Grande Plano MancheteCatolicismo | Bispo José Ornelas diz que Macau pode ser espaço de diálogo com a China Hoje Macau - 3 Nov 2026 O bispo da Diocese de Leiria-Fátima, José Ornelas, considera que Macau pode servir como espaço de diálogo entre China e Vaticano, numa altura em que vê “vontade de ambas as partes” para aprofundar o entendimento. Nas celebrações dos 450 anos da Diocese de Macau, o cardeal Luis Antonio Tagle alertou para os riscos da inteligência artificial e do tribalismo “Todos estes lugares [como Macau], até pelos vestígios históricos e documentos que têm, podem começar por parcerias de estudo, (…) e com esse espírito para se procurar um diálogo”, disse José Ornelas, que se encontra na RAEM para as celebrações dos 450 anos da Diocese de Macau (1576–2026). Em 1951, já com Mao Zedong no poder, a excomunhão dos bispos designados por Pequim pelo papa Pio XII levou a China e o Vaticano a cortarem relações diplomáticas. A China estabeleceu então a Associação Patriótica Católica Chinesa, levando os fiéis a terem de optar entre esta, com bispos nomeados pelo regime, ou a Igreja Católica, leal ao Papa, então na clandestinidade. Nos últimos anos, deu-se uma aproximação dos dois lados, com a assinatura de um acordo para a nomeação de bispos. José Ornelas fala em sinais de abertura: “daquilo que eu sei e que venho acompanhando, há vontade de ambas as partes”, afirmou, reconhecendo “evidentemente, que há nós que é preciso desatar com cuidado”. “E podem criar-se espaços que deem, precisamente, para encontrar, do ponto de vista diplomático e da busca de caminhos. Haja pessoas interessadas e capazes de fazer esse diálogo”, referiu. Para o bispo português, mesmo aqueles em Macau “sem poder”, podem ajudar a reduzir incompreensões. “Tenho conhecimento, das minhas passagens por cá, de pessoas que serviram de intermediários em muitas coisas destas (…) muitos dos equívocos que tantas vezes se criam é por não se conhecer as realidades e as pessoas”, sustentou. Ornelas defendeu ainda que a Universidade de São José (USJ) pode contribuir para o diálogo “científico, cultural e histórico” entre diferentes realidades. Macau é frequentemente apontado como uma das principais portas de entrada do catolicismo na Ásia Oriental e a diocese de Macau, fundada em 1576 por bula do Papa Gregório XIII, é a mais antiga do Extremo Oriente ainda em funcionamento – a primeira foi a Arquidiocese de Pequim, erguida em 1307, seguida da de Quanzhou, também na China, mas ambas desapareceram ao fim de pouco tempo, por falta de missionários. Estima-se que existam cerca de 12 milhões de católicos no Interior da China. Em Hong Kong, de acordo com a diocese, vivem perto de 400 mil, enquanto a Diocese de Macau aponta para uma comunidade de 30 mil fiéis na cidade. Ao contrário da China continental, as dioceses das duas regiões administrativas especiais chinesas de Macau e Hong Kong continuam a reconhecer a liderança do Papa e os bispos são nomeados directamente a partir do Vaticano. Casa dos senhores O bispo de Leiria-Fátima manifestou preocupação com a crise da habitação e advertiu que medidas que facilitem despejos podem agravar o problema, denunciando, além disso, o fenómeno da especulação imobiliária. “[Olho] com preocupação, porque penso que ninguém no seu bom senso pode dizer que o problema não existe. O problema existe”, afirmou José Ornelas à Lusa. Em declarações na Sé Catedral, o religioso mostrou-se particularmente preocupado com eventuais medidas que facilitem despejos. “Se se vão facilitar os despejos, vamos só criar problemas ulteriores”, advertiu. O responsável católico defendeu que as respostas à crise devem procurar equilibrar interesses. “É de todo o bom senso que reine justiça para todos, mas que não se aumente o problema dos desalojados”, afirmou. Ornelas considerou ainda que a resolução da crise exige tempo, mas disse serem necessários sinais claros de compromisso por parte das autoridades. “Tem de haver sinais também de que se quer e se está verdadeiramente a pôr as bases para ter uma situação diferente”, afirmou, apontando para a necessidade de “sinais políticos e económicos”. O bispo destacou o impacto humano da crise, sublinhando que a situação é tão grave que as pessoas já não estão apenas