar o sentimento patriótico dos jovens e consolidar o alicerce ideológico da segurança nacional através de actividades e intercâmbios educacionais multidimensionais”. Fica a promessa de que a tutela dos Assuntos Sociais e Cultura “irá continuar a promover a segurança nacional utilizando como força motriz a cultura, reforçando a exploração e a divulgação dos recursos históricos e culturais de Macau e organizando diferentes tipos de exposições e espectáculos culturais com características singulares”. A ideia é “divulgar a excelente herança cultural chinesa no sentido de resistir à erosão das culturas nocivas, reforçar a identidade cultural e nacional da população e unir as forças dos diferentes sectores da sociedade através da cultura”. Wong Sio Chak, secretário para a Administração e Justiça, e que durante anos deteve a pasta da Segurança, considera que o Livro Branco tem “extrema relevância para os assuntos da RAEM relativos à defesa da segurança nacional”, nomeadamente no que diz respeito à “defesa da soberania, segurança e dos interesses de desenvolvimento do Estado”. Ficam as promessas de que a área da Administração e Justiça “irá impulsionar a produção legislativa nos domínios prioritários relacionados com a defesa da segurança do Estado, continuando a aperfeiçoar o respectivo regime jurídico”, sendo organizados “cursos de formação sobre a Constituição, a Lei Básica e a legislação relativa à defesa da segurança do Estado vocacionados para os trabalhadores dos serviços públicos de diferentes níveis”. Por seu turno, Tai Kin Ip, secretário para a Economia e Finanças, descreveu que “as seguranças económica e financeira constituem domínios-chaves não tradicionais de entre as vinte áreas prioritárias da visão global de segurança nacional, sendo também factores cruciais para garantir o desenvolvimento estável e a segurança de longo prazo de Macau e do país”. Tai Kin Ip pretende “promover de forma pragmática o desenvolvimento da diversificação adequada da economia, reforçando a resiliência económica global de Macau e mantendo um elevado nível de atenção face a vários riscos e desafios no domínio económico-financeiro”. Raymond Tam, secretário para os Transportes e Obras Públicas, disse que Macau deve “cultivar uma consciência de vigilância em tempos de paz, a fim de consolidar os alicerces de uma estabilidade e segurança duradouras”. Neste sentido, o governante entende que “Macau deve colocar sempre em primeiro lugar a salvaguarda da soberania, da segurança e dos interesses de desenvolvimento do Estado”, sendo que na tutela dos Transportes e Obras Públicas promete “persistir na predominância do poder Executivo, integrando de forma firme a salvaguarda da segurança nacional em todas as tarefas”. Ao Ieong Seong, Comissária contra a Corrupção, acredita que “a segurança e a estabilidade do ambiente político e o bom funcionamento do sistema, com predominância do poder Executivo, [garante que] o nível de governação da RAEM seja cada vez mais elevado”. A comissária destacou “a realização bem-sucedida, no ano passado, das eleições para a 8ª Assembleia Legislativa, reforçando-se a concretização do princípio ‘Macau governado por patriotas’ e assegurando eficazmente a estabilidade duradoura da RAEM”.
Andreia Sofia Silva PolíticaLivrarias | Deputado quer mais apoios O deputado Lam Fat Iam defendeu ontem que devem ser criados mais apoios ao sector livreiro, apoiando-se “o desenvolvimento das livrarias físicas locais” e a construção de Macau como “Cidade de Leitura”. Ao falar no período de interpelações antes da ordem do dia, Lam Fat Iam defendeu que devem ser criadas “políticas de apoio específicas e precisas”, como a criação de “programas de apoio à exploração e actividades culturais das livrarias”, dando-se “prioridade às livrarias que promovem a cultura de Macau e realizam regularmente conferências e actividades de leitura”. Deve-se ainda criar um sistema que fomente “a circulação e publicação de livros locais”, com “financiamento prioritário ao planeamento, edição e publicação de livros com características de Macau”.
Andreia Sofia Silva PolíticaEsplanadas | Pedido “planeamento sistemático” O deputado Chui Sai Peng defende que as autoridades devem realizar um “planeamento sistemático” das esplanadas, a fim de “criar uma atmosfera agradável e descontraída” tendo em conta o papel de Macau como cidade de gastronomia. No período de interpelações antes da ordem do dia, Chui Sai Peng disse que não basta o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) ter recomeçado a emitir licenças, devendo existir “um plano detalhado e de longo prazo”, definindo-se “objectivos gerais do planeamento dos espaços de restauração ao ar livre de Macau, o caminho para a prática, a dimensão dos projectos e os planos de acção a curto prazo”. O deputado pede, por isso, que seja criado “um grupo de trabalho, a fim de elaborar um plano para as esplanadas, científico, executável e consensual, entre múltiplas partes”.
Andreia Sofia Silva EventosCinema | Concerto celebra “In the Mood for Love”, de Wong Kar Wai Abril é tempo de uma nova edição do Festival de Cinema de Hong Kong e este ano conta com um concerto muito especial. “In the Mood for Love In Concert” é a forma de homenagear um dos filmes mais icónicos do realizador Wong Kar Wai, e acontece nos dias 2 e 3 de Abril no Centro Cultural de Hong Kong. A iniciativa tem a participação da Orquestra Filarmónica de Hong Kong Um homem e a uma mulher, cada um com o seu parceiro ausente, deambulam pelas ruas estreitas e chuvosas de Hong Kong envoltos na solidão e nas tarefas rotineiras do dia-a-dia. Aos poucos vão percebendo que o amor se escapa por entre os dedos de um lado, mas ganha-se com toda a força noutro, e subitamente aquela pensão em que ambos estão hospedados potencia um forte sentimento. Esta é a história central de “In the Mood for Love”, um dos mais conhecidos filmes do realizador de Hong Kong Wong Kar Wai, que será alvo de um concerto de homenagem em Abril, no âmbito de mais uma edição do Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, a 50ª. O espectáculo será conduzido pelo maestro Joshua Tan e conta com música da Orquestra Filarmónica de Hong Kong, decorrendo nos dias 2 e 3 de Abril no Centro Cultural de Hong Kong. O filme, realizado em 2000, integra grandes estrelas do cinema vizinho no elenco: Tony Leung Chiu-wai faz de funcionário cansado e abandonado pela esposa, enquanto Maggie Cheung é a esposa que espera eternamente o marido que anda sempre em viagens de negócios. No website oficial do festival lê-se que o filme “é uma obra-prima sublime que encarna a solidão, os segredos e o arrependimento”, sendo uma “comovente história de amor que evoca uma nostalgia inebriante, mas também um fervoroso desejo romântico, na perfeição da sua dolorosa banda sonora e da sua cinematografia deslumbrante”. Com o concerto de homenagem, 26 anos depois da estreia, o filme fica “ainda mais fascinante com a apresentação musical”, pode ler-se. “In the Mood for Love” será exibido ao mesmo tempo que a música da orquestra ecoa do palco. Os bilhetes estão à venda a partir de hoje. Uma mostra no City Hall Entretanto, os amantes de cinema podem esperar mais uma edição do festival que, este ano, celebra 50 anos de existência. Entre os dias 1 e 12 de Abril, o evento traz uma exposição especial que decorre no Salão de Exposições da Câmara Municipal de Hong Kong, e que se intitula “50 and Beyond: The Hong Kong International Film Festival Golden Jubilee Exhibition”. Segundo um comunicado oficial da iniciativa, o público poderá saber mais sobre “as conquistas do HKIFF [Hong Kong International Film Festival] nos últimos 50 anos na promoção da arte cinematográfica e no fomento do intercâmbio cultural”. Albert Lee, director-executivo da empresa que organiza o festival, a Sociedade do Festival Internacional de Cinema de Hong Kong, disse que é importante organizar esta mostra no City Hall, onde se realizou a primeira edição do festival, em 1977. “Desde aí que o HKIFF se tornou num dos destaques culturais do ano em Hong Kong, ganhando reputação como um dos festivais de cinema mais antigos e prestigiados da Ásia”, disse, citado pela mesma nota. Albert Lee espera que esta exposição, composta por “fotografias raras de mestres cineastas, realizadores de renome e estrelas de cinema que apareceram no festival nas últimas cinco décadas”, funcione “tanto como uma retrospectiva quanto como uma visão voltada para o futuro”. O cartaz completo do festival será conhecido no início do próximo mês de Março.
Andreia Sofia Silva PolíticaDeputados pede melhorias na gestão de multidões durante Ano Novo Chinês A chegada do Ano Novo Chinês e a necessidade de uma melhor organização do tráfego de pessoas e turistas levou alguns deputados a questionar o Governo sobre essa matéria. No período de interpelações antes da ordem do dia, o deputado Leong Hong Sai destacou que “existem ainda muitos pontos fracos” quanto à “gestão de multidões”, referindo casos ocorridos no ano passado, quando “as pessoas se concentraram na zona do Cotai para a contagem decrescente”, ou seja, a festa de Ano Novo, tendo ocorrido “a dispersão lenta da multidão até cerca das 3 horas da madrugada”. Nessa altura, “devido ao grande fluxo de pessoas, o Posto Fronteiriço de Hengqin ficou cheio e, segundo muitos turistas, houve falta de articulação entre as medidas de trânsito e a gestão da multidão após o evento”. Assim, Leong Hong Sai sugere “acelerar o aperfeiçoamento da rede do metro ligeiro e a construção de infra-estruturas pedonais nas zonas circundantes, de modo a aumentar a cobertura directa das linhas aos postos fronteiriços e a potenciar a capacidade de transporte do metro ligeiro”. O deputado defende também um ajuste “dinâmico dos horários dos autocarros e do Metro Ligeiro”, criando-se “pontos de paragem temporários para as carreiras de autocarros em áreas-chave e nos postos fronteiriços”. Deve ser ainda criada uma “plataforma unificada de monitorização do fluxo de pessoas e de resposta a emergências nas principais zonas para efectivar a partilha imediata de dados”. Prever é importante Também o deputado Leong Pou U aproveitou este momento do debate para deixar sugestões ao Executivo, lembrando que Macau pode, segundo previsões oficiais, receber entre 158 a 175 mil visitantes em termos de números médios diários. “As dificuldades de mobilidade e de apanhar autocarro afectam gravemente a experiência de viagem dos turistas e provocam má impressão de Macau”, destacou. Leong Pou U pede, por isso, que seja “reforçada a cooperação interdepartamental e que se aperfeiçoem os planos de trânsito”, usando sistemas de alerta e “informações predictivas sobre a afluência de pessoas que devem ser prontamente convertidas em medidas concretas, tais como o reforço da capacidade de transporte, a optimização de rotas e o ajuste de percursos pedonais”. O deputado pede também um reforço da “comunicação com os serviços competentes do Interior da China”.
Andreia Sofia Silva PolíticaDesenvolvimento contínuo | Pedida extensão de plano a Hengqin O deputado Chan Lai Kei interpelou ontem o Governo, no período de antes da ordem do dia, quanto à necessidade de “acelerar a extensão” do Programa de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento Contínuo à Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin. Chan Lai Kei deixou esta questão tendo em conta que o Governo anunciou, no último relatório das Linhas de Acção Governativa (LAG), que “ia ser lançada uma nova fase deste programa”. “Considero que se trata da oportunidade ideal para avaliar e melhorar o posicionamento desse Programa, pois o alargamento do âmbito de aplicação do Fundo de Educação Continuada a Hengqin constitui uma medida pragmática para concretizar a integração entre Macau e Hengqin e responder às aspirações dos residentes”, destacou o deputado. Chan Lai Kei pede que sejam incluídas “instituições de formação com capital de Macau em Hengqin no âmbito de reconhecimento da nova fase do programa”, com a possibilidade de haver mais oferta formativa, sugerindo também a criação de uma “Conta Única de acesso comum” com “informações sobre o aperfeiçoamento entre Macau e Hengqin”.