preocupadas em conseguir comprar uma casa, mas sim em ter os meios financeiros suficientes para manter o espaço onde vivem. Pecados tecnológicos O cardeal Luis Antonio Tagle alertou para os riscos de manipulação associados à inteligência artificial, defendendo que a tecnologia deve servir o bem comum e não ser usada para disseminar desinformação ou aprofundar divisões sociais. Numa intervenção pública no âmbito das comemorações dos 450 anos da Diocese de Macau, onde participa como enviado do Papa Leão XIV, o novo decano do Colégio Cardinalício afirmou que os responsáveis pelo desenvolvimento da inteligência artificial detêm actualmente “muito poder e autoridade”. “Agora apercebemo-nos de que as pessoas que controlam a tecnologia digital e a produção de inteligência artificial têm muito poder e autoridade. Como está a ser usado esse poder?”, questionou. Tagle disse que a principal preocupação passa por saber se essa influência é colocada “ao serviço do bem comum” ou se é utilizada para “manipular as pessoas, aumentar as desigualdades” e transformar indivíduos em “escravos das notícias falsas”. O cardeal relatou um episódio pessoal em que um antigo aluno que exerce funções num seminário em África lhe enviou a imagem de uma suposta conferência atribuída ao prelado, que ele nunca realizou. Noutro caso, uma mulher agradeceu-lhe alegados vídeos publicados na plataforma YouTube sobre medicamentos para a artrite. “Eu disse-lhe: ‘Não, eu nunca fiz isso. Sou bispo, não sou farmacêutico'”, revelou. Para Tagle, estes casos mostram uma crescente confusão entre realidade e conteúdos digitais manipulados. “Fiquei triste porque percebi que aquela pessoa tinha sido totalmente manipulada”, afirmou, acrescentando que a mulher insistia que os vídeos eram autênticos mesmo depois de ele lhe garantir pessoalmente que eram falsos. “A Igreja não é contra o uso da tecnologia digital nem dos avanços da ciência. Pelo contrário, a Igreja é uma das promotoras da ciência e da tecnologia”, sublinhou. “Mas, por favor, não percamos o sentido de humanidade na comunicação e na tecnologia.” As declarações do cardeal alinham-se com a posição assumida pelo Papa Leão XIV, que tem colocado a IA entre as prioridades do seu pontificado. Em Setembro, o pontífice apelou ao desenvolvimento de sistemas de IA que contribuam para a paz e não aprofundem as divisões sociais, defendendo que esta tecnologia deve ser orientada pela “sabedoria” e pela “solidariedade” num mundo marcado por conflitos. No primeiro grande documento do seu pontificado dedicado ao tema, divulgado em Maio, pediu uma regulamentação internacional mais exigente e advertiu para os perigos das armas autónomas e da perda de controlo humano sobre decisões críticas. De costas voltadas Na intervenção em Macau, Tagle estabeleceu também uma ligação entre os conflitos armados actuais e a ascensão do tribalismo, das divisões étnicas e da discriminação. “O aumento do tribalismo, das lealdades étnicas, da discriminação e do racismo está a chegar, por vezes, à violência. Muitos dos conflitos em várias regiões do mundo, e atrevo-me a dizer até as guerras actuais, se forem analisados, têm causas tribais”, afirmou. “As armas são muito sofisticadas. Já não são espadas nem arcos e flechas, mas drones e mísseis. Mas continua a ser tribalismo. Sentem-se e dialoguem. Essa é a coisa mais natural a fazer, não matar”, acrescentou. Tagle reforçou recentemente a sua posição na hierarquia da Igreja Católica, com o Papa Leão XIV a aprovar a eleição do cardeal filipino como novo decano do Colégio Cardinalício, tornando-o o primeiro asiático a ocupar o cargo. O decano preside ao colégio dos cardeais e desempenha um papel de destaque na vida institucional da Igreja, incluindo durante os períodos de transição entre pontificados. Antigo arcebispo de Manila e responsável por importantes organismos da Cúria Romana desde 2020, Tagle foi amplamente apontado como um dos principais papáveis no conclave que, em Maio de 2025, elegeu Leão XIV após a morte do Papa Francisco. Com o Papa Leão XIV, de 71 anos, a recuperar de uma cirurgia para a remoção de um adenocarcinoma pulmonar no pulmão direito realizada este mês, Tagle voltou a ser referido como um dos principais candidatos à sucessão no Vaticano.