Andreia Sofia Silva Manchete PolíticaSegurança Nacional | Cultura, jogo e educação representados em comissão Foi ontem aprovada na generalidade a proposta de lei relativa à Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, que vem clarificar competências e a composição do organismo face à estrutura existente desde 2018. Destaque para o facto de o Instituto Cultural e os serviços educativos passarem a estar representados Os deputados aprovaram ontem, por unanimidade, na generalidade a proposta de lei relativa à Comissão de Defesa da Segurança do Estado da RAEM, instituída através de regulamento administrativo em 2018, com respectiva revisão em 2021. E se até à data este organismo se compunha essencialmente de personalidades ligadas à tutela da Segurança, a novidade é que agora passam a estar representados organismos ligados ao jogo, cultura e educação, como é o caso do presidente do Instituto Cultural (IC), o director da Inspecção e Coordenação de Jogos e director dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ). Este ponto foi destacado pelo deputado Ma Chi Seng. “Segundo o regulamento administrativo de 2018 a Comissão de Defesa da Segurança do Estado era composta por representantes da área da Segurança, e vejo que nesta proposta de lei se aumentou o número de representantes”, disse. O secretário para a Segurança, Chan Tsz King, declarou ser “muito importante o conhecimento ao nível da segurança do Estado”, uma vez que a Comissão “visa reforçar os trabalhos ao nível da cultura, educação e juventude por forma a proteger os conhecimentos tradicionais ao nível da segurança nacional”. Ainda no que diz respeito à composição do organismo, este passa a ter um secretariado “como serviço permanente de execução e apoio”, sendo que o secretário-geral é o próprio secretário para a Segurança. O secretariado funciona na dependência do Chefe do Executivo. É ainda criado o cargo de assessor para os assuntos de segurança nacional, tendo como uma das funções “transmitir as decisões e programação do Governo Popular Central relativas aos trabalhos de segurança do Estado”. Um jardim tranquilo Questionado pelo deputado Leong Hong Sai sobre os impactos que a reformulação da Comissão vai trazer para a população, o secretário deu o exemplo de crianças a brincar num jardim. Persiste a ideia de criação de uma “barreira da segurança nacional”, com o pressuposto de que “a sociedade respeita a lei, e só assim consegue estar estabilizada, garantindo-se a segurança do Estado, sendo assegurados os direitos e interesses da população”. “Tenho contactado pessoas de associações de acção social, e falando das suas experiências referiram que um dia, perto das 16h, quando passavam num jardim, viram crianças a brincar. Respirava-se tranquilidade, e é esse ambiente social que vai permitir que as novas gerações tenham um ambiente tranquilo para viver, e para que haja crescimento [do território], e isso tem a ver com a segurança nacional e do Estado”, frisou o secretário. Alguns deputados colocaram questões sobre o facto de o trabalho da Comissão, nomeadamente “temas, conteúdos, actas e documentos de apoio” terem “natureza confidencial”, além do facto de “as decisões, pareceres, directivas e orientações não poderem ser publicados”. Além disso, caso ocorram recursos ou impugnações administrativas a decisões, “não pode ser facultado aos interessados o acesso às matérias sujeitas a sigilo”. Em resposta à deputada Song Pek Kei, o secretário lembrou que “os assuntos da Segurança Nacional têm a ver com o segredo do Estado”, tratando-se de “informações sensíveis”. “Os trabalhos da Comissão exigem confidencialidade, noutros países também há essas regras e isso não é uma novidade”, disse ainda. Ella Lei deixou questões quanto à parte orçamental, tendo em conta que a proposta de lei determina que “podem ser retiradas da receita ordinária da RAEM as verbas próprias para suportarem as despesas com a defesa da segurança do Estado”, nomeadamente salários, subsídios e despesas com “execução dos trabalhos” ou “aquisição de bens e serviços”. “Como é que o proponente pode garantir que estas despesas são utilizadas de forma razoável, para evitar situações de abuso?”, questionou Ella Lei. Chan Tsz King explicou que as despesas “têm de estar registadas”, devendo existir “autorização do Chefe do Executivo” e relatórios enviados ao hemiciclo.
Andreia Sofia Silva EventosLivro de Rui Leão e Carlotta Bruni lançado em Lisboa esta semana Decorre esta sexta-feira, 13, em Lisboa, o lançamento do livro da autoria dos arquitectos locais Rui Leão e Carlotta Bruni, “Layering The City”, na Fundação Calouste Gulbenkian. A sessão começa às 11h30 e integra-se no terceiro Congresso Internacional Paisagens, Arquitectura, Cidades e Trabalho Coloniais e Pós-Coloniais, contando com apresentação dos próprios autores. “Layering The City” é uma investigação sobre infra-estruturas e espaços públicos em Macau, revelando as perspectivas que Rui Leão e Carlotta Bruni colocam em cada projecto que fazem, com foco para projectos como a habitação social no bairro do Fai Chi Kei, a estação da Barra e a zona Intermodal, relacionadas com o Metro Ligeiro. Segundo explicou Rui Leão numa entrevista concedida ao HM, o livro é composto ” por textos de alguns críticos sobre a nossa obra”, nomeadamente de Jorge Figueira, e uma entrevista conduzida pela académica Ana Vaz Milheiro, também autora do prefácio. Há, neste livro, a ideia de construção por camadas, revelando-se as diferentes perspectivas dos dois arquitectos em cada projecto que fazem. “Há um trabalho trazido por cada um para o projecto, e que passa por dar uma resposta ao pedido programado, aquilo que o cliente pede, ao que vive na planta de alinhamento [do projecto], ou uma série de questões a nível cívico, do espaço público ou do direito à qualidade de vida. Há uma série de dimensões sociais [a ter em conta para] fazer espaços para as pessoas, mesmo quando são impossíveis [em termos] de política e na cidade. São essas camadas que vão entrando nos projectos e que, no fundo, passam por criar oportunidades para qualificar a vida da cidade, da pessoa, da rua”, disse Rui Leão na mesma entrevista. Casas portuguesas Entretanto, o arquitecto Rui Leão participa também, na qualidade de co-curador, da exposição “Habitar Portugal 1974-2924″, inaugurada esta quarta-feira, a partir das 19h, no Centro de Arquitectura – Garagem Sul, do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Trata-se de uma iniciativa que assinala os 50 anos de Democracia através de uma selecção de cem obras de Arquitectura Portuguesa, construídas em Portugal e no mundo entre 1974 e 2024”, estando na equipa de curadores Alexandra Saraiva e Célia Gomes. Segundo a descrição oficial da mostra, disponível no website do CCB, o que se procura é olhar a arquitectura “enquanto gesto político; o evidenciar de posições de ruptura; o potenciar da persistência de memórias”. Podem ver-se projectos como o Hotel Dom Henrique, no Porto, da autoria de José Carlos Loureiro, ou ainda o Complexo das Amoreiras, de Tomás Taveira. Destaque ainda para obras como o Museu do Côa, de Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, ou o projecto de requalificação da Casa do Passal – Museu Aristides de Sousa Mendes, pelo atelier Rosmaninho + Azevedo. Esta é a sétima edição da exposição “Habitar Portugal”, tendo sido escolhidas cem obras “com distintos programas e escalas diferentes, orientadas pela representatividade nacional e internacional (incluindo a expressão portuguesa construída fora do país)”. Segundo a mesma nota, “trata-se de um registo significativo e valioso que não só oferece um olhar panorâmico sobre o último quartel do século XX e o primeiro do século XXI, como também procura projectar o futuro da arquitectura contemporânea portuguesa, e consequentemente o desenvolvimento social, económico e territorial de Portugal no mundo”.
Andreia Sofia Silva EventosConcerto | Grupo sul-coreano Treasure em Macau no próximo mês A Venetian Arena prepara-se para receber, a 6 de Março, mais um concerto de K-Pop, desta vez da boys band Treasure. O grupo da Coreia do Sul, formado por dez membros, foi criado em 2019 e nasceu no contexto de um programa de televisão feito para descobrir talentos musicais São poucos os anos de vida da banda Treasure, oriunda da Coreia do Sul, mas o sucesso parece já estar garantido. Prova disso, é o espectáculo do grupo que Macau vai acolher no próximo dia 6 de Março na Venetian Arena, no Cotai, a partir das 20h, integrado na “Treasure Tour [Pulse On] in Macao”. Os Treasure são uma boys band formada em 2019 através do programa de caça talentos YG Treasure Box, que tinha por objectivo formar este grupo de jovens cantores. Dos mais de 20 candidatos, que tiveram de passar por diversas provas desafiantes para demonstrar o seu talento, escolheram-se as dez melhores vozes. Actualmente, o grupo é composto por Choi Hyun-suk, Jihoon, Yoshi, Junkyu, Yoon Jae-hyuk, Asahi, Doyoung, Haruto, Park Jeong-woo e So Jung-hwan. A receita de aliar a criação de um grupo de rapazes cantores a um programa de televisão parece ter funcionado, e a verdade é que o sucesso se fez sentir assim que começaram a compor canções e a editá-las no mercado. Em Agosto de 2020 saiu “BOY”, o primeiro single, sendo que nesse ano foi também editado “The First Step: Chapter One”. Este trabalho discográfico fazia parte de uma trilogia de discos que, no seu conjunto, venderam mais de um milhão de cópias em apenas cinco meses. Segundo a descrição do espectáculo em Macau, disponível no website da Venetian Arena, lê-se que o concerto é revelador de como os Treasure estão “a expandir a sua influência global”, já que a primeira digressão, apenas no Japão no ano de 2023, incluiu oito cidades e 26 espectáculos. Nessa altura, a digressão atraiu “quase 300 000 espectadores e estabeleceu o recorde de maior audiência numa digressão de estreia por parte de um artista coreano”. Seguiu-se a primeira digressão na Ásia, desta vez com 17 cidades incluídas e um total de 40 concertos. Em 2024, o Japão voltou a acolher uma digressão dos Treasure, que incluiu dois encontros com fãs, enquanto que, no ano passado, aconteceu o “Treasure Fan Concert [Special Moment]. Estes momentos foram também reveladores do sucesso do grupo, pois em conjunto “ultrapassaram um público acumulado de um milhão [de pessoas], demonstrando o seu estatuto e potência da banda nas apresentações ao vivo”. Na estrada desde 2025 Os Treasure vêm a Macau com novas canções na bagagem. O terceiro mini-álbum, intitulado “Love Pulse”, foi lançado a 1 de Setembro, e já em Março tinha sido a vez de o mercado discográfico receber “Pleasure”, um “mini-álbum especial”. O concerto na Venetian Arena integra-se na digressão do grupo que tem marcado a agenda dos Treasure desde a segunda metade do ano de 2025. Em Outubro, o grupo deu três concertos consecutivos em Seul, e depois actuou novamente no Japão.
Andreia Sofia Silva SociedadeConcertos | Burla com bilhetes desfalca cinco mulheres Cinco mulheres oriundas do interior da China terão sido burladas em mais de 18 mil patacas num esquema relacionado com bilhetes para concertos. Segundo noticiou o canal chinês da Rádio Macau, o esquema de burla era semelhante a todas as vítimas e começava com um comentário do alegado burlão em publicações nas redes sociais feitas pelas mulheres que desejavam ir a concertos e tinham dificuldades em adquirir ingressos. Uma das vítimas perdeu um total de 10.438 patacas, tendo começado por transferir seis mil patacas como pagamento de dois bilhetes que o burlão teria arranjado. Depois, o suspeito disse que os ingressos já estavam esgotados, prometendo um reembolso que nunca aconteceu. O burlão enviou ainda códigos QR para que as vítimas contactassem um falso funcionário de um departamento financeiro que iria ajudar ao reembolso, levando as vítimas a transferir mais dinheiro. No caso desta mulher, foram transferidas mais três mil patacas, tendo o suspeito alegado que a operação não tinha sido bem-sucedida, exigindo mais pagamentos. Só então a mulher percebeu que poderia estar a ser vítima de burla, queixando-se à polícia. A Polícia Judiciária (PJ) diz ter recebido denúncias relativamente a cinco casos de burla entre os dias 6 e 8 de Fevereiro, estando todos a ser alvo de investigação. Ainda não houve detenções.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteCooperação | Relações entre China e Timor-Leste pautadas por cautela, indica estudo É certo que, ao integrar a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, Timor-Leste pode tornar-se num ponto estratégico nas relações comerciais deste lado do globo, apesar do “pragmatismo cauteloso” nas relações com a China. A conclusão é de um estudo sobre a política externa timorense no âmbito da iniciativa chinesa, da autoria de três académicos portugueses Timor-Leste, um jovem país, tem vindo a cimentar as suas relações com a China, nomeadamente através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, mas há ainda alguma cautela em torno deste relacionamento. Esta é uma das conclusões do estudo “As opções de política externa de Timor-Leste no âmbito da Iniciativa Faixa e Rota 2.0 da China: uma perspectiva de pequeno Estado”, da autoria dos académicos Tiago Botelho dos Santos, Diogo Borges e Paulo Afonso Duarte. O trabalho foi publicado na The Pacific Review, revista académica editada pela Taylor & Francis. O trabalho de investigação parte da adesão de Timor-Leste à iniciativa chinesa, algo que aconteceu em 2017, para analisar como tem corrido o relacionamento com a China, tendo em conta o facto de Timor-Leste ter “a condição de pequeno Estado”. Conclui-se, assim, que “o envolvimento de Timor-Leste com a Iniciativa Faixa e Rota da China, particularmente no período pós-2023, pode ser entendido como uma tentativa estratégica e calculada de maximizar a sua condição de pequeno Estado num ambiente regional e global complexo”. Descreve-se que, neste período, a política externa timorense tem-se caracterizado “por uma abordagem multivectorial, estrategicamente ancorada no multilateralismo”, procurando “diversificar parcerias internacionais para reforçar a segurança nacional, promover o desenvolvimento económico e ampliar a sua voz no sistema internacional”. O estudo aponta que as relações entre Timor-Leste e China, no contexto da iniciativa Faixa e Rota, é um “movimento deliberado para alavancar oportunidades de desenvolvimento” no país, sendo uma estratégia alinhada com o Plano Estratégico de Desenvolvimento de Timor-Leste 2011-2030. O plano visa “promover a diversificação económica e o desenvolvimento de infraestruturas críticas, num contexto em que a Iniciativa Faixa e Rota 2.0 enfatiza infraestruturas digitais, energia verde e cooperação na área da saúde”. O potencial timorense Os três académicos destacam ainda que Timor-Leste, ao pertencer à iniciativa geopolítica chinesa, tem potencial para se destacar economicamente, e também em termos comerciais, na região. O país tem “o potencial para se afirmar como centro logístico numa rota que liga o Sul do Oceano Índico ao Pacífico Sul”, pelo que a iniciativa chinesa “oferece uma oportunidade relevante para elevar significativamente a sua proeminência regional e facilitar, de forma decisiva” a integração na ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático], a que Timor-Leste aderiu recentemente. Apesar de todos estes sinais positivos, o estudo conclui que “embora a relação de Timor-Leste com a China se tenha aprofundado, culminando numa parceria estratégica abrangente em 2024, o seu envolvimento continua a ser marcado por um pragmatismo cauteloso”. Neste contexto, “pondera-se cuidadosamente os benefícios de uma maior conectividade e investimento face a preocupações relativas à sustentabilidade da dívida, à transparência e a possíveis dependências estratégicas”. Esta cautela do lado de Timor-Leste demonstra a sua “capacidade de acção ao envolver-se selectivamente em projectos alinhados com os seus interesses nacionais”, deambulando pelas “complexidades da competição entre grandes potências no Indo-Pacífico, ao mesmo tempo que mantém o seu compromisso com uma política externa equilibrada e diversificada”. O pragmatismo timorense denota-se ainda, segundo o estudo, no facto de o país “não apenas optimizar oportunidades de desenvolvimento, como também reforçar a sua posição regional ao analisar meticulosamente os benefícios económicos face aos potenciais riscos”. O que se fortalece, “em última instância”, é a “capacidade de acção enquanto pequeno Estado”, destacam os autores. Uma capacidade “notável” O estudo em questão destaca como Timor-Leste tem tido “uma notável capacidade de acção” no contexto da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” tendo como ponto de comparação outros pequenos Estados, como o Sri Lanka. Citando outros estudos, os três académicos destacam como “Timor-Leste tem demonstrado uma abordagem mais cautelosa do que países como o Sri Lanka, que enfrentaram preocupações significativas quanto à sustentabilidade da dívida associada a projectos da BRI [Belt and Road Initiative] ou Estados sem litoral como o Laos e nações costeiras como o Camboja”. No caso destes países do Sudeste Asiático, “os empréstimos chineses para projectos emblemáticos, como caminhos-de-ferro e autoestradas, aumentaram drasticamente a dívida externa e a dependência em relação a Pequim”. O que se procurou fazer nesta investigação foi “examinar a posição singular de Timor-Leste, não como financiador, mas também não como vítima de uma ‘armadilha da dívida'”, destacando-se “a forma distinta e valiosa de capacidade de acção de um pequeno Estado no âmbito da BRI”. Os autores destacam que, na última década, a China “expandiu significativamente a sua presença no Sudeste Asiático” através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, tendo, com isso, “ampliado a sua influência regional nas esferas económica, de segurança e política”. Neste relacionamento, Timor-Leste tem estado “longe de ser um observador passivo”, procurando “envolver-se activamente com a China para assegurar benefícios de desenvolvimento”. Timor-Leste procurado “identificar uma oportunidade para alinhar-se com os objectivos de longo prazo” do seu Plano Estratégico de Desenvolvimento 2011-2030, indicam os analistas. “Estrategicamente, o país também pretende capitalizar a sua posição geográfica nas rotas marítimas comerciais emergentes, particularmente através do estabelecimento de um polo logístico no Sul do Oceano Índico e no Pacífico Sul, potencialmente reforçando o seu papel regional como novo Estado-membro integrado da ASEAN”, apontam os autores. Timor-Leste procura “equilibrar ganhos económicos e potenciais dependências”, num contexto geopolítico que “inclui a competição entre grandes potências no Indo-Pacífico, onde as políticas dos Estados Unidos, sob sucessivas administrações, visam conter a influência regional da China”. Em termos metodológicos, os autores realizaram esta investigação com base na leitura de relatórios oficiais, documentos que servem de base a acordos bilaterais assinados e documentação governamental. Além disso, foram realizadas entrevistas a “especialistas sediados tanto na Europa como na Ásia”. Os autores referem que procuraram entrevistar académicos e diplomatas “devido ao facto de os cidadãos comuns, em geral, não estarem familiarizados com as iniciativas multilaterais globais da China, enquanto os diplomatas tendem a ser excessivamente cautelosos nas suas declarações, dado que representam a posição oficial do seu Estado, e não necessariamente as suas opiniões pessoais”. Entende-se, assim, que os académicos “tendem a oferecer análises mais equilibradas e rigorosas”. As questões versaram a forma como Timor-Leste, na qualidade de pequeno Estado, tem beneficiado da iniciativa chinesa, se esta iniciativa é compatível com o Plano Estratégico de Desenvolvimento de Timor-Leste 2011-2030, ou se “existem perigos visíveis de criação de dependência” entre os dois países, entre outras questões.
Andreia Sofia Silva EventosConcerto | OneRepublic actuam em Hong Kong este mês A banda norte-americana OneRepublic está de regresso à Ásia para uma série de concertos, destacando-se a ida ao palco da AsiaWorld-Expo já no dia 17 para o espectáculo da digressão “OneRepublic – From Asia, With Love in Hong Kong”. Seguem-se actuações na China, Coreia e Japão Os fãs asiáticos dos norte-americanos OneRepublic têm em breve a oportunidade de os ver novamente de perto. Depois de uma visita a Macau em 2024, o grupo vem novamente à Ásia, mas desta vez à vizinha Hong Kong, para actuar no contexto da digressão “OneRepublic – From Asia, With Love in Hong Kong”. Este espectáculo está agendado para o dia 17 deste mês na AsiaWorld-Expo. Com organização da LiveNation, o concerto acontece a partir das 20h e promete trazer os grandes êxitos da banda que já esteve nomeada para um Grammy, nomeadamente “Counting Stars”, “Apologize”, “I Ain’t Worried” e “Run”. Na sinopse do espectáculo, divulgada no portal da AsiaWorld-Expo, lê-se que a banda “continua a cativar milhões de fãs em todo o mundo com o seu som característico e narrativas sinceras”, sendo que, na sua passagem por Hong Kong, os fãs podem esperar “uma noite electrizante de música, energia e conexão”, numa celebração colectiva “dos maiores sucessos e novos trabalhos” do grupo. A digressão “From Asia, With Love” visa ser “uma celebração especial da forte ligação da OneRepublic com os seus fãs asiáticos, destacando a região como um dos públicos mais apaixonados da banda”, sendo que Hong Kong “será uma das paragens principais desta digressão exclusiva”. Depois da ida à região vizinha, a banda segue viagem, no dia 23, para Seul, na Coreia do Sul; seguindo-se actuações em Tóquio, dia 25, e Kobe, no dia 27. Em Março, é a vez dos OneRepublic viajarem para mais um espectáculo a acontecer em Singapura, dia 2; seguindo-se Taipei, Taiwan, dia 4 de Março. Seguem-se os concertos na China dias 17, 19 e 25 de Abril nas cidades de Shenzhen, Wuhan e Xangai, respectivamente. Os OneRepublic continuam em digressão pelo resto do mundo, nomeadamente com concertos no México e na Europa, em países como Itália, Luxemburgo, Espanha e Escócia. Sucessos desde 2000 Os OneRepublic surgiram em 2002 no Colorado Springs apresentando-se como um grupo de canções pop rock e rock alternativo, começando por fazer sucesso na rede social MySpace, entretanto desaparecida. Em 2006 os A banda conseguiu assinar contrato com a editora discográfica Mosley Music Group, lançando então o seu álbum de estreia, “Dreaming Out Loud”. Nessa altura atingiram o sucesso internacional, graças ao single “Apologize”, que contou com a contribuição do rapper e produtor Timbaland; e ainda o single “Stop and Stare”. Este disco vendeu mais de três milhões de cópias em todo o mundo. Depois de vários anos de discos e de estrada, os OneRepublic participaram, em 2022, na banda sonora do filme que reviveu o clássico do cinema “Top Gun”, protagonizado por Tom Cruise. No disco que contém todas as músicas de “Top Gun: Maverick” a banda participa com “I Ain’t Worried”, ao lado de nomes como Lady Gaga ou Lorne Balfe. Depois do lançamento, em 2024, de “Artificial Paradise”, o grupo regressou às novas canções em Dezembro do ano passado com o single “Give Me Something”, feito para o jogo “Arknights Endfield”. Esta música foi produzida pelos membros da banda Ryan Tedder, Brent Kutzle e Simon Oscroft.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteUSJ | Livro destaca panorama da filantropia em Macau Acaba de ser editado pela Universidade de São José o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”. Um dos capítulos versa sobre a filantropia em Macau, o perfil discreto dos filantropos e o trabalho de entidades como a Fundação Rui Cunha, Banco Nacional Ultramarino e Fundação Oriente A Universidade de São José (USJ) acaba de editar o livro “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures”, com edição do professor José Manuel Simões. Como o nome indica, a obra pretende traçar o panorama das artes, meios de comunicação social e cultura nos nove países e regiões de língua portuguesa, onde se inclui Macau. A RAEM está representada com um capítulo dedicado à filantropia, da autoria de Carmen Zita Monereo, aluna de pós-doutoramento da USJ, com o nome “The Impact of Corporate Philanthropy on Media, Art, and Technology in Macao / What do we know about Philanthropy in Macao? What is the relationship between Confucianism, Philanthropy, Media, and strategic communication?”. “A Carmen tem desenvolvido um estudo sobre filantropia em Macau, sendo um trabalho um pouco diferente dos restantes”, começou por dizer ao HM José Manuel Simões. “Trata-se de um trabalho que dá o seu contributo na análise daquilo que é o espectro dos filantropos em Macau, traçando depois um estudo sobre a Fundação Rui Cunha, o Banco Nacional Ultramarino, a Fundação Oriente. Ela olha para o que é a filantropia corporativa e os impactos que tem na sociedade através de uma análise dos meios de comunicação social, mas também da arte e da tecnologia em Macau. Ou seja, ela questiona o que sabemos sobre filantropia em Macau e qual a relação existente entre o Confucionismo, a filantropia, os media e a comunicação estratégica.” José Manuel Simões acrescenta que um dos pontos inovadores neste capítulo é o perfil discreto dos filantropos. “Um aspecto curioso é que, ao contrário dos filantropos da Europa e dos Estados Unidos, que gostam imenso de aparecer nos rankings, em Macau há uma maior discrição e perfil discreto destas pessoas ligadas à filantropia, e isso tem a ver com a própria cultura.” Acrescenta o editor da obra que “no campo das ciências da comunicação [em Macau] a filantropia tem vindo a ganhar uma importância muito grande como instrumento de comunicação”, e que o trabalho de Carmen Zita Monereo “identifica os valores de uma cultura organizacional que é capaz de gerar fluxos de comunicação propícios à inovação através dessa actividade filantrópica”. O livro, que está disponível gratuitamente em versão digital, “procura traçar laços de união entre vários vectores, e um deles é as nove culturas de língua portuguesa”, sem esquecer Macau “enquanto plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa”. Segundo José Manuel Simões, trata-se de um livro “cuja investigação foi desenvolvida procurando adoptar uma abordagem multidisciplinar”, tendo “um carácter académico, mas, ao mesmo tempo, pretende ter uma linguagem simples e acessível”. O bom exemplo de Cabo Verde Com edição bilingue, o livro apresenta “um espectro bastante abrangente” de temas, contendo um artigo da autoria de José Manuel Simões sobre São Tomé e Príncipe, intitulado “Digital Media Contribution to Entrepreneurship and Development in São Tomé and Príncipe”. Segue-se um artigo sobre o panorama educativo em Angola e o uso de inteligência artificial (IA), da autoria de Wilson Gomes Caldeira, intitulado “Angola’s higher education system: An analysis of the opportunities and challenges presented by Artificial Intelligence”. No caso de Cabo Verde, Silvino Lopes Évora explora as ideias de comunicação social em conjugação com a IA, em “Artificial Intelligence, newsroom culture, and journalism: From international spectrum to experiences in Cape Verde”. “Cabo Verde é um bom exemplo do desenvolvimento dos media em África e o texto de Silvino Évora trabalha sobre a componente da IA nos media e como ela se está a inserir. [O texto analisa também] quais as possibilidades de uso da IA e como a ética pode vigiar e apoiar a IA e, ao mesmo tempo, o jornalismo”, acrescenta José Manuel Simões. O livro editado pela USJ explora também, no capítulo “The media system as a leverage for democratic development in East Timor”, de Paulo Faustino e Rui Alexandre Novais, as ligações entre o jornalismo e as memórias históricas do processo de independência. O editor do livro explica a “componente mais histórica quanto ao papel de remissão que os jornalistas ainda hoje têm para quase preservar a memória daqueles que morreram em prol da independência do país”. “O jornalismo tem uma importância enorme em Timor, houve gente e jornalistas que morreram. Isso é muito pouco falado e nesse estudo há uma conclusão interessante, de que essas pessoas, ao morrerem em nome da liberdade de expressão, deixaram um lugar muito importante em Timor-Leste que ainda hoje vigora, procurando-se preservar a memória através da vigilância sobre os outros poderes.” Desta forma, “Timor-Leste é quase um exemplo de como o jornalismo deve actuar enquanto vigilante dos outros poderes, o que não acontece nos outros quadrantes”. José Manuel Simões destaca o caso da Guiné-Bissau, “onde os jornalistas são chamados de bocas de aluguer”. “Eles não sabem a diferença entre o que é propaganda, relações públicas, marketing e jornalismo, porque estão condicionados por um salário baixíssimo. Escrevem o que pedem a troco de um envelope com algum dinheiro lá dentro, e isso faz com que a profissão [de jornalista] esteja muito fragilizada na Guiné Bissau”, frisou. Uma língua de união Segundo José Manuel Simões, o livro pretende unir “estes quadrantes das culturas portuguesas”, sendo que a edição em inglês visa chegar às comunidades anglo-saxónicas, “para que saibam da existência destas culturas”. “Há quem não concorde comigo quanto à ideia de que a língua portuguesa é uma língua de união, não só entre os povos de língua portuguesa, mas mesmo dentro de cada país. Temos o caso de Timor-Leste, que só na ilha de Ataúro, que é pequeníssima, com 500 mil habitantes, tem 40 dialectos, um em cada aldeia. Ali, o que é que a língua portuguesa faz? Une estas pessoas, porque apesar de haver a diferença entre os que falam e dos que aprenderam português, em Timor-Leste, hoje, os idosos falam português e os jovens também, mas há a faixa etária que vai dos 25 aos 50, que não fala. Mas, por ser uma língua de aprendizagem, por ser oficial, por ter livros, uma memória, o português une todas essas etnias e dialectos, e tem um valor comum. Este livro deixa transparecer isso, do facto de a língua portuguesa ser a língua-mãe de toda a gente”, esclarece. José Manuel Simões não esquece o trabalho que a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, tem feito nesse sentido. “A CPLP tinha uma ideia maravilhosa de nos unir através da língua, mas a CPLP tem feito um trabalho vago, exíguo e pouco visível. Aliás, muito pouca gente tem feito um trabalho digno de criar laços entre as novas culturas de língua portuguesa. Neste sentido, este livro vem preencher uma lacuna e traz novos dados sobre estas novas culturas, com esta dinâmica tecnológica e inovadora”, isto relativamente aos códigos QR para todos os capítulos do livro. Cada código dá acesso a um vídeo que resume o trabalho do autor em cada capítulo. Em termos globais, “Media, Art & Technology in the Nine Portuguese Speaking Cultures” quer ser abrangente em áreas como a tecnologia, arte, cultura e comunicação social. Há, porém, “um denominador comum, criando-se, curiosamente, uma certa harmonia, mesmo com focos diferentes, e acaba por abranger, de forma directa e indirecta, o espectro da comunicação social”, remata.
Andreia Sofia Silva EventosArmazém do Boi | Três artistas apresentam novas visões sobre Macau O Armazém do Boi revela, a partir do dia 13 de Fevereiro, os trabalhos de três artistas chineses que realizaram residências artísticas no território e que traçaram, com a sua arte, novas visões sobre o território que habitaram provisoriamente. “O Viajante da Montagem”, “Resíduos: Sopa sem Água” e “Com Quem Estou” são os resultados desta espécie de trabalho de campo Há muito que o Armazém do Boi nos habituou a trazer novas visões do território com o trabalho de artistas locais, mas também do exterior. O novo tríptico de exposições, a ser inaugurado no próximo dia 13 de Fevereiro, volta a revelar ao público novas leituras sobre este espaço comum e partilhado que é Macau. Uma das mostras é do artista Liao Yu-An, intitulando-se “The Drifter of Assemblage – Red and Blue, Color Fields and Monsters” [O Viajante da Montagem – Vermelho e Azul, Campos de Cor e Monstros]. Trata-se do resultado de um mês de vivências em Macau, onde o artista “ganhou consciência da natureza fragmentada e complexa da cidade”. Na nota do Armazém do Boi sobre esta exposição, descreve-se que Liao Yu-An olha Macau como “um lugar onde as escalas oscilam entre a miniatura e o monumental”, e onde “múltiplas facetas coexistem em densa proximidade, assemelhando-se a um guisado ricamente estratificado e intensamente saboroso”. Nesta apresentação, “o artista absorve e reflecte sobre estas impressões sensoriais, traduzindo-as em diversas expressões pictóricas”. Mais concretamente, o que o público poderá ver são três conjuntos de obras onde se examinam “os mecanismos de transformação entre sinais visuais, estruturas de cores urbanas e uma experiência perceptiva subjectiva”. Aqui, a pintura não é mais do que “uma prática de tradução perceptiva e reconstrução experiencial”. “Entre a montagem e a transformação, a pintura deixa de ser apenas um meio de representar a realidade, tornando-se uma acção contínua que gera percepção. Cores, imagens e experiências fragmentadas entrelaçam-se para formar uma trajetória fluida de visualização, guiando o público numa viagem sensorial situada entre a cidade, o corpo e a imaginação”, descreve-se na mesma nota. Outro trabalho que se apresenta a partir do dia 13, é “Resíduos: Sopa sem Água” [Dregs: Soup without Water], de Biyi Zhu, contando com curadoria e trabalho académico de Vivien Chan. Nesta mostra, há significados que se vão buscar a uma espécie de dicionário imaginário, em que resíduos são encarados como “a última gota, grão ou molécula espalhada no fundo da panela”. “Resíduos: Sopa sem Água” remete para aquilo que resta “depois de toda a sopa ter sido comida”, olhando-se para a “consistência macia e húmida” dos restos sem água de uma sopa tradicionalmente confeccionada mediante as regras da cozinha cantonense. Assim, Biyi Zhu questiona: “Quais são as possibilidades do que resta?”, agarrando-se, através da arte, “aos restos do passado”. Este é um regresso a Macau depois de uma temporada de dez anos nos Países Baixos, sendo que, nesta exposição, “Zhu usa os processos e as materialidades da sopa cantonense para explorar modos de viagem no tempo, entre lugares, relações e vidas”. “Depois de beber a sopa, os resíduos tornam-se a prova do que foi absorvido pelo corpo, pela atmosfera. Pegando no que normalmente seria descartado, Zhu transforma os resíduos em formas tangíveis, dissolvendo e reformulando ideias de memória, parentesco, migração e desperdício”, lê-se ainda. Questões pessoais O terceiro espaço expositivo é composto por “Com quem Estou” [Who Am I With], de Li Aixiao, com curadoria de Wendy Wong. Trata-se de uma mostra com um cunho mais pessoal, que começa pelo “eu” do artista, quando este “entra nas vidas, linguagens e objectos dos outros”. Para isso recorre à performance, fotografia e demais interacções artísticas “para questionar persistentemente com quem e como estabelecemos conexões neste lugar”. “As obras desenrolam-se entre a aproximação e o afastamento do corpo e entre a ocorrência e a interrupção da troca, onde algumas conexões se enraízam enquanto outras permanecem no reino do não realizado. À medida que os espectadores navegam e observam, percebem a transformação transitória da identidade e o surgimento ou ausência de intimidade, testemunhando como a linguagem, as imagens e os objectos servem como modos de presença”, é descrito. Desta forma, “estas obras apontam para um estado de coexistência que permanece perpetuamente instável, mas que ocasionalmente desperta ligações raras e autênticas no momento do encontro”. As três exposições podem ser vistas gratuitamente até ao dia 15 de Março.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteDiocese de Macau/450 anos | Novo Centro Católico terá um hotel O novo Centro Católico deverá abrir “em meados do segundo trimestre” deste ano e irá ter um hotel, preparado para receber “peregrinos e turistas”, diz a Diocese de Macau. Numa altura em que a instituição celebra 450 anos, a inauguração do Centro Católico tem por base “a visão” de D. Paulo José Tavares, bispo de Macau nas décadas de 60 e 70 Depois de muitos anos de vazio e obras na esquina da Avenida da Praia Grande com a Rua do Campo, o novo Centro Católico prepara-se para abrir portas ainda este ano e é talvez o acontecimento mais importante na celebração do 450º aniversário da Diocese de Macau. O HM colocou questões à Diocese de Macau a propósito da reabertura do edifício, que confirmou que a inauguração oficial está prevista “para o segundo trimestre” deste ano. Este edifício, com um total de 17 pisos, terá as funcionalidades pensadas para fins religiosos, mas também um hotel preparado para receber todo o tipo de pessoas. “O Centro Católico será um centro nevrálgico para a divulgação e partilha da missão da Igreja Católica. Os pisos inferiores contarão com uma capela, um auditório, salas de conferências, áreas de exposição e espaços para actividades.” Enquanto “os pisos superiores funcionarão como um hotel, oferecendo acomodações acolhedoras e confortáveis, imbuídas de um espírito de serviço”. Na resposta escrita da diocese, acrescenta-se que as instalações hoteleiras “foram concebidas para receber tanto peregrinos como turistas, acolhendo católicos e não católicos com hospitalidade e inclusão”. Recorde-se que em Dezembro começaram a ser recrutados funcionários para a unidade hoteleira, em parceria com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL). Numa sessão de emparelhamento de emprego destinada a residentes, realizada a 5 de Dezembro, com a “Companhia de Gestão do Centro Católico”, foram disponibilizadas 23 vagas de emprego para gestor de vendas, assistente gerente de recepção, chefe de cozinha, chefe de segurança, supervisor de serviço de quartos e supervisor de aquisição, lê-se na nota da DSAL difundida em Novembro. A Diocese de Macau não quis avançar ao HM quanto custou reerguer o novo Centro Católico, referindo apenas que as previsões iniciais derraparam graças à pandemia. “O Centro Católico está actualmente em fase de aperfeiçoamento e submissão e aprovação pelo Governo. Após os desafios da pandemia covid-19, os custos de construção aumentaram significativamente. Estamos gratos pela compreensão e apoio dos construtores e empreiteiros, que permitiram que o projecto de reconstrução fosse concluído com sucesso. Ao mesmo tempo, acolhemos calorosamente doações de todos os sectores da sociedade para ajudar a sustentar e levar adiante a missão original do Centro Católico de servir a comunidade de Macau.” Um bispo ainda presente Questionada sobre as principais metas do novo Centro Católico, a Diocese de Macau descreve que o edifício “tem como objectivo dar continuidade à missão espiritual da Igreja Católica e incorporar o espírito de Cristo”, tendo por influência o trabalho do bispo D. Paulo José Tavares, que realizou a sua missão em Macau em meados do século XX. Destaque para o facto de D. Paulo José Tavares, falecido em 1973 e nomeado bispo de Macau em 1961, ter sido importante na manutenção da presença da Igreja Católica em Macau na época do movimento “1,2,3”. Entre Novembro de 1966 e Fevereiro de 1967, a Revolução Cultural manifestou-se no território, agregando muitos estudantes locais, que pretendiam mudar os conteúdos do ensino católico. D. Paulo José Tavares travou um braço de ferro com estes grupos de manifestantes, conseguido manter inalterado o ensino nas escolas católicas e o espírito que a elas estava associado. Desta forma, e tendo como base “a visão” deste bispo, a diocese pretende que o novo Centro Católico “continue a servir como uma ponte vital para a comunidade de Macau, promovendo o diálogo, o intercâmbio e a integração da fé e da cultura”. É ainda intenção “abrir as portas [do Centro] a visitantes de todo o mundo, reforçando não só o seu papel como refúgio espiritual, como também infundir uma nova vitalidade no panorama religioso e cultural de Macau”. António Pedro Costa, autor da biografia do clérigo, intitulada “D. Paulo José Tavares – O bispo diplomata”, descreveu, em entrevista ao HM concedida em 2023, que o bispo “foi uma lufada de ar fresco”, e uma figura acarinhada pela comunidade chinesa da época. “Essas atitudes de valorização da comunidade chinesa levaram a uma aproximação e ao estabelecimento de uma relação de confiança. Só assim conseguiu levar os seus objectivos adiante, pois percebeu que tinha de ter a população do seu lado. Mas isso trouxe-lhe muitos dissabores com o clero europeu, que não concordava com a postura de D. Paulo José Tavares. Fez com que a população tenha visto nele um aliado e não uma pessoa que vem de fora e que impõe as suas ideias”, disse o autor. Um ano de celebrações Foi em 1576, no quarto ano do reinado Wanli, da Dinastia Ming, que se fundou em Macau a Diocese, sendo 23 de Janeiro a data oficial de celebração. Porém, os próximos meses também serão de festa. Num comunicado anteriormente divulgado, a Diocese de Macau assume que tem tido, ao longo destes anos, “a missão de estabelecer pontes entre o Oriente e o Ocidente, promovendo a educação, a caridade e o serviço pastoral”, deixando “uma marca profunda e duradoura no desenvolvimento cultural, educativo e religioso de Macau”. O tema das celebrações é “De Macau para o Mundo: 450 anos de Missão e Misericórdia”. O novo Centro Católico irá acolher duas exposições temáticas, intituladas “Honrar o Passado, Criar o Futuro” e ainda “Testemunha do Património, Missão no Mundo”. Estas mostras pretendem “reflectir o desenvolvimento da Diocese a partir de perspectivas históricas, pessoais e culturais, bem como as suas orientações futuras”, destaca-se na mesma nota. Amanhã decorre na Igreja da Sé um concerto de música sacra com oito agrupamentos corais de Macau, Hong Kong e da Província de Cantão, podendo ouvir-se as sonoridades do novo órgão de tubos da igreja. A partir das 19h30, vão actuar o Coro Diocesano de Macau, o ensemble Cathedral Schola e ainda outros grupos corais de Macau, como o Coro Perosi, o Dolce Voce e o Cantate Chorus, sem esquecer outros conjuntos de Hong Kong e Cantão. A Diocese destaca que a “iniciativa mais simbólica e de grande dimensão do ano comemorativo” será a “grande celebração” agendada para 31 de Outubro deste ano, e que consiste numa recepção e missa. “Através desta celebração solene, a Diocese dará graças a Deus pelas graças e pela missão concedidas ao longo de quatro séculos e meio, e rezará para que Ele continue a orientar o caminho a seguir”, descreve-se no mesmo comunicado. Haverá ainda iniciativas realizadas por “várias instituições diocesanas” nos próximos meses, nomeadamente “espectáculos culturais, concursos escolares, simpósios académicos, actividades de convívio, encontros juvenis, recursos de formação online, iniciativas paroquiais e celebrações litúrgicas”. “Através de uma participação transversal e intergeracional, o ano comemorativo procura aprofundar o conhecimento público sobre o desenvolvimento histórico da Diocese e o seu serviço à comunidade, promovendo o espírito do lema diocesano ‘Scientia et Virtus’ (Ciência e Virtude), que inspira uma prática de serviço assente no equilíbrio entre o saber e o cuidado ético.” Numa altura em que celebra 450 anos de existência, a Diocese diz querer traçar o futuro, “caminhando com os residentes de Macau na reflexão sobre o passado e na continuação da sua missão de fé, serviço e cultura nesta nova etapa”.
Andreia Sofia Silva EventosMAM | Macau recebe mostra de Vieira da Silva no final do ano O Museu Arpad Szenes – Vieira da Silva, dedicado à obra da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e do artista Arpad Szenes prepara-se para apresentar na RAEM uma mostra que faz a retrospectiva do trabalho de uma das mais influentes artistas portuguesas contemporâneas, falecida em 1992 O Museu de Arte de Macau (MAM) uniu esforços ao museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, sediado em Lisboa, para apresentar uma mostra retrospectiva do trabalho da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, tido como um dos grandes nomes da arte portuguesa contemporânea. Esta mostra faz parte do plano de actividades para este ano do Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva e foi revelado à Lusa por Nuno Faria, seu director, quando questionado sobre o plano de internacionalização do espaço museológico. A exposição em Macau será composta por obras da colecção da instituição, integrando-se “num contexto de crescente interesse internacional pela artista”. “Fomos desafiados pelos nossos parceiros para fazer em Macau uma exposição ampla com obras da nossa colecção e de outras colecções, e estamos a trabalhar nessa mostra, que acontecerá no final do ano e coincidirá com a antológica de Arpad Szenes em Lisboa”, avançou o responsável. De acordo com Nuno Faria, as recentes exposições da obra de Maria Helena Vieira da Silva “suscitaram um muito visível interesse na exposição retrospectiva no Museu Guggenheim em Bilbau, que veio lançar uma nova luz” sobre a obra da artista portuguesa. “Esta será a primeira grande exposição da Vieira [da Silva] na China”, vincou o director do museu inaugurado em 1994 na antiga Fábrica das Sedas, nas Amoreiras, em Lisboa, na sequência da constituição da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em 1990, destinada a acolher e divulgar o espólio dos dois pintores. Ainda no que diz respeito à internacionalização, está prevista a apresentação na Embaixada de Portugal, em Haia, nos Países Baixos, de uma exposição dedicada à obra gráfica de Vieira da Silva, reunindo um núcleo significativo da colecção da fundação. Duplas e coincidências De resto, o ano de 2026 reserva para o Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva exposições dedicadas a Rui Sanches, João Paulo Feliciano e Lourdes Castro, sendo que o plano anual de exposições está organizado em três ciclos. Em Lisboa, o museu vai receber exposições, entre outros artistas, de Teresa Segurado Pavão, Frida Baranek, Vasco Futscher, Carlos Noronha Feio, Mariana Caló e Francisco Queimadela. Nuno Faria disse que o programa de exposições irá continuar a valorizar a obra dos artistas fundadores e a promover o diálogo com a criação contemporânea, a par da aposta na circulação internacional da colecção “rica, ampla e diversa” da instituição. O primeiro ciclo expositivo inaugura já a 10 de Fevereiro e inclui a mostra “Arpad Szenes e Vieira da Silva: núcleos da colecção”, reunindo obras fundamentais dos dois artistas, “organizadas numa leitura diacrónica e temática que evidencia a evolução e as principais linhas das suas produções”. No mesmo período, será apresentada “Ensaios em Imobilidade e Movimento Secreto”, que junta esculturas de Rui Sanches e Teresa Segurado Pavão, numa colaboração inédita entre os dois artistas. “São dois artistas que têm esta feliz coincidência – como a Vieira da Silva e o Arpad Szenes – de serem um casal, Rui Sanches dedicado à escultura e ao desenho, e Teresa Pavão à cerâmica e ao têxtil”, apontou Nuno Faria, salientando que, segundo os autores convidados, “esta parceria inédita a quatro mãos será irrepetível”. O segundo ciclo expositivo do museu decorre de 21 de Maio a 13 de Setembro e inclui uma nova apresentação dos núcleos da colecção de Arpad Szenes e Vieira da Silva, aprofundando a leitura da obra, e uma exposição dedicada a Lourdes Castro (1930-2022), com desenhos iniciais inéditos, obras e documentação das décadas de 1950 e 1960, desenvolvida em parceria com o MUDAS — Museu de Arte Contemporânea da Madeira. O terceiro ciclo será dedicado quase integralmente a uma exposição antológica da obra de Arpad Szenes (1897-1985), baseada em investigação aprofundada sobre a sua produção pictórica e gráfica, com o objectivo de apresentar novas leituras do trabalho do artista e promover a circulação internacional do projecto. “Essa é talvez a exposição mais desafiante que vamos fazer este ano”, avaliou o director do museu à Lusa, avançando que será dedicada a totalidade do espaço do museu a Arpad Szenes.
Andreia Sofia Silva Grande Plano MancheteHistória | Livro revela como Macau se fez à imagem de Évora A associação local Heritage Society acaba de lançar um livro em dois volumes sobre a história da fundação de Macau. Da autoria de Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos, “Foral of the City of the Name of the God, Macau”, contém traduções e anotações de documentos que mostram como a fundação de Macau teve Évora como modelo Acaba de ser editado pela associação local Heritage Society um livro, dividido em dois volumes, que ajuda a contar a história da fundação de Macau, a partir de meados do século XVI. Os dois volumes intitulam-se “Foral of the City of the Name of the God, Macau: Évora of the Far East” [Foral da Cidade do Santo Nome de Deus, Macau: A Évora do Extremo Oriente] e “The Twenty-eight Alvaras” [Os 28 Alvarás], e são da autoria dos académicos Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos. O primeiro volume, que estabelece uma curiosa ligação entre Macau e Évora na fundação do território a Oriente, baseia-se no arquivo “Foral, Regalias e Privilégios Concedidos à Cidade de Macau, na China, 1596-1756”, cujo original está guardado no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, existindo microfilmes no Arquivo de Macau. Por sua vez, a parte dedicada aos 28 alvarás, uma continuidade do primeiro volume, analisa os 28 textos jurídicos inicialmente decretados pelo então governador de Macau e vice-rei da Índia, D. Rodrigo da Costa, em 1689. Estes documentos foram depois confirmados pelo rei D. João V, em Portugal, em 1709. Segundo contaram os autores ao HM, numa entrevista conjunta por email, o primeiro volume “trata da primeira parte do arquivo, ou das primeiras 17 folhas, que dizem respeito às cartas fundacionais mais antigas, às cartas e às sentenças recebidas pelo Senado de Macau durante os últimos anos do século XVI”. O segundo volume analisa o conteúdo do arquivo entre as folhas 17 e 33, sobre os 28 alvarás. “Esta não é ainda a história completa, uma vez que pretendemos continuar a trabalhar sobre o restante arquivo nos anos futuros”, confessaram os autores. Os autores destacam a importância do foral, um antigo documento que consistia numa “carta ou contrato que o poder governante, seja um senhor feudal, um bispo ou um rei, estabelece com uma entidade local, seja ela uma aldeia ou cidade, um senado ou um concelho”. “Consideramos que a palavra e o conceito são importantes para reflectir sobre este período histórico e não apenas em Macau, mas também da época em que o reino europeu [Portugal] se encontrava no auge da sua expansão pelos mares e oceanos. O conceito de foral implica a forma como uma estrutura social portuguesa estava a ser transplantada e repensada em Macau.” Desta forma, acrescentam os autores, todos os documentos analisados para estes dois volumes estão relacionados com a ideia de foral. Por sua vez, a designação “Cidade do Nome de Deus de Macau” surge, neste arquivo em específico, “não apenas na carta de D. Filipe I de Portugal, durante a União Ibérica, que estipula a elevação de Macau de povoação a cidade, mas também ao longo dos 28 alvarás posteriores”. Em termos concretos, os leitores podem deparar-se com “um trabalho de investigação que aborda alguns dos documentos mais importantes da história de Macau, documentos que nos informam sobre a fundação da cidade e sobre a evolução da sua tradição jurídica e governativa”. A ligação com Évora O primeiro volume da obra inclui o subtítulo “Évora do Extremo Oriente”, relatando “a história em que o Senado da povoação apresentou uma petição ao vice-rei da Índia para o reconhecimento do Senado, para a elevação deste porto ao estatuto de cidade e para a concessão à ‘nova cidade’ de Macau dos privilégios, direitos e liberdades da cidade de Évora”. D. Duarte de Meneses, à época governador de Macau e vice-rei da Índia, acabou por conceder esse pedido em nome do rei D. Filipe I, em 1586, uma “decisão que foi posteriormente confirmada pelo próprio rei em 1595”. “Para confirmar e corroborar que Macau tinha o mesmo estatuto de Évora, tornou-se natural que todos os documentos fundacionais da cidade de Évora fossem transcritos para Macau, de modo a que o Senado de Macau os pudesse conservar como prova e guardá-los nos seus arquivos como documentos fundadores da cidade”, explicam os autores. Os documentos encontrados no arquivo sediado no Rio de Janeiro apontam para que “a ‘prova’ do estatuto de Macau como cidade comparável a Évora não consiste num único documento, mas numa compilação de vários textos”. No primeiro volume da obra encontram-se exemplos como “sentenças sobre a jurisdição de certos cargos, como o Procurador e o Almotacé, cartas régias sobre questões específicas, leis sobre quais os cargos que deveriam integrar um Senado, ritos de procissões religiosas e fúnebres e até a configuração da sala do Senado”. Em resumo, “tudo aquilo que Évora possuía de jure nesse período foi herdado por Macau, como se comprova pela transcrição meticulosa e pela autenticação destes documentos”, explicam os autores. Os alvarás da sobrevivência Relativamente ao segundo volume da obra, focado nos 28 alvarás, os autores entendem que estes documentos “são particularmente significativos por se apresentarem como um conjunto coeso, com grande integridade ao nível da linguagem, do formato, da administração e da argumentação”. Para Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos, tal resulta do facto de, em finais do século XVII, Macau já não se encontrar no período áureo de comércio, “devido à perda de rotas comerciais”. “Ao mesmo tempo, Macau enfrentava uma constante agitação social, tanto internamente – por exemplo, entre o Senado, o Capitão-Geral e o Ouvidor – como externamente, nas relações com os chineses e os castelhanos. Os privilégios e direitos do Senado não eram respeitados, e era necessário resolver ambiguidades para garantir a sobrevivência da cidade, como se reflecte nas várias atas das reuniões do Senado.” Desta forma, foi apresentada uma petição, por parte destes órgãos, ao governador D. Rodrigo da Costa “para a reafirmação dos direitos da cidade e para a apresentação de soluções para diversos problemas, como o extravasamento da jurisdição do Capitão-Geral, a preservação do Padroado face a grupos missionários estrangeiros e o comércio com os chineses e em Solor e Timor”. Surgiram, assim, os 28 alvarás, que “tratam também de um grupo muito diverso de pessoas de diferentes artes, profissões, origens e ideologias”, e não apenas as relações entre portugueses e chineses, o que tornou “este conjunto documental particularmente interessante de estudar”. A publicação destes dois volumes teve por objectivo facilitar o acesso ao arquivo e respectiva informação. “Pretendemos colocar nas mãos dos leitores de Macau um documento fundamental da origem jurídica e política da cidade, que permanece pouco estudado, mesmo na historiografia lusófona, e que está quase totalmente ausente da imaginação histórica quotidiana de Macau”, acrescentam. O arquivo sediado no Rio de Janeiro foi traduzido pelos autores “e nunca foi publicado na íntegra, sobretudo os documentos fundadores relacionados com Évora, nem sequer em português”. Este arquivo surge quase sempre “de forma indirecta, como excertos e paráfrases, como as de historiadores canónicos de Macau, no caso de Manuel Teixeira; ou na qualidade de referências inseridas em trabalhos especializados, e em alguns casos apenas através de transcrições digitalizadas que circulam em teses de doutoramento”. No caso dos alvarás, são “mais conhecidos entre os historiadores, mas surgem apenas em publicações muito limitadas”. “Por esta razão, a publicação do texto primário em si torna-se essencial. Ao apresentá-lo em inglês e em chinês, a par do português, procuramos também remover uma barreira que há muito estrutura a historiografia de Macau, dividindo o passado documental da cidade em arquivos linguísticos separados que raramente dialogam entre si”, rematam. Caspar Chan e Nathan Rubene dos Santos entendem ainda que “estes volumes oferecem novas respostas em termos historiográficos, porque mostram com uma clareza renovada que a existência jurídica de Macau emergiu através da transplantação e da adaptação local do município português [Évora] como ideia governativa numa fronteira asiática”. “No seu cerne, o arquivo impõe uma questão fundamental que muitas vezes permanece implícita: o que contava como ‘território português’ na sua menor unidade cívica, e como essa unidade podia ser reconstruída no Ultramar através de privilégios, cargos e jurisdição, depois de Portugal se ter tornado global a partir do século XV?”. Uma gestão local Sobre o relacionamento entre Portugal e a China à época, os autores referem que a obra mostra como “as relações entre a China e Portugal em Macau não se faziam principalmente através de uma diplomacia formal entre duas cortes distantes, mas através da gestão quotidiana da convivência por instituições locais, em condições de jurisdição desigual”. O primeiro volume do livro mostra como “o rei eleva Macau de povoação a cidade e confirma as eleições de vereadores, juízes e oficiais porque o Capitão-Mor nomeado para a China partia frequentemente para a viagem anual ao Japão, permanecendo pouco tempo no local e deixando o assentamento sem liderança contínua”. O documento original revela que “esta situação era especialmente perigosa na China, dada a distância de Macau em relação à Índia e o facto de os abastecimentos só poderem ser feitos durante a viagem anual”. Desta forma, “o governo municipal é apresentado como uma necessidade: uma cidade de fronteira não podia esperar por um comandante ausente nem podia permitir a desordem”. Assim, acrescentam os autores, “os privilégios, a jurisdição e os cargos cívicos concedidos a Macau descrevem uma lógica política tanto quanto jurídica, uma vez que a presença portuguesa dependia de um órgão local permanente capaz de manter a paz e gerir riscos num espaço onde a autoridade superior se encontrava distante”. No tocante aos alvarás, mostram-se o que implicava manter a estabilidade do território, pois “a sobrevivência de Macau dependia de se manter dentro dos limites tolerados pela autoridade chinesa”. “O Vigésimo Sexto Alvará, por exemplo, é explícito ao afirmar que o mandarinato chinês não aceitava a jurisdição portuguesa sobre súbditos chineses, especialmente quando credores cristãos procuravam prender devedores chineses. O Senado descreve as despesas e os perigos causados quando um mandarim era enviado para fazer cumprir tais determinações e solicita uma solução directa: impedir os cristãos de contrair créditos com os chineses e negar-lhes recurso tanto ao Ouvidor como aos tribunais chineses, para que a cidade pudesse ‘viver em paz’. A Coroa confirma esta abordagem”, concluem.
Andreia Sofia Silva EventosAno Novo Chinês | Música, exposições e workshops recebem Cavalo Já é conhecido o programa do Instituto Cultural para celebrar o Ano do Cavalo. Destaque para a realização de dois concertos de música clássica ainda este mês, apresentações de folclore tradicional das regiões de Xinjiang e Chongqing em diversos bairros e ainda a realização de eventos que visam reunir pais e filhos Vem aí o Ano do Cavalo e para celebrar um novo começo o Instituto Cultural (IC) preparou um programa cultural recheado, marcado por música clássica, apresentações da cultura chinesa, exposições e workshops para toda a família. O tema deste conjunto de eventos é “O Cavalo da Sorte Traz Bênçãos para o Ano Novo, Macau Irradia Encantos Tradicionais e Modernos”. Ainda este mês, apresentam-se dois concertos de música clássica. São eles “Música no Património Mundial”, que acontecem na Igreja de S. Domingos no dia 12 de Fevereiro, às 15h e 17h. Aqui “a Orquestra Chinesa de Macau interpretará um repertório de peças festivas, promovendo o diálogo entre a arquitectura histórica e a música, para criar momentos memoráveis durante as celebrações”, descreve o IC, em comunicado. Depois, no dia 14 de Fevereiro, acontece o “Concerto de Primavera 2026”, protagonizado pela Escola de Música do Conservatório de Macau, e que terá lugar no auditório desta instituição de ensino. Apresentam-se “obras chinesas e ocidentais interpretadas a solo e em grupo”, com os bilhetes a estarem disponíveis para venda na plataforma da Conta Única de Macau a partir do dia 9 deste mês. Folclore para todos O Ano Novo Chinês acontece na segunda metade de Fevereiro, pelo que o IC preparou, entre o primeiro e o terceiro dia do Ano Novo (17 a 19 de Fevereiro), um cartaz recheado de eventos. Trata-se do programa “Série de Eventos ‘Happy Chinese New Year’ – Actividades integradas na Festividade do Ano Novo Lunar 2026”, em que um dos destaques é a realização, em diversos bairros, de “apresentações folclóricas de Xinjiang e Chongqing”. Desta forma, locais como a Rotunda de Carlos da Maia, a Fortaleza do Monte, o Largo do Pagode da Barra, a Praça dos Lótus no Bairro da Ilha Verde, o espaço lateral do Jardim da Cidade das Flores na Taipa, o Jardim Eduardo Marques em Coloane e o espaço Anim’Arte NAM VAN vão acolher estas actuações. Além disso, “representantes do património cultural intangível de Xinjiang e Chongqing vão demonstrar as suas técnicas em bancas próprias que servirão de espaço para mostra e venda de peças artesanais”. Em seguida, do quinto ao sexto dia do Ano Novo Lunar (dias 21 e 22 de Fevereiro), o grupo Trupe Artística das Minas de Carvão da China apresenta o espectáculo “O Calor das Artes no Ano Novo” em locais icónicos do território, como é o caso das Ruínas de São Paulo, Rotunda de Carlos da Maia, Largo Camões (Largo do Templo de Pak Tai) na Taipa e Parque do Mercado Iao Hon. Aqui o público pode ter acesso a “uma série de actuações artísticas tradicionais que visam enriquecer o ambiente festivo junto de residentes e visitantes”, declara o IC. Chegam depois as festividades relacionadas com artes e ofícios e que visam pais e filhos. Até ao dia 15 de Março – algumas actividades começaram no dia 2 deste mês – decorrem workshops com os mais variados temas da cultura chinesa, nomeadamente “Maquilha-te para a Ópera Cantonense’”, “Veste-te e Dança como MuLan’” e “Celebrar a Chegada do Ano Novo Chinês do Cavalo – Criação de Dísticos Alusivos”. Todos estes workshops decorrem na Casa da Literatura de Macau. Além disso, as oficinas “Arte do bordado Shu de Chongqing” e “Arte do bordado de Xinjiang” estão programados para acontecer no Museu Memorial de Xian Xinghai. Realizam-se ainda as actividades “Arte de Família: Reflexos das Ligações Marítimas” e “Pequenos Artistas”, no Museu de Arte de Macau, bem como “Mundo das Histórias” e “Ler para Crescer”, na Biblioteca Pública de Macau. Exposições mil O IC não esquece também as mostras patentes nos próximos dias, nomeadamente “Reflexos das Ligações Marítimas: O Intercâmbio Cultural Sino-Português entre os Séculos XVI e XIX” do Museu de Arte de Macau. A propósito desta iniciativa, decorre, a 8 de Março, a conversa “‘A Antiga Arte do Vidro e do Esmalte na Corte da Dinastia Qing’ – Série de Palestras”. Além disso, o Museu de Macau apresenta “Um Novo Impulso – Área da Grande Baía Cultivada, Um Património Cultural Intangível Brilhante: Mostra do Património Cultural Intangível da Zona da Grande Baía de Guangdong-Hong-Kong-Macau”. Já na Galeria Tap Seac pode ser vista, a partir do dia 12 deste mês, a mostra “Cores Esplêndidas: Exposição de Arte do Bordado de Chongqing e da Região Autónoma Uigur de Xinjiang”. Na área das letras apresenta-se “Um Novo Caminho em Galope – Exposição Temática de Livros das Colecções da Biblioteca Pública” na Biblioteca Central de Macau e na Biblioteca Sir Robert Ho Tung a partir de 10 de Fevereiro. O mesmo evento tem lugar na Biblioteca do Patane e na Biblioteca da Taipa a partir de 21 de Março.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteMarcelo Loureiro, autor e docente: “O indigenato foi uma continuação da escravidão” Esteve recentemente em Macau para apresentar o livro “Colonial Citizenship: law, race and rights through the Portuguese empire”. A obra de Marcelo Loureiro explora a forma como, no império português, a cidadania portuguesa foi sendo moldada conforme a cor da pele. Macau não foi excepção, ainda que com outros contornos face a África, argumenta o docente da Universidade de Leicester Imagem: Fundação Rui Cunha Como começou esta investigação e como surgiram os temas do colonialismo e cidadania? Tudo nasceu de uma experiência pessoal e familiar. Cresci no Rio de Janeiro, numa família marcada pela diáspora portuguesa por um lado, e pelo silêncio colonial do outro. A minha avó paterna, portuguesa, guardava no fundo de um armário os documentos que me permitiram, aos treze anos, reclamar a cidadania portuguesa. A minha outra avó, mestiça, cafuza, não tinha papéis, não tinha histórias para contar; de ela para mim, existia apenas um silêncio. Esta divisão, entre quem tem direito a documentos e a voz e quem é forçado ao apagamento, foi o ponto de partida para questionar a construção legal da cidadania e da nacionalidade. Quando cheguei a Portugal para estudar Direito em Coimbra, comecei a perceber que a lei que me reconhecia como português era a mesma que historicamente negou esse reconhecimento a milhões de pessoas com base na raça, na ‘civilização’ e na cor da pele. O livro é, em parte, uma tentativa de compreender essa estrutura jurídica de inclusão e exclusão, é uma denúncia da injustiça por detrás dos direitos. É uma denúncia da cidadania como método de exclusão. No contexto do império português, quando surgem as primeiras noções de cidadania e quais os critérios utilizados? As primeiras noções formais de pertença nacional em Portugal aparecem nas Ordenações Filipinas de 1603, que estabelecem quem deve ser considerado ‘natural’ do reino. É interessante perceber que a inclusão da noção de nacionalidade só foi incluída na lei portuguesa durante a União Ibérica, durante a dinastia Filipina, quando Espanha controlou Portugal por meio dos Habsburgo. Foi nesse contexto que a lei espanhola foi transposta para Portugal para separar portugueses de espanhóis. Contudo, a construção prática da cidadania portuguesa começa muito antes, por oposição: através da escravatura. Desde o século XV, com bulas papais (como a Dum Diversas de 1452 e a Romanus Pontifex de 1454), Portugal obteve legitimação canónica para escravizar africanos e conquistar os seus territórios. A cidadania portuguesa foi-se construindo assim, em oposição à figura do ‘outro’ – o mouro, o negro, o pagão, o ‘selvagem’, e finalmente, o ‘indígena’. Quais eram os critérios de diferenciação? Os critérios eram essencialmente civilizacionais e raciais: ser cristão e, progressivamente, ser branco ou reconhecido como ‘civilizado’ segundo padrões europeus. A conversão ao cristianismo funcionava, em períodos, como uma espécie de ‘branqueamento espiritual’, mas mesmo os convertidos raramente alcançavam plena igualdade jurídica o que continuou sendo imposta por séculos. A lei chamava indígenas a todos aqueles que existiam fora do padrão de civilização esperado de cidadãos, que eram as populações não-brancas de Angola, Moçambique, Guiné e Timor. Macau terá ocupado sempre uma “posição privilegiada” no contexto deste império. Concretamente, como? Em termos de cidadania, Macau nunca foi sujeito ao Estatuto do Indigenato, que vigorou em Angola, Moçambique, Guiné e Timor. Esta exclusão não foi acidental. O Estatuto do Indigenato aplicava-se a populações consideradas ‘não civilizadas’ segundo critérios raciais e culturais europeus, sendo, em termos práticos, essencialmente populações negras da África continental e de Timor. Em Macau, a população chinesa, muitas vezes chamados de ‘Chins de Macau’, embora não sendo europeia, foi tratada de forma diferente. Havia leis que regulavam os direitos e costumes da população macaense, com uma lei completa entrando em vigor em 1909 e só abolida em 1949, por exemplo. A presença portuguesa em Macau sempre foi ladeada de diversos outros factores, como a influência britânica por contacto de Hong Kong, a progressiva presença política de Pequim, a instabilidade política portuguesa e o questionamento da existência do próprio império português internacionalmente. Tal levou a que Portugal não tenha conseguido impor em Macau uma soberania tão potente quanto àquela imposta em África e Timor. Houve casos de discriminação contra as comunidades chinesa e macaense antes do século XX? A discriminação existiu, embora de natureza diferente da imposta em África. Podemos mesmo ver na literatura, nas obras de Senna Fernandes, por exemplo, como a existência de muralhas, lados e partes de Macau, às vezes até ideológicas, para diferentes populações, de aldeais chinesas a cidades cristãs. A mesma divisão ocorria no mundo dos direitos, só que de uma forma indirecta, e não pela imposição directa do indigenato e da condição de nacional de segunda classe. A segregação e a diferença ocorriam de forma social, de dificuldade de aceder a determinadas carreiras, a falta de convites para aniversários por não serem ‘brancos’. Essa discriminação não assumiu a forma jurídica sistemática do indigenato, como dito. Os macaenses ocupavam uma posição intermédia, frequentemente funcionando como intermediários entre portugueses e chineses. A sua ‘portugalidade’ era reconhecida de forma ambígua: eram portugueses, mas de outro tipo. Podemos referir que a cor da pele foi decisiva para não colocar Macau sob o Estatuto do Indigenato. Sim, a cor da pele era absolutamente decisiva. O Estatuto do Indigenato aplicou-se em Angola, Moçambique, Guiné e Timor, territórios com populações maioritariamente negras ou ‘não brancas’ no sentido colonial. A lei portuguesa até criou o termo ‘raça oceânica’ para identificar timorenses durante a imposição do indigenato para que pudessem aproximar essa população racialmente das populações africanas. Macau, Índia Portuguesa, Cabo Verde, e, de certa forma São Tomé e Príncipe, foram excluídos dessa classificação. Os critérios oficiais estabeleciam ‘usos e costumes’ e ‘civilização’ como os parâmetros para identificar esses povos, mas na realidade essas categorias funcionavam apenas como um substituto para raça: eram raça, mas por outro nome. As populações da Índia Portuguesa e de Macau, embora não europeias, foram sempre poupadas da aplicação de leis abertamente racistas, apesar de práticas e políticas locais imporem, na maioria das vezes indirectamente, restrições a cidadania completa dessas populações, como descrevi. Tendo em conta o Estatuto do Indigenato, que evolução pode traçar em termos do conceito de cidadania portuguesa? O Estatuto do Indigenato, consolidado no início dos anos 1930, representou a codificação jurídica máxima da exclusão racial. O indigenato foi uma forma jurídica de segregação racial que criou duas categorias de ser português, nomeadamente o ser cidadão português (brancos e assimilados) e ser indígena português (a maioria negra). Os indígenas eram juridicamente portugueses, mas não eram cidadãos; não viviam com acesso a direitos, mas a restrições, viviam, como chamo no livro, num estatuto de ‘nacionalidade negatória’. Indígenas não podiam votar, não podiam circular livremente, não tinham direito a advogados, estavam sujeitos a trabalho forçado, pagavam impostos especiais por razão da raça, não podiam frequentar as mesmas escolas ou hospitais que os brancos. A evolução do conceito de cidadania portuguesa neste contexto é paradoxal: formalmente, todos eram ‘portugueses’, mas materialmente, a cidadania era reservada para quem demonstrasse ‘civilização’ por meio da cor da pele ou provando ser assimilado suficiente apesar de ser negro. A assimilação era o único caminho jurídico para sair do indigenato, mas exigia provar domínio da língua portuguesa, abandono de ‘usos e costumes’ africanos, emprego estável, ‘boa conduta moral’, e serviço militar. Pouquíssimos conseguiam. Quais os casos mais flagrantes de negação de direitos que pode apontar? Um dos mais flagrantes é o sistema de trabalho forçado, que funcionava como uma continuação da escravatura sob outro nome. Os indígenas eram obrigados a trabalhar em plantações, minas e obras públicas, frequentemente longe das suas famílias, em condições desumanas. Outro caso é a segregação espacial e social: hospitais separados para brancos e indígenas, bairros segregados, escolas diferentes. Na Guiné, indígenas eram forçados a usar colares com placas metálicas. Em Moçambique eram forçados a pagar impostos de rádio, caso tivessem um aparelho. Em Timor eram obrigados a pagar taxas caso se mudassem de uma autoridade local a outra, ou quando se divorciassem segundo os costumes locais. Os arquivos mostram também casos de indígenas que, apesar de se terem mudado para Lisboa, ainda continuavam a ser tratados como indígenas. Tudo graças a uma lei de 1955 que impôs o estatuto do indigenato a qualquer indígena em qualquer parte do império português – o que antes só era aplicado nas colónias de indigenato. Esse foi o caso dos chamados ‘Pedidos de Lisboa’, um grupo de requerimentos de assimilação que encontrei no Arquivo Ultramarino de Lisboa, onde indígenas que, tendo emigrado para a metrópole, tentavam obter reconhecimento como cidadãos. O Estatuto do Indigenato seria abolido anos mais tarde, mas os efeitos parecem ter permanecido. Concordo absolutamente. E digo mais: o indigenato foi uma continuação da própria escravidão, um reflexo que ainda é sentido hoje por tantas e tantas comunidades tocadas pelo império português. O Estatuto foi abolido em 1961, mas décadas de exclusão jurídica, educacional e económica não se apagam por decreto. As populações africanas foram sistematicamente impedidas de aceder a educação, propriedade, mobilidade e participação política durante gerações. Isso explica, em certa medida, a diferença entre as diferentes partes do império português, onde Brasil, Angola, Macau e Índia ocupam espectros completamente diversos em relação a níveis de protecção e acesso a direitos. Quando o Estatuto foi abolido, já estava consolidado um contexto de restrição e necessidade onde a maioria negra sobrevivia sem educação formal e sem acesso a direitos básicos. Os efeitos pós-coloniais são igualmente profundos: o indigenato ensinou gerações de africanos que a sua cultura, língua e modo de vida eram inferiores, e que para serem formalmente alguém, para serem reconhecidos como plenamente humanos perante a lei, tinham de se tornar brancos, tinham de se assemelhar, o máximo possível, ao colonizador. Mas mesmo essa assimilação formal raramente se traduzia em protecção real: o reconhecimento legal não garantia acesso efectivo a direitos. A assimilação marca não só um período histórico, mas uma forma de ver, sentir e sobreviver à história colonial. Esta violência deixou marcas que persistem nas sociedades pós-coloniais lusófonas e que só se pode pensar em serem sanadas quando existir um processo de acolhimento, verdade e reconstrução — algo que o Estado português ainda não foi capaz de fazer.
Andreia Sofia Silva China / Ásia MancheteVisita | Starmer defende “parceria estratégica e de longo prazo” com a China A visita do primeiro-ministro britânico à China visa relançar as relações entre os dois países e projectar parcerias sólidas para os próximos anos O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, defendeu que Londres e Pequim “precisam de uma parceria estratégica, consistente e de longo prazo”, na sua primeira visita oficial à China, que visa reatar relações bilaterais e reforçar laços económicos. Na primeira deslocação de um chefe de Governo britânico ao país asiático em oito anos, Starmer defendeu a construção de uma relação “consistente, estratégica e abrangente” com Pequim. “A China é um actor vital à escala global. O Reino Unido e a China precisam de uma parceria de longo prazo”, disse Starmer ao Presidente chinês, Xi Jinping, sublinhando a importância de trabalhar em conjunto em áreas como a estabilidade global, o crescimento económico e as alterações climáticas. Xi Jinping reconheceu que as relações bilaterais “passaram por altos e baixos” nos últimos anos, o que “não serviu os interesses de ambos os países”. Antes do encontro com Xi, Starmer foi recebido pelo presidente da Assembleia Nacional Popular chinesa, Zhao Leji, no Grande Palácio do Povo. O líder britânico classificou a visita como “histórica” e disse esperar “dias produtivos” de diálogo sobre segurança global e cooperação económica. A visita inclui também um encontro com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, com quem deverá presidir à assinatura de vários acordos bilaterais centrados em áreas como energias limpas, saúde, indústrias criativas e fabrico inteligente, segundo o ministério do Comércio da China. A China é actualmente o terceiro maior parceiro comercial do Reino Unido, com um saldo favorável de 42 mil milhões de libras para Pequim, segundo dados do Departamento de Comércio britânico. Starmer chegou à China acompanhado de membros do seu gabinete e de uma comitiva de cerca de 60 empresários e representantes culturais, incluindo executivos do HSBC, da farmacêutica GSK e das construtoras automóveis Jaguar e Land Rover. Novo ciclo O objectivo declarado da visita é reforçar os laços económicos e atrair investimento estrangeiro num momento em que a economia britânica enfrenta dificuldades. Fontes de Downing Street indicaram também que Londres procura discutir com as autoridades chinesas a renovação das instalações da sua embaixada em Pequim e temas como a imigração ilegal. A visita de Starmer insere-se num novo ciclo de contactos diplomáticos com Pequim por parte de aliados ocidentais. Só este mês, a capital chinesa recebeu os líderes da Coreia do Sul, Canadá e Finlândia, e o chanceler alemão deverá visitar a China em Fevereiro. Esta reaproximação coincide com o arrefecimento das relações de várias capitais com Washington, após a chegada ao poder de Donald Trump.
Andreia Sofia Silva EventosVenetian | Steve Chou, cantor e compositor de Taiwan, em concerto dia 24 O palco da Venetian Arena prepara-se para receber, no próximo dia 24, um concerto de um músico de Taiwan. Trata-se de Steve Chou, que traz na bagagem a sua “LINGERING – REUNION Tour”, um espectáculo que remete para a ideia de reunião e celebração com os fãs, e das memórias que permanecem depois de 30 anos de carreira É já no próximo dia 24 que a Venetian Arena recebe mais um concerto de um músico asiático com uma longa carreira. Trata-se de Steve Chou, de Taiwan, que apresenta um concerto integrado na “LINGERING – REUNION Tour”. No dia 24, a música arranca às 20h, em forma de celebração e reunião com os fãs, num espectáculo interligado às ideias de permanência das memórias. Segundo a apresentação do espectáculo por parte da Venetian, este é o primeiro concerto a solo de Steve Chou em Macau, “sendo também a estreia num recinto fechado da digressão”. Fica a promessa de que a Venetian Arena terá “um design e ajustes especiais” para que possa ser criada “uma experiência mais imersiva junto do público, fazendo com que este possa sentir uma ressonância apaixonada com música e alegria”, sentimentos ligados “às memórias queridas da juventude”, tendo em conta a longa carreira de Steve Chou. “Steve Chou espera que este encontro sirva como um gesto caloroso de agradecimento aos fãs que o acompanharam ao longo de todos estes anos, oferecendo os seus sinceros votos de Ano Novo”, lê-se ainda. Nas três décadas de carreira do músico de Taiwan cabem músicas icónicas como “Dusk”, “Cold Lonely Sandbar” ou “Blue Flower”, interpretações essas que lhe deram a alcunha de “Padrinho das Canções de Amor”. “Steve Chou parece eternamente uma ‘criança travessa’ no mundo da música, apaixonado e sincero, cativando membros do público de forma tão profunda que estes se tornam fãs instantaneamente, após um concerto”, descreve ainda a organização do concerto. Um “banquete de reencontro” Há músicas mais clássicas do que outras na carreira de Steve Chou, e nessa categoria entram faixas como “Blue Flower”, “Betrayal” e “Winter’s Secret”. São composicões que, com esta digressão, voltaram a ser ouvidas e amadas, “e amplamente populares”. “Estas melodias, que outrora iluminaram a juventude de uma geração, continuam a irradiar energia vibrante na nova era, atraindo e influenciando um vasto número de jovens ouvintes”, descreve a organização. Esta digressão é uma continuação de espectáculos anteriores, nomeadamente “LINGERING” e “LINGERING RESONANCE”. Agora, Steve Chou “renovou a lista de músicas”, enquanto que a equipa “fez melhorias em termos de som, design do palco, iluminação e efeitos especiais”. “Numa estreita colaboração com a equipa criativa, Steve Chou criou um conceito que gira em torno da ideia de celebração, utilizando um sistema inteligente de iluminação, imagens VJ e diversas instalações em palco para apresentar ao público um grande banquete de reencontro”, lê-se ainda. O êxito “Dusk” faz parte de um dos seus primeiros álbuns, “Transfer”, editado em 2000. Três anos depois saía para o mercado discográfico “Dubbing (By Your Side)”, com canções já editadas e um novo material que fez sucesso. Desde aí que a carreira de Steve Chou esteve sempre em franco crescimento, a conquistar inúmeros prémios.
Andreia Sofia Silva Entrevista MancheteExposição | Eric Fok mostra “Dreaming of the Occident” em Taiwan: “Em Portugal, vejo vestígios da minha cidade” O ano começou com um novo projecto de Eric Fok, que apesar de viver em Portugal não deixou Macau e o Oriente. “Dreaming of the Occident” está exposta na galeria Helios, em Taipei, e pode ser vista até 24 de Janeiro. Ao HM, o artista local revela que quer explorar artisticamente o universo da bifana de Vendas Novas, pela ligação à costeleta de porco de Macau Como está representado o Ocidente nesta exposição? Sempre me fascinou o cruzamento entre as culturas do Oriente e Ocidente, e já explorei a forma como Macau foi um território moldado por missionários e navegadores ocidentais que trouxeram novas ciências e ideias para o Oriente. A propósito de uma anterior exposição, e durante o processo de pesquisa, percebi como era raro os chineses viajarem para a Europa na época dos Descobrimentos. Li com entusiasmo os relatos dos poucos que o fizeram. Há diários que recriam de forma vívida as perigosas viagens marítimas e como era a vida nas antigas cidades europeias. Isso permitiu projectar-me nas suas histórias, fazendo a ponte entre o passado e o presente, entre o Oriente e o Oriente. Essas diferenças culturais não são apenas história para mim, mas tornaram-se numa rica fonte de imaginação para o meu novo trabalho. Como artista de Macau, de que forma a história do território, marcada pelo intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente, moldou a sua forma de pensar esta mostra? Tudo começou com o mapeamento de Macau para a série “Paraíso” [exposição de 2014], um projecto que nasceu da minha curiosidade sobre o passado da cidade num contexto de rápida expansão das indústrias do turismo e jogo. Através deste diálogo com a história local, comecei a compreender verdadeiramente a cidade. Passei de ter o foco nos pequenos detalhes da vida urbana para ter uma perspectiva macro do mundo, relevando o papel significativo de Macau na história global. Isso inclui o estatuto de porta de entrada para a China durante os Descobrimentos, a contribuição para o início da globalização, ou ainda ter sido um espaço de difusão do catolicismo a Oriente. [Não podemos esquecer] a profunda influência da cultura marítima. Todos estes temas constituem uma extensão da minha exploração em torno da experiência histórica, e singular, de Macau. Pode descrever com mais detalhe o processo criativo para “Dreaming of the Occident”? Além dos mapas de Macau, esta exposição apresenta também mapas da Eurásia e de várias colónias asiáticas, onde exploro temas como a navegação, o comércio e o império. A minha investigação estende-se também à experimentação de materiais. Além de usar o papel e a madeira, incorporei suportes não convencionais, como ovos de avestruz. Estes objectos funcionam como telas para narrar histórias sobre espécies endémicas e a história da migração, estabelecendo uma ponte entre um lado biológico e histórico. A exposição pretende criticar a influência ocidental em Macau, reflectir sobre ela ou simplesmente observá-la? Na minha exploração destes temas interesso-me sobretudo pelas dimensões culturais da história. Quando os europeus chegaram pela primeira vez à Ásia, viam o mundo de uma perspectiva eurocêntrica. O termo “Extremo Oriente” não era apenas uma designação geográfica, mas um símbolo de poder e uma visão específica do mundo. Mas, por outro lado, o termo “Extremo Ocidente” representa uma imaginação global inicial, no sentido de ser um espaço de compreensão mútua, ainda que incompleta. Hoje, que vivemos numa era de muita informação, em que a conectividade é instantânea, perdemos esse sentido de mistério, e o meu trabalho procura recuperar um pouco daquilo que é a fantasia da distância. Espera leituras diferentes da exposição ou um conhecimento mais profundo do que é Macau, em termos culturais e históricos? No processo criativo dou privilégio à expressão pessoal como respostas à sociedade e ao mundo em que vivemos. Embora expor numa galeria comercial traga, inevitavelmente, uma dimensão de mercado ao meu trabalho, o meu foco é sempre na integridade da obra. Nos últimos anos, a minha vontade de que o público “descodifique correctamente” a minha arte foi-se alterando, no sentido em que, embora sinta uma profunda satisfação quando alguém se conecta com o meu mundo interior, passei a aceitar esse “vazio” na narrativa do meu trabalho. Essas lacunas destinam-se a ser preenchidas pelas experiências e emoções de quem vê, ou talvez pelo próprio tempo e pela história. Num tempo de mudanças rápidas e efémeras, utilizo o pincel para documentar e preservar. O meu trabalho consiste numa partilha da experiência urbana que convida o público a criar uma ligação emocional com as cidades, promovendo uma reflexão profunda sobre identidade e pertença. Tem vivido entre Macau e Portugal. De que forma isso influencia o seu trabalho e a visão da história e cultura de Macau? No momento em que respondo a esta entrevista encontro-me em Vendas Novas, uma localidade em Portugal que é famosa pela bifana. Actualmente, estou a explorar se existe alguma ligação directa entre esta especialidade local e o pão com costeleta de porco de Macau. Há séculos atrás, os portugueses procuraram construir um “lar” em Macau, deixando estruturas portuguesas que definiram o horizonte da minha cidade. Actualmente, estando em Portugal, vejo vestígios da minha cidade por todo o lado. Sendo asiático, e estando rodeado por diferentes raças e línguas, encontro um certo sentimento de pertença que tanto pode trazer uma ideia de alienação como de algo profundamente familiar. A enorme distância geográfica é encurtada pela cultura e história, que são partilhadas. Esta troca de identidades e o movimento entre lugares constituem profundas inspirações para o meu trabalho. A busca por um lugar desconhecido No portal de Internet da galeria Helios, a nova exposição de Eric Fok é descrita como uma busca por uma Europa que, do lado oriental, se sabia existir, mas que estava longe de ser conhecida, sobretudo a partir de meados do século XVI, quando surge o termo “Taixi” como referência ao “Grande Ocidente”. A expressão chinesa foi usada pelo missionário jesuíta Matteo Ricci e é um dos focos do trabalho do artista de Macau em “Dreaming of the Occident”. Segundo a apresentação da Helios, “Taixi” era um termo atribuído à “terra extremamente distante no Ocidente e que foi, outrora, um espaço em branco nos mapas, ainda por explorar”. Desta forma, os mapas imaginados de Eric Fok exploram as ideias de um lugar ausente e desconhecido, sendo analisada também “a identidade do eu, o transporte de memórias, poder e ideologia”. Com recurso a pesquisa histórica, o artista de Macau “redescobre a ‘Taixi’ a partir do olhar do Extremo Oriente, por meio da escrita e da representação cartográfica”. Eric Fok investigou também “as visões do mundo que existiam no passado, formadas pela interligação entre o poder e a crença”, é descrito